“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

Montenegro
autor: Maranata

Ofício da Meia-noite

Ofício destinado a ser realizado à meia-noite. O silêncio da noite favorece à concentração e à oração para o louvor a Deus. Para os primeiros cristãos a noite era o período mais favorável para uma oração imperturbável. Ofício da Meia-noite menciona e admoesta os fiéis a lembrarem a segunda vinda de Cristo, o Julgamento Final e os seus parentes defuntos. O Ofício da Meia-noite desdobra-se em três tipos diversos: o dos dias feriais, o de sábado e o de domingo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Santo Apóstolo e Discípulo do Senhor e Mártir, Onésimo dos Setenta, Apóstolo da Ibéria, Grécia e Ásia Menor (+109) – 15/28 fev

Onésimo (cujo nome significa “útil”) viveu no século I e início do século II, na Frígia, região da Ásia Menor, e antes de converter-se ao cristianismo foi escravo de um importante cidadão chamado Filemón. Um dia, Onésimo roubou seu amo e fugiu para Roma. Ali, recorreu ao apóstolo São Paulo e, depois de escutar sua palavra, foi perdoado, arrependeu-se, confessou sua culpa e converteu-se. Uma vez batizado, São Paulo enviou-o de volta a Filemón com uma carta em que dizia : “Venho suplicar-te por Onésimo, meu filho, que eu gerei na prisão. Ele outrora não te foi de grande utilidade, mas agora será muito útil ,tanto a mim como a ti. Eu envio-o a ti como se fosse o meu próprio coração. Quisera conservá-lo comigo, para que me servisse em teu lugar, nas prisões, em benefício do Evangelho. Sem dúvida, ele se apartou de ti por algum tempo para que tu o recobrasses para sempre, mas não já como servo, mas como irmão caríssimo, sobretudo para mim, mais ainda para ti, não só segundo as leis do mundo, mas também no Senhor”

Assim, por obra de São Paulo, Onésimo foi perdoado e passou a trabalhar com a palavra e o exemplo. Foi nomeado bispo de Éfeso e, em sua missão episcopal, a fama de suas virtudes transcendeu os limites de sua sede.

Foi preso na época do imperador Domiciano e levado a Roma, onde morreu apedrejado.

Pelas orações de Santo Onésimo, ó Cristo Nosso Deus, tem piedade de nós!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

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Kosovo
autor: Vladimir Popović

Ode

Do grego ώδή, em eslavão pesn: ode, cântico. Título aplicado:

  • a certas orações e composições poéticas de origem bíblica;
  • às nove (na prática oito) subdivisões do cânon (originalmente destinadas a acompanhar a leitura dos cânticos bíblicos.

Os nove cânticos bíblicos são indicados para o uso em Matinas como abaixo:
Cada ode é constituída de: 1 Irmos (Eirmos) + 3 ou 4 tropários.
Katavásia (ao final de cada ode, nas Matinas Festivas e Grandes Matinas)
Katavásia (apenas ao final da 3a, 6a, 8a e 9a odes), nas Matinas Comuns.


1a. Ode – Cântico de Moisés. Travessia do Mar Vermelho. Ex 15, 1-19.
2a. Ode – Cântico do povo depois de passar pelo Mar Vermelho (Dt 32, 1-43). Ode penitencial, cantada somente na Grande Quaresma.
3a. Ode - Cântico de Santa Ana, mãe do profeta Samuel (1 Sm 2, 1-10).
4a. Ode – Cântico do profeta Habacuque (Hb 3, 2-19).
5a. Ode – Cântico do Profeta Isaías (Is 26, 9-20).
6a. Ode – Cântico do Profeta Jonas (Jn 2, 3-10).
7a. Ode – Cântico dos 3 santos meninos no interior da fornalha (Dn 3, 26-56).
8a. Ode – Cântico dos 3 santos meninos depois da saída do interior da fornalha (Dn 3, 57-90).
9a. Ode – Cântico de Zacarias do Evangelho de São Lucas: (Benedictus - Lc 1, 68-79)

Cântico da Theotokos (Magnificat – Lc 1, 46-55)

O Magnificat e o Benedictus, embora a princípio sejam dois cânticos distintos, são tratados nas Matinas bizantinas como se fossem só um. Fora o Magnificat todos estes cânticos são omitidos, exceto durante a Grande Quaresma.


Após a 3a. ode – Pequena Litania (com a ecfonese: “Pois Tu és o nosso Deus e nós Te damos glória, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!” ), Tropário-catisma (Siedalem) lido ou Hipakoi.


Após a 6a. ode – Pequena Litania (com a ecfonese: "Pois que Tu és o Rei da Paz e Salvador das nossas almas e nós Te damos glória, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!”), kontakion (cantado), Ikos (lido), Sinaxário (no Triódio).


Durante o canto da Katavásia após a 8a. ode o presbítero incensa todo o santuário, sai pela porta norte incensa as Portas Reais, o ícone de Cristo e todos os demais ao lado do de Cristo e pára em frente ao ícone da Virgem e quando o coro pára de cantar, exclama: “Mãe de Deus e Mãe da Luz, com hinos nós te glorificamos” . A seguir continua a incensação do restante da iconostase, o povo e toda a igreja. O coro canta o Magnificat, cada versículo do Magnificat é intercalado com o Hino à Virgem: “Tu mais venerável que os Querubins...” como refrão.


9a. ode – Cântico de Zacarias. Após a katavásia da 9a. ode (apenas nas Matinas Comuns) o coro canta: “Verdadeiramente é digno e justo...Tu mais venerável que os Querubins...” e Pequena Litania (com a ecfonese: "Pois que a Ti louvam todos os Poderes Celestes e nós Te glorificamos, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!”)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Mosteiro da Grande Lavra - Monte Atos

O mosteiro da Grande Lavra fica no sudeste da península e é o mais antigo e maior mosteiro no Monte Atos foi fundado por Santo Atanásio, o Atonita durante o governo dos imperadores Romano II (959-963) e Nicéforo Focas II (963-969). Este mosteiro serviu de modelo para os demais mosteiros construídos posteriormente. O Katholikon do mosteiro hoje é dedicado a São Atanásio, o Atônita, mas originalmente foi dedicado à Santíssima Virgem Maria. A biblioteca do mosteiro é uma das mais ricas de todo o Monte Atos. Encontra-se nela 1650 “kodeks”, dos quais 650 são pergaminhos. No terreno do mosteiro encontra-se 15 capelas, e fora de seus muros mais 19. Pertencem ao mosteiro as seguintes skits: de São João Batista, de Santa Ana, pequena skit de Santa Ana, de São Basílio e Karulia. Entre o grande número de relíquias que se encontra no Mosteiro da Grande Lavra encontra-se: um pedaço da Cruz de Cristo, relíquias de São Basílio, o Grande, a mão direita São João Crisóstomo. Entre os grandes ascetas e teólogos que viveram no Mosteiro da Grande Lavra destaca-se São Gregório Palamas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Comunicado do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Sérvia a respeito dos recentes eventos em Kosovo e Metohija

O Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Sérvia, no seu encontro especial no Patriarcado em 17 de fevereiro de 2008, traz o seguinte a público endereçado à mídia local e internacional a respeito dos últimos acontecimentos em Kosovo e Metohija:

Como a Igreja declarou inúmeras vezes no passado, também declara agora, que Kosovo e Matohija era e deve permanecer parte integral da Sérvia, de acordo com a Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas nº 1244, bem como em todas as outras convenções internacionais similares em direitos humanos, direitos dos povos e proteção de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Qualquer outra decisão representa uma violação das leis Divina e humana, bem como uma agressão com tão grandes conseqüências, para ambos os Bálcãs e toda a Europa. Todas as convenções internacionalmente reconhecidas e ratificadas, não anuladas até agora por nenhum ato internacional, começando pelo Acordo concluído em 19l3, as resoluções internacionais datadas de 19l8 e 1945, até a Resolução 1244 do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 1999, junto com a recente aceitação como membro das Nações Unidas da Sérvia integral, tudo confirma que excluindo Kosovo e Metohija da Sérvia representa uma forma de violência igual somente aos períodos de ocupações e tirania, os quais nós esperamos definitivamente pertencentes ao passado da Europa e do mundo. Neste caso particular ela representa a nova legalização da centenária tirania Otomana e seu impacto em toda a região, bem como uma repetição da aplicação da solução Fascista (aquela de Mussolini e Hitler) à questão de Kosovo no período da II Guerra Mundial, quando Kosovo e Metohija foram anexados à tão-falada Grande Albania, quando centenas de milhares de Ortodoxos Sérvios foram expulsos de suas casa, exatamente como em 1999, com o objetivo de jamais haver retorno para eles.

Tendo dito isto, o que nos deixa profundamente atônitos é o fato que, de acordo com as palavras de um embaixador Americano, com o recente anúncio do ilegítimo e ilegal reconhecimento pelos governos dos Estados Unidos da América, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, e outros, da auto-declarada independência de Kosovo – Sérvia e Montenegro foram bombardeadas em primeiro lugar. Conseqüentemente, a presumida proteção dos direitos humanos e das minorias das bombas, usando bombardeios com o pseudônimo de “Anjo Misericordioso” representou somente a preparação para esta violação final da justiça e para arrancar o coração da Sérvia do seu peito.

Então, considerando esta proclamação da independência de Kosovo como ilegítima, um ato violento contra a justiça, o Santo Sínodo dos Hierarcas e nossa Igreja inteira, na esperança da mais breve vitória da justiça de Deus e dos verdadeiros direitos humanos, rogamos a Sua Graça Bispo Artemije de Ras e Prizren, seu clero, monges e todo o povo Sérvio Ortodoxo de Kosovo-Metohija, bem como a todos aqueles colocados em perigo em Kosovo por este ato injusto, a permanecerem em seus lares e com seus lugares santos, preservando a paz e a confiança na vitória final da justiça de Deus, tendo amor para com todos como a si mesmos. Possais vós, nas palavras do apóstolo Paulo, nestes tempos de dificuldade, como tem sido até agora, especialmente nesta contínua sofrida história de Kosovo, “Antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo: na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias,...na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda, por honra e por desonra...” (2 Co 6: 4-8). Vamos sempre ter diante dos nossos olhos e em nossos corações a palavra vitoriosa do Deus verdadeiro: “Aquele que perseverar até o fim será salvo”.

Nós esperamos das Nações Unidas e do Conselho de Segurança que, no espírito de sua Carta 1244, bem como de suas obrigações internacionais, que eles defendam e protejam esta violação dos direitos humanos, religiosos e estatais da República Sérvia.

Tradução: Bispo Ambrósio do Recife

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Ucrânia
autor: Сергій Ц

Octoecos

Do grego octoechos (de octo, oito e echos, tom), livro litúrgico que contém os vários hinos dos ofícios divinos que vão desde o Domingo de Todos os Santos (1º Domingo após o Pentecostes) até ao domingo que antecede o Domingo do Fariseu e do Publicano (10º Domingo antes da Páscoa), altura em que é introduzido o Triódio, livro que contém os ofícios litúrgicos da Quaresma até ao Domingo de Páscoa. É atribuída a São João Damasceno a composição da maior parte dos hinos contidos no Octoecos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Retorno ao Pai - Domingo do Filho Pródigo


Esse Domingo continua a desenvolver o tema do arrependimento e do perdão, já tratado no Domingo do Fariseu e do Publicano. Mas a Epístola (1Co. 6: 12-20) abre um parêntese e aborda um assunto especial: o da contenção corporal. Isso se explica pelo fato que, oito dias depois desse domingo, nós entraremos no período do jejum; e, já agora, a Igreja nos faz ouvir uma advertência de São Paulo concernente a esse assunto. O Apóstolo diz aos Coríntios que todas as coisas são lícitas, mas não convenientes. Não nos devemos deixar que sejamos dominados por nada, mesmo pelo que é lícito. Os alimentos são para o ventre; o ventre é para os alimentos. Mas nem o ventre nem os alimentos têm importância para a via espiritual, pois Deus aniquilará os alimentos e o ventre. Alargando o seu tema, o Apóstolo fala agora da impureza. Se os alimentos são para o ventre, nosso corpo não é para a fornicação. Nosso corpo é para o Senhor: o Senhor é para nosso corpo. Aqui nos é apresentado um argumento bem característico de Paulo, o qual julga tudo “em termos de Cristo”. Poder-se-ia ouvir que o Apóstolo condena a impureza colocando-se no plano moral, aquele da lei, dos vícios e das virtudes. Mas Paulo vê as coisas de um outro ângulo. “Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo?” Então “Fugi da prostituição”. O jejum alimentar não é nem a única e nem a mais alta forma de jejum. A pureza sexual, a do coração e do pensamento, assim como a do próprio corpo é, segundo a condição de cada um, exigido de nós pelo Senhor de uma maneira imperativa.

Vejamos agora a idéia central desse Domingo. Ela está exposta no Evangelho que nos é lido durante a Liturgia: é a paráboça do filho pródigo. Entre as parábolas evangélicas, essa do filho pródigo (Lc. 15, 11-31) é talvez a mais conhecida, a mais familiar. Ela é, seguramente, uma das mais tocantes. Pode ser que não reconheçamos onde está o centro dessa paráboça. Esse centro está na mudança de espírito do jovem que deixou o pai, dissipou seus bens numa vida de dissolução, passou fome, invejou as bolotas que os porcos comiam, e decidiu partir e retornar à casa do pai. Certas as palavras do jovem: “ Levantar-me-ei e irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: pai, pequei contra o céu e perante ti, já não sou digno de ser chamado teu filho”. Essas palavras contêm uma impressão profundamente comovente de arrependimento. A resolução do filho pródigo: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai....” enfatiza a importância do ato enérgico, o ato da vontade (não podemos ir ter com o Pai se não nos levantamos e partimos). A pessoa central da parábola é o Pai. Com Ele estamos na presença de uma bondade que espera, que vigia, que espreita o retorno do filho pródigo e que, vendo-o ainda longe, não se segura mais, e corre para Seu filho, lança-se ao seu pescoço e beija-o. E o Pai, sem dirigir nenhuma condenação ao filho, ordena que lhe ponham no dedo o anel (símbolo de herdeiro), nós pés, alparcas (símbolo do homem livre, diferente do escravo) e que matem o bezerro cevado para festejar. Faz trazer o “melhor vestido” e reveste o filho; chamemos a atenção que não se trata do melhor vestido que o filho possuia antes de sua partida, mais o melhor vestido que existia na casa. Deus não dá ao pecador arrependido simplesmente a graça que ele tinha antes de pecar. Ele concede a maior graça que o pecador arrependido possa receber, um máximo de graça.

A história do filho pródigo é a nossa própria história. A partida voluntária, a vida culposa, a depressão, o arrependimento e o perdão: nós já vivemos tudo isso e quantas vezes! Estejamos atentos ao papel que desempenha um terceiro personagem: o irmão mais velho do filho pródigo. Na parábola, esse personagem se mostra invejoso de seu irmão. Ele se irrita com o perdão dado generosamente. Ele se recusa, apesar das instâncias do Pai, a tomar parte nos festejos. É o contrário do que se passa no verdadeiro retorno do pecador. Todo filho pródigo que retorna é incitado ao regresso pelo filho primogênito, a quem o pai diz: “filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas”, pois o verdadeiro e único primogênito é o Senhor Jesus Cristo, que toma o pecador pela mão e o conduz ao Pai com ardente afeição.

As Vésperas e Matinas desse domingo contém passagens que comentam eloqüentemente os ensinamentos da parábola. Eis alguns:

“Tendo dilapidado os dons paternais, eu, o infeliz, pastei com as bestas mudas e, tendo fome, desejei seus alimentos.... Eis porque retornarei à casa de meu Pai, chorando e lhe dizendo: recebe-me como a um de Teus servos, eu que me ajoelho diante do Teu amor pelos homens... Ó Salvador condescendente, tem piedade de mim, purifica-me... e concede-me de novo o melhor vestido de Teu reino”.


Nosso objetivo, irmãos, é compreender o poder desse mistério. Pois quando o filho pródigo afasta-se do pecado e retorna o refúgio paterno, seu pai bondoso o abraça e devolve-lhe todas as insígnias de glória.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

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Monje, Montenegro
autor: Željko Šapurić

Nártex

Do grego νάρθηξ, em eslavão pritvór. Um vestíbulo na parte ocidental da igreja. Em alguns mosteiros, o ofício de Completas é normalmente feito lá e, às vezes, o Ofício da Meia-noite e as Horas. A Lítia nas Grandes Vésperas das Vigílias das Grandes Festas é feita no nártex. Nos primórdios do Cristianismo os lapsi, os penitentes e os catecúmenos permaneciam no nártex, os catecúmenos após sua despedida da Liturgia. Por isso certos ofícios, ou parte deles, eram celebrados no nártex para que este grupo de pessoas pudesse participar, ouvindo os Salmos, as orações e também rezassem.

*Os lapsi eram cristãos que temendo pela vida ou por medo das torturas renegavam o Cristianismo, mas ao final das perseguições pediam o reingresso na Igreja. O retorno dos lapsi*, foi durante muito tempo tema polêmico no seio da Igreja, dando margem a discussões inflamadas, por fim, a Igreja decidiu aceitá-los de volta depois de um período de penitência.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

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Igreja Cristo Salvador
Banjaluka, Bosnia i Hercegovina
autor: rasonna

"PESSOA (Hipóstase)"

Na Igreja, ouvimos frequentemente a expressão: “Um Deus em Três Pessoas”. Sabemos, de fato, que nosso Deus é um Deus pessoal: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Deus não é apenas unidade, mas união, pois as pessoas divinas são “unidas sem confusão: distintas, porém não divididas” (São João Damasceno). Cada uma das três Pessoas da Trindade habita nas outras duas, em razão de um movimento perpétuo de amor (o que designa a palavra “pericorese”, que significa interpretação, reciprocidade, fluxo de vida)

Deus é uma essência em três Pessoas. Nesta expressão, a palavra “pessoa” é frequentemente substituída por “hipóstase” (pessoa vem do latim ´persona´: máscara, e corresponde à palavra grega “hypóstasis”: o que se põe por cima, o que se sobrepõe). Assim, diz-se que a união das duas naturezas em Cristo – a natureza divina e a natureza humana – é uma união “hipostática”, quer dizer, da pessoa. Não podemos aqui entrar em explicações complexas desses termos, mas deve-se compreender que, na teologia ortodoxa, a “hipóstase” designa a “pessoa”, e que “Deus Se fez homem para nos comunicar e plenitude da existência pessoal”

De fato, estas palavras se aplicam também aos homens. Todos os homens possuem uma natureza comum que nos parece fragmentada pelo pecado, dividida em vários indivíduos. Ou, não se deve confundir, como o fazemos com frequência, “indivíduos” e “pessoas”. Indivíduos, parcelas da natureza humana decaída, aquilo que chamamos liberdade, a submissão aos caprichos, aos desejos, às paixões e à vontade própria que afirmamos nossa natureza, opondo-se aos outros como nosso “eu” egoísta e separado. Tudo isso é causa de sofrimento e de morte. Mas não somos apenas isso.

Somos, ou antes, nos tornaremos pessoas enxertadas no Corpo de Cristo e recebendo a unção do Espírito pelo Batismo, pelo Crisma, ou seja, os sacramentos e a vida em Igreja. É enquanto pessoa que o homem deve se realizar e tornar-se livre frente à natureza comum para não ser determinado por ela. Para que alguém ‘seja´ realmente, é necessário que ele seja uma “pessoa” (hipóstase) e que ele esteja em relação de ´comunhão´ (pericorese) com Deus e com os outros, pois a pessoa humana, à imagem de cada uma das Pesoas Divinas, só existe em relação com as outras pessoas.

A pessoa, é criada à imagem de Deus. Cada qual é única, indefinível, insusbstituível. E na Igreja que é a unidade primordial do homem enquanto pessoa será restabelecida como Corpo de Cristo, reflexo da vida divina das Pessoas da Trindade Santa.

É isto, porque pessoa não é uma entidade estática, fechada nela mesma, mas uma realidade dinâmica, chamada a realizar ´livremente´sua semelhança divina. Ela se determina por sua relação universal de comunhão com Deus e com os outros. Ela é chamada a conhecer Deus e a tomar parte de Sua vida. Enquanto imagem de Deus, o homem é um ser pessoal, diante de um Deus Pessoal. À imagem de Deus é o homem enquanto pessoa. Realizar sua salvação é receber a vida da Trindade, é fazer-se à imagem da Trindade na comunhão de todos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

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Rússia
autor: Павел Цветков

Molebien

Curto ofício em louvor a Cristo, à Santíssima Virgem Maria ou a algum Santo específico, normalmente diante de seus ícones no centro da igreja. O Molebien se divide em dois tipos: os de súplica e os de agradecimento. São celebrados em ocasiões especiais como: Ano Novo, Ano Novo escolar, pedido de proteção antes de viagens, peregrinações e operações cirúrgicas, agradecimento por alguma graça alcançada, períodos de guerras ou conturbações políticas ou, ainda, em casos de calamidades públicas, como: terremotos, inundações, secas e incêndios nas florestas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A Arquitetura dos mosteiros no Monte Atos

Os mosteiros no Monte Atos foram construídos no estilo arquitetônico bizantino, fortificados por quatro paredes elevadas e torres no estilo das pequenas cidades. Alguns mosteiros foram construídos sobre enormes rochas, posições naturalmente defensivas, como por exemplo, os mosteiros Simon Petras e Dionísio. Os principais prédios de interesse arquitetônico são:
  • as torres
  • as celas
  • o Katholikon
  • a phiala
  • o refeitórios
  • os campanários
  • e as arsanas
As torres
As torres serviam para defesa contra ataques e também usadas com ponto de observação. As mais altas encontram-se nos mosteiros de São Dionísio (23,9 m), Grande Lavra (21 m), Karakalos (25,8 m) e Dokheiariou (22 m). As torres eram construções de tijolo ou pedra bruta, com um grande piso que servia como área de estocagem. Os monges protegiam-se na capela no alto da torre e mantinham-se em oração em momentos de perigo: ataques de piratas e saqueadores.

As celas
Situam-se no interior dos mosteiros, são pequenos quartos retangulares para uso individual dos monges. Na maioria dos mosteiros, chega-se a ter vários andares destinados às celas.

O Katholikon
O Katholikon é a igreja principal de um mosteiro e como tal o prédio mais importante deste. O tipo de Katholikon dos mosteiros do Monte Atos tem a forma de cruz com a cúpula central apoiada por quatro colunas. As duas cúpulas menores cobrem o santuário e o nártex. No nártex são realizadas as orações da Lítia, nas Vigílias das Grandes Festas, para que os catecúmenos e penitentes possam participar.

A phiala
A phiala é uma cúpula sustentada por um anel e pilastras, normalmente encontrada entre o Katholikon e o refeitório. A phiala é utilizada para a benção da água na festa da Teofania, pois sua cúpula situa-se diretamente acima de um poço ou fonte.

O refeitório
O mais importante prédio de um mosteiro depois do Katholikon é o refeitório, onde os monges fazem suas refeições comunais. Os monges reúnem-se no nártex e entram cantando em procissão seguidos pelo superior do mosteiro (arquimandrita ou igúmeno). A primeira refeição do dia é considerada o último ato da Sagrada Liturgia. O superior do mosteiro toma o seu lugar na cabeceira da mesa, de onde abençoa os alimentos e o leitor para as leituras de praxe durante a refeição, normalmente trechos da Filokalia. O refeitório é situado imediatamente em frente ao Katholikon, possui forma retangular e, assim como o Katholikon, está alinhado com o eixo leste-oeste dos pontos cardeais.

Refeitório
O Campanário
Além das torres de fortificação, os mosteiros normalmente possuem um a torre de um campanário, que abriga os sinos, a simandre e mais recentemente um relógio. O campanário é construído próximo ao Katholikon ou constitui parte dele. O mais antigo campanário é o do mosteiro de Vatopedi e data de 1427. No Monte Atos os sinos são tocados apenas aos domingos e dias de festa. Nos dias comuns um monge toca a simandre para o toque de despertar e para convocar os monges para os ofícios e refeições.

A arsana
A arsana é um ancoradouro que pertence aos mosteiros que situam-se no litoral próximo ao mar. Associado à arsana existe um prédio retangular com um grande portão em forma de arco diretamente voltado para o mar. Este prédio é utilizado como abrigo para os barcos de pesca e outras pequenas embarcações.

Suprimentos são trazidos pelos barcos e armazenados na parte traseira do prédio, enquanto o monge responsável pela arsana, denominado arsanaris, mora no andar superior. Para a proteção dos víveres estocados, normalmente em quantidades consideráveis, uma fortificação com a forma de torre com uma capela no seu topo, era construída perto ou ao lado do prédio da arsana.

Quase todos os mosteiros no Monte Atos foram construídos nos moldes da Grande Lavra, com o Katholikon ao centro rodeado pelo prédio do mosteiro em si, como se fosse uma fortificação protegendo-o. O Katholikon em si também apresentam uma forma similar em quase todos os mosteiros, com uma estrutura principal em forma de cruz e duas capelas laterais.
A história do desenvolvimento do monasticismo no Monte Atos pode ser dividida em três grandes períodos:
  • durante a era bizantina (do século VII à dominação turca em 1383);
  • durante o domínio dos otomanos (dominação turca em 1383 a 1912);
  • desde a independência da Grécia (1912) até os dias atuais.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

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A Divina Liturgia
Pequena Entrada, Sérvia
autor: Тањица Перовић

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

“Educar as Crianças na Honestidade”

“A mentira para o homem é uma nódoa vergonhosa, está sempre na boca dos mal-educados (Ec. 20:26). O hábito da mentira é uma abominação e a infâmia do mentiroso o acompanha sem cessar (Ec. 20:28)”.

Dentre as virtudes que devem ser (im)plantadas no coração das crianças com uma persistência particular, a honestidade ocupa um lugar importante e fundamental. Por “honestidade” compreendemos um sentimento de amor pela Verdade e uma repulsa pela mentira.

Depois da obediência esta virtude deveria ocupar o segundo lugar. Se a mentira é a raíz de todos os vícios, eis que a Verdade é o início e fundamento de todas as virtudes. Por esta razão, a maior parte da atenção dos pais deveria estar orientada na implantação e no cultivar desta honestidade em seus filhos.

De que maneira os pais devem nutrir esta virtude na alma de seus filhos?

O senso da Verdade e o desejo de atingi-la são inatos em cada um de nós e, consequentemente, em cada criança. É verdade que ele é enfraquecido pelo pecado, mas todavia não é completamente aniquilado. Esta busca da Verdade se manifesta na curiosidade da criança. A criança pergunta acerca de tudo e tudo aquilo que o adulto lhe diz, ela aceita como sendo a verdade única, isto até se decepcionar. A criança inocente e não corrompida não conhece a mentira e a hipocrisia, ao contrário, se espanta não somente quando, ela própria conta uma mentira por negligência, mas também quando ouve uma mentira. O sentido (senso) da Verdade é implantado no coração da criança por Deus, Ele-Próprio. Ao homem é reservado somente a necessidade de escutar esta voz natural – de alimentá-la e de consolidá-la. É sobretudo este o dever dos pais.

Como é que eles o podem fazer? Os pais devem, primeiramente, desde o berço, plantar um amor profundo e piedoso pela Verdade e, em seguida, nutrir na criança uma santa “raiva” profunda e uma aversão por toda e qualquer mentira.

  • a) A primeira tarefa chama os pais a ensinar seus filhos a amar a Verdade em uma óptica e sobre uma base religiosa, o que quer dizer, como resultado do amor dos pais por Deus, bem como sua submissão aos Mandamentos divinos e à providência. As crianças devem amar a Verdade porque Deus (que é a Verdade imutável) quer que nós digamos a verdade, e porque Ele próprio repugna toda mentira. Somente o amor pela Verdade, fundado sobre a fé em Deus e um profundo respeito por Ele prosperarão sobre todas as provações.
  • b) A segunda tarefa requer dos pais uma troca franca com seus filhos, e que possa lhes revelar confiança. Acreditai, dai crédito às suas palavras (das crianças), até observar uma mentira. Não exijais provas, juramentos, ou sermões; contentai-vos com a palavra do Evangelho que diz: “Que o teu sim seja sim e o teu não seja não”.
    Todavia, se tiverdes uma razão firme para duvidar de suas palavras, então, nesta primeira ocasião, não deixeis transparecer que não acreditais. Procurais estar plenamente seguro de que mentem. Quando estiverdes seguro de que não dizem a Verdade, chame-os, que seja o pai ou a mãe, e seriamente, com um certo tom de gravidade, mas com amor, olheis em seus olhos e dizei-lhes: “Deus proíbe a mentira. Ele está em toda a parte e conhece não somente todos os nossos atos, como também todos os nossos segredos e pensamentos. Os lábios mentirosos são abomináveis a Deus”. A vergonha que surgirá no semblante das crianças os levará a admitir suas mentiras e lhes servirá de lição para o futuro.
  • c) Os pais devem também velar em mostrar a seus filhos amor e devoção pela Verdade, por meio de seus próprios exemplos. Sede honestos e sem hipocrisisa em todas as vossas ações e palavras. Acima de tudo, mostrai-vos amigos das verdades divinas da religião e da fé. Evitai a indiferença na fé e, particularmente, estejai atentos em não demonstrar por exemplos, que a vossa vida privada não tem nada a ver com a fé. Infelizmente, nas conversações de nossos dias, ouvimos frequentemente o espírito da mentira. Se vós vos permitis exprimir tais pensamentos diante de vossas crianças, ireis banir não somente o amor, a piedade e a religião de seus corações, mas matareis também todo o senso (sentido) da Verdade neles. Se não importa verdadeiramente a Deus que compreendamos corretamente ou não Sua essência, ou que confessemos a verdadeira ou a falsa fé, então por que deveríamos nos preocupar com a Verdade na vida de todos os dias? E se aquele que voluntariamente se mistura a falsas religiões e rejeita a revelação de um Deus perfeito compraz a Deus como aquele que confessa a Fé verdadeira, então por que a Verdade deveria ter tanto valor? Se aqueles que dizem não existir uma religião divinamente revelada têm razão, e se o verdadeiro Deus acha que nos revelar a Verdade em nossas relações com as questões mais importantes da vida não vale a pena, então como podemos exigir de uma pessoa (e ainda mais de uma criança) que ela diga a Verdade nas mínimas situações? Porque, pais cristãos, para que as vossas crianças amem a Verdade vos é necessário lhes inspirar, antes de tudo o amor e o respeito pela divina Verdade. Fechai os vossos corações, bem como de vossas crianças, à indiferença para com os assuntos religiosos. Se vossa criança se apercebe que vos aproximai das verdades religiosas com um espírito superficial e que não credes no Verbo de Deus, que esperança tendes vós que tenham e revelem esta aproximidade à Verdade? Fazei provas, vós próprios, de um amor às verdades da religião. Alimentai-as no coração de vossos filhos.

Em todos os outros aspectos de vossa vida, sede verdadeiros e justos. Evitai toda mentira, mesquinharia, hipocrisia em vossas relações para com os próximos. Se as vossas crianças vêem que a malícia tem lugar em vossas relações com os outros, que recorreis a dissimulações, a pregar ciladas e armadilhas, que sois hipócritas, se eles observarem que pretendeis demonstrar a vossos amigos que os quereis diante deles, mas maltratai-os pelas costas, então rapidamente, vossa criança tornar-se-á nada melhor do que o vosso próprio exemplo. Se, ao contrário, em todos os aspectos de vossa vida, reveleis rejeição à falsidade e à hipocrisia e à mentira, eis então que vossas crianças trarão a Verdade em seus corações, e não mais a mentira em seus lábios.

Educar as crianças afim de que elas amem a honrem a Verdade não é uma tarefa fácil, pois devemos com persistência combater as mentiras e a falsidade. Eis quatro sugestões que poderão nos ser utéis, assistindo-nos neste prodígio:

  1. Ensinai às vossas crianças a falta de amor pela mentira, em uma perspectiva religiosa, dirigindo suas atenções a Deus. Vossas crianças devem fugir da mentira, não com medo de uma punição, caso sejam descobertos, mas como resultado de uma compreensão pessoal de que Deus proíbe a mentira e que cada mentira é um pecado diante de Deus (n.T.: acrescento que todo pecado é um distanciar-se de Deus). Mostrai às vossas crianças o quanto a mentira nos afasta de Deus, fazendo referência às palavras das Santas Escrituras. Ajudai-os a compreender que as mentiras foram obra do diabo desde os primeiros tempos, ao fazer cair Adão e Eva no Paraíso: Eis porque o Senhor, Ele próprio, diz: “Porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44) – o Diabo – ensinai, pois, às vossas crianças que ao mentirem eles o imitam, tornando-se tais como ele.
  2. Não permitais de vossas crianças nem a menor das falsidades. Se uma criança se engana e o admite imediata e honestamente, então perdoai-a sem hesitar. Se a falta é séria, então diminuais a punição, dizendo-lhe que a punição fora diminuída, em virtude de imediatamente ter sido admitido seu erro. Todavia não deveis ser muito indulgentes, porque se a criança têm uma tendência a mentir, a vossa indulgência não tira proveito em nada. Se, de um lado, a criança fez algo de malicioso e o nega, eis que deveis dobrar a punição, dizendo-lhe que não somente ela lhe é auferida em virtude da transgressão mas também pelas mentiras. Se a criança, por raiva ou vingança, pronuncia palavras abusivas em relação a alguém outro, caluniando-o, eis que por isto deve lhe ser dada não somente a punição habitual por uma ofensa, mas ela deve também admitir a ofensa diante de todos aqueles que a ouviram. A lei da moral cristã o ensina.
  3. É imperativo que os pais não mintam e nem os decpcionem no que quer que seja. Não deixais que as vossas crianças sejam decepcionadas por aqueles que são mais velhos do que elas e lhes servem de parâmetro, exemplo, sejam eles seus irmãos, irmãs, serventes ou amigos... muito geralmente acontece que os pais enganam, assustam ou fazem promessas (jamais cumpridas) aos seus filhos, afim de os impedir de chorar ou com o objetivo de acalmá-los, isto provoca grandes danos! A criança cedo compreende, primeiramente, que ela é centro de muita atenção e, depois, que foi enganada; sua credibilidade para com as palavras de seus pais bem como o sentido da Verdade sofrem e diminuem.
  4. Não criais situações onde a vossa criança é levada deliberadamente ou não intencionalmente a mentir. Isto acontece por inadvertência quando o pai ou a mãe, encontrado-se, por alguma razão, com raiva, e por vezes mesmo com um cinto na mão, aborda a criança nestes termos: “Dize-me quem fez isto!” ou “Vais apanhar se fizeste isto!”...é surpreendente que a criança assustada minta? O que dizer então destes pais que riem das mentiras de seus filhos, sendo seus cúmplices na mentira com tamanha malícia? Pior ainda: o que dizer destes pais que ensinam seus filhos a mentir diante dos inspetores e professores escolares, afim de serem liberados de suas tarefas, evitando as punições. Estes pais merecem ser chamados de tentadores de seus filhos. Ficaríamos surpresos que estas crianças, em virtude de sua educação, caluniem, enganem ou roubem? A experiência mostra que aqueles que dirigem pouca atenção à mentira não pensarão duas vezes se podem ou não trapacear ou roubar.

Eis então, meus leitores cristãos, algumas palavras que podem vos ser úteis no ensino e educação de vossas crianças, em um sentimento de piedade maior pela Verdade, tal como para desenvolver uma profunda repugnância para com a mentira! Ensinai às vossas crianças a amar a Verdade primeiramente pelo exemplo do vosso amor pela Verdade em todas as vossas ações e palavras.

Ensinai-os o quanto a mentira é vil e repugnante aos olhos de Deus. Não tolereis nem mesmo uma migalha de falsidade da boca de vossos filhos, não os decepcioneis e não permitais que os outros também os decepcionem.

Em guisa de conclusão, tomai guarda em não os conduzir à mentira intencionalmente ou não.

Periódico LA VOIE ORTHODOXE nº6 – Automne 1994
Pelo Hieromártir Vladimir, Metropolita de Kiev
Tradução do Manastir SV. Apostola Petra i Pavla
Bosna i Herzegovina (BIH)
Boletim Inteparoquial, fevereiro 2006

Oração

Na aurora o meu coração vigia diante de Ti, ó nosso Deus, porque os Teus mandamentos são luz sobre a terra. Habitua-nos a cumprir a justiça e a santidade no Teu temor, pois é a Ti, nosso verdadeiro Deus que nós glorificamos. Inclina para nós o Teu ouvido e atende-nos. Lembra-Te, Senhor, de todos e de cada um dos que estão aqui presentes e oram conosco; salva-os pelo Teu poder; salva o Teu povo e abençoa a Tua herança; concede a paz ao mundo, às Tuas Igrejas, aos nossos governantes e a todo o Teu povo. Pois que o Teu nome, Honrado e Magnífico, é bendito, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

Rússia
autor: Павел Цветков

Menaia

Do grego Menaion (mês; plural, Menaea). Conjunto de livros em número de doze, um para cada mês, que contém as partes próprias das Grandes Festas e as partes fixas e próprias dos Santos do ano litúrgico.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Megalinário

Do grego μεγαλυνάριον, em eslavão velichánie. Um curto verso cantado solenemente, inicialmente pelo clero e depois pelo coro e depois por todos, após o Polieleos, glorificando o Senhor, Sua Mãe ou um Santo, por ocasião de uma Festa. Este pequeno verso normalmente começando com as palavras: “Nós glorificamos...” (em grego μεγαλυνον; magnify, em inglês e em eslavão velicháen). Os megalinária (plural) são cantados em Matinas:

  • após o Polieleos, nas Grandes Festas e em certos dias em que se comemoram alguns santos específicos.
  • o lugar do Magnificat, nas Grandes Festas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O Santo Encontro de Nosso Senhor Jesus Cristo – Hypapante - 02 / 15 fevereiro

São Lucas é o único evangelista que nos mostra José e Maria fiéis às prescrições da Lei e ao cumprimento de seus preceitos. Assim como fizeram circuncidar Jesus ao 6º dia, eles o apresentam ao Templo 40 dias após seu nascimento.

Lei de Moisés
Todo varão primogênito será consagrado ao Senhor (Ex 13, 2)

São Lucas cita as palavras do Êxodo a fim de explicar a viagem de Maria e José. Com efeito, desde que o povo de Israel saíra do Egito, na noite mesmo da partida, o Anjo do Senhor fez abater sobre os egípcios uma terrível punição, a décima praga: a morte de todos os primogênitos desde o filho do Faraó, passando pelo primogênito de cada família e atingindo até os rebanhos. Para escapar ao anjo exterminador, os judeus deveriam sacrificar um cordeiro ou cabra de um ano, um animal para cada família e espalhar seu sangue nos umbrais de suas portas. Quando da passagem do anjo com sua espada mortífera, à vista do sangue sobre os umbrais, os lares hebreus foram poupados.

Nessa mesma noite o povo inteiro deveria consumir o animal sacrificado, cada judeu, de cada família, permanecer pronto, os rins cingidos, sandálias nos pés, bastão na mão, para partir a qualquer instante. Essa foi a primeira Páscoa comemorada depois desse dia em todos os anos, em memória do Êxodo, em memória da libertação do povo judeu, da passagem da servidão à liberdade.

Ao fornecer para Moisés as prescrições em relação à Páscoa, Deus manda que cada varão primogênito nascido entre as crianças de Israel, seja consagrado a Deus, em memória da saída do Egito. A criança consagrada é oferecida diante do altar e remida como primícia, primeiro fruto do seio materno. Essa oferenda é uma ação de graças em memória dos primogênitos judeus que foram poupados na noite do massacre Egípcio.

O Filho primogênito de Maria, Aquele que abriu o seio virginal da sempre Virgem Maria Mãe de Deus, é oferecido segundo as prescrições da Lei, Ele, o autor da Lei. A Igreja se maravilha com esta contradição e sublinha mais uma vez a humilhação do Filho de Deus, sua Kenose. (Do grego Kenosis – esvaziar-se, negar-se.)

O Primogênito do Pai, anterior aos séculos, apareceu como o Varão Primogênito de uma Virgem Imaculada e dirige suas mãos à Adão (Tropário da 3º Ode)

O Cântico de Simeão - Nunc Dimittis
E agora Senhor, deixa o teu servidor, segundo a Tua palavra partir em Paz. Porque os meus olhos viram a salvação, que vem de Ti. Que tu preparaste para ser apresentada a todos os povos, Luz que brilhará sobre todas as nações e glória de teu povo, Israel.

As primeiras palavras do Cântico pronunciado por Simeão, à vista da Criança, são um grito de júbilo ante a sua morte, já próxima. É uma resposta à promessa do Espírito Santo feita ao velho, ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor.
Simeão é o último vigia de Israel, ele espreita a aurora, ele vê enfim o apontar do dia e reconhece a luz do “Sol de Justiça”.

Israel agora está pronto para se abrir ao mundo, para fazer o dom da Revelação a todos os povos. De Israel levanta-se a luz que ilumina as nações e que permanece para sempre a glória do povo eleito (v. Epístola aos Romanos, 11). E esse cântico é sempre cantado ao final das vésperas, pois é esse o ofício onde revivemos a longa espera pelo Cristo no Antigo Testamento. Ele inicia-se com o salmo 104, récita da Criação, sendo seguido da leitura de outros salmos e de passagens da Bíblia, revelando a esperança de Israel. Essa esperança conduz ao encontro entre a antiga e a nova Aliança, encontro que é realizado na pessoa do Cristo. Com a luz do entardecer, o declínio do dia, nós contemplamos uma outra luz, luz jubilosa, a mesma que Simeão encontra no Templo.

Ó Luz Jubilosa da Santa Glória do Pai, Celeste Imortal, Santo e Bem-Aventurado Senhor Jesus Cristo. Chegados ao pôr do sol, contemplando a luz vespertina, nós cantamos o Pai e o Filho e o Espírito Santo de Deus. É digno que em todo o tempo, te louvemos com vozes puras, ó Filho de Deus, que dás a vida, todo o Universo te dá glória..

Visão de Deus
Simeão, como Moisés no Sinai, encontra Deus face a face. No entanto, Moisés viu a Deus dentro da nuvem e foi forçado a cobrir o rosto pois a Luz de Deus o cegava. Simeão recebe Deus em seus braços. A proibição de ver Deus no Antigo Testamento não significa que o homem do Novo Testamento seja mais digno ou mais puro que o homem da antiga Aliança, mas ele recebe a purificação pelo próprio Cristo, que tem o poder de tirar toda mancha. É por isso que no dia da Festa do Santo Encontro, encontro de cada um de nós com o Filho de Deus, a Igreja nos faz ler a passagem de Isaías contando sua visão no Templo (Is. 6, 1-12).

Quando Isaías viu o Senhor sentado em trono elevado e contemplou sua glória, quando escutou o cântico três vezes Santo dos Anjos, ele gritou: Ai de mim que vou perecendo, porque sou um homem de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, o Senhor Sabaoth! (Is. 6,5) Um Serafim lhe foi enviado com um carvão ardente tomado do altar, a fim de purificar os lábios do profeta.

Os hinos do dia nos explicam o sentido dessa leitura. A visão de Isaías é confirmada pelo encontro de Simeão no Templo e sua purificação pelo Cristo.

O Cristo apareceu outrora ao divino Isaías, como um carvão ardente preso por uma pinça. Agora Ele é dado ao ancião pelas mãos da Mãe de Deus. (Apósticas – tom 2)

Profecia de Simeão
Após seu cântico luminoso, Simeão profetiza, ele resume em apenas uma frase todo o drama do encontro entre o Cristo e seu povo, todo o drama que vai ser desenrolar a propósito do reconhecimento do Messias, Jesus é na verdade a Luz esperada e a glória de Israel, e no entanto, Ele será a dificuldade imprevista e a queda de uma parte de Israel (João 3, 19). Essa contradição causará a dolorosa divisão e terminará na Cruz.

Maria recebe sua parte da profecia, pois ela participa dos sofrimentos de seu Filho e permanece até o fim a seu lado (João 19, 25-27). Simeão prevê que sua alma será transpassada pelo gládio da Cruz.

Simeão viu a queda provocada por Jesus Cristo para uma parte do povo, cego diante do Messias. Mas ele menciona também o elevamento de um grande número de pessoas, esse elevamento é a ressurreição daqueles que inspiram o acordar dentre os mortos após a noite dos tempos. Simeão vai morrer e no entanto ele sabe que seu papel de profeta não se realiza nesta terra. Ele deve levar a “Boa Nova” da ressurreição, agora próxima, aos prisioneiros do Hades. Ele irá profetizar junto aos habitantes do inferno, vai anunciar a Encarnação do Filho de Deus a todos aqueles que esperam esse dia, após Adão, Moisés, Davi, os profetas e “toda alma justa que houver partido na fé”.

Juntar-me-ei a Adão preso nos infernos e anunciarei a Eva a Boa Nova, dizia Simeão cantando como os profetas: Tu és Bendito Deus de nossos Pais. (Tropário – 7ª Ode)

Cordeiro de Deus
Detenhamo-nos um pouco sobre o texto do Levítico a propósito da oferenda. Está escrito que uma mulher dever ser purificada após o parto. Ela traz à entrada do Templo, para sua purificação um cordeiro de um ano, vítima do holocausto. Se ela não tiver posses suficientes para o cordeiro, tomará dois pombos.

Maria, ainda que Virgem em sua maternidade submeteu-se, como seu Filho, à Lei e vem ao Templo para ser purificada. José traz os pássaros do rito da purificação. A primeira indicação que somos tentados a tirar do texto é sobre o meio social da família de Jesus. Mas o Levítico nos traz um outro sentido o que será confirmado pelo ícone. A ausência do cordeiro não é casual, não é só por falta de recursos que a vítima não é representada. Maria tem as mãos cobertas por um linho, de acordo com o rito da oferenda. Ela oferece a criança e a remete ao sumo sacerdote que a recebe abaixo do altar do sacrifício. Jesus é a vítima sem mancha, puro e inocente, Ele é o “Cordeiro de Deus” trazido em sacrifício.

Como Abel foi imolado no lugar de seu cordeiro, como Isaac foi oferecido em sacrifício por seu pai (e depois substituído por uma ovelha), como o servidor de Isaías deixou-se conduzir ao matadouro, ovelha dócil e sem defesa, da mesma forma Jesus é trazido hoje ao Templo e o padre o recebe sobre o altar, visão profética de sua imolação sobre a Cruz.

O Templo, lugar de encontro entre o Cristo e seu povo, toma sua dimensão eterna diante do Criador, não é mais o edifício frágil e efêmero que será destruído um dia, mas o Templo Celeste “não feito por mão de homem” (Hb. 9, 11). O altar sobre o qual o Senhor é oferecido é o trono de Deus, aquele da Jerusalém Celeste: e olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um cordeiro, como havendo sido morto ... (Apocalipse 5, 6)

Jesus é trazido ao Templo como vítima sem mancha, mas Ele é também o padre sacrificador, Ele é ao mesmo tempo holocausto e sacerdote, pois oferece-se a si próprio pela vida do mundo.
Boletim InterParoquial, Fevereiro de 1989

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

“Monge: Asceta do Amor”

Monge atonita Arsênio

«O impulso que produziu o vôo original para o deserto tebático do Egito (Thebaida) foi o impulso elementar do Cristianismo, que tudo desperta para Deus, abandonando todas as coisas e influências deste mundo afim de melhor se preparar para o Reino dos Céus» (Hieromonge Serafim Rose)

O monaquismo encarna a mais elevada forma de vida ascética que o homem dispõe para corresponder ao amor louco do Deus que deseja ardentemente divinizá-lo, afim de torná-lo semelhante a Si próprio. O homem torna-se então pequeno deus, possuindo todas as qualidades próprias de Deus Ele-Próprio, a mesma glória, a mesma beatitude, idêntico em tudo, menos na essência (segundo São Máximo o Confessor).

O monge nada mais é do que um cristão que se compromete em levar mais a sério a realização desta sinergia; sua cruz não é nem maior nem mais pesada; no entanto, por ter se comprometido a servir a este Deus pessoal, sua responsabilidade torna-se maior, sua cruz, talvez, possamos assim dizer, deve sempre remetê-lo a esta aliança que ele escolheu selar pelo resto de sua vida até a eternidade dos séculos. E porque escolheu livremente sua vocação, sua noção de liberdade está relativamente implicada nesta santidade que busca realizar. A santidade é um convite feito a todos os cristãos. Este é o objetivo último da nossa Fé, da nossa vida em Igreja, enfim, da nossa existência nesta terra. Caminhos diferentes são, na verdade, o monaquismo e o matrimônio; ambos são convite à esta santidade da qual toda alma tem sede de ser saciada, porque todos fomos criados à Sua imagem e semelhança, todos, sem exceção alguma, e todos temos este mesmo apelo interior. Cada um de seu jeito, com sua tonalidade própria, através de sua vocação singular, reunidos neste Corpo que se chama Igreja, realizamos este caminho de retorno à Pátria tão almejada, a Jerusalém do Alto.

Uma vida de santidade é necessária para tornar efetiva a união de Deus com o homem, o que quer dizer, sua divinização. Para atingir estes cumes de santidade é necessário lutar para realizar os Mandamentos de Deus. Estes Mandamentos não são os caprichos de um tirano mas, sim, uma cura terapêutica destinada a restabelecer nossa natureza corrompida. O Senhor não nos deu os Seus Mandamentos do alto de Sua grandeza divina, mas antes, desceu Ele Próprio, no meio de nós e pondo-se a observar-nos, exortou-nos a imitá-Lo como se fôssemos verdadeiramente Seus filhos, Seus irmãos ou Seus amigos - "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando" (Jo 15, 14). É desta forma que concebemos o Cristianismo; não como uma teoria abstrata, mas antes como um pôr-em-prática (concretamente), uma confissão de fé.

Confrontados com as solicitações sensuais do pecado que o espírito do mundo, a carne e o diabo suscitam, o cristão confessa a sua fé no Cristo nosso Deus, rejeitando o pecado e manifestando o seu amor por Deus pela observância de Seus Mandamentos. Cristo nos convidou a pôr em prática a vontade de Seu Pai celeste, da mesma maneira que Ele, que foi" obediente até à morte, e morte de cruz!" (Fp 2, 8). É precisamente a observância dos Seus Mandamentos que constitui o modo de comunhão entre o Deus pessoal e o homem.

O homem contemporâneo, alimentado pelas ideologias materialistas, não tem a mínima idéia do que seja a paz interior e a calma concedidas pelo Espírito Santo àqueles que vivem em harmonia com os Seus Mandamentos. Eis porque a temperança dos sentidos, face aos prazeres e às tentações laboriosas, para adquirir as santas virtudes - tentativas - fundadas sobre o sacrifício de seu ego em benefício dos outros - é considerada como que uma "loucura". Esta "loucura" da Cruz é o convite evangélico de Cristo: "Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-Me" (Mt 16,24). Este convite fora considerado como que fundamental para os primeiros cristãos, os santos ascetas, e nos dias de hoje para todo cristão piedoso, "Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus" (Rm 7,22).

Eis então a vida do nosso espírito. Uma das características mais marcantes desta vida é, sem sombra de dúvidas, as penas e dores que nos infligimos ou as que aceitamos a fim de renunciarmos completamente a este mundo; o negar-se a si mesmo (em seu modo de existência caído), e assim se ligar totalmente a Deus.

Uma outra característica importante deste modo de vida ascético é a fuga de toda possessão e segurança material, cultivando, por vezes, mesmo a pobreza voluntária e a insegurança. O que parece bem estranho aos olhos do nosso mundo materialista que faz do enriquecer e da segurança material os seus principais valores.

A primazia da experiência está no centro de todo ensinamento espiritual. Nada pode ser afirmado sem antes ser experimentado. A experiência tudo nos ensina, ela faz "encarnar" o ensinamento profundamente sincero, autêntico e verídico. Eis a causa de um poder de convicção em perfeita harmonia com uma originalidade inegável; cada pessoa é diferente de todas as outras, vivendo de uma maneira que lhe é própria a experiência do combate espiritual e da aquisição da Graça.

A importância ligada ao fato de se ter uma ordem (disciplina), uma regra ou programa de vida perfeitamente regulares e a se comprometer, custe o que custar, quaisquer que sejam as circunstâncias ou as pessoas, as mudanças de estado ou de local, aufere uma estabilidade interior indispensável à uma vida espiritual frutuosa. Estas mudanças aportam considerações que parecem particularmente salutares para o homem de hoje, cujo modo de vida, tanto interior como exterior, está submisso a mudanças incessantes, as quais trazem efeitos particularmente negativos à sua vida mental e ainda mais à sua vida espiritual.

A insistência nos perigos da negligência constitui igualmente um suporte útil a este ensinamento: as menores coisas na vida são de uma extrema importância, pois elas favorecem ou impedem, conforme são vividas, a realização das maiores. O que nos leva a afinar e revigorar o discernir. Muito importante é este discernir espiritual. A este tema do discernimento se agregam as reflexões acerca da maneira de conhecer ou de reconhecer a vontade divina, que toma diferentes formas segundo o tempo, o espaço, as pessoas, as coisas, a maneira e as circunstâncias.

Não há, no entanto, vida espiritual sem tentação, e muito mais ainda no nível da ascese. Importante papel têm as tentações no nosso conhecer a si-mesmo, no nosso auto-aceitar, e por conseguinte, no nosso crescer enquanto pessoa, enquanto personalidade, enquanto alguém que é livre e que busca ser livre. São elas consideradas como provações necessárias ao nosso progresso na vida espiritual. Devemos aprender a afrontá-las. Nada mais são do que fontes de experiência de onde tiramos grande proveito e crescemos em virtude.

O que nos conduz à tamanha atenção senão a grande importância da obediência a Deus através de um Pai espiritual, confessor ou Igúmeno. Longe de ser uma submissão alienada, a obediência é uma virtude que tem valor de sacramento, por não somente ter sido fundada sob o ensinamento do Evangelho como também sob o exemplo do próprio Cristo que Se fez totalmente obediente a Seu Pai; ela nos assemelha então a Ele quando a praticamos. A queda do homem (Adão) teve por causa a desobediência e é por meio da obediência que as criaturas restabelecem suas relações normais com o Seu Criador.

Juntamos a participação na comunidade, esta vida comunitária que nos convida a cada dia ao sacrifício da vontade própria. Tudo muito bem regrado e fundamentado na vida do ciclo litúrgico, na beleza do serviço divino na Igreja, onde nos reunimos e elevamos os corações em louvor, na ação de graças, na comunhão com a Vida que vence a morte e nos abre a porta do Paraíso pela Sua Ressurreição na carne. E esta Carne, este Corpo (de Cristo) é a própria Igreja. Nossa vida em Igreja traz a estampa da Ressurreição. É esta a vitória de cada homem que sabe estar e ser só (monos = monakos = monge) e sabe ser e estar em comunidade, em comum-unidade, em assembléia, em sacrifício pelo próximo e por aquele que lhe é, por vezes, tão diferente, mas que sempre o convida a este amor que é a própria natureza do Filho de Deus. A comunidade nos ensina a nos conhecermos, nos ensina a descobrir o que somos, em que nível de amor estamos. Ela nos ensina a suportar, a esperar e, sempre, a amar. É dela esta força que nos faz reconhecer em cada próximo, independente de sua personalidade, a imagem e a semelhança de Deus (Amor).

A medida desta vida espiritual é a Fé. O homem não sabe viver sem Fé. Ele sem Fé está morto! E quando ele tem Fé, logo e automaticamente ele tem esperança, e porque espera, logo ama, e a medida deste amor lhe faz jorrar fontes de forças para sempre amar e mais amar, tolerar, suportar, ser paciente. Esta é a ascese de todo monge: esta luta, que não tem fim, pelo amor. Podemos ser grandes ascetas no nível da rudeza de nossos hábitos, quando comemos pouco, rezamos bastante, dormimos quase nada, ficamos em vigília mas, se no entanto, isto é causa ou conseqüência de nossa vontade própria, nosso vínculo com a Igreja sofre algum disparate! Amor é serviço e combate. E Evangelho é Amor. Servir ao Evangelho é derramar vinho e azeite nas feridas daqueles que jazem a espera de serem amados ao nosso redor; e eles são tantos! Só serve quem quer, e só esta luta pelo servir libera o homem do seu centro egocêntrico, do seu círculo de vícios, costumes, derrotas, paixões. O homem que ama desinteressadamente já alcançou o caminho que estampa a alegria de ser, de ser em Igreja, de ser filho de Deus e co-herdeiro da herança eterna.
Monja Rebeca
Mosteiro dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, Bósnia-Herzegovina
Boletim Interparoquial, Março de 2006

OrtoFoto

Mosteiro de Zamfira, Romênia
autor: Ovidiu-Mihail Coşerea

Matinas

Ofício da manhã do ciclo diário. A palavra matinas vem do latim e refere-se ao período que vai do final da madrugada ao romper da manhã. O equivalente grego é chamado de Orthros. Nos mosteiros é celebrada no final da madrugada, terminando ao nascer do dia, nas paróquias, às vezes, é celebrada à noite. O ofício de Matinas apresenta um grande número de variantes, de acordo com o dia da semana e da solenidade da festa comemorada. Os principais tipos de Matinas existentes atualmente são:

  • Matinas Comuns.
  • Matinas Festivas.
  • Grandes Matinas (nas vigílias de domingo e das Grandes Festas)
  • Matinas com Litanias para defuntos (em alguns sábados da Grande Quaresma e outros poucos dias do ano).

O ofício de Matinas, de todos os ofícios litúrgicos ortodoxos, é o ofício que mais apresenta partes variáveis, mas pode-se considerar a estrutura básica de Matinas Comuns como a seguir:

  • Doxologia inicial.
  • Orações iniciais.
  • Salmos 20 e 21.
  • Pequena Litania.
  • Hexasalmos.
  • Litania pela Paz (Grande Litania)
  • Tropários.
  • 1º Catisma.
  • Pequena Litania.
  • 2º Catisma.
  • Pequena Litania.
  • 3º Catisma.
  • Pequena Litania.
  • Salmo 51
  • Cânon.
  • Laudes.
  • Doxologia.
  • Litania de súplica.
  • Triságion e Pai-Nosso.
  • Tropário-Apolitikion.
  • Litania fervorosa.
  • Finalização das Matinas.
  • Benção final (Despedida).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

Romênia
autor: Gabriel Poenar

“A Oração de Jesus - A Oração do coração”


Para o ortodoxo, a oração por excelência é a oração de Jesus (1), “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador” (ou em sua forma curta, Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”). Desde a época do Novo Testamento o ortodoxo acreditava que o poder de Deus está presente no Nome de Jesus. Quando o Apóstolo Pedro curou o aleijado no pórtico do Templo, foi inquirido pelo Sumo-Sacerdote: “Com que poder ou por meio de que nome fizestes isso? (At 4, 7). São Pedro, pleno do Espírito Santo respondeu: “...seja manifesto a todos vós e a todo o povo de Israel: é em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes, mas a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, é por seu nome e por nenhum outro que este homem se apresenta curado, diante de vós”. (At 4, 10).

O próprio Nosso Senhor, confortando Seus discípulos antes de Sua paixão e morte, disse-lhes que “Em verdade, em verdade vós digo: o que pedirdes ao Pai em meu nome ele vós dará. Até agora, nada pedistes em meu nome: pedi e recebereis para que a vossa alegria seja completa”. (Jo 16, 23-24).

Mais tarde na época imediatamente seguinte ao tempo dos Apóstolos, Santo Inácio de Antioquia (que conhecera São João Evangelista), quando estava sendo levado par a arena em Roma para sofrer o martírio pelos animais selvagens, quando os soldados que o prendiam lhe questionaram por que ele continuava repetindo o nome de Jesus incessantemente, ele respondeu que Ele estava inscrito em seu coração.

Assim, rezando esta oração – em Nome de Jesus Cristo – tem sido uma parte vital da tradição espiritual ortodoxa desde os primeiros tempos e tem sido, especialmente, resguardado pelos monges desde o século IV. No ofício de Tonsura de um monge, quando lhe é dado o rosário, o Abade diz, quando lhe entrega: “Tome, irmão, a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, para a contínua oração a Jesus; pois você tem que ter sempre o Nome do Senhor Jesus na mente, no coração e nos lábios, sempre dizendo: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador”.

Entretanto, enquanto especialmente praticada e popularizada pelos monges, rezar em Nome de Jesus é exatamente o privilégio de todos os cristãos. Como diz o Livro de Orações: “No trabalho, no descanso, em casa e nas viagens, sozinho ou entre outras pessoas, sempre e em todo lugar repita na sua mente e no seu coração o doce nome do Senhor Jesus, dizendo: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador”. Em nossas vidas atarefadas, como pode um cristão ortodoxo comum praticar a incessante Oração de Jesus?

Em nossos assuntos diários existem muitas coisas que nós fazemos por hábito. No começo do dia, por exemplo, nos lavamos, nos vestimos, tomamos nosso desjejum e etc. Enquanto nós estamos em nosso caminho para o trabalho, normalmente há muito tempo livre. Durante nosso dia de trabalho, seja no serviço doméstico, seja em uma fábrica, loja ou escritório existem muitos momentos ociosos ou de trabalho repetitivo. Mesmo em atividades de recreação como caminhadas, corrida ou o que seja, existem muitas oportunidades de empenho na oração. E qual o melhor momento para fazer o que é bom, clamar incessantemente pelo Nome de Jesus, pode haver momentos melhores que estes? Mesmo as mais monótonas tarefas podem ser transformadas em uma doce e jubilosa experiência!

Mesmo em uma multidão, no trabalho, em um reunião em família, em situações que exijam todo o nosso pensamento e atenção é possível fazer a Oração de Jesus, talvez não por longos períodos de tempo, por contínuos blocos de tempo, mas de tempos em tempos. Como o Arcebispo Paulo, Primaz da Igreja da Finlândia e monge de Valaam afirma: “Se nós conseguirmos o hábito de recitar o Nome de Jesus desta maneira, mesmo por meio minuto sem cessar – e é possível conseguir tal pausa para si mesmo em quase qualquer trabalho – a lembrança da presença de Deus permanecerá como uma correnteza interior em nossa alma”. (The Faith we hold, Arcebispo Paulo).

A oração de Jesus, então, é a oração de incrível versatilidade; é uma oração para iniciantes e igualmente uma oração que leva ao mais profundo dos mistérios da vida contemplativa. Para alguns, chegará o tempo em que a Oração de Jesus “entrará no coração”, por isso, assim, se torna a chamada Oração do Coração. Neste ponto, a Oração de Jesus não é mais recitada por meio de um esforço deliberado, mas é repetida por si mesmo espontaneamente, continuando mesmo quando se fala ou escreve, estará presente nos nossos sonhos e nos acordará pela manhã.

De acordo com Santo Isaac, o Sírio: “quando o Espírito toma seu domicílio no homem ele não cessa de orar, por que o Espírito irá rezar constantemente nele. Então, nem quando ele dorme, nem quando está acordado a vontade de rezar poderá desligá-lo de sua alma; quando ele come ou bebe, quando ele deita e quando ele faz qualquer trabalho, mesmo quando está imerso no sono, o perfume da oração exalará em seu coração espontaneamente” (Tratados Místicos).

Por isso, tanto para os que recitam esta oração sem cessar quanto para os que apenas ocasionalmente a usam, a Oração de Jesus é considerada uma grande fonte de alegria e confiança.

Pouco antes de 1900, apareceu um livro intitulado “O Peregrino Russo” (em inglês “The way of the Pilgrim”), no qual, entre outras coisas, um peregrino anônimo relata sua jornada espiritual na prática da Oração de Jesus. No livro ele nos fala da inefável alegria que, pela graça de Deus, permeia o coração de quem pratica esta oração:

“E é assim que eu sigo agora, e incessantemente repito a oração de Jesus, que é mais preciosa e doce do que qualquer outra coisa no mundo. Às vezes, eu ando 43 ou 44 milhas em um dia, e não sinto por completo que estou andando. Eu fico consciente apenas do fato que eu estou fazendo a minha oração. Quando o frio cortante me perfura, eu começo a orar mais intensamente e rapidamente um calor me envolve por completo. Quando a fome começa a me dominar, eu chamo com mais freqüência o nome de Jesus, e esqueço o desejo por comida. Quando eu caio doente ou sou acometido de reumatismo nas minhas costas e pernas, eu fixo meus pensamentos na Oração, e não percebo a dor. Se alguém me ameaça, eu preciso apenas pensar “Como é doce a Oração de Jesus”, e a injúria e a ira, de igual modo, se vão e eu as esqueço completamente...e eu agradeço a Deus por, agora, compreender aquelas palavras que eu li na Epístola – Orai sem cessar (1 Ts 5, 17). (Extraído de The way of the pilgrim)

Examinando as palavras da Oração de Jesus, nós podemos dizer que ela é a oração perfeita, já que expressa a fé na Encarnação e na Santíssima Trindade. Quando nós dizemos “Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus”, nós afirmamos que o Senhor é tanto homem quanto Deus, uma vez que o nome de Jesus foi dado a Ele por Sua mãe como a um ser humano e as palavras Senhor e Filho de Deus indicam Sua divindade. A noção da Santíssima Trindade é encontrada, também, nesta oração uma vez que nos dirigimos ao Filho de Deus, Deus-Pai está incluído assim como o Espírito Santo, pois, como diz São Paulo, “ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor” a não ser no Espírito Santo” (1 Co 12, 3).

A Oração de Jesus é perfeita, também, por que estão presentes nela dois aspectos da oração cristã. Quando nós dizemos “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus” nos voltamos para a glória, a santidade e o amor de Deus. Então, levando em consideração nossa natureza pecadora, nós prostramos em humildade, dizendo “tem piedade de mim pecador”, pois há um contraste entre o Deus Todo-Perfeito e nós, que somos pecadores e imperfeitos.

Ainda, apesar da atitude de penitência, há um sentido de consolação aqui, pois, São Paulo nos diz: “Quem condenará? Cristo Jesus, aquele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, aquele que está à direita de Deus e que intercede por nós?” (Rm 8, 34). E no coração desta oração, o nome de Jesus, é a palavra salvífica, pois São Mateus nos diz: “...e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados”. (Mt 1, 21)

(1) N.T. A oração de Jesus tem sua origem em textos dos Evangelhos (Mt 15, 22, da mulher cananéia; Mt 20, 30, dos cegos de Jericó e Lc 18, 13 da oração do publicano), provavelmente, passou a ser adotada pelos monges do desertos do Egito (Nítria e Tebaida) tendo-se tornado conhecida a partir de S. Macário do Egito (300-390) que foi mestre de Evágrio Pôntico. Evoluiu por várias formas até chegar a forma atualmente conhecida.
These truths we hold – The Holy Orthodox Church: Her Life and Teachings
St. Tikhon’s Seminary Press,
South Canaan, Pennsylvania 18459, 1986.
Tradução do Igúmeno Lucas
Mosteiro Ortodoxo de São Nicolau - Conde, Pb

Boletim Interparoquial, julho de 2007

Liturgia

Do grego λειτουργία, literalmente serviço público ou ofício público. No ocidente este termo é, freqüentemente, utilizado para a veneração pública em geral. Na igreja do oriente denota, especificamente, os ofícios em que se consagram os dons para a Eucaristia. As principais Liturgias celebradas pela Igreja Ortodoxa são:

  • Liturgia de São João Crisóstomo.
  • Liturgia de São Basílio, o Grande.
  • Liturgia de São Tiago, irmão do Senhor.
  • Liturgia dos Dons Pré-Santificados.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

“A Imagem do Invisível”


A Teologia da Beleza:
Ao interior das Igrejas Ortodoxas, em qualquer parte do mundo onde ela esteja, existe algo que ao primeiro olhar chama a atenção. São os ícones. Um elemento fundamental e expressão da vida espiritual da Igreja. Associado com a arquitetura, os afrescos, os mosaicos, os cânticos, as leituras, as incensações e os movimentos rituais, o ícone tem uma função que por um lado é didática e pedagógica, e por outro, profundamente sacramental. Ele é parte integrante e necessária nos rituais e celebrações da Igreja Ortodoxa.

Se numa primeira dimensão o ícone tem o papel, através das cores formas e luzes, de proclamar e transmitir, tal qual as Sagradas Escrituras e os hinos litúrgicos, os Mistérios revelados por Deus aos homens, em outra dimensão, mais profunda, ele é uma perfeita expressão da fé e da vida espiritual da Igreja. E apesar de sua beleza ele não é feito para o mero embelezamento, o ícone é arte sagrada, na verdade, uma perfeita presença espiritual. A sua beleza, a sua luz vem de algo não natural. O ícone não tem o propósito de ser um retrato naturalista de um episódio ou alguém. A idéia que preside o trabalho do iconógrafo – e é por isso que esta palavra significa: aquele que escreve o ícone - é o de proclamar o Plano de Deus, a economia divina da Salvação, a graça santificante que está presente no Santo ou momento da história sagrada que o ícone descreve.

Portanto, considerando estas duas dimensões, o ícone é teologia em toda sua profundidade. E nunca, mesmo quando pendurado na parede da casa de um fiel, o ícone poderá estar desvinculado da Tradição Apostólica, dos Santos Padres, dos Dogmas de fé e das fórmulas sacramentais da Igreja. Não separado deste conjunto todo, ele permanecerá perfeitamente sacral e litúrgico. O ícone, de fato, convida o fiel ortodoxo a uma realidade que está para além deste mundo, uma realidade espiritual, convida-o à santidade. Por isso o ícone é chamado de “janela aberta para o céu” ou “lugar de encontro”. Como diz um Excelente mestre da iconografia: “Deus Se abaixa e Se revela ao homem; o homem responde a Deus se elevando, concordando sua vida com a revelação recebida. Na imagem ele recebe a revelação e pela imagem ele responde a esta revelação na medida em que nela participa” (Leonide Uspenskij – La theologie de l’ ícone dans l’ Eglise orthodoxe, Éditions. Du Cerf, 1982, Paris, pg. 174).

Uma Arte Sacra Milenar:
A palavra ícone deriva do termo grego “eikón” que significa de modo geral imagem e poderia ser usada também em relação aos mosaicos e aos afrescos. Mas comumente é usada para as pinturas feitas em madeira com uma complexa técnica, mais que milenar.

O ícone encontra o seu apogeu no Império Bizantino. Mas ao contrário do que alguns intelectuais e críticos de arte dizem não é a expressão artística de uma época, ele é mais do que isso. O ícone é sempre presente e atual porque, na verdade, transcende qualquer expressão meramente cultural e é atemporal porque fala de uma realidade que está fora do tempo.

Antes da iconografia encontrar o seu amadurecimento artístico como hoje a conhecemos, e isso vai acontecer por volta do século IV, os cristãos dos primeiros tempos já utilizavam alguns tipos de trabalhos pictóricos para expressar a sua fé. Estamos falando das rudimentares pinturas de retratos nas catacumbas, os desenhos de cruzes, de palmas ou ainda as representações de peixe, de cordeiro ou do bom-pastor para simbolizar o Cristo.

Em termos de desenvolvimento artístico o ícone é uma síntese das artes grega, romana, síria, palestina, egípcia e persa. Pouco a pouco com uma idéia mais ou menos comum de se identificarem e se afirmarem enquanto cristãos esses diferentes povos foram contribuindo com sua cultura local para a elaboração de uma arte na qual vieram todos, mais tarde, a se reconhecer.

Quando o Imperador Constantino liberta o cristianismo das amarras de uma religião perseguida e funda a capital do Império na cidade de Constantinopla. Há uma espécie de explosão: Muitos aderem abertamente a “nova” religião do Império, principalmente funcionários do Estado e pessoas das classes mais abastadas. Todos querem fazer parte deste movimento e colaboram com tudo o que podem. Arquitetos, pintores e artistas serão estimulados a contribuírem com sua arte. As igrejas, as catedrais, os monumentos são construídos com toda majestosidade para expressar o fulgor desta fé, já então três vezes centenária. O ícone terá um lugar de honra neste triunfo e terá a sua técnica e regras definitivamente fixadas.

Uma História Sagrada:
Mas é quase certo que, na altura desta narrativa, haverá aquele que pergunte: Mas Deus não proibiu se fazer imagens de adoração, como consta em (Ex. 20, 4), (Lv 26, 1), (Dt. 4 16, 23; 5, 8; 9, 12; 27, 15). Verdade, e este argumento vai ser usado, mais tarde também pelos hereges iconoclastas (Aquele que destrói imagem) dos séculos VII e IX. É certo que esta ordem é um preceito escripturístico. Mas é bom lembrar que o Senhor também mandou construir uma Arca e sobre ela esculpir dois Querubins de ouro (Ex. 25, 18-22). Os cristãos ortodoxos consideram esta segunda ordem como uma prefiguração do mistério que só será revelado mais tarde, o Mistério da Encarnação.

A proibição é parte da pedagogia divina para um povo ainda inseguro na fé, ao qual Deus quer ensinar o culto monoteísta ao Deus Único e Verdadeiro. Este Deus não tem forma nem aparência, Ele é Puro-espírito. O povo da Antiga Aliança. precisava de uma Lei que os corrigisse da idolatria. Corria-se o risco, naqueles tempos, de se fazer uma imagem qualquer deste Deus Puro-espírito e se trocar o significado pelo significante.

Mas na Nova aliança, com um povo já amadurecido no culto ao Deus Único, Deus revela-Se, mostra-Se, toma forma na nossa natureza carnal. Mas continua sendo o Deus Puro-espírito. Esta é a realidade primeira do ícone a Encarnação. Por isso um grande teólogo ortodoxo afirma: “...depois da Encarnação, Cristo liberta os homens da idolatria, suprimindo cada imagem não negativamente, mas de modo positivo, revelando a verdadeira figura humana de Deus” (Pavle Evdokimov – La conoscenza de Dio secondo la tradizione orientale, Roma, 1983, pg. 124). Ou seja com traços, cores e luzes do mundo da natureza mostra-se uma realidade que está para além do natural.

E atenção, não se trata de culto de adoração ao ícone. Este culto de Doxa é exclusivo a Deus. A relação com o ícone é de veneração, venera-se os ícones, tem-se um enorme respeito pelos ícones porque sabemos que eles revelam a graça e o amor de Deus presentes na pessoa do Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos que foram amigos do Cristo porque colocaram em prática a Sua vontade. Como todo cristão deveria também fazer. Isso também serve a todos como um alerta. E para o cristão isso é tão importante que no primeiro domingo da Grande Quaresma, a que nos prepara para a Festa da Páscoa, onde se comemora a Ressurreição de Cristo e a vitória da carne sobre a morte, celebrasse o Domingo da Ortodoxia. Para rememorar o Concílio que restabeleceu culto das imagens e da verdadeira fé.

Além de tudo isto a arte da iconografia, acredita-se, também é a realização da expressa vontade de Deus.

Uma Tradição da Igreja diz que o rei Abgar da cidade de Edessa, que estava doente com lepra, teve um sonho no qual ele via Nosso Senhor sendo perseguido, aprisionado e martirizado. Então ele envia um emissário em busca deste que ele considerava um grande Profeta visto em seu sonho. Quando o emissário do rei, depois de muito procurar, afinal encontra com Jesus Lhe diz: “o meu rei pede que o Senhor venha comigo pois em nosso país o Senhor estará protegido, o meu rei não deixará que nada Lhe aconteça”. Jesus responde: que agradecia mas não podia aceitar, afinal Ele veio para os Seus e além disso era preciso que Ele cumprisse a Vontade do Pai. O emissário replica que o seu rei era muito rigoroso e portanto ele não poderia voltar de mãos vazias. Então Nosso Senhor Lhe pede um lenço que ele trazia e com este lenço enxuga o rosto, dobra-o e devolve ao emissário pedindo que ele o entregasse ao rei, o emissário assim faz. Quando o rei recebe o lenço desdobra-o e ao interior do lenço vê impresso a imagem da Santa Face e fica curado de sua doença.

Esta imagem é chamada pelos ortodoxos de “Aquiropita” (não pintado por mãos humanas). Esta imagem ficou na cidade de Edessa até o ano 944, quando então o Imperador de Bizâncio manda buscá-la, para com ela fazer uma procissão em volta das muralhas da cidade, a fim de protegê-la do ataque dos turcos e este expediente realmente teve sucesso. Até hoje no dia 16/ 29 de agosto celebra-se a Festa da transladação de Edessa para Constantinopla do ícone Aquiropita.

Uma outra Tradição diz que o Evangelista São Lucas teve uma visão na qual a Santíssima Virgem Maria lhe aparece pedindo que ele pintasse uma imagem em sua memória. Nesta visão ela mostra a ele, claramente, como realizar todas as etapas do trabalho. Ele então, seguindo as instruções, pinta o Ícone que mais tarde recebeu o nome de Odighítria (a que indica o caminho), também pintou um segundo que será chamado de Eleúsa (Ternura) e ainda um terceiro ícone. A Santíssima Virgem os viu aprovou-os e Abençoou-os, conferindo às tais pinturas sua graça e poder espiritual. Esta é a origem dos cânones referentes a composição dos ícones. Acredita-se que ao se escrever um ícone, se todas as regras forem respeitadas, este poder espiritual derramado pela Mãe de Deus será retransmitido para o novo trabalho.

Um Sacro-Ofício:
Para que o trabalho chegue a um bom termo é necessário que o iconógrafo jejue, abstendo-se de relações sexuais e de todo alimento de origem animal, ore com fervor, estude a história do Santo ou das passagens relativas ao tema da Festa que ele vai pintar, que tenha se confessado e comungado recentemente, e principalmente que o seu interior esteja em silêncio e paz.

É preciso encontrar uma madeira nobre que não dê bicho, não apodreça, nem empene. Lixa-se e aplica-se uma camada de gelatina incolor, deixando-a descansar por 12 horas. Depois se aplica uma gaze bem fina embebida em cola de coelho (cola de madeira) deixa-se descansar por 12h. Em seguida aplica-se, com um pincel, uma mistura de água, gelatina e gesso cré, deixa-se descansar 12h. Este processo é repetido várias vezes até a gaze ser inteiramente recoberta. Esta cobertura branca é lixada e depois se aplica mais algumas camadas desta mistura de gesso cré, sempre deixando descansar por 12h entre cada aplicação. Lixa-se novamente e depois mais uma vez com uma lixa mais fina que houver, até que a prancha fique completamente lisa, não tenha nenhuma imperfeição e adquira uma aparência de porcelana. Ela então estará pronta para receber o desenho.

É preciso se estudar o original do modelo que se quer pintar. Descobrir as formas geométricas, retângulos, quadrados, círculos, triângulos e etc, ocultas no desenho. Passar estes traços para a prancha onde se pintará, severamente respeitando estas proporções. Esboçasse dentro deste traçado o desenho que se quer. Só depois disso a prancha estará pronta para receber dentro dos traços feitos as cores da têmpera.

A têmpera é uma mistura de água, gema de ovo e limão na qual se acrescentará pigmento de cores variadas conforme a cor que o iconógrafo quer para a composição da imagem. Estes pigmentos são normalmente pós coloridos de origem mineral (carbonatos, silicatos, óxidos, etc) ou orgânicos extraídos de plantas e animais. Ou seja na composição material do ícone encontramos reunidos os três reinos da Criação o mineral o vegetal e o animal. Mas não poderá haver nenhum elemento sintético tudo é rigorosamente natural. como uma espécie de recriação da natureza para expressar uma realidade espiritual.

As cores também têm o seu cânone, não se podem mudar as cores que estão no original. pois todas têm um significado simbólico. Por exemplo, o branco simboliza a divindade; o azul a transcendência; o verde a natureza, o crescimento, a fertilidade e esperança; o marrom a densidade da matéria; o vermelho, a incandescência e o fervor; a púrpura a riqueza espiritual; o ocre ou dourado a cor do céu. Aliás, uma das técnicas de composição é misturar um pouco de ocre com todas as cores e assim atingir-se uma impressão de unidade em toda a obra. O pigmento preto é interditado, as cores escuras que se vê em alguns ícones são conseguidas a partir da mistura do marrom, do verde e do azul.

Para se conseguir a imagem que se quer é preciso levar em conta algumas regras. Começa-se pintando das bordas para o centro, de cima para baixo e das cores escuras para as claras, a luminosidade do olhar é rigorosamente a última coisa a se fazer antes da inscrição que se aplica na pintura para identificar o ícone.

É preciso também manter rigorosamente a representação dos objetos constitutivos do ícone. O iconógrafo não é livre para compor a imagem, ela já está, a longo tempo, determinada pelo Episcopado da Igreja. O iconógrafo não realiza a sua obra, é ele que se submete ao serviço que se propôs, é na verdade um exercício de ascese. Mas, inegavelmente sempre haverá algo de sua alma no trabalho. Apesar do artista não assinar seu trabalho, é possível identificarem-se determinados autores de ícones bem característicos (Roublev, por exemplo) ( Iconógrafo russo do século XV. Famoso por ter composto o ícone chamado a Hospitalidade de Abraão, no qual a Igreja vê um símbolo da SSma. Trindade). O espírito e o temperamento de um povo, onde o ícone é realizado, também é possível se reconhecer (ícones russos, gregos, coptas, etc)

É preciso saber ainda que na Igreja Ortodoxa o simbólico não é algo estéreo ou abstrato, é sempre encarnado, tem sempre que ter uma correspondência com o mundo real. Com a arte iconográfica também é assim.

O ícone tem duas particularidades, interessantes de se conhecer. Características que o fazem ser algo verdadeiramente vivo. A primeira é relativa a composição material desta prancha, junto com a aplicação da têmpera nela, este conjunto faz que a imagem não seja uma coisa estática, mas ao contrário, dinâmica. Com o passar dos séculos estas cores vão penetrando no gesso, e vai tomando uma textura, uma intensidade de luz e uma coloração toda própria, o que fará de cada trabalho uma obra única que não poderá ser integralmente copiada. A outra característica é que a arquitetura e os objetos são pintados em dissonometria (Os objetos construções e paisagens não estão em harmonia métrica) e toda a perspectiva é invertida. Ou seja o ponto de fuga não está na profundidade da imagem e sim fora da pintura.

O que isso significa para o observador? É que quando se contempla um ícone, mesmo que o racional não perceba, o mais profundo da alma pressente que se está dentro da imagem, fazendo parte de uma realidade que tem outros princípios e outra lógica, descobre-se, de fato, que se faz parte integrante da Beleza que Se revela.

Para saber mais:
Pavle Evdokimov – La teologia della bellezza, Roma, 1971
I. Mª. Donadeo-Os Ícones, Ed. Paulinas, 1996 e Ícones de Cristo e dos Santos, 1997
Egon Sendler S.J. – L’Icône, imagem do invisível,
Colletion Christus, Nº54 – Desclée de Brouwer, 1987

S. Exa. Revma. Chrisóstomo
Arcebispo do Rio de Janeiro e Olinda-Recife
"Boletim Interparoquial", novembro de 2007

Lítia

Do grego λιτή, oração. Uma solene e fervorosa intercessão que ocorre nas Grandes Vésperas das Vigílias das Grandes Festas e em certos outros dias (Grandes Completas na Vigília do Natal e da Teofania). No final da Litania de Súplica, durante o canto dos troparia indicados para o dia, o clero segue em procissão para o nártex, e a igreja inteira é incensada pelo diácono. Ao final dos troparia uma longa litania é entoada pelo diácono, para todas as necessidades do povo cristão. Então, durante o canto da Apóstica o clero retorna para o centro da igreja, e após o canto do tropário-Apolitikion ocorre a bênção dos pães (Artoklasia).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

autor: Stanislav Belyaevsky

“A Respeito da Data da Páscoa e do 1º Concílio Ecumênico”

Pano de Fundo da Questão Pascal

De acordo com sua agenda, também era suposto que o Concílio revolvesse o espinhoso problema sobre a data da Páscoa.

A primeira controvérsia sobre isto agitou a Igreja no segundo século: as comunidades Asiáticas celebravam a grande festa no décimo-quarto dia do mês, independente do dia da semana em que caísse. Outras igrejas que seguiam a prática Asiática, no fim de algum tempo, adotaram o uso geral. Desde então restou somente uma minoria que se recusava a aceitar a data normativa.

Estes “Quartodecimanos”, como eram chamados, eram constituídos por pequenos grupos dissidentes cujos seguidores, formalmente, foram recebidos na Igreja Católica pela unção do Crisma, depois de renunciarem da sua antiga posição.

Durante os debates levantados pela prática particular dos Asiáticos, ninguém os acusou de serem Judaizantes porque ninguém questionava o método de cálculo da Páscoa Judia; pois era por esse método que todo mundo calculava a data anual da Grande Festa Cristã. Entretanto, usando o método de cálculo Judeu, logo foram levantadas algumas questões bem apropriadas.

Após a esmagadora derrota da revolta de Simon Bar Kochba, em 135, o Judaísmo, de fato, perdeu seu contato com a Palestina. Doravante, se a Bíblia explicitamente indica quando celebrar a Páscoa, ela não faz nenhuma referência clara ao equinócio. Mas, aguardando intensamente a esperada oferta dos primeiros frutos da colheita, uma celebração antes desse tempo seria impossível. Tal critério, não obstante, perdeu sua exatidão com o desaparecimento de um centro geográfico.E uma variedade de cálculos começou a ser usada, produzindo resultados conflitantes.

No final do segundo século ou no começo do terceiro as autoridades Judaicas estabeleceram um novo sistema para fixar a data da Páscoa. Este novo sistema não levava em consideração o equinócio de primavera, então uma vez a cada três anos a Páscoa acontecia antes dele. Muitos Cristãos ficaram perturbados com isso; porquê, eles se perguntavam, eles celebrariam o memorial da paixão e ressurreição baseados em um cálculo de um calendário que não estava em uso no tempo de Jesus? Além disso, no novo sistema Judeu, considerando o período entre os equinócios, poderia existir uma segunda anomalia: a Páscoa poderia ser celebrada duas vezes em um período de doze meses, isto é, de um equinócio de primavera ao próximo, ou ela poderia não ser celebrada de um para o outro. Em suma, os Cristãos davam grande importância para a relação entre a Páscoa e o equinócio de primavera porque o próprio tempo da paixão estava ligado aos seis dias da Criação.

Além do mais, como o distanciamento entre a sinagoga e a Igreja crescia, parecia anormal para a maioria dos Cristãos depender dos Judeus para a determinação da data da Páscoa. Este sentimento incitou muitos autores a escrever trabalhos durante o terceiro século, no Ocidente bem como no Oriente. Deste modo um cientista alexandrino, Anatolius, que se tornou Bispo da Laodiceia, na Síria, utilizou um ciclo de dezenove anos, descoberto pelo astrônomo ateniense Meto, em 432 antes de Cristo, para determinar a data da Páscoa. Este ciclo estava para ser imposto a todos os Cristãos do mundo mais tarde, de acordo com este sistema, a Páscoa sempre seria celebrada depois do equinócio de primavera.

No começo do século IV, os Judeus modificaram novamente seu método de cálculo da Páscoa, de forma que todas as possíveis datas da festa caíssem em um dia do mês de Março; esta mudança dava grande importância ao cálculo que possibilitava ser a Páscoa antes do equinócio. Entretanto a maioria das igrejas havia há muito tempo deixado de seguir o método Judeu para cálculo da data da Páscoa, mas uma relativamente forte minoria ao redor da igreja de Antioquia continuava seguindo o método judeu. Os seguidores desta prática atribuíam os seguintes dizeres aos apóstolos: “Assim como para você, não faça cálculos. Mas quando seus irmãos de cincuncisão celebrarem sua Páscoa celebre a sua também... e mesmo se eles estiverem errados em seus cálculos, não se preocupe com isso.”

Ao lado desta importante diferença, existia também, algumas vezes, pequenas variações na data da Páscoa entre Roma e Alexandria. Em 314, o Concílio de Arles sugeriu que o Bispo de Roma indicasse a data anual da festa para todas as igrejas. O imperador Constantino não estava somente preocupado com a discordância sobre a natureza divina do Logos, mas também com as diferentes datas da Páscoa. De acordo com o historiador Sozomen, ele deve ter mandado o Bispo Ossius de Córdova a Alexandria para examinar estes dois problemas.

A Questão e o Concílio de Nicéia

A questão toda foi então submetida aos Padres reunidos em Nicéia. Nenhum documento autêntico do concílio existe. Se foi redigida qualquer minuta do encontro, ela não sobreviveu. Os únicos documentos inquestionáveis vindos do concílio são o Símbolo de Fé, os Vinte Cânones, a certamente incompleta lista de membros, e uma carta Sinodal endereçada à Igreja de Alexandria. O documento sobre a Páscoa que João, o Escolástico fez, em um apêndice para a Sinagoga, e que algumas autoridades identificam com o decreto que os Padres do Concílio Antioquia se referem não é, propriamente falando, uma falsificação; é um ajuste redacional, de origem desconhecida, compilado de documentos autênticos que nos foram legados. Desta forma, este documento não nos diz muito mais do que os documentos originais do Concílio. Aqui está o conteúdo do referido texto:

“Do santo concílio de Nicéia a respeito da Santa Páscoa; Então nós colocamos em efeito a opinião de todos reunidos no santo concílio no tempo do piedoso e grande imperador Constantino que não somente convocou os abaixo-assinados Bispos para dar paz à nossa nação mas também ele próprio participou do encontro; ele examinou com eles o que era bom para a Igreja Católica. Portanto, após haver examinado a questão do dever de toda Igreja sob o céu celebrar a Páscoa na mesma data, nós descobrimos que as três partes do universo estão de acordo com os Romanos e com os Alexandrinos; somente uma região oriental discorda. Isto foi julgado bom e oportuno, todas as questões e contradições sendo deixadas de lado, que os irmãos orientais sigam o exemplo dos Romanos e Alexandrinos e todos os outros para que todos possam elevar suas preces aos céus em um único dia da santa Páscoa. E todos os orientais que tinham uma prática diferente assinaram o documento.”

Isto foi um documento escrito, um decreto, cujo texto original pode ter sido perdido? É difícil dar uma resposta categórica. Se havia um decreto real, é difícil de entender como um tão importante documento pode ter sido perdido enquanto os vinte cânones conciliares foram preservados. É verdade que o Concílio de Antioquia o mencionou. Além do mais, Santo Atanásio em seu De Synodis faz referência a um texto, também desconhecido, que começa com as palavras: “Este testemunhos são para serem tomados seriamente por causa da sua origem e sua Antigüidade”. O Concílio de Antioquia que emitiu o cânone sobre a Páscoa não deve ser confundido com o Synodus in encaenis que teve lugar naquela cidade, em 341. Ele foi dez anos mais cedo, colocando-o muito perto do havido em Nicéia. Mas o termo oros pode ter o sentido de “decisão”, “medida adotada”, e não necessariamente um decreto escrito. E mesmo para a referência encontrada em De Synodis, escrito em 339, é muito vago para nós deduzir que isto se refere ao suposto decreto. Uma passagem do Panarion de Santo Epiphanius estabelece uma distinção entre as decisões tomadas pelos padres de Nicéia:

“No tempo do concílio, eles estabeleceram algumas regras eclesiásticas; mas ao mesmo tempo a respeito da Páscoa, eles prescreveram unidade e acordo para o santo e muito virtuoso Dia de Deus”.

Parece claro que, igualmente como com o cisma de Melécio, não houve um decreto, enquanto tal, sobre uma data uniforme para a Páscoa. Entretanto, é possível, baseando-se em certos testemunhos, saber o que foi decidido sobre esta questão. A Carta Sinodal à Igreja de Alexandria determinava o seguinte:

“Todos nossos irmãos orientais que até agora não têm estado de acordo com os Romanos ou vós ou com todos aqueles que desde o começo têm feito como vós fazeis, de agora em diante celebrarão a Páscoa no mesmo tempo que vós”.

A Carta Circular do Imperador Constantino às Igrejas sobre o Concílio de Nicéia, obviamente, tocou na questão pascal e indicou a solução a que chegaram:

“A Páscoa Cristã deve ser celebrada no mesmo dia por todos; e para o cálculo da data, nenhuma referência deve ser feita aos Judeus. Isto poderia ser humilhante e, além disso, é possível para eles ter duas Páscoas num só ano. [Nós temos visto o que esta asserção significa]. Conseqüentemente, as igrejas devem conformar-se com a prática seguida por Roma, África, Itália, Egito, Espanha, Gália, Grã-Bretanha, Líbia, Grécia, Ásia, Ponto e Cilícia”.

O próprio Santo Atanásio citou Cilícia como uma das regiões onde a data da Páscoa era calculada de acordo com o método Judeu. De fato, diferentes práticas existiam lá, como em outros lugares, como nós aprendemos de Sócrates. O Cânone I do Concílio de Antioquia mencionou a decisão de Nicéia sem uma descrição precisa; este concílio ameaçou graves sanções – excomunhões para os leigos, deposição para os clérigos – contra qualquer um que doravante contrariassem esta decisão celebrando a Páscoa “com os Judeus”. A Constituição Apostólica, compilada na segunda metade do século IV, nos mostra a que extensão o texto da mais antiga Didascália foi reelaborado na questão da Páscoa a fim de se harmonizar com Nicéia. Nós lemos:

“Vós, irmãos, celebrem a Páscoa com muito cuidado de acordo com o equinócio de forma a não comemorar a Paixão duas vezes no ano. Em um ano, vocês rememorarão somente uma vez Aquele que sofreu somente uma vez e vos empenheis em não mais celebrar com os Judeus”.

Os Cânones dos Santos Apóstolos encontrado no fim da Constituição Apostólica veio à tona no norte da Síria, no mesmo ambiente. O Cânone 7 declara: “Se um Bispo, um Presbítero, ou um Diácono celebrar o santo dia da Páscoa antes do equinócio da primavera, com os judeus, deixe-o ser deposto”. Santo Epifânio, aperfeiçoando a posição sobre a Páscoa tirada da seita Audiana, nos lembra dos três princípio que devem guiar os ortodoxos para determinar a data da Páscoa: a lua cheia, o equinócio, e o Domingo.

Nós podemos, portanto, reconstruir os elementos da decisão do primeiro Concílio Ecumênico a respeito da Páscoa da seguinte maneira:

  1. Esta festa deve ser celebrada no mesmo domingo por todas as igrejas.
  2. Deve ser levada em conta a lua cheia que segue o equinócio de primavera.
  3. Conseqüentemente, as igrejas orientais que seguiam os Judeus no cálculo da data devem abandonar este uso. Contudo, o concílio não entra em detalhes do método de calcular e, portanto, não impõe o uso do ciclo dos dezenove anos. Como o professor D.M. Ogitsky corretamente nota, uma detalhada e exaustiva ordenação de todos os aspectos técnicos da computação da Páscoa (inclusive os problemas nascidos pela inexatidão do calendário Juliano) não era da competência do Concílio.

Entretanto, pouco a pouco foi introduzida a idéia de que o Ciclo Alexandrino de dezenove anos tinha sido sancionado pelos Padres de Nicéia. Parece que esta já era a opinião de Santo Ambrósio. Esta crença foi definitivamente implantada no começo do século VI. Dionysius Exiguus afirmou, não em termos duvidosos, que o ciclo em questão tinha sido estabelecido pelos Padres de Nicéia “non tam pertitia saeculari quam Sancti Spiritus illustratione”. No século VII, o autor do Chronicon Paschale sustentava que este ciclo, que ele chamava “admirável e digno de memória eterna”, foi adotado pelo Primeiro Concílio Ecumênico sob inspiração divina. A influência de Dionysius no Ocidente foi tamanha que o ciclo dos dezenove anos propagou-se por todos os lugares; no reinado de Carlos Magno, ele foi imposto para a totalidade da Cristandade Latina. Desde então, houve completa concordância sobre a data da Páscoa entre o Ocidente Latino e o Oriente Bizantino. Esta situação foi mantida até 1582 quando a Igreja Católica Romana introduziu o calendário Gregoriano.

A recusa em celebrar a Páscoa “com os Judeus” (meta ton Ioudaioun) significa que, nos antigos textos canônicos, nós não celebrávamos esta festa baseando sua data no método de cálculo dos Judeus. Mas, ao contrário do que se acreditou mais tarde, esta recusa de nenhuma forma visava evitar uma acidental celebração da Páscoa Cristã e da Páscoa dos Judeus juntas. Isto é claramente mostrado pelo fato de que durante os quatro séculos depois de Nicéia, a Páscoa Cristã e a Páscoa dos Judeus coincidiram muitas vezes. Santo Atanásio, falando para aqueles que seguiam o método Judeu de cálculo da data da Páscoa e que foram mais tarde chamados de Protopaschites, não disse que eles celebravam esta festa no mesmo dia dos Judeus, mas somente durante o mesmo período. Na Idade Média, quando tornou-se impossível celebrar a Páscoa Judia e a Páscoa Cristã juntas por causa do atraso de tempo no calendário Juliano, a idéia de que a concelebração das festas tinha sido proibida pela lei da igreja foi aceita generalizadamente; esta idéia, entretanto, estava baseada no literal e errôneo entendimento da expressão “meta ton Ioudaion”. Deste modo, Zonaras comentando sobre o Cânone 7 dos Santos Apóstolos declarou a respeito dos Judeus que a sua não-festiva Páscoa deveria vir primeiro e então nossa Páscoa viria em seguida. Matthew Blastares, que juntou o conhecimento e opiniões de sua época a respeito da questão da Páscoa, indicou que uma das normas a seguir para determinar a data da Páscoa era a não-coincidência da Páscoa Cristã e da Páscoa Judia.

A decisão do Concílio de Nicéia em trazer os Protopaschites alinhados com a prática geral levantou sérias resistências contrárias. O Cânone I de Antioquia nos dá a mais antiga evidência sobre esta matéria. Teodoreto de Ciro escreveu o seguinte sobre um anacoreta chamado Abraão:

“Sua simplicidade em princípio o levou a celebrar a Páscoa antes do tempo, sendo aparentemente ignorante do que os Pais de Nicéia tinham estipulado; ele queria seguir o uso antigo. Além disso, muitos outros naquele tempo estavam no mesmo estado de ignorância”.

Em certos casos, isto era uma recusa consciente em aceitar Nicéia; tal era o caso dos Audianos. Eles foram tão longe como acusar a Igreja oficial de ter mudado o método de cálculo da data da Páscoa para agradar o Imperador Constantino, o que era completamente errado. O cálculo Judeu tinha uma inquestionável atração para as comunidades cristãs da Diocese civil do Oriente, especialmente quando o cálculo Alexandrino levou a uma Páscoa tardia, isto é, um mês depois do equinócio. Isto criou um problema real. Tal foi o caso em 387 quando a Páscoa Cristã caiu em 25 de abril enquanto que a festa Judia já tinha sido celebrada em 20 de março. São João Chrisóstomo, então presbítero em Antioquia, fez um discurso. Ele fez referência às decisões de Nicéia; e, levantando somente um ponto de vista puramente disciplinar, ele disse que “mesmo se a Igreja tivesse se enganado, exatidão na observância do tempo não seria tão importante quanto uma ofensa causada por esta divisão e este cisma”. A tardia data da Páscoa naquele ano também nos guarneceu com uma muito interessante homilia. O autor, um oriental desconhecido, fez um grande esforço para estabelecer a precisão do ponto fundamental do equinócio. Aqui está como ele juntou as regras que devem ser observadas:

“Com efeito, a coisa toda é ter certeza de que o décimo-quarto do mês não preceda o equinócio de primavera, que o Domingo da Ressurreição esteja livre da dependência do décimo-quarto. É isto que causa problemas àqueles que calculam impropriamente. É necessário, com efeito, que o décimo-quarto caia na semana que precede o dia fixado para a ressurreição. Se ele cai no meio da semana, a solução é facilmente achada; se pelo contrário, ele cai no Domingo, deve haver um meticuloso tratamento porque aqueles que não fazem uma cuidadosa investigação algumas vezes cometem o erro de acreditar que ele é o décimo-quinto e não o décimo-quarto. Isto é precisamente o que aconteceu no presente caso”.

Este texto nos mostra como no Oriente os ortodoxos entenderam e colocaram em prática a ordem Nicena. Com o tempo a prática Protopaschite desapareceu. Além disso, a legislação civil contribuiu para o seu desaparecimento; uma lei de 21 de março de 413 punia com o exílio qualquer um que celebrasse a Páscoa em outra data que não fosse da Igreja Católica. Esta determinação foi levantada novamente em outra lei de 8 de junho de 423.

Arcebispo PETER de Nova York e Nova Jersey
Traduzido pelo Sr. Dom Ambrósio, Bispo Ortodoxo do Recife
Boletim Iiterparoquial, maio 2004