“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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domingo, 13 de julho de 2008

O Centurião

Neste Domingo (4º após o Pentecostes) ouvimos São Paulo dizer-nos que somos “justificados pela fé”. O evangelho do 4º domingo após o Pentecostes (Mt.8,5-13) mostra-nos que fé é esta que justifica. Um centurião romano, em Cafarnaum, obtém de Jesus a cura de seu servo doente. Esta cura é uma reposta ao ato de fé do centurião: “Vai, e como creste te seja feito...” O centurião não é um filho de Israel. Por outro lado, Jesus não lhe pede nenhuma profissão de uma fé intelectual; não o submete a nenhum teste doutrinal. E, contudo, é no centurião e não nos judeus os mais “ortodoxos” que Jesus encontra a fé que Ele deseja: “Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé...”. Em que consiste a fé vivida, a fé salvífica do centurião? Ela não se identifica nem à adesão a um dogma, nem à realização de um rito ou de um preceito legal. Ele é, antes de tudo, fundamentada sobre uma profunda humildade: “Senhor... não sou digno que entres sob meu teto...” pois ela é toda voltada para a palavra do Senhor: “...mas diz uma só palavra...”. A palavra do Senhor, aqui, não é somente recebida com respeito e fé, mas também é desejada, buscada, como um princípio de fé e de salvação. Aquela palavra pela qual o centurião espera com todo o seu ser, ele não a coloca numa esfera “religiosa”, estranha à vida cotidiana. “Diz somente uma palavra e meu servo será curado”. O centurião crê que a palavra de Jesus vai entrar em sua vida, irromper entre as realidades domésticas e operar um resultado definido. Enfim, a fé do centurião é uma disposição de obediência. “Eu sou homem sob autoridade”, diz o centurião: comando soldados e servos; o que lhes ordeno fazerem, eles fazem. Ele próprio está sob as ordens de oficiais superiores e executa as ordens deles. Portanto, acha natural que Jesus ordene e que suas ordens sejam imediatamente realizadas. Ele espera a ordem de Jesus. Esta é a fé do centurião, a fé que Jesus elogia. E esta é a fé que Jesus pede de nós: um dom confiante de todo o nosso ser na palavra que salva e que faz viver. Esta fé não exclui nem uma crença precisa nas verdades reveladas, nem uma prática exata da lei divina. Mas uma fé que fosse somente uma crença ou uma prática, sem o elã interior que leva o centurião até Jesus, seria uma fé morta. A fé viva do centurião - “um subalterno”- implica uma submissão da vontade à palavra de Jesus; no momento em que o centurião dirige seu pedido a Nosso Senhor, coloca-se sob Sua autoridade, “entre as suas mãos”. Devo, eu também, tornar-me um “subalterno”, um homem que, tendo colocado toda a sua vida sob a direção do Senhor, encontra a cada instante, nesta obediência e nesta confiança, a segurança e a certeza que aqueles que são regra para si mesmos ignoram.

A espístola deste domingo (Rm.6,18-23) é, também, um comentário sobre a verdadeira natureza da justificação pela fé (sem que, aliás, a Igreja tenha buscado estabelecer uma concordância entre a epístola e o evangelho deste dia). São Paulo continua a expor aos Romanos o que é a nossa justiça em Cristo. “...Pois se outrora oferecestes vossos membros à impureza, oferecei-vos hoje igualmente à justiça para santificar-vos... libertos do pecado... fortificai para a santidade”. Somos justificados pela fé, mas a fé não é nada se não transformar a nossa vida, se ela não der frutos, se não conduzir à santidade. A justificação não deve estar separada da santificação. “Santidade”: São Paulo não exita em colocar esta grande palavra, esta grande coisa, diante do conjunto da comunidade de Roma; ele considera a santidade como natural do cristão, como acessível a todos os fiéis. Para ele, a santidade não consiste em explorações ascéticas extraordinárias: o “santificai para a santidade” é simplesmente o serviço atento a Deus, a conformidade de nossa vontade à Sua.
Extraído de L’An de Grâce du Seigneur, Ed. du Cerf – 1988
Boletim Interparoquial de julho de 2002

quarta-feira, 19 de março de 2008

A Liturgia dos Dons Pré-Santificados

A Liturgia dos Dons Pré-Santificados, como o próprio nome indica, é uma Liturgia onde, a comunhão dos fiéis é administrada na forma de Dons anteriormente consagrados. Desde já, a Liturgia dos Dons Pré-Santificados difere das de São João Crisóstomo e São Basílio, o Grande, por nem ofertório (protesis), nem consagração dos Santos Dons ocorrerem.

No “Suplemento” da quinta edição de “Antigas Liturgias”, publicado em São Petersburgo em 1878, afirma-se: “Incluída entre as antigas liturgias está a dos Dons Pré-Santificados, que é realizada durante o santo jejum da Grande Quaresma. Na Igreja Ortodoxa é, predominantemente, celebrada nas quartas e sextas-feiras das primeiras seis semanas, na quinta-feira da quinta semana e segundas, terças e quartas-feiras da Semana Santa. Sua origem e estrutura têm sido atribuídas ora ao Leste, ora ao Oeste, por vários estudiosos da Antigüidade eclesiástica. Vários escritores orientais atribuem sua formulação original ao Oeste, especificamente a Santo Pontífice e Doutor, Gregório I, do Diálogo, o Grande, Papa de Roma Gregório, enquanto, os ocidentais, em sua maioria, atribuem-na ao Leste, supondo a comunicação ainda existente quando as Igrejas ainda se relacionavam. Os ritos, embora se diferenciem em detalhes específicos, na estrutura geral de suas orações apresentam considerável semelhança, o que é uma clara evidência da origem comum do ofício em ambas as partes do mundo cristão e da fonte comum de todas as formas subseqüentes, o Cristianismo original. O ambiente especial da Igreja nos três primeiros séculos, que identicamente afetou o Mistério Eucarístico tanto no Leste, como no Oeste, fundou as bases do que, pouco a pouco, se tornaria a celebração conhecida como Liturgia dos Dons Pré-Santificados...”

Assim, como indicado acima, a Liturgia dos Dons Pré-Santificados tem suas origens nos tempos remotos do Cristianismo. Entretanto, supõe-se que sua última edição foi estabelecida na forma escrita por São Gregório o Grande, que viveu no sexto século (foi Papa de 590 a 604).

A Liturgia dos Dons Pré-Santificados é celebrada somente durante a Grande Quaresma. O propósito de tal instituição é permitir aos fiéis comungar nos dias de semana deste período, quando, pelo Typicon (ustav), a celebração de uma Liturgia convencional não é indicada. Quando presentes na realização do Mistério Eucarístico, os antigos cristãos ficavam tão eufóricos em Cristo Salvador que chamavam-no de “Páscoa”. Por conseguinte, era considerado que tais sentimentos eram incompatíveis com o arrependimento e a contrição dos pecados, para os quais os dias da Grande Quaresma seriam indicados. Por isso, a realização de uma Liturgia comum era descolocada. Entretanto, como os antigos cristãos consideravam impossível manterem-se sem a comunhão dos Santos Mistérios de Cristo por toda a semana, a Liturgia dos Dons Pré-Santificados foi introduzida, removendo-se toda a festividade e, por esse princípio, a parte mais solene da Liturgia, ou seja, a transformação dos Santos Dons.

A Comunhão que é dada aos fiéis durante a Liturgia dos Dons Pré-Santificados é anteriormente consagrada em uma liturgia regular, de São João Chrisóstomo ou de São Basílio, o Grande. Para isso, em adição ao cordeiro único, durante a Protesis, dois ou mais são preparados (dependendo do número de vezes em que o ofício será celebrado). Sobre estes, as mesmas orações e ações, direcionadas ao cordeiro que será utilizado no dia, serão executadas. Durante a Consagração, o padre pronuncia as palavras usuais sobre todos os Cordeiros, sem mudá-las do singular para o plural, pois Cristo é UM em TODOS. Quando o padre realiza a Elevação, ele, de igual modo, eleva juntos os cordeiros destinados à Liturgia dos Dons Pré-Santificados. Quando a comunhão do clero se aproxima, após a adição de água quente ao Santo Cálice, em sua mão esquerda (normalmente utilizando a esponja), o sacerdote, “deita” o cordeiro sem parti-lo. Então, tomando a Colher em sua mão direita adiciona a ele um pouco do Puríssimo Sangue de Cristo (no lado onde a cruz é traçada, na parte macia do “pão”). Isto é, ele toca o lado do cordeiro que foi cortado em forma de cruz. Unindo assim o Sangue com o Corpo de Cristo, que será armazenado no receptáculo destinado a tal (Ortofório), onde é mantido até o dia da celebração.

Como, pela regra da Igreja, nos dias de semana da Quaresma (ou seja, todos os dias menos Sábado e Domingo) refeições são permitidas uma vez ao dia, durante o anoitecer, a Liturgia dos Dons Pré-Santificados é realizada após a Nona Hora e Vésperas. Antes disso, uma “ordem” que consiste em Tércia, Sexta e Nona Horas e Typica é celebrada. Após estas, a Despedida é pronunciada e, em conjunção com o Ofício de Vésperas a Liturgia começa com a usual exclamação: “Bendito seja o Reino do Pai...”.

Traduzido e adaptado por Felipe Nerval da Silva e Jessyca Romero do livro “Archbishop Averky – Liturgics”.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Os Livros de Uso Litúrgico

Tipikon – este livro contém as regras determinando cada aspecto dos serviços litúrgicos e sua celebração ao longo do ano. De acordo com a Tradição da Igreja, o Tipikon foi elaborado por São Sawas de Jerusalém (+cerca de 532) e depois revisado por São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (+cerca de 638). Uma posterior revisão foi feita por São Joao Damasceno (+ cerca de 749), monge do Mosteiro de São Sawas, dai o nome Tipikon de Jerusalém, do Mosteiro de São Sawas. Em 1888, uma nova edição do Tipikon foi preparada em Constantinopla, que atualmente é usada pela Igreja Grega. A Igreja Russa, assim como a maior parte da Igreja Ortodoxa na América, ainda usa o Tipikon de Jerusalém, assim como os antigos mosteiros do Monte Atos, o Mosteiro de São Sawas em Jerusalém e o de São João na ilha de Patmos.

Menaia – este livro e dividido em 12 volumes, correspondendo aos 12 meses do ano e contém os textos para os serviços litúrgicos para cada dia do ano. Em adição há ainda mais um volume com os textos das Grandes Festas fixas.

Octoecos – ou livro dos oito tons contém as partes móveis dos ofícios diários cantados ao longo da semana. Oito séries de ofícios, um para cada um dos oito tons, são fornecidos, de modo que cada um contém sete conjuntos de serviços (textos), um para cada dia da semana. O primeiro tom começa no Domingo de São Tome continua em sequência cada semana ate atingir o oitavo tom, quando então o ciclo reinicia-se.

Triódio – contém os textos usados para os ofícios durante a Grande Quaresma.

Triódio de Páscoa (Pentecostarion) – contém os textos para os ofícios desde a Páscoa até o Domingo de Todos os Santos, o primeiro após o Pentecostes.

Trebnik – o nome do livro tem origem eslavônica e significa serviço religioso.

O livro divide-se em duas partes. A primeira contém:
  • oração lida após o nascimento de uma criança, no oitavo dia para a imposição do nome. Assim como a oração para a reapresentação da mãe após o parto (40 dias depois) na Igreja, a partir deste momento ela poderá participar dos ofícios na Igreja e comungar na Sagrada Liturgia.
  • Ritual dos sacramentos: batismo, crisma, confissão, casamento, unção dos enfermos.
    Assim como rito para enterro de fiéis e de clérigos, benção da agua (na Festa da Teofania), de casas, paramentos, sinos, frutos, ícones, cruzes, escolas, alimentos, túmulos e animais.
  • Panichida e Molebien.

A segunda parte do Trebnik contém, às vezes ligada a primeira em um só livro, o ritual realizado pelo bispo para a sagração de igrejas, iconostase, sinos. Os ritos para chirotesia (leitor e sub-diácono) e chirotonia (ordenação de diáconos, presbíteros e bispos). Assim como o rito da tonsura de monges.

“Tradição Litúrgica da Igreja Ortodoxa da Polônia”
Igúmeno Lukas, 2003