Não é possível estabelecer com precisão o que é a história e o que é lenda nas tradições relativa a “Santa Maria do Egito”. Deve-se admitir simplesmente o fato de a Igreja ter querido fazer dela, como o cantamos nas matinas: “um exemplo de arrependimento”. Ela é um símbolo de conversão, de contrição e de austeridade. . Ela exprime, neste último domingo da Quaresma, o derradeiro, o apelo mais urgente que a Igreja nos dirige antes dos dias sagrados da Paixão e da Ressurreição.
A Epístola lida na Liturgia (Hb. 9, 11-14) compara o ministério de Cristo ao do Sumo Sacerdote hebreu, que entrava uma vez por ano no Tabernáculo; mas Cristo “entra de uma vez por todas no santuário nos garantindo a salvação eterna”. O Sumo Sacerdote purificava e santificava os fiéis derramando sobre eles o sangue e os restos mortais das vítimas. “Quando mais o sangue de cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu ele mesmo sem mácula a Deus, purificará nossa consciência das obras mortas afim de que prestemos um culto a Deus Vivo?”.
O Evangelho (Mc. 10, 32-45) descreve a ida de Jesus a Jerusalém, antes de sua Paixão. Jesus toma à parte os doze Apóstolos e começa a lhes dizer que será preso, condenado, morto e que ressuscitará. No início da Semana Santa, nós somos levados à parte pelo Salvador para uma conversa íntima onde ele nos explica o mistério da Salvação. Nós pedimos ao Mestre para nos mostrar mais profundamente o que se passa, por nós, no Gólgota? Nós damos a Jesus a possibilidade de tal encontro secreto? Aproveitamos as ocasiões de um “tête-à-tête” com o Senhor? Pois eis que os filhos de Zebedeu se aproximam de Jesus e lhe pedem para sentar em Sua glória, um à Sua direita e outro à Sua esquerda. Jesus lhes faz - e nos faz esta pergunta: “podereis vós beber o cálice que eu bebo”? O Mestre explica pois aos discípulos que a verdadeira grandeza consiste em servir. “O Filho do homem... não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos”.
A tarde desse último domingo de Quaresma já deixa entrever os clarões da entrada na Semana Santa, domingo próximo. Domingo próximo será o domingo de Lázaro, que Jesus ressuscitou. As vésperas celebradas na tarde do quinto domingo de Quaresma anunciam já Lázaro, o pobre da parábola angélica. “Permita que eu fique com o pobre Lázaro e livra-me do castigo do rico... Concede-nos rivalizar com sua resistência e sua longevidade”. A Igreja, de certa forma impaciente para entrar nos santíssimos dias que começarão na próxima semana, nos empurra, neste último domingo de Quaresma, de ir adiante da Festa que celebramos em sete dias: “Elevemos os cantos de oferenda para Domingo de Ramos, para que o Senhor, vindo gloriosamente a Jerusalém faça morrer a morte por seu poder divino... Preparemos com fé os estandartes da vitória gritando: “Hosana ao criador de todas as coisas!”
domingo, 21 de março de 2010
O Quinto Domingo da Grande Quaresma – Domingo de Santa Maria do Egito
sexta-feira, 12 de março de 2010
O Quarto Domingo da Grande Quaresma – Domingo de São João Clímaco
A Igreja chama hoje nossa atenção sobre São João Clímaco, pois esse padre, que viveu no século VII, realizou em sua vida o ideal de penitência que deveríamos manter sob a vista durante a Quaresma. “Honremos João, orgulho dos ascetas...”, é o que cantamos às Vésperas. Durante as Matinas, nós dizemos ao Santo: “Ao emagrecer teu corpo pela abstinência, tu renovaste a força de tua alma, enriquecendo-a de glória celeste”. No entanto, a Igreja dá à doutrina de São João Clímaco uma interpretação correta, quando proclama que a ascese não tem nenhum sentido nem nenhum valor se não for uma expressão de amor e quando, ainda em Vésperas, ela dirige ao Santo as seguintes palavras: “...pois a todos (nós) tu clamaste: Amai O Senhor e encontrareis a graça para sempre, pois nada é preferível ao Seu Amor...”
Nós continuamos, durante a Liturgia, a leitura da Epístola aos Hebreus (Hb. 6, 13-20). Ela nos fala da paciência e da permanência de Abraão e da realização final das promessas que Deus havia feito ao Patriarca. É impossível a Deus mentir. É por isso que, como Abraão, nós somos “encorajados”- nós que encontramos um refúgio - a agarrar fortemente a esperança que nos é oferecida.
O Evangelho (Mc. 9, 16-30) descreve a cura de um filho mudo, possuído pelo demônio, que o pai conduz a Jesus. O Senhor diz ao pai: “Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê”. O pai do menino clama em lágrimas: “Eu creio Senhor! (porém) ajuda a minha incredulidade”. Nós não poderíamos encontrar uma melhor fórmula para expressar ao mesmo tempo a existência de nossa fé e a fraqueza dessa fé. Porém somos nós capazes de chorar com lágrimas ardentes quando dizemos à Nosso Salvador: “Eu creio... mas ajuda a minha incredulidade!”? Jesus tem piedade do pai. Ele aceita aquela fé. Ele cura o filho. Os discípulos, indo ter com o Mestre em particular, perguntam-lhe porque não puderam eles mesmos expulsar o demônio. Jesus responde: “Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum”. Não vamos nós, porém, acreditar, que, uma abstinência prolongada e a repetição de algumas orações sejam suficientes para dar esta força que os discípulos ainda não possuíam. A oração e o jejum, no sentido mais profundo dessas palavras, significam uma renúncia radical a si próprio, a fixação da alma nessa atitude de confiança e de humildade que tudo espera da misericórdia de Deus, a submissão de nossa vontade à vontade do Senhor, a colocação de nosso ser inteiro nas mãos do Pai. Aquele que pela graça de Deus atinge este estado pode expulsar os demônios. Não poderíamos nós tentar dar ao menos os primeiros passos nesse caminho? Se tentarmos, seremos surpreendidos pelo resultado que obteremos.
domingo, 12 de abril de 2009
Domingo de Ramos – Entrada em Jerusalém
Hoje Ele volta da Betânia e caminha por Sua livre vontade em direção à Sua santa e abençoada Paixão, para consumar o mistério de nossa salvação... Corramos para acompanhá-Lo enquanto Ele se apressa rumo à Sua Paixão, e imitemos aqueles que encontraram-No então, não apenas cobrindo Seu caminho com ornamentos, galhos de oliveira ou ramos, mas fazendo tudo o que pudermos para prostrarmo-nos diante Dele humildemente e tentando viver como Ele gostaria... Então espalhemos diante de Seus pés, não ornamentos ou galhos de oliveira, que agradam os olhos por algumas horas e então fenecem, mas a nós mesmos, revestidos complemente n’Ele. Nós que fomos batizados em Cristo devemos ser os ornamentos espalhados diante d’Ele.
Reconheçais a dignidade da vossa natureza... imagem restaurada em Cristo. Nascemos no presente apenas para sermos renascidos no futuro. Nosso apego, portanto não deveria ser ao transitório; ao contrário, devemos pretender o eterno.
terça-feira, 7 de abril de 2009
"Sermão sobre a Anunciação da Santíssima Mãe de Deus"
Nossa presente assembléia em honra da Santíssima Virgem me inspira, irmãos, a falar Dela uma palavra de louvor, também em favor daqueles que vieram para esta solenidade da igreja. Esta palavra inclui um louvor às mulheres, uma glorificação ao seu gênero, cuja glória é trazida por Ela, Ela que é ao mesmo tempo Mãe e Virgem. Ó desejada e maravilhosa assembléia! Celebre, ó natureza, na qual é rendida honra à Mulher; rejubila, ó raça humana, na qual a Virgem é glorificada. “Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rom.5;20). A Santa Mãe de Deus e Virgem Maria nos reuniu aqui, Ela o puro tesouro da virgindade, o paraíso planejado para o Segundo Adão – o lugar exato, em que foi cumprida a co-união das naturezas, em que foi confirmado o Conselho da salvífica reconciliação.
Quem alguma vez viu, quem alguma vez ouviu, que dentro de um ventre o Ilimitado Deus poderia habitar, Aquele que os Céus não podem conter, Aquele que o ventre de uma Virgem não pode limitar?
Aquele que nasceu da mulher não é somente Deus e Ele não é somente Homem. Este que nasceu fez da mulher, sendo a antiga porta do pecado, a porta da salvação; onde o Mal, pela desobediência, despejou seu veneno, lá o Verbo fez para Ele próprio,pela obediência, um templo vivificante, de onde o arqui-pecador Caim saltou para fora, lá sem semente nasceu Cristo o Redentor da raça humana. O Amante da Humanidade não desdenhou nascer da mulher, uma vez que isto concedeu a Sua vida. Ele não estava sujeito à impureza, sendo assentado dentro do ventre, que Ele mesmo adornou livre de toda iniqüidade. Se por acaso esta Mãe não permanecesse Virgem, então aquele que nascesse Dela poderia ser um mero homem, e o nascimento não seria nenhum sábio milagre; mas uma vez que Ela depois do nascimento permaneceu uma Virgem, então como é que Aquele que nasceu de fato – não é Deus? É um mistério inexplicável, uma vez que de uma maneira inexplicável nasceu Ele Que sem nenhum impedimento passa através das portas quando elas estão fechadas. Tomé, confessando Nele a co-união de duas naturezas, gritou: “Meu Senhor, e meu Deus” (Jo.20:28).
O Apóstolo Paulo diz, que Cristo é “escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (I Cor. 1:23): eles não perceberam o poder do mistério, uma vez que Ele era incompreensível para a mente: “porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da Glória” (I Cor.2:8). Se o verbo não fosse colocado dentro do ventre, então a carne não teria ascendido com Ele ao Trono Divino; se Deus tivesse desdenhado entrar no ventre, que Ele criou, então os Anjos também poderiam ter desdenhado servir à humanidade.
Aquele, que por Sua natureza não estava sujeito aos sofrimentos, através de Seu amor por nós sujeitou-Se a muitos sofrimentos. Nós cremos, não que Cristo através de alguma gradual elevação em direção à natureza Divina foi feito Deus, mas que sendo Deus, através da Sua misericórdia Ele foi feito Homem. Nós não dizemos: “um homem feito Deus”; mas nós confessamos, que Deus encarnou e se fez Homem. Sua Serva foi escolhida para Ele mesmo como Mãe por Aquele que, em Sua essência não tinha mãe, e Aquele que, através da Divina providência apareceu sobre a terra na imagem de homem, não tem pai aqui. Como alguém, Ele mesmo pode ser ambos sem pai e sem mãe, de acordo com as palavras do Apóstolo: “Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida...” (Heb. 7:3)? Se Ele – fosse somente um homem, então Ele não poderia ser sem mãe – mas verdadeiramente Ele teve uma Mãe. Se Ele – fosse somente Deus, então Ele não poderia ser sem Pai – mas de fato Ele tem um Pai. E ainda como Deus o Criador Ele não tem mãe, e como Homem Ele não tem pai.
Nós podemos ser convencidos disto pelo verdadeiro nome do Arcanjo, fazendo anunciação a Maria: seu nome é Gabriel. O que este nome significa? Ele significa: “Deus e homem”. Uma vez que Aquele sobre Quem ele anunciava era Deus e Homem, então seu verdadeiro nome aponta antecipadamente para este milagre, então com fé aceitamos o fato da Divina revelação.
Seria impossível para um mero homem salvar as pessoas, uma vez que todo homem necessita do Salvador: “Porque todos pecaram – diz São Paulo - e destituídos estão da glória de Deus” (Rom. 3:23). Desde que o pecado sujeita o pecador ao poder do demônio, e o demônio o sujeita à morte, então nossa condição torna-se extremamente infeliz: não existe nenhum caminho que nos livre da morte. Foram mandados médicos, isto é, os profetas, mas eles somente podiam apontar mais claramente a enfermidade. O que eles fizeram? Quando eles viram, que a doença estava fora do alcance da habilidade humana, eles chamaram do Céu o Médico; um deles disse “Abaixa, ó Senhor, os teus céus, e desce” (Salmos 143[144]:5); outros gritaram: “Cura-me, Ó Senhor, e eu serei curado” (Jer. 17:14); “faze resplandecer o Teu rosto, e seremos salvos” (Sl. 79[80]:3). E ainda outros: "Mas, na verdade, habitaria Deus na terra?” (I Reis 8:27); “apressa-te e antecipem-se-nos as tuas misericórdias, pois estamos muito abatidos” (Sl.78[79]:8). Outros disseram: “Pereceu o benigno da terra, e não há entre os homens um que seja reto” (Miq.7:2). “Apressa-te, ó Deus, em me livrar; Senhor, apressa-te em ajudar-me” (Sl.69[70]:1). “Se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará” (Hab.2:3). “Desgarrei-me como a ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos” (Sl.118[119]:176). “Virá o nosso Deus, e não se calará” (Sl.49[50]:3). Aquele que, por natureza é Senhor, não desdenhou a natureza humana, escravizada pelo sinistro poder do demônio, o misericordioso Deus não consentiu que ela estivesse para sempre sob o poder do demônio, o Eterno veio e deu em resgate o Seu Sangue; para a redenção da raça humana da morte Ele deu Seu Corpo, que Ele aceitou da Virgem, Ele livrou o mundo da maldição da lei, aniquilando a morte pela Sua morte. “Cristo nos resgatou da maldição da lei” – exclama São Paulo (Gal. 3:13).
Portanto sabemos, que nosso Redentor não é simplesmente um mero homem, uma vez que toda a raça humana estava escravizada pelo pecado. Mas Ele da mesma forma não é somente Deus, não participante da natureza humana. Ele tinha um corpo, porque se Ele não tivesse Se revestido em mim, então Ele, da mesma maneira, não poderia ter me salvado. Mas, tendo habitado o ventre da Virgem, Ele Se vestiu em meu destino, e dentro deste ventre Ele concluiu uma mudança miraculosa: Ele concedeu o Espírito e recebeu um corpo, o Único Que verdadeiramente (habitou) com a Virgem e (nasceu) da Virgem. E então, Quem é Ele, que Se manifesta a nós? O Profeta Davi mostra isto para ti nestas palavras: “Bendito aquele que vem em Nome do Senhor” (Sl. 117[118]:26). Mas diga-nos mais claramente, Ó profeta, Quem é Ele? O Senhor é o Deus das Multidões, diz o profeta: “O Senhor é Deus, e ele Se nos manifestou” (Sl.117[118]:27). “O Verbo Se fez carne” (Jo.1;14): foram unidas as duas naturezas, e a união permaneceu sem se misturar.
Ele veio para salvar, mas teve também que sofrer. O que um tem em comum com o outro? Um mero homem não pode salvar; e Deus em Sua natureza não pode sofrer. Por que meios foi feito um e outro? Como que Ele, Emanuel, sendo Deus, foi feito também Homem; Ele salvou através do que Ele era – e isto, Ele sofreu pelo que Ele foi feito. Razão pela qual quando a Igreja observou que a multidão dos Judeus O coroou com espinhos, lamentando a violência dos espinhos, ela disse: “Filhas de Sião, saiam e vejam a coroa, de quê é coroado Ele, Filho da Sua Mãe” (Cant. 3:11). Ele usou a coroa de espinhos e destruiu o julgamento sofrendo pelos espinhos. Ele, somente Ele, é Aquele que é ambos no seio do Pai e no ventre da Virgem; Ele, somente Ele, é Aquele – nos braços da Sua Mãe e nas asas dos ventos (Sl.103[104]:3); Ele, a Quem os Anjos inclinam-se em adoração, ao mesmo tempo reclina-se na mesa dos publicanos. Ele, sobre Quem os Serafins não ousam fitar, sobre Ele, ao mesmo tempo, Pilatos pronunciou a sentença. Ele é Aquele e o Mesmo, a Quem o servo golpeou e perante O Qual toda a criação treme. Ele foi pregado na Cruz e subiu ao Trono de Glória – Ele foi colocado no sepulcro e Ele estendeu os céus como uma tenda (Sl.103[104]:2) – Ele foi contado no meio dos mortos e Ele esvaziou o inferno; aqui sobre a terra, eles blasfemaram contra Ele como um transgressor – lá no Céu, eles exclamaram a Ele glória como o Todo-Santo. Que mistério incompreensível! Eu vejo os milagres, e eu confesso, que Ele é Deus; eu vejo os sofrimentos, e eu não posso negar, que Ele é Homem. Emanuel abriu as portas da natureza, como homem, e preservou intacto o selo da virgindade, como Deus: Ele emergiu do ventre da mesma maneira com que Ele entrou através da Anunciação; da mesma forma maravilhosa Ele foi ambos, nascido e concebido: sem paixão Ele entrou, e sem dano Ele emergiu; como se referindo a isto o Profeta Ezequiel diz: ”Então me fez voltar para o caminho da porta do santuário exterior, que olha para o oriente, a qual estava fechada. E disse-me o Senhor: Esta porta estará fechada, não se abrirá; ninguém entrará por ela, porque o Senhor Deus de Israel entrou por ela: por isso estará fechada” (Ez.44:1-2). Aqui ele claramente indica a Santa Vigem e Mãe de Deus, Maria. Cessemos toda contenda, e deixemos que as Sagradas Escrituras iluminem nossa razão, assim nós também receberemos o Reino dos Céus por toda a eternidade. Amém!
Traduzido pelo Sr. Dom Ambrósio, Bispo Ortodoxo do Recife
Boletim Interparoquial de abril de 2004
às
06:00
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quinta-feira, 26 de março de 2009
"O Verdadeiro Herói da Quaresma é o Corpo"
Suplemento de SOP (Servisse Orthodoxe de Presse) nº 327, abril 2008
Tradução para a língua portuguesa: Manastir Sv. Apostola Petra i Pavla, BiH.
A Quaresma é uma regra. Uma regra de jejum, universalmente aceita, muito estrita: sete semanas de abstinência de carne, laticínios, ovos e peixe. Durante dois meses, todo mundo renuncia ao sangue, à animalidade. Este jejum é acompanhado de períodos de abstinência severa, onde não comemos nada: bem como os três primeiros dias da Grande Quaresma. Muitas pessoas o fazem. E assim, na primeira refeição depois da comunhão eucarística que segue estes três dias de jejum rigoroso, o gosto das coisas é completamente extraordinário! Sentimos em nossos corpos a própria idéia de estarmos nas mãos de Deus. É uma das primeiras lições da Quaresma.
O jejum pode ser ele compreendido, no século XXI, como sendo uma privação só de alimentos?
É claro que não existe somente o jejum de alimentos! Não se trata de jejuar e ir ao baile todas as noites... mas comecemos primeiramente pelo ventre, pelo instinto. A Quaresma é um tempo de luto, mas dum luto jubiloso, pacífico, apaziguado, radioso. É bom que o corpo pague seu tributo. O jejum de alimentos permite ritmar diferentemente o tempo. Ele provoca rupturas interessantes: não podemos mais sair e receber. É um apelo extremamente forte na cotidianidade. Sobretudo, ele leva a pensar em outros jejuns: como o da carne, compreendendo o casamento. Existe também o silêncio, ou ainda o jejum do tempo: saber abrandar as coisas, no lugar de estar na agitação. Mas não escolhemos nosso jejum: é necessário passar pela suspensão da Criação na Liturgia e pelo jejum vivido em comunhão.
Como os ortodoxos vivem a Quaresma no plano litúrgico?
É um tempo de ofícios específicos, com textos próprios centrados sobre o sentido do retorno a Deus. A Liturgia da Quaresma descreve a queda do homem, sua história espiritual e sua salvação. A mistura do jejum e da abundância dos ofícios torna este tempo realmente particular para o ortodoxo. O horizonte de Páscoa torna-se verdadeiramente um horizonte de esperança, no sentido mais concreto do termo: o tempo pós Páscoa permitirá de reatar com um alimento vivificante e tornar leve a Liturgia.
Qual é o lugar da dimensão do partilhar?
A Quaresma não é somente um tempo forte de partilha litúrgica, mas também de partilha comunitária onde os ortodoxos se encontram. E lá, o personagem central e o pobre. Em grego, existem dois vocábulos para “pobre”: penês e ptôchos. O penês é aquele que tem necessidade daquilo que podemos cumular pela filantropia. O ptôchos é o pobre absoluto, o qual não podemos cumular a espera. Só podemos nos livrar dele dando-lhe aquilo que nos custa. Ora, o quê nos custa, senão nós mesmos? Este pobre é a imagem de Deus sobre a terra. Todas as privações da Quaresma não têm outro sentido além da caridade.
A Quaresma é então um tempo de conversão?
A grande palavra, é metanóia: o reverter-se, em grego, quer dizer arrependimento, o retorno a Deus (o contrário de metanóia, é a paranóia!). Logo, é um convite a descobrir que eu não sou o centro do mundo: antes de julgar os outros, devo me julgar a mim mesmo. A Quaresma é o tempo de julgamento. É necessário fazer esta experiência do julgamento de nós mesmos para chegar ao perdão. Não que seja bom em si julgar-se, mas nos é necessário compreender a que ponto estamos enfermos, para provar como somos perdoados e o quanto devemos perdoar. É o que os Padres do deserto chamam de penthos, a “jubilosa tristeza” ou a “alegria dolorosas”. Dolorosa, porque provamos na paciência, tal como o Cristo em Sua Paixão. Mas este sofrimento de estar longe de Deus tornar-se também uma alegria, pois que ele nos aproxima do Deus Que nos libera. A Quaresma é a experiência desta libertação. No deserto, fazemos a experiência de nossos limites, e eis que a graça ergue nossos limites.
Não existe certo risco dum dolorismo?
Absolutamente não! Lastimar-se antropologicamente sobre o limite, descobrir sua finitude e ver como ai habita o infinito de Deus, não é sofrer. O dolorismo é ainda muito de mim. Ora, justamente, a Quaresma nos convida a suspendermos nossa psicologia, este diálogo perpétuo do eu com o eu. A radiosa tristeza é compreender que somos libertados. Descobrimos o quanto, no sono e na saciedade, havíamos esquecido de Deus. Poderíamos nos afligir, mas a redescoberta de Sua presença é tão boa que nos encontramos num estado de ultrapassagem. Logo não é uma glorificação do sofrimento mas, muito pelo contrário, a redescoberta do amor louco de Deus.
O jejum e a vigília permitem estarmos atentos, no corpo e no tempo, à presença de Deus. Por que jejuamos? Para aprendermos a ter fome e sede de outra maneira, sair do biológico. Por que vigiamos? Para aprendermos a esperar, a vencer a noite e a obscuridade, vencer o esquecimento e o que mais se assemelha à morte: o sono. Para vencermos a irrealidade do sonho. Assim, fazemos o luto da ilusão que representa nossa vida biológica. Ao acreditarmos sermos imortais nos lançamos sobre os alimentos, nos lançamos sobre nossos leitos. Ora, a Quaresma é esta suspensão: eu não me lanço, antes me contenho e me examino: “Onde Ele está?” “O que Ele faz?”, “O que Ele diz?” É um tempo de espera. Nós rompemos com a morte – que representam nossos hábitos.
Como isto se traduz na Liturgia oriental?
A Quaresma é a ocasião de dois grandes textos da tradição ortodoxa. Primeiramente, o Grande Cânone de Santo André de Creta, que Olivier Clèment chama o “canto das lágrimas”. Ele evoca as lágrimas jubilosas que marcam o recomeçar do mundo. É a água do Gênesis, as águas do Mar Vermelho, a água maternal. É a água viva que sai do lado de Cristo sobre a Cruz. Estas lágrimas do homem são o sinal do retorno a Deus. O homem se redescobre capaz de render graças por ter compreendido que lhe era inútil lastimar sua sorte. Ele compreendeu que a Ressurreição não espera, que a graça não espera.
O outro texto que recitamos durante a Quaresma é a Oração de Santo Efrém:
“Senhor e Mestre de minha vida,
afasta de mim o espírito de preguiça,
de dissipação, de domínio
e de vã-loquacidade!
Concede a Teu servo
o espírito de temperança, de humildade,
de paciência e de caridade.
Sim, Senhor e Rei,
concede-me que veja as minhas faltas
e que não julgue a meu irmão,
pois Tu és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
Ó Deus, purifica-me a mim pecador (12 vezes).”
Por muito tempo achava esta oração simplíssima: perguntava-me porquê a Igreja lhe concede um lugar tão importante. De fato, ela é simples e difícil, certas vezes. Ela parece ir de si, mas é terrivelmente difícil pô-la em prática. E finalmente, é a oração mais difícil que eu conheço. Pois que se chegares a realizar este programa, logo és um Santo! Logo, estás na paz de Deus, tendo saído das vagas remotas do Mar Vermelho, estás a caminho da Terra prometida, saíste do mundo, fizeste a experiência deste outro mundo que é o Reino.
A Oração de Santo Efrém se acompanha de grandes genuflexões (grandes metanóias), que sublinham este corpo que ora, suplica e pede a tornar-se o corpo glorioso. Descobrimos a opacidade do corpo, para se dar contas do quanto ele tem sede e fome de tornar-se glorioso. O grande herói da Grande Quaresma é o corpo, porque o grande herói de Páscoa é o corpo.
Pois para a Ortodoxia, a Quaresma é indissociável da alegria pascal.
Quem não vive a noite pascal no Oriente cristão não sabe o quê é a Páscoa! Ele não conheceu esta alegria comunitária, ele não provou este corpo que, depois de semanas de privação, reata com o óleo e o vinho, com o cordeiro cevado e tudo o que a terra traz de bom. É o banquete do Reino no clamor do “Cristo Ressuscitou!”, até a manhã que é o renovo matinal do mundo. Não podemos compreender a Quaresma sem esta alegria pascal, sem esta explosão pascal, sem esta irradiação pascal. Nesta noite, no coração das trevas é a luz que se impõe, no coração da tristeza é a alegria que se impõe: a vida triunfa definitivamente da morte. Na hinografia oriental, o Cristo sai do túmulo ofercendo-Se ao inferno. E o inferno descobre que ele não pode conter Deus. A Quaresma é uma viagem que nos preparou a compreender tudo isto.
O quê entendes por “viagem”?
A Quaresma é um êxodo, uma peregrinação. O Judaísmo e o Islão são religiões à peregrinação. Menos o Cristianismo, onde não é uma obrigação. Pois que nossa peregrinação é espiritual: como não praticamos mais a peregrinação como uma obrigação, é a Páscoa que é esta viagem. Nós vamos em direção da Páscoa, que é o próprio lugar da passagem, a realização de toda coisa, a reconciliação de Deus e do homem no Cristo ressuscitado, porque aceitamos passar através da morte com Ele. A quarentena do Êxodo e aquela de Cristo no deserto se articulam perfeitamente: no Êxodo, vamos em direção à Terra prometida e Deus está adiante de nós, enquanto Cristo parte ao deserto para descer dentro dele.
Lá estão as duas grandes dimensões da Quaresma: Deus como nosso horizonte e Deus como nossa profundeza. A Quaresma é então quarenta dias de deserto, quarenta dias de morte, onde partimos a re-encontrar a vida nova. Levantamo-nos e partimos, mas não sabemos para onde. Existe ai uma dimensão abraâmica: eis todo problema desta viagem que, como aquela do Filho Pródigo, é o retorno do Exílio. Partimos em viagem mas sem bagagem. É pelo fato de termos aceitado de nos levantarmos que participamos deste erguer do mundo, desta re-Criação que é a Ressurreição. Não é inocente que na Igreja primitiva, a Quaresma preparava ao Batismo. O sentido do Batismo é aquele da Ressurreição: morrer e renascer com Cristo.










