“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

OrtoFoto

Montenegro
autor: Slobodan Simic

A Experiência da Derelição junto de São Siluan *

Todo homem recebe a graça de Deus de certa medida. Mas esta medida pode variar consideravelmente de uma pessoa à outra, ou de um momento da existência ao outro. Pode ela ir de uma simples impulsão divina, de uma ajuda em um ato ou acontecimento qualquer da vida cotidiana à recepção do Espírito Santo vindo em plenitude fazer Sua morada na alma e no corpo, divinizando-os pela Sua energia infinita.

Esta última experiência é aquela que faz o Santo, quando purificado de todas as paixões e possuindo todas as virtudes, Deus Se acha digno de revelar-Se a ele em Sua luz incriada, de uni-lo intimamente a Ele, enfim, de o deíficar.

Esta experiência, a princípio, só se realiza junto aos Santos, porque estão eles, em seus espíritos, corações e em seus corpos, suficientemente puros para estabelecerem a Deus; somente eles, como o dizem os Padres, são dignos de Sua presença.

Todavia, São Siluan afirma, por várias vezes, que Deus pode em certos casos – que permanecem mesmo excepcionais – revelar a plenitude de Sua graça a certos homens que não são Santos e que não estão aptos, pelo estado interior, a tal revelação, não são dignos de tal manifestação de Deus neles. Trata-se, então, de um dom inteiramente gratuito de Deus, que manifesta por aí então que a graça não depende de maneira alguma de esforços ascéticos do homem, não é o “efeito” de uma “causa” que teria sua fonte no homem, não está ligada a uma lei e não é a conseqüência de uma necessidade, mas antes é dada por Ele de uma maneira livre, liberal, desinteressada e por pura bondade. Por esta mesma razão, é difícil dizer por que Deus Se revela e Se comunica de tal maneira a certas pessoas e não a outras. Aqueles que se beneficiam deste dom são objeto de uma eleição, de uma escolha de Deus, de acordo com o desígnio particular e misterioso de Deus para com eles, com os seus destinos espirituais próprios tal qual a Providência divina os conduz.

Se tal experiência é um dom magnífico de Deus e convém recebê-la com imensa gratidão, por outro lado, é muito difícil de assumir tal graça. Quando tal graça é comunicada; ela traz com ela meios de recebê-la e experimentar os efeitos com proveito. Aquele que não é Santo, que não está perfeitamente purificado em seu espírito, em seu coração e em seu corpo, e que não é familiar a Deus pela possessão das virtudes não poderá, sem que a Graça ela mesma o proteja, suportar a plenitude de Sua presença. Quando Deus aparece a Moisés, na luz e no fogo da Sarça ardente, ele “encobre o seu rosto, porque teme olhar para Deus” (Ex. 3,6). Os próprios Apóstolos ao verem o Cristo transfigurado sobre o Monte Tabor são lançados por terra em virtude da visão, ocultando o rosto como que para se protegerem do esplendor que provocava esta luz intensa em seus olhos não preparados para contemplá-la.

Aquele que assim experimenta sem ser Santo (o que era, aliás, o caso dos Apóstolos, no episódio da Transfiguração do Senhor; o Espírito Santo não havia ainda sido dado) se distingue deste último pela impossibilidade de conservar a graça que ele recebeu e de viver continuamente tal experiência.

Ele perde esta graça, e é isto que provoca a experiência da derelição.
Em verdade, a perda desta Graça não significa o abandono do homem da parte de Deus. Ela significa da parte do homem a incapacidade de conservar a Graça recebida e de viver continuamente nela. A experiência da derelição é a experiência do vazio e da dor que ressente o espiritual quando esta Graça o deixa. Esta experiência de perda da Graça é em efeito extremamente dolorosa. É uma provação que muito poucos homens são capazes de suportar e é, sem dúvida, também porque o dom antecipado da plenitude da graça só é dado a alguns dentre eles.

A vinda do Espírito Santo na alma a preenche de vida, de calor, de amor, de júbilo e de conhecimento. Quando ele deixa a alma, esta se sente morta, fria, seca, ignorante. O júbilo dá lugar à tristeza; a luz à obscuridade. O homem se sente deprimido.

Porque ele fez a experiência da graça, sabe o quê lhe falta quando ela não está nele (o que o homem ordinário não é nem pouco consciente, ou só a percebe indiretamente, através de um mal-estar indefinível). Podemos dizer então que o homem se apercebe tal como ele é em seu estado caído, em sua nudez, sua fraqueza, sua indigência, com todas as paixões que nele permanecem, e em seu “pecado” – o quê quer dizer em seu estado de separação de Deus. Tendo feito a experiência de Deus, ele percebe toda a distância que o afasta d´Ele. Constata também que esta distância é infinita, e ele desespera de poder sempre percorrê-la. Tendo provado pela presença do Espírito Santo o que é a plenitude do amor de Deus, ele ressente nele esta perda como um inferno.

Todavia, muito felizmente esta experiência da perda da graça não deixa na alma somente sentimentos negativos.

Ela é também a fonte de uma profunda, permanente e tenaz nostalgia de Deus, de um desejo intenso de reencontrar a graça perdida e de reviver a presença calorosa, resplandecente e plena de júbilo do Espírito Santo.

Ela dá, então, à vida espiritual um dinamismo considerável que leva o homem a se investir totalmente na busca de Deus, a fazer de tudo e a se ultrapassar a fim de encontrar a intimidade com Ele. Ela leva o homem à plenitude e à humildade, pois lhe dá um sentido profundo de sua fraqueza e de sua insignificância, de sua indignidade e de sua incapacidade de encontrar, ele próprio, o que busca.

O que podia, em um primeiro plano, parecer como um mal e era para o fiel a fonte de grandes sofrimentos, parece desde então como uma benção. Deus só retirou do homem a Sua graça que havia dado gratuitamente e por antecipação para lhe permitir a buscar e reencontrá-la livremente, voluntariamente e que ela seja então para ele não como um bem que imposto e que ele não pode verdadeiramente provar e conservar porque lhe é, de certa forma, exterior e estrangeiro, mas como qualquer coisa que torna-se seu próprio bem e que ele partilha verdadeiramente com Ele.

A perda da graça é também uma revelação ao homem de toda a medida de sua fraqueza, de sua impotência, de sua nudez, de sua miséria sem a graça, pois aquele que conheceu a sua presença e seus efeitos mede o vazio que marca a ausência, enquanto que aquele que nunca viveu tal experiência não pode ter nada mais do que uma pequena percepção, vivendo na ilusão de uma falsa plenitude. “Tendo sido tocado pela graça, o homem vive pensando que tudo está bem e em ordem em sua alma, mas, no entanto, quando a graça o visita e permanece com ele, ele se descobre diferente, e só em seguida, quando a graça o abandona de novo é que ele se dá conta que vive então sem graça e em um grande mal”. “Quando a graça está conosco, ela confirma o nosso espírito; mas quando a perdemos, descobrimos a nossa fraqueza”. “Quando ele é tocado pela graça, o homem é grande diante de Deus”; mas “privado da graça, somos como animais”. Esta última consideração reflete a experiência própria de Siluan depois de a graça o ter deixado: “Tive de suportar que a graça do Espírito Santo me deixou e que me sentisse como um animal em um corpo humano. Eu me lembrava de Deus, mas, no entanto, minha alma havia se tornado vazia como aquela de um animal”.

* Derelição - estado de abandono, desamparo, repúdio

Texto extraído do livro “saint Silouane de l´Athos”
Jean Claude Larchet – Les éditions du Cerf – Paris 2001
Tradução: Manastir Sv. Apostola Petra i Pavla, BiH.
Boletim Interparoquial – Fevereiro de 2008

terça-feira, 27 de maio de 2008

Mosteiro Karakallou - Monte Atos

O Mosteiro Karakallou fica na encosta nordeste do Monte Atos, a 200 metros de altura. As primeiras menções sobre o mosteiro aparecem em manuscritos do século XI, entretanto, o nome de seu fundador continua desconhecido. Alguns atribuem sua fundação ao Imperador Marcus Aurelius Antonius, conhecido como Karakala, outros atribuem a fundação a um certo Nicolau da pequena cidade de Karakala. No século XIII durante a invasão dos cruzados o mosteiro foi destruído, mas posteriormente reconstruído pelos Imperadores Bizantinos Andrônico II (1282-1328) e seu neto João V Paleólogo (1341-1391). Mais tarde o mosteiro foi destruído novamente por piratas, e reconstruído desta vez por Pedro V soberano moldávio.

O Katholikon do mosteiro, construído em 1548, é dedicado aos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. O mosteiro possui ainda mais 7 pequenas capelas, assim como 14 kellia dispersas em regiões de floresta e 4 kellia em Karyes.

Entre os tesouros do mosteiro encontra-se : pedaço de madeira da cruz de Cristo, relíquias de São Inácio, de Santa Parasceva, do Apóstolo André e de Santa Bárbara.




quinta-feira, 22 de maio de 2008

OrtoFoto

Sérvia
autor: Jovana Kabadajic

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Homília escrita pronunciada por ocasião de uma tonsura monástica

Minhas bem-amadas almas em Cristo,

Eu gostaria, e apresso-me em dizer duas simples palavras, tal como as duas moedas da viúva do Evangelho, para a tonsura do nosso irmão E. No entanto, suplico vossa afeição ao fato de não fazer atenção `a sintaxe de minhas palavras, pois sou um ignaro. Deixei a escola em 1930, e passei tantos anos no meio destes rochedos de Katounakia, que não só esqueci as boas maneiras, como também, tenho dificuldades em me exprimir em grego, e com mais forte razão, pronunciar uma homilia. É por isto que vos peço de dirigirem vossa atenção ao conteúdo que, à medida do possível, tentarei eu exprími-lo. Eu faço um apelo à vossa indulgência. E começo então...

- “Como te chamas tu, irmão”?

- E., monge

- Longa vida (muitos anos); possas tu agradar a Deus, aos Anjos e ao teu Ancião. Esta expressão é pronunciada habitualmente; é uma simples expressão. Mas possui no entanto uma profundeza rica em sentidos que provém todos do Ancião, da obediência e que retornam ao Ancião, e terminam na obediência. O Ancião é Deus, Ele próprio, que se torna visível.

Para que o nosso venerado e amado Ancião, nosso doce e santo Ancião – que distingui pela sua subtileza, sua piedade, sua devoção e sobretudo seu discernimento, ao mesmo tempo que por inúmeros outros carismas que ornam a sua alma plena de aromas – tenha decidido em proceder à tua tonsura monástica em um tão curto espaço de tempo, e de te revestir do Grande Hábito angélico, é evidente que o teu comportamento, irmão amado, a tua conduta, tua vida enquanto noviço foi tal, que encontraste graças a seus olhos; que ele repousou sobre ti.

Seguidamente, nós também, seus discípulos, sua comunidade, estamos totalmente de acordo com sua decisão, com seu julgamento, tal como uma única alma repartida em vários corpos. Todos juntos, nós queremos crer e estamos tanto certos como persuadidos que teu zelo, tua agilidade, teu ardor, não fraquejarão, em caso algum, nem conhecerá o mínimo descontentamento durante tua existência terrestre, mas que ele aumentará, se multiplicará, afim de que possas tornar-te também um “vaso de eleição” do Espírito Santo, para a grande alegria e o júbilo do nosso santo Ancião e de toda a nossa fraternidade, e motivo ainda de honra para a Santa Montanha.

Seja então, nosso bem-amado irmão Padre E., digno de tua vocação e de nossa espera, de nossa tão doce esperança, de nossa alegria, progredindo segundo a regra monástica, observando, não só à cada dia, mas à cada instante, os caminhos da tua vida, os teus pensamentos e as tuas iniciativas, perguntando-te constantemente: para onde eu irei?

Sobe, bem-amado irmão, nosso Padre E., a escada espiritual, sem temor e corajosamente, sem hesitar face à violência e a dureza das guerras visíveis e invisíveis que te rodeiam, pois “maior é o que está em vós do que aquele que está no mundo” (I Jo.4,4).

Mas as santas orações de nosso Pai santo e teóforo e de todos os santos Padres te guardarão, te iluminarão, te consolarão, te acompanharão, para que tu saías vencedor, triunfante de todos estes combates, para a honra e glória de teu Hábito angélico, assim como nosso júbilo, como aquele deste santo lugar e de nosso santo Mosteiro.

Porte tuas armas, tal como um novo David, todas as armas da vida monástica, enquanto imitador e descendente de nossos eminentes e santos Pais António, Eutímio, Sabas, Pacómio, e particularmente como discípulo do grande Acácio e de São Dositeu. Porte as armas da temperança do ventre, da temperança da língua, da temperança dos olhos, da temperança das mãos, e sobretudo aquela da fé e da negação de si, inabalavelmente, com uma obediência cega e sem discernimento, não somente em relação ao nosso santo Ancião, mas também para com todos nossos irmãos e Padres.

Oh! Obediência, Obediência que fez de Deus um Homem e que faz do homem um deus!
Já vi muitos homens grandemente condenados que ao entrarem na arena monástica tornaram-se anjos, por meio da obediência; eles deixaram para trás o EGO.

Já vi também homens muito capazes, que ao franquearem o estádio da vida monástica, porque seguiam seu julgamento próprio, sua vontade própria, sem pedirem conselho a ninguém, conheceram um fim não muito bom, mas vergonhoso.

A obediência se divide em três períodos:
Eu obedeço para não ser condenado sendo desobediente.
Eu obedeço para ter uma recompensa.
Eu obedeço por amor.


O discípulo não teme o julgamento de Deus, porque ele ama seu Ancião. E, o que quer que ele faça, ele o faz por amor ao seu Ancião, e em consequência também, pelo seu irmão espiritual. Desta forma, enquanto nele reinar o amor, ele não temerá. Quanto mais ele ama o seu Ancião, mais ele ama o dulcíssimo Jesus.

“O amor perfeito bane o temor” (I Jo.4,18).

Então, se tu queres, tu também, nosso irmão bem-amado, ser chamado, não somente em palavras, ou pelas vestes e pelos hábitos, imitador de Jesus, mas ser um imitador e um soldado efectivo do nosso belíssimoo e dulcíssimo Jesus, é necessário que tu também, tal como Ele, tu subas sobre a Cruz.

O que significa “cruz”? Paciência nas tribulações.

É isto que significa a cor negra que nós trazemos.

Após a cruz vem a ressurreição.

A aflição suscita o júbilo.

O monge não deve se alegrar, porque isto não lhe convém.

Mas que ele chore sem cessar.

Viste um monge alegrar-se, ou a rir sem medida? Isto não é bom.

Viste um monge perder-se em palavras? Isto não é verdadeiramente um monge.

Viste um monge reservado, silencioso? Isto é verdadeiramente um monge.

Os santos não nasceram como tais, mas como todo o mundo. É a paciência da qual foram testemunhas nas diferentes aflições que os tornaram como tais, o que quer dizer: vencedores e coroados.

Eles deram quotidianamente o sangue e receberam o espírito.

Não penses, irmão, que eles não tinham paixões, que eles não afrontaram combates, contra o diabo ou contra o mundo! Não! Eles tiveram, eles também, como nós. Mas seu espírito viril os levava a não regredirem, a não serem mornos, fracos, quando afrontavam uma paixão.

O primeiro obstáculo que encontramos é o próprio ego; o diabo não alcança uma segunda posição.

Não penses que é coisa fácil vencer o seu eu. Tu verás bem agora que trazes o Hábito.

Ponhas abaixo o teu eu, aos pés dos Padres, dizendo o “Abençoa!”*’, tendo ou não razão. É este “Abençoa!” que temem os demónios; ele aniquila o seu poder.

Verás então despertar todo o Monte Athos.

Nós sabemos, irmão amado, Padre E., que no mundo tu eras um grande; aqui, todavia, tu serás o último de todos. Nisto consiste todo o teu combate, toda a tua violência, toda a tua força espiritual, a coroa de ouro maciço; venças a ti-próprio, assim como tu prometeste.

O diabo não tem poder.

O combate invisível do monge consiste nisto: vencer as paixões que se apresentam a ele, seu ego. No início tu afrontarás o teu velho homem, tal como um outro Golias, mas tenha confiança.

A graça virá também e tu tornar-te-ás superior às tuas paixões, ao teu próprio eu, e verás um outro homem, um homem segundo o novo Adão, geralmente sem corpo, com um horizonte espiritual, uma outra armadura espiritual, um outro alimento espiritual.

E as doces lágrimas correram como um manancial. E tu te rejubilarás e não cessarás de dar graças, de louvar, de glorificar a Deus desta metamorfose (transfiguração).

Quanto mais o homem se humilha – o que se produz por meio da obediência e da oração – mais ele se aproxima de Deus, mais ainda ele se vê pecador, e ele chora e se lamenta, busca a misericórdia de Deus, e mais ainda ele vê os outros como santos, como anjos.

Enquanto que a medida em que ele se afasta de Deus, mais ele considera os outros como inferiores.

Faça-te então violência, nosso irmão Padre E., a fim de encontrar o teu eu. Se não te fizeres violência, tu não o encontrarás, tu não terás mais consciência de tuas paixões interiores; os anos então passarão, e constatarás que passaste tantos anos nesta Santa Montanha, e nada mais.

Para concluir, eu digo que:

A violência é digna de elogios. Mesmo o Evangelho o diz: “O Reino dos Céus sofre violência, e pela força se apoderam dele” (Mt. 11,12), assim como os santos Padres: “O monge é uma violência contínua feita `a natureza e uma vigilância incessante sobre os sentidos”.

Sem violência, não há progressão, mas nem mesmo purificação, nem visão, nem senso espiritual.

Mas, no entanto, nós acreditamos que tu ultrapassará tudo isto e que tornar-te-ás superior, mestre de ti mesmo, e que sairás deste século como um vencedor e triunfador, a fim de participar ao júbilo e ao deleite do belíssimo e dulcíssimo Esposo Jesus, pelos séculos sem fim e intermináveis, na Sua câmara nupcial celeste. Amém.

Papa Efrem de Katounaki

terça-feira, 20 de maio de 2008

OrtoFoto

Rússia
autor: Oleg Salomakin

"Os Fariseus"

O grupo religioso judaico mais conhecido da época de Yeshua é sem dúvida o dos "Fariseus". Popularmente, na cultura ocidental, sob a influência do Cristianismo Católico e Protestante, a imagem dos "Fariseus" é das mais negativas ("fanáticos", "legalistas", "hipócritas"). No entanto, uma surpresa nos aguarda ao analisarmos os dados históricos, inclusive os do Novo Testamento, pois, provavelmente, eles constituem o grupo mais injustiçado dentro do imaginário religioso e popular ocidental.

O nome "Fariseus", em português, vem do grego "Farisaioi" que por sua vez é derivado do nome hebraico "Perushim". Este nome hebraico vem da raiz "parash" que basicamente quer dizer "separar, afastar, explicar, esclarecer". Assim, o nome "Perushim" é normalmente interpretado como "aqueles que se separaram" do resto da sociedade Israelita comum da época, para levar uma vida cujos aspectos diários seriam consagrados a Deus e marcados pelo estudo assíduo de Sua Palavra. Eles "se separavam" em estilo de vida e práticas religiosas, mas não se isolavam completamente do resto da sociedade, antes deveriam viver no meio dela, dedicando-se à "explicação" e "esclarecimento" da Palavra de Deus ao povo em geral.

Com os dados históricos e arqueológicos que hoje possuímos é praticamente impossível estabelecer as origens dos "Perushim" como grupo religioso. As mais diversas teorias foram propostas, mas todas contém sérias limitações e dificuldades. A hipótese mais provável é a de que os "Perushim" se originaram do antigo grupo religioso judaico chamado "Hassidim" ("os Piedosos"), que apoiaram a revolta dos Macabeus (168-142 a.E.C.) contra Antíoco Epifânio, o rei do império helênico da Síria, que quis implantar totalmente a cultura helênica no seu reino. Como resultado dessa política, ele proibiu a prática da religião judaica na Judéia, região que fazia parte do seu reino. A leitura da Bíblia, o culto no templo, a prática da circuncisão e tudo o que estivesse ligado ao estilo de vida e religião judaicos foram proibidos e considerados como crime. Uma parte da aristocracia da época e do círculos dos sacerdotes apoiaram as intenções de Antíoco, mas o povo em geral, sob a liderança de Yehuda Macabi ("Judas Macabeu") e sua família sacerdotal, se revoltou.

Os judeus conseguiram vencer os exércitos helênicos e estabelecer um reino judaico independente na região entre 142-63 a.E.C., quando então foram dominados pelos romanos. Durante este período de 142-63 a.E.C., a família dos Macabeus se estabeleceu no poder e iniciou uma nova dinastia real e sacerdotal, dominando tanto o poder secular como o religioso. Isto provocou uma série de crises e divisões dentro da sociedade israelita da época, visto que pela suas origens os Macabeus (também conhecidos pelo nome de família como "Asmoneus") não eram da linhagem de Davi, não podendo assim ocupar o trono de Israel, e também não eram da linhagem sacerdotal de Sadoque (1 Rs 1:32-34; 2:26-27, 35,), o que os impossibilitava de tornar-se sumo-sacerdotes.

Grupos reacionários apareceram dentro da sociedade judaica, tentando restabelecer o seu prestígio e poder, ou pelo menos o que eles consideravam como certo segundo a Lei e tradições

judaicas. Assim, foi nesta época que provavelmente apareceram: 1) Os Sadoquim ("Saduceus"), clamando ser os legítimos descendentes de Sadoque e portanto os legítimos detentores do sumo-sacerdócio e da lideranca religiosa em Israel; 2) os Perushim ("Fariseus"), oriundos dos "Hassidim" que, geralmente, desiludidos com a política, voltaram-se para a vida religiosa e estudo da Torá, esperando pela vinda do Messias e do reino de Deus; 3) e os Essênios, oriundos provavelmente também dos "Hassidim" e de um grupo de sacerdotes descontentes com a situação que se afastaram da sociedade judaica em geral e foram viver uma vida de total consagração a Deus na região do deserto a fim de preparar o caminho para a vinda do Messias (interpretação essênica de como cumprir Isaías 40:3: "Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor...").

Os "Perushim" se agrupavam em "havurot", associações religiosas que tinham os seus líderes e suas assembléias, e que tomavam juntos as suas refeições. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu do 1º século d.E.C., o número de "Perushim" na época era de pouco mais de 6 mil pessoas (Antigüidades Judaicas 17, 2, 4; § 42). Eles estavam intimamente ligados à liderança das sinagogas, ao seu culto e escolas. Eles também participavam como um grupo importante, ainda que minoritário, do Sinédrio, a suprema corte religiosa e política do Judaísmo da época. Muitos dentre os "Perushim" tinham a profissão de "sofer" ("escriba"), ou seja, a pessoa responsável pela transmissão escrita dos manuscritos bíblicos (naquela época não havia a imprensa e tudo tinha de ser feito à mão) e da interpretação dos mesmos. Duas escolas de interpretação religiosa se desenvolveram no seio dos "Perushim" e se tornaram famosas: a escola de Hillel e a escola de Shamai. Isto ocorreu um pouco antes da época de Yeshua'. A escola de Hillel era considerada mais "liberal" na sua interpretação da Lei, enquanto a de Shamai era mais "estrita".

Numa comparação entre os ensinamentos de Yeshua' e as crenças dos diferentes grupos religiosos judaicos da época, podemos constatar que os "Perushim" eram o grupo que mais próximo estava de Yeshua'. Por exemplo:


  1. Yeshua' e os "Perushim" ensinavam e defendiam a crença da ressurreição dentre os mortos, contrário aos "Sadoquim" ("Saduceus") que não acreditavam nesse conceito (Marcos 12:18-27; Atos 23:8).

  2. Yeshua', semelhante à boa parte dos grupos religiosos da época, incluso os "Perushim", freqüentava o templo de Jerusalém e o considerava como a casa de Deus (Marcos 11:15-19; João 2:13-17; 7:14), e nisto ele se diferenciava dos "Shomronim" ("Samaritanos") e dos "Essênios" que não reconheciam nenhum valor no templo de então em Jerusalém.

  3. Yeshua' e os "Perushim" ensinavam acerca da igualdade de todos os seres humanos e o valor de cada indivíduo diante de Deus, ambos tinham portanto uma perspectiva "universalista" em relação à religião e ao dever de pregar a Palavra de Deus a todos (Mateus 23:15; 28:19-20).

  4. Tanto para os "Perushim" como para Yeshua', a essência da Lei era o amor supremo a Deus, primeiramente, e depois o amor ao próximo como a si mesmo (Lucas 10:25-37).

  5. Yeshua' e seus discípulos freqüentavam assiduamente as sinagogas e participavam regularmente das festas judaicas, ou seja, o próprio local e contexto religioso de primazia dos "Perushim" (Marcos 1:21; Lucas 4:15-30; 22:8-23; João 5:1; etc.).

  6. A vida de oração era um elemento essencial nos ensinos de Yeshua' e dos "Perushim" (Mateus 6:1-15), e o "Pai Nosso", ensinado por Yeshua', está em paralelo direto com os elementos de duas orações recitadas três vezes ao dia pelo judeu religioso desde os dias dos "Perushim" - o Kadish e a Amidá.

A maior e fundamental diferença entre Yeshua' e os "Perushim" era sobre a importância e o lugar concedido às "tradição dos anciãos", ou seja os ensinamentos e interpretações da Bíblia dos mestres e rabinos antigos, também comumente chamada no Judaísmo de Torá sheb'al Pê ("Lei Oral"). Enquanto para os "Perushim" a "Lei Oral" era a chave de interpretação da Torá shebichtav ("Lei Escrita" = Bíblia), para Yeshua' a "Lei Escrita" deveria ser a regra para julgar a "Lei Oral" (Mateus 15:1-20). Assim, Yeshua' era muito próximo e ao mesmo tempo totalmente independente do grupo dos "Perushim", e esta dialética de "proximidade" e "independência" naturalmente causou as mais variadas reações a Yeshua' entre os membros desse grupo religioso. Durante todo os seu ministério muitos "Perushim" o seguiam de perto, intrigados por este novo rabino e pelos seus ensinos. Alguns se posicionaram como seus inimigos, e estavam mesmo entre aqueles que planejaram matá-lo (Mateus 9:34; 12:14, 24; 16:1-12; 22:15; João 7:32; 9:16; 11:47-48, 57); outros lhe eram favoráveis e o defendiam sempre que podiam (Lucas 7:36; 11:37; 13:31; 14:1; João 3:1-2; 7:50-51). No momento de maior crise, quando todos abandonaram a Yeshua' e se escondiam por temor de serem reconhecidos como seus discípulos, foram dois "Perushim", Nicodemos e José de Arimatéia, que tiveram coragem de agir publicamente como seus discípulos e usar de sua influência para tirá-lo da cruz e pô-lo em uma sepultura (João 19:38-42).

Muitos "Perushim", na época, aceitaram a Yeshua' como o Messias e se tornaram membros da comunidade cristã primitiva (Atos 15:5). Foi também um "Parush" ("fariseu"), Paulo, que se tornou o principal pregador e propagador da fé em Yeshua' como o Messias (Atos 9; 23:6; Filipenses 3:5). Paulo, até o final de sua vida sempre viveu e se portou como "Parush", ainda que não impusesse isto às outras pessoas (Atos 23:6; 26:4-23; 28:17-20). Enquanto o grupo dos "Sadoquim" ("Saduceus") se tornou o mais acérrimo inimigo dos cristãos e intentava destruí-los, foi no grupo dos "Perushim" que os cristãos primitivos encontraram vários amigos que os defendiam e se opunham aos intentos dos "Sadoquim" (ver por exemplo: Gamaliel em Atos 5:33-39; e vários escibas do partido dos "Perushim" no Sinédrio que defenderam a Paulo em Atos 23:7-9).

Tradução Presbítero Levy

segunda-feira, 19 de maio de 2008

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Polônia
autor: Aimilianos

"Palavras sobre a Santa Comunhão"

Por São Simeão o Novo Teólogo
Cada um de nós crê n’Aquele que é o Filho de Deus e Filho da sempre Virgem Maria, Mãe de Deus; por este ato de crer, nós recebemos com fé em nossos corações a palavra que Lhe concerne. À medida em que a proferimos pelos nossos lábios e, fazemos penitência, com toda a nossa alma pelos pecados anteriormente cometidos, esta palavra, que acolhemos quando a fé ortodoxa nos é ensinada, à imagem da Palavra do Pai, que sendo Deus, franqueia o seio da Virgem, assim também, em nós, encontra-se como uma pequena semente. Maravilha-te, então, ao ouvir este mistério temível e acolhe esta palavra digna de fé, com plena certeza e fé.

Nós não O concebemos corporalmente, tal como a Virgem Mãe O concebeu, mas, no entanto, de uma forma espiritual e plenamente real possuímos em nossos corações Aquele que a Virgem concebeu...

Por consequência, se nós cremos de toda a nossa alma e se nos arrependemos com fervor, nós concebemos o Verbo de Deus em nossos corações tal como a Virgem; se portarmos em nós, nossa alma virgem e pura. E assim tal como o fogo da divindade não pode consumir aquela que era Toda-Pura, assim também, se nós trouxermos o nosso coração puro e casto, ele não se consumirá, mas tornar-se-á em nós um orvalho celeste, uma fonte de água viva, uma torrente de vida eterna...

Mas, porque de uma vez por todas o Verbo de Deus encarnou da Virgem e d’Ela nasceu corporalmente, de uma maneira inexplicável e indizível é impossível que Ele encarne novamente em nós e seja engendrado corporalmente por cada um de nós. O que fazer então? Esta carne sem mácula que Ele tomou do seio puro da Puríssima Mãe de Deus, esta carne com a qual Ele foi posto no mundo, corporalmente, Ele a concede a nós em alimento, e quando nós saboreamos dignamente esta carne que é a Sua, nós cremos e temos em nós inteiramente o Deus encarnado, nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus e da Virgem Maria, a Toda-Pura; Aquele que está sentado à destra de Deus Pai.

“Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo. 6,56), estas, são em efeito, palavras Suas. Não é mais segundo a carne que nós O reconhecemos entre nós, mas incorporalmente em nosso corpo, “misturado” à nossa essência e à nossa natureza de uma maneira inexprimível, Ele nos diviniza; nós nos tornamos “concorporais” a Ele e somos, doravante, “carne de Sua carne, e osso de Seus ossos” (Ef.5,29-31; cf.Gn.2,23).

Eis o maior mistério realizado em nós pela Sua economia indizível e Sua inexprimível condescendência. Tal é o mistério redutível que eu hesitava escrevê-lo e temia abordá-lo. Mas porque Deus quer que, incessantemente, o Seu Amor por nós seja revelado e manifestado, a fim de que contemplando com um grande respeito a Sua imensa bondade, nós sejamos, cada vez mais, levados a amá-Lo; eu mesmo, animado pelo Espírito Santo vos desvendo este mistério.
Tradução da Monja Rebeca
Mosteiro de São Pedro e São Paulo, Bósnia-Herzegovinia

sábado, 17 de maio de 2008

"Ortodoxia e Ecumenismo"

I
Excelências,

A atitude da Igreja Ortodoxa face aos heréticos, quer dizer, face a todos aqueles que não são ortodoxos, foi fixada uma vez por todas pelos santos Apóstolos e santos Padres, em outros termos, pela santa Tradição una e imutável do Deus-homem. De acordo com esta atitude, torna-se proibido aos ortodoxos a participação a toda e qualquer oração, como a todo ofício litúrgico comum com os heréticos. Pois “que relação tem a justiça coma impiedade? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?” (II Co. 6,14-15).

O 45º cânone apostólico estipula: “Se um Bispo, um Presbítero ou um Diácono tenha somente orado com os heréticos, que ele seja excomungado; se lhe tenha sido permitido realizar um ato qualquer enquanto clérigo, que ele seja então deposto”.

Este santo cânone não precisa a natureza da oração ou do ofício concernente ao crivo de tal proibição; ele proíbe toda a oração comum com os heréticos, mesmo se ela seja somente privada (“tenha somente orado com os heréticos”).

Não se produzem atos, aquando das celebrações ecumênicas, que atingem proporções bem mais extensas?

Citemos o 32º cânone de Laodicéia: “Não convém receber bênçãos (“evlogia”) da parte dos heréticos, que mais representam palavras ocas (“alogia”) do que bênçãos”. Os heréticos podem abençoar aquando das reuniões e celebrações ecumênicas: bispos e padres católico-romanos, pastores protestantes, administração de senhoras?

Todos estes cânones e tudo que lhes concerne, cânones dos santos Apóstolos e dos santos Padres, não eram somente válidos nos tempos anteriores, mas eles o são ainda hoje; permanecem plenamente em vigor para nós, cristãos ortodoxos contemporâneos. Eles permanecem indubitavelmente em vigor para nós em relação aos católico-romanos e os protestantes. Pois se o catolicismo é uma heresia múltipla, o que dizer então do protestantismo? Melhor seria nem falar? São Savas, primeiro arcebispo da Sérvia, não falava já em sua época, há sete séculos e meio atrás, da “heresia latina”? E desde este tempo quantas novas heresias o papa não deve ter inventado e dogmatizado “infalivelmente”? Não há dúvidas de que, pelo dogma da infalibilidade papal, o catolicismo-romano tenha se tornado pan-heresia.

Quanto ao Concílio Vaticano II, louvado em toda parte, nada mudou, no que concerne esta monstruosa heresia, mas, ao contrário, reforçou-a.

Por esta razão, se nós somos ortodoxos e se nós o queremos permanecer, somos então chamados a manter a atitude de São Savas da Sérvia, de São Marcos de Éfeso, de São Cosme de Etólia, de São João de Cronstadt e de todos os outros santos confessores, mártires e neo-mártires, em relação aos católico-romanos e aos protestantes, posto que nenhum dentre eles tem uma fé ortodoxa, ao considerarmos os dois dogmas fundamentais do Cristianismo: A Santíssima Trindade e a Igreja.

II
Vossa Santidade e santos Padres do Sínodo,

Até quando aviltaremos nós servilmente ainda nossa santa Ortodoxia e nossa Igreja de São Savas pela nossa terrível atitude contrária à Santa Tradição, para com o ecumenismo e o C.E.I (Conselho Ecumênico sdas Igrejas)?

Cada fiel cristão ortodoxo leal, cuja educação tenha sido guiada pelos Santos Padres, sacia-se de vergonha ao ler que os membros ortodoxos da 5ª conferência panortodoxa de Genebra (8-16 Junho 1968) decidem, acerca da participação dos ortodoxos nos trabalhos da C.E.I, “de exprimir que a Igreja Ortodoxa constitui um membro orgânico do Conselho Ecumênico das Igrejas”.

Esta decisão é terrível pela sua não-ortodoxia e sua anti-ortodoxia. Seria necessário que a Igreja Ortodoxa, este corpo e este organismo imaculado e teo-andrico (do grego theo/andros: “divino-humano”) de Cristo, seja humilhada a tal ponto, que seus representantes, teólogos e mesmo bispos, entre os quais, alguns Sérvios, peçam a participação e a incorporação “orgânica” no Conselho Ecumênico das Igrejas, que, desta maneira, torna-se um novo “organismo” eclesiástico, uma “nova Igreja”, acima das Igrejas, onde os ortodoxos e os não-ortodoxos constituem os “membros” (ligados “organicamente entre eles” !); é uma traição inaudita!

Nós rejeitamos a fé ortodoxa teo-andrica, o próprio vinculo orgânico com o Deus-homem, nosso Senhor Jesus Cristo, e Seu Corpo imaculado – a Igreja Ortodoxa dos Santos Apóstolos e dos Padres e dos Concílios Ecumênicos – e queremos nos tornar membros “orgânicos” da associação herética, humanista e antropólatra (do grego “idolatria aos homens” (mais enfático que o humanismo), que é composta de 263 heresias, tal como de mortes espirituais!

Enquanto ortodoxos, nós somos “membros de Cristo”. “Tomarei pois os membros de Cristo, e fá-lo-ei membros de uma meretriz?” (I Co. 6,15). No entanto, nós próprios o fazemos por meio de nossa união “orgânica” com o C.E.I, que não deixa de representar o renascimento da antropolatria ateia – da idolatria.

É verdadeiramente tempo, Excelências, para a nossa Igreja Ortodoxa, a Igreja dos Santos Padres e de São Savas, a Igreja dos Santos Apóstolos, dos Confessores, dos Mártires e dos Neo-mártires, de cessar toda a participação eclesiástica, hierárquica e litúrgica no C.E.I. e de recusar de uma vez por todas a participação às orações e aos ofícios comuns (ofícios que, na Igreja Ortodoxa, estão ligados organicamente ao seio de um todo e encontram seu coroamento na Divina Eucaristia) e, em geral, a todo ato que não contém em si mesmo e nem exprime o carácter único e irreproduzível da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, sempre Una e Única.


III
Ao recusar de se unir eclesiasticamente aos heréticos, onde quer que seja o seu centro, em Roma ou Genebra, nossa Igreja Ortodoxa, fiel em todo tempo aos Santos Apóstolos e aos Santos Padres, não renuncia, em contrapartida, sua missão cristã, nem seu dever evangélico: testemunhar diante do mundo contemporâneo, assim como ao mundo não-ortodoxo e ao mundo dos incrédulos, a Verdade da Pan-Verdade, humildemente mas com força, a respeito do verdadeiro Deus-homem e do poder salvador e transfigurante da Ortodoxia. Guiada por Cristo, nossa Igreja, pelo carácter e o espírito patrísticos de seus teólogos será sempre pronta a responder a quem quer que nos pergunte a razão da esperança que há em nós. (I Pedro 3,15). E nossa esperança, agora e sempre e em toda a eternidade, é una e única: o Deus-Homem Jesus Cristo em Seu Corpo Theândrico, a Igreja dos Santos Apóstolos e dos Santos Padre. Os teólogos devem participar não a estas “orações ecumênicas em comum”, mas a diálogos teológicos na Verdade e acerca da Verdade, o que fizeram, durante séculos, os Padres santos e teóforos da Igreja. A Verdade da Ortodoxia e da verdadeira fé são “a partilha” somente “daqueles que são salvos” (7º cânone do 2º Concílio Ecumênico).

A boa-nova apostólica é plenamente verdade: “A salvação pela santificação do Espírito e pela fé na verdade”. (II Ts. 2,13). A fé divino-humana é “a fé da Verdade”. A essência desta fé é a Verdade, a única Pan-Verdade, quer dizer, o Deus-Homem, Cristo. E esta fé e este amor formam o coração e a consciência da Igreja Ortodoxa. Tudo isto só é guardado na sua plenitude e sem alteração na Ortodoxia mártir dos Santos Padres, pela qual os cristãos ortodoxos são conduzidos a testemunhar diante do Ocidente, diante de sua falsa fé e seu pseudo-amor.
Eu peço as santas orações de vossa Santidade
e dos Bispos do Sínodo.
Arquimandrita Justin Popovitch

Teólogo ortodoxo de renome mundial, o Padre Justin Popovitch marcou sua época, notoriamente como professor na Academia de Belgrado, na formação de diversas gerações de padres e de teólogos. Foi destinado à residência no Mosteiro de Tchélie, próximo à Valievo (Iugoslávia), onde torna-se capelão e Pai espiritual.

No meio da tormenta de idéias que ganham o mundo moderno e abalam perigosamente todo sector de actividade espiritual, o Padre Justin Popovitch afirmou-se, por diversas vezes, como o guardião da Ortodoxia, fazendo por vezes face àqueles que tem por missão defendê-la. A gravidade dos problemas postos ao mundo ortodoxo, e particularmente à Igreja Ortodoxa Sérvia, conduziram-no, em diversas ocasiões, a fazer apelo à consciência ortodoxa universal em cartas dirigidas ao Santo Sínodo dos Bispo de sua Igreja.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

OrtoFoto

Polônia
autor: fr.Seraphim

"Os Fundamentos Teológicos da Ética Cristã"

(...) Deus é o Alfa e o Ômega da vida humana, O Criador, o Redentor e a Realização última de toda existência pessoal. Toda pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus (Gn.1,26-27). Toda pessoa sem exceção é apta à santidade e à teosis ou deificação: uma plena e eterna participação às energias divinas ou atributos divinos. É por esta razão que a Tradição Cristã põe tão fortemente o acento sobre o caráter sagrado da vida humana. Este caráter sagrado, uma vez ainda, tem sua origem em Deus e é concedido como uma pura expressão de Seu Amor (...) é Dom: o Dom da Vida própria de Deus e de Sua Santidade, que nos foi conferida independentemente a todo o mérito, valor ou realização pessoal. Isolada deste Dom, a vida é absurda, sem sentindo algum (...)

A Vida Moral; Liberdade em Espírito

O reconhecimento e a celebração de Deus como Mestre de nossa vida é o fundamento sobre o qual edificamos a compreensão e a esperança que levam à uma conduta cristã, uma conduta que se conforma à vontade divina e manifesta os atributos divinos: Justiça e Amor. A confissão de Deus como Senhor e Sua celebração na Liturgia da Igreja são, por esta razão, o fundamento da teologia moral cristã.

A problemática da teologia moral, que cria dilemas éticos em nossa vida cotidiana, provém do conflito existente entre a nossa confissão de fé e nossas “paixões”, os “impulsos da carne” que conduzem ao pecado e à separação com Deus, que é a fonte e a plenitude da existência humana. Sem esse conflito, nós conheceríamos pela nossa própria natureza a vontade de Deus e conformaríamos nossas atitudes e nossas ações à esta vontade. O pecado portanto, resulta da autonomia humana conduzida ao absurdo que corrompeu nossa natureza criada e a capacidade natural de todos, em virtude da divina imagem na qual ela é investida, de conhecer, de amar Deus e de, então, obedecê-Lo acima de tudo.

“Todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus” (Rm.3,23). Cada um de nós sofre os efeitos do nosso próprio estado de pecado. É por este fato mesmo que os mais santos dentre nós devem afrontar este conflito entre a razão e as paixões.

Atingir as qualidades de bondade, de amor, de misericórdia e de justiça, requer uma disciplina – uma ascese ou um combate – de arrependimento contínuo. O movimento de “retorno” implicado pela metanóia ou arrependimento não pode, todavia, ser um retorno a nós próprios, à nossa própria natureza caída e corrompida; mas sim um retorno a Deus. A conduta ética cristã não pode ser pregada a partir de idéias ou objetivos humanos; suas condições e suas metas, tal como a própria vida humana, devem estar ancorados em Deus, o único que determina aquilo que é bom, justo e reto, e que nos revela esta determinação pela Escritura, a oração e outros aspectos da experiência da vida em Igreja.

O Amor Trinitário

Eis porque a ética cristã deve fundamentar-se sobre a revelação. Se devemos nós empreendermos um combate para conformar nossa vontade, nossos desejos e nossas ações à vontade de Deus, devemos então saber o que a vontade divina exige. De fato, como é que Deus gostaria que nós nos conduzíssemos? Se procurarmos a resposta nas Escrituras e no ensinamento – A Tradição – da Igreja, algumas indicações emergem. Uma dentre elas se destaca particularmente: “Deus é Amor”, como nos diz o apóstolo João (I Jo.4,7-12). Em conseqüência, nossas atitudes e nossas ações vão refletir o amor oblativo, sacrifical que resplandeceu de forma particular na crucifixão de Jesus Cristo, o Filho Bem-Amado do Pai.

Esse amor revelado é essencialmente trinitário, é uma comunhão de Dom dividida de maneira igual entre as Três Pessoas Divinas. Desta forma, ele é sempre “dirigido aos autores”, ele consiste de dom de si, oferecido livre e jubilosamente ao outro e para o outro. Nossa resposta a este amor é também uma resposta em comunidade. Ao saber que somos objetos da profunda e tenra afeição de Deus, nós oferecemos a Ele, de nossa parte, o nosso amor, pela nossa oração e nossa fidelidade aos Seus mandamentos. Ao mesmo tempo nós estendemos nosso amor ao outro (próximo), a todo “outro” que tal como nós mesmos, traz nos recônditos da alma a imagem da divina beleza e da vida divina. Não há limites nem qualificações para tal amor. Ele deve estender-se igualmente e plenamente ao amigo e ao inimigo, ao ortodoxo e ao não ortodoxo, qualquer que seja sua identidade étnica, sua classe social, sua raça, sua religião ou seu sexo. Deus revelou-nos o Seu amor sem medidas; e este amor confere à cada ser humano um valor e uma dignidade infinitas. Todo “outro” é então digno do nosso amor, ele requer, mesmo, nosso amor. Olivier Clément o exprime de uma maneira simples mas profunda ao dizer que “todo homem tem direito a uma compaixão infinita”.

A revelação da vontade do Pai no e pelo Filho e o Espírito é raramente específica no ponto de vista das ações particulares que devem ser levadas em certas situações concretas. À nossa época, onde inquietudes avançadas tem lugar na tecnologia biomédica, somos geralmente confrontados a decisões pelas quais parece-nos não ter diretrizes confiáveis nas fontes da revelação, compreendidas nas Sagradas Escrituras. Os Dez Mandamentos (ex. 20; Dt.5), as Bem-Aventuranças (Mt.5; Lc.6) e outras regras de vida similares (cf: Ef.5; Cl.3) assim como os ensinamentos específicos de Jesus, de Paulo e de outros autores apostólicos (como por exemplo a respeito do casamento e divórcio: Mt. 19, 3-12; ICo. 7, 10-16; ou sobre a Ressurreição e o Julgamento: Mt. 25, 31-46; Jo. 5, 19-29; ICo 15, 34-58) nos fornecem condutas preciosas apesar de seu pequeno número, para tomadas de decisões éticas. Elas “condenam” certas atividades (tais como a idolatria, o matar, o furto, o adultério) e nos prescrevem outras atividades (a pureza,de coração, a reconciliação, a caridade).

A Reflexão Ética deve proceder da Fé Cristã

Se atualmente há tanta confusão quanto à tomada de decisões éticas, não é apenas em virtude da novidade e da complexidade das questões que devemos nós afrontar mas, primeiramente, porque a disciplina da ética foi isolada de suas raízes teológicas. Se ela deve constituir uma “teologia moral” autêntica, a reflexão ética deve proceder da Fé da Igreja e exprimi-la. Ela deve começar e terminar com a convicção de que somente Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, o domínio e o próprio fim de toda ação ética, tão específica ou tão trivial que ela possa parecer. A ética é a teologia aplicada, a teologia em atos. Em tanto que tal, ela encontra seu tratamento mais fundamental e mais eloqüente nesta exortação que nos é familiar e que conclui numerosas Litanias da Liturgia Ortodoxa, ... “entreguemo-nos todos, e cada um de nós, em cada instante da nossa vida a Cristo nosso Deus”.

Ao proceder desta maneira, deveríamos ser capazes de indicar como a tradição bíblica e patrística pode exprimir-se diretamente e com força acerca das questões de ética que aparecem tão complexas aos dias de hoje. A questão fundamental a guardar o espírito é esta: de que maneira princípios teológicos abstratos podem ser aplicados com benefícios em “momentos éticos” específicos, sobretudo quando decisões de vida e de morte devem ser tomadas? De outra forma perguntamos: como que os princípios de nossa fé podem eles nos ajudar a discernir a vontade de Deus em situações concretas, e a empreender ações que se conformam à esta vontade divina, para o nosso próprio bem-estar e o daquele por quem somos responsáveis?

A Pessoa Humana: Da Imagem à Semelhança

A pessoa humana é a mais sublime expressão da atividade criadora de Deus. Adão e Eva; homem e mulher, são criados à imagem e à semelhança de Deus (Gn. 1,26). Deus é a origem e o fim da vida humana criada. Sua “imagem” é realizada nos seres humanos, não só através dos atributos ou capacidades particulares (O amor a razão, etc..), como pelas qualidades pessoais, distintas que põem os humanos à parte ou acima de todos os outros seres corporais. A “Imagem de Deus no homem” é identificada, segundo alguns teólogos gregos ortodoxos de hoje (Yannaras, Zizioulas, Nissiotis, Nellas) com a “personalidade” humana: a capacidade divinamente conferida por Deus de relação com Deus, consigo próprio e com os outros, exercida na liberdade no amor.

Se nós somos, de fato, obrigados, como o afirma Yannaras, a prestar contas na vida moral da “aventura existencial de nossa liberdade”, é porque a queda (compreendida individualmente e coletivamente) nos força, de forma permanente, à uma situação de escolha. Pertence à nós livre decisão de nos rebelarmos contra a vontade de Deus, que nos exilou do paraíso. A criatura humana, segundo São Basílio “é um animal que recebeu a ordem de tornar-se deus” (citado por São Gregório de Nazianzo, In Oratio 43). Todavia ao sucumbirmos à tentação, nós somos alienados de Deus e traímos nossa vocação por excelência. Em Cristo, nós temos a possibilidade de progredir de “glória e glória” (II Co. 3,18) à uma plena e perfeita comunhão com a vida divina que aporta à humanidade (a personalidade autêntica) seu fundamento indispensável. No entanto a necessidade constante de escolher entre a luz e a verdade de uma parte, as trevas e o engano de outra, nos põe em um combate interior incessante contra as tentações demoníacas e nossa tendência a auto idolatria. A ascese autêntica é então essencial para nosso crescimento sobre a via da salvação.

Isto quer dizer que a iniciativa de Deus deve encontrar a resposta do homem, pelo exercício da vontade humana – pelo arrependimento, a oração e as obras de caridade – que nos tornam aptos, enquanto que portadores da divina imagem, a progredir através de um processo de purificação e de santificação interior, ao atingir da divina semelhança. São Diadoque exprime esta resposta ascética baseada sobre o amor, com sua eloqüência costumeira: “Nós todos, os homens, todos nós somos feitos à imagem de Deus; mas ser à semelhança de Deus é próprio somente àqueles que, por muito amor, subjugaram a Deus sua liberdade. Quando, em efeito, nós não somos mas nós mesmos, eis que então somos semelhantes àquele que nos reconciliou com Ele pelo amor” (Discursos Ascéticos)

A Consciência e o Discernimento

A vida moral está enraizada na esperança inabalável da glória que São Paulo descreve como “O Cristo está em nós” (Cl. 1,27). É a vida assumida, como um Dom sagrado, vivida na liberdade do Espírito e destinada a ser eternamente dividida na glória do Cristo. “Ora o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo como um espelho a Glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (II Co. 3,17-18). (...) Nós temos muito a prender dos escritos de São Máximo o Confessor, que declara: “Não trateis a consciência com desprezo, pois ela sempre vos aconselha a fazer o melhor. Ela põe diante de vós a vontade de Deus e dos anjos; ela vos liberta das concupiscências secretas do coração; e ao deixar esta vida ela vos concede o Dom da intimidade com Deus” (Terceira centuária sobre o Amor, 80).

São Máximo descreve a consciência como uma amiga íntima, uma amiga que nos aconselha em fazer o que de melhor, nos revela a vontade de Deus, nos protege e nos liberta da influência corruptora de nossas próprias razões e de nossos sentimentos ou “paixões”. Mais comovente ainda, São Máximo descreve a consciência como uma mediadora que toma a nossa defesa e que nos protege antes que venha o julgamento de Deus. Ao mesmo tempo, ela põe o fundamento de nossa comunhão eterna com Deus na medida onde ela nos guia para tornarmo-nos “perfeitos” como nosso Pai Celeste é perfeito.

Muitas questões nas quais somos confrontados no domínio da bioética, ou não admitem solução alguma específica ou não receberam da parte dos teólogos e de outras pessoas com autoridade na Igreja a atenção necessária para fornecer as respostas claras e definitivas que nós buscamos. Mesmo as tentativas mais sinceras para analisar tal ou tal questão em termos de prescrições eclesiásticas nos deixam um sentimento de frustração impotente. Uma decisão, pode ser critica, pode ser uma questão de vida ou morte, deve ser tomada e nós não temos recursos para decidir de uma maneira que “pareça justa” ou que se conforme manifestamente àquilo que nós sabemos ser a vontade de Deus. Geralmente, de fato, a vontade de Deus não é totalmente clara e a tentação pode ser simplesmente deixar cair os braços em sinal de desespero.

Uma Consciência Conforme ao Espírito da Igreja

As decisões que somos levados a tomar concernem preocupações banais do domínio do cotidiano ou um julgamento de vida ou de morte onde com pouco ou até mesmo sem tempo algum temos para refletir e aconselharmo-nos; essas decisões só podem ser fiéis ao objetivo divino na medida em que elas são essencialmente decisões eclesiais tomadas sobre a base de uma consciência que se conforma ao espírito de Igreja.

Isto quer dizer, igualmente, que as decisões críticas que nos podem levar a tomar devem ser, de fato, tomadas ao interior da comunidade que é a Igreja. É a comunidade dos vivos e dos mortos, dos “santos” de todos os tempos que conosco estão no corpo de Cristo universal. De uma parte, nós nos dirigimos a eles para pedirmos conselho pelo diálogo pessoal ou pelos escritos que eles deixaram. quantos dentre nós, nos dias de hoje, encontraram uma inspiração nova e cheia de graças ao ler textos deixados por Nicolau Motilov (que transcreveu suas conversações com São Serafim de Sarov sobre a aquisição do Espírito Santo), o Padre Alexandre Eltchaninov (presbítero da emigração russa, morto em 1934, autor de um Jornal Espiritual), ou ainda São Silouane o Atônita (monge russo da santa montanha, morto em 1938 e canonizado em 1988). De outra parte, nós pedimos a oração dos santos, sua intercessão por nós, a fim de sermos guiados como convêm. Nós pedimos para sermos guiados pela inspiração da Graça e pelo poder do Espírito Santo, afim de agirmos conforme à vontade de Deus para nós próprios e para todas as outras pessoas concernentes.

Pelo Nosso batismo Nós nos Tornamos “Membros Uns dos Outros”

Isto quer dizer que jamais tomamos decisões éticas sozinhos. Nossos julgamentos morais e as ações que daí procedem intervêm sempre ao interior do corpo vivo da Igreja. Pelo nosso batismo nós somos incorporados uns nos outros, nós nos tornamo-nos “membros uns dos outros” (Rm.12,5). As decisões que eu tomo afetam e influenciam o corpo (por inteiro). Assim como o meu próprio pecado tem conseqüências não somente para minha família e meus amigos, mas também para a comunidade eclesial no seu conjunto, tais como minhas decisões éticas e sua conseqüências implicam e afetam a totalidade da “comunhão dos Santos”. O aspecto positivo, a maravilhosa promessa desta verdade: eis que posso apoiar-me sobre o corpo todo para assistir-me e guiar-me nas decisões críticas graças ao amor que me testemunham seus membros, à sua solicitude, sua implicação pessoal e, sobretudo, sua oração.

Nós temos toda a necessidade, sendo clérigos ou leigos, de nos construirmos “fontes de sustento” pessoais composta de experientes e confiáveis amigos próximos que podem nos aconselhar e nos avisar quando temos que tomar decisões capitais. Isto que dizer também que nós devemos, enquanto membros da Igreja, reconhecer e aceitar nossa responsabilidade de uns para com os outros, afim de assegurar a assistência, o conselho e a intercessão necessários. Quando a morte ameaça, ou uma doença crônica leva um de nós à depressão e ao desespero, ou quando um casal de amigos toma o caminho do divórcio, muito geralmente temos a tendência a ignorar o problema. Nós não “queremos nos intrometer”. É a mesma atitude de auto-proteção, transposta no contexto paroquial, que nos faz recuar, quando vemos alguém deitado sob o leito do desespero. Desde então, não nos admiremos que os especialistas ortodoxos da teologia moral sintam-se obrigados a desenvolverem uma ética fundada sobre o imperativo do Dom de si e do amor sacrifical.

No fim das contas, há uma única razão pela qual os cristãos aceitam a “via estreita” que implica o fato de viver segundo as regras de uma moral. Se nós escolhermos o amor oblativo no lugar do hedonismo, Deus no lugar de Mamon, é porque somos fundamentalmente convencidos – sobre a base de nossa própria experiência assim como a partir do testemunho dos outros que Deus, Ele próprio, é Amor, que Ele é em verdade o Autor e o Fim de nossa vida, que somente Ele confere o sentido desta vida, objetivo e valor. Ele está, então, intimamente presente em cada crise que passamos e em cada escolha que fazemos. Tais crises e tais escolhas são o nosso lote cotidiano. Elas não podem ser evitadas, pois recusar decidi-las é então recusar agir, o que é em si uma falta moral.

Quando acontece, o que é freqüente, de não podermos discernir a vontade de Deus em uma situação dada, então nos lembramos que satanás o tentador, trabalha mais eficazmente através de nossa confusão, nossa frustração, nosso desespero. Quando nós nos sentimos obrigados a tomar uma decisão que tem conseqüências sérias, mas os elementos necessários para discernir a vontade de Deus nos faltam, então devemos recuar e recordar que isto é realmente um jogo. Nós devemos encontrar a intuição dos grandes ascetas da Igreja: momentos assim críticos em nossas vidas são campos de batalha, arenas do Espírito nas quais a mais importante decisão que possamos tomar é de nos remetermos nós próprios e os outros também participantes, entre as mãos de Deus que é bom e misericordioso.

Confiar Toda Nossa Vida a Cristo Nosso Deus

Tudo isto sugere uma conclusão paradoxal, mas inevitável: que nós podemos saber com certeza que tal decisão moral é conforme à vontade de Deus e representa a “boa escolha”. O que importa verdadeiramente é que em nossas deliberações morais, geralmente angustiantes (que concernem, por exemplo, o tratamento apropriado à conduta destruidora de um narcótico), rejeitamos a orgulhosa tentação que nos faz afastar do controle das operações, no lugar de “entregarmo-nos todos e cada um de nós em cada instante de nossa vida a Cristo nosso Deus”. Isto não quer dizer que renunciamos à nossa liberdade ou que nós abdicamos nossa responsabilidade. Isto significa que damos a Deus aquilo que é de Deus, e precisamente “toda nossa vida”, isto inclui nosso motivos e nosso desejos assim como nossas escolhas e nossas ações. E fazemos isto com a convicção inabalável que em toda situação onde o amor governa nosso comportamento, Deus pode tirar de nossos erros e de nossos maus julgamentos o que de necessário para realizar seu desígnio. A Fé da Igreja é que a vontade de Deus governe todas as coisas. A essência da vida moral cristã consiste então em submeter nossa vontade própria à vontade de Deus com a fervente oração que Sua vontade seja feita.

Este ato de total submissão é necessário, que nos sintamos, ou não, conscientes de partilhar o espírito do Cristo e de aí conformar todas nossas decisões e nossas ações. Isto requer um profundo ato de fé e uma grande dose de humildade para admitir nossos próprios limites quando realizamos escolhas morais e remetemos este processo de tomada de decisões em boas mãos. É necessário humildade e confiança para dirigir-se ao próximo e lhe suplicar de nos acompanhar e assistir de seu amor e intercessão. É isto precisamente o que nos é pedido enquanto membros de um corpo e membros uns dos outros. A primeira e a última decisão que temos de tomar é, então, a decisão de submeter nossas deliberações morais àquele que é a cabeça deste corpo, com firme propósito de que todas as ações que nós realizamos em toda situação dada são para a Sua Glória, para a salvação daqueles que Ele confiou aos nossos cuidados.

O Padre Jean Breck ensina no Instituto Saint-Serge, em Paris, depois de ter sido professor no Instituto de Teologia de Saint-Vladimir em Nova York; especialista do Novo Testamento e de Bio-Érica, autor de varais obras da teologia bíblica.
Tradução da Monja Rebeca

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mosteiro Docheiariou - Monte Atos

O Mosteiro Docheiariou fica na parte oeste da península a 30 m acima do mar. Foi fundado no começo do século X por São Eutímio, discípulo e amigo de Santo Atanásio, o Atonita. O Mosteiro é dedicado a São Nicolau. O Katholikon do mosteiro é dedicado a aos Santos Arcanjos. O Mosteiro possui 6 capelas no seu terreno e 4 capelas fora dos muros do mosteiro. O mosteiro possui duas kellia em Karyes. Entre as preciosidades do mosteiro conserva-se: pedaço da cruz de Cristo e um ícone milagroso da Mãe de Deus. Durante a guerra de independência da Grécia (1821-1831) o mosteiro perdeu a maior parte de suas relíquias e objetos preciosos.




quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Introdução à Fé Ortodoxa - Comentário do Símbolo de Nicéia-Constantinopla"

Creio em um só Deus
Pai Todo Poderoso
Criador do Céu e da Terra
E de todas as coisas visíveis e invisíveis

Nós confessamos que há um princípio imaterial e infinito, fonte e plenitude do ser, e este princípio nós o chamamos Deus. “Eu Sou aquele que É” (Ex. 3,14); “Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim; “Eu sou o primeiro e o último” (Ap.1,8 e 17). Fonte e plenitude do ser, Deus é também a fonte e a plenitude de toda perfeição moral, e como toda perfeição conduz ao amor, nestes termos podemos melhor conceber Deus :”Deus é amor” (I Jô. 4,16) “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós” (I Jo. 4,12). Não nos interessa então conceber Deus como uma sorte de homem, ou de super-homem, mas como um princípio espiritual, como o Amor infinito.

Deus criou “o céu e a terra”, quer dizer, o universo inteiro; tudo aquilo que existe. Criar deve ser tomado aqui em um sentido todo espiritual e especial. A matéria, a vida, o espírito são formas do ser; é o ser comunicado, dado por Deus, que é a fonte de todo ser. A criação por Deus não é uma forma de fabricação material, ela é um ato interior de Deus, ela se passa na consciência divina. Nós estamos em Deus, sem, no entanto, confundirmo-nos com Deus : Ele é o ser que se dá, e nós somos o ser que recebe. “Porque nele vivemos, e nos movemos , e existimos” (At. 17,28).

Deus criou por amor. Ele ama e cria por este mesmo ato. Deus fez o homem inteligente e livre para que o homem, por sua vez, possa amar. Todos os fenômenos do universo são uma manifestação da atividade divina.

Não há, neste ponto, contradição entre a ciência e a fé. A fé na criação não está ligada a tal ou tal teoria cosmológica. É à ciência que convém o examinar livremente problemas e questões tais como a idade do nosso planeta, a formação do sistema solar, a gênesis e a evolução das espécies viventes. Quaisquer que sejam os resultados atingidos pela busca científica, esses resultados não podem ir contra a nossa fé. Esta põe-se a afirmar que Deus-Amor é a origem, o sentido e o fim de tudo aquilo que existe.

A atividade criadora de Deus não se exprime ela pelo universo visível e os seres vivos que o completam ? Nós não temos o direito de nos restringirmos assim. De uma parte a tradição hebraica, seguida pela tradição cristã, nos fala de seres imateriais que são os ministros da bondade e do amor divinos : “ os anjos” – de outra parte, estas mesmas tradições objetivam e personificam o poder das trevas e, certos espíritos maus. Como nós o vemos, o símbolo de Nicéia-Constantinopla não precisa nada à este respeito, mas confessa, além das “coisas visíveis”, a existência das “coisas invisíveis”.

Os profetas hebreus, e sobretudo o próprio Cristo, nos ensinam a considerar Deus como um Pai com o qual cada um de nós pode estabelecer uma relação pessoal e viva : “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt.5,48). Estas relações com nosso Deus e nosso Pai receberam sua mais alta expressão na oração que Jesus Cristo nos ensinou : o Pai-Nosso.

Creio em um só Senhor, Jesus Cristo
Filho Único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos,
Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
Gerado não criado, consubstancial ao Pai,
Por quem todas as coisas foram feitas.

O Pai fez-Se-nos conhecer pelo Seu Filho. Nós somos todos filhos de Deus, mas somente um é “O” Filho de Deus, em um sentido único e excepcional. Este filho, este mediador não foi criado ou adotado. Ele procede do Pai pelo nascimento espiritual. Aquele a quem nós chamamos Filho, é a palavra, o Verbo ou o pensamento eterno do Pai : “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,1-4). A palavra de Deus é para nós “o Senhor”, o Mestre, o Guia Supremo , a Luz. “Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo o homem que vem ao mundo. A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome” (Jo 1, 9 e 12).

A palavra de Deus não é uma abstração, mas uma realidade viva. Ela nos é mostrada sob uma forma humana e real, na pessoa de Jesus de Nazaré, a quem nós chamamos Cristo (“Ungido”) e Messias (“Enviado”). A consciência cristã dos primeiros séculos esforça-se em precisar, na linguagem da metafísica grega de então, as relações do Pai e de Jesus. Tanto que Jesus é a encarnação da palavra de Deus, a expressão e a manifestação do Pai; tanto que n’Ele somente alcançamos o Pai (“Quem me vê a mim vê o Pai”), a Igreja confessa que Jesus, o Filho é “consubstancial ao Pai”; e, proclamando que Ele é, em verdade, homem, ela adora-O como Deus verdadeiro.

Que por nós homens e para a nossa salvação
Desceu dos céus
E encarnou pelo espírito Santo no seio de Maria Virgem
E se fez homem.

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14). É esta união da palavra de Deus com uma natureza humana, na pessoa de Jesus, que nós chamamos o mistério da encarnação. Traduzindo em termos humanos este mistério inefável, que ultrapassa o pensamento teológico e filosófico, porque escapa à investigação histórica, e querendo exprimir a intuição profunda, provada pela consciência cristã, de uma pureza única que rodeia a vinda entre nós do Filho de Deus, a Igreja professa que o nascimento de Cristo faz exceção às condições ordinárias da vida da carne, e Ela formulou a doutrina da “concepção virginal” pela operação do “sopro” divino ou “Espírito Santo”.

A palavra (o Verbo) fez-se carne “para nós e para a nossa salvação”. Em efeito, o plano divino havia sido profundamente alterado. A humanidade, usando de sua liberdade, transviou-se do Deus-Amor para seguir as vias da realidade egoísta. Esta infidelidade primordial, este “pecado original”, havia introduzido no mundo o sofrimento e a morte, tanto físicos como espirituais. Era necessário vencer o mal, reconciliar aquilo que estava separado, salvar o que estava perdido. Era necessário divinizar a natureza humana. Tal era a obra de salvação reservada à palavra feita carne.

E por nós foi crucificado, sob Pôncio Pilatos,
Padeceu e foi sepultado

A obra de salvação realizada por Cristo revestiu-se de diversos aspectos. Jesus, ao curso de sua vida terrestre, suportou a tentação, curou almas e corpos. Pregou o “reino de Deus”, chamou a este reino os sofredores, os pobres, os perseguidos. Os mansos de coração; ensinou que o “reino” consiste na realização deste duplo preceito: “amarás ao senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma. E de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc. 10,27). Ele próprio dizia o que profeta algum havia jamais dito: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ao resistir à tentação, ao curar, ao perdoar, ao anunciar a “boa nova”, Cristo já nos salvava. Mas Ele, no entanto, quis realizar e cumprir às supremas exigências de Seu amor por nós : “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Sua morte sobre a cruz nos “libertou”, não em um sentido jurídico ou comercial, como se o Pai reclamasse uma expiação sangrenta do pecado humano, mas porque o ato interior de amor e de oferta (oferecer-se), cuja crucifixão era a expressão visível, a expressão visível, reparava, para além, toda a revolta dos homens contra o Pai e provocaria em nossos corações uma resposta de conversão. A cruz, que Jesus quis para Ele próprio, tornou-se o sinal e a condição necessária de toda vida cristã: “se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz e siga-me” (Lc. 9,23).

Ressuscitou ao terceiro dia
Conforme as escrituras

“Depois d’Ele ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus” (At. 1,3). A convicção dos discípulos de que a pedra do túmulo não havia selado para sempre seu mestre e Sua obra, tornou-se a Fé de toda a Igreja. Pois que esta proclama que não é necessário procurar entre os mortos aquele que está vivo (Lc. 24,5). O fato da Ressurreição não pode ser nem demonstrado, nem negado sobre o plano puramente histórico, e não pode mesmo ser plenamente “realizado” pelo pensamento humano. É um mistério. Mas a realidade deste mistério é atingida pela fé e pela experiência espiritual, tanto individual como coletiva. A certeza e a alegria da ressurreição são o coração da piedade ortodoxa : “Cristo ressuscitou dos mortos; pela morte Ele venceu a morte, aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida !” (tropário Pascal)

E subiu aos céus
Onde está sentado à direita de Deus Pai

Os dois símbolos físicos de uma ascensão “ao céu” e de uma seção à direita do Pai significam, de uma parte, que Cristo tomou gloriosamente possessão deste “Reino” que Ele anunciou e onde Ele nos deu a esperança de o franquearmos (o reino é a vida eterna no Deus-Amor). De outra parte, que Ele ocupa no reino, o lugar único que, junto do pai, é reservado ao Filho : “Tu és Meu Filho amado, em Ti me comprazo” (Lc. 3,22).

De novo há-de-vir, cheio de glória
Julgar os vivos e os mortos,
E o Seu reino não terá fim

Os Evangelhos e o Apocalipse descrevem a vinda de Cristo “com poder e grande glória” (Mt. 24,30), “à hora em que não penseis” (Mt. 24,44) – “e os mortos foram julgados segundo as suas obras” (Ap. 20,13). Se certos detalhes destas descrições contêm uma grande parte de simbolismo, isto seria ir contra toda a tradição cristã , ao ver na “segunda vinda” e no julgamento final uma simples imagem. Porém não é necessário representar uma espécie de processo judiciário. O próprio homem se julga e determina a sua escolha segundo, voluntária e cientemente, o afastar-se ou o aproximar-se do Deus –Amor. A vida eterna só faz manifestar a livre escolha de cada homem, inscrita nos seus sentimentos e nos seus atos. Este mundo passará, todas as coisas serão feitas novas; e então o reino será restaurado para sempre.

Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida,
Que procede do Pai
E com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória
Foi Ele quem falou pelos profetas

“E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o espírito de Verdade... o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu Nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito... quando vier o Consolador. Aquele espírito de verdade Ele testificará de mim” (Jo 14, 16,26; 15,27). Este espírito ou “sopro” do Pai, enviado sobre os homens pelo Filho, preencheu os apóstolos e continua a santificar aqueles que vivem na fé e no amor. Nós o chamamos “Senhor”, tal como o Filho, porque Ele também é nosso Mestre e nosso Guia. Ele nos vivifica, pois toda a nossa vida espiritual depende deste “sopro”. Ele é a manifestação visível do Pai em nossas almas, assim como o Filho foi Sua manifestação exterior e visível. Não podemos separar o Pai de Sua palavra e de Seu sopro, não podemos dividir o Deus-Amor e cindir n’Ele o princípio transcendente (o Pai), a revelação objetiva (o Filho), a ação imanente (o Espírito). É por isso que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são “adorados e glorificados” da mesma forma, como sendo uma mesma essência divina em três hipóstases ou sujeitos. Esta formulação teológica provém dos primeiros concílios que, sob o nome de Santíssima Trindade, tentamos exprimir o mistério do Pai que se manifesta a nossos olhos pelo Seu Filho e vive em nossas almas pelo Seu Espírito (Santo).

O Espírito Santo “falou pelos profetas”. Nós entendemos com isto que as Santas Escrituras, os livros do Antigo e do Novo Testamento foram redigidos por homens sob a inspiração divina. Esta inspiração aporta o conteúdo religioso e moral da Sagrada Escritura. Ela não confere aos escritores dos livros sagrados nenhuma infalibilidade em cronologia, história, cosmografia. Matérias em que eles partilham as idéias de seu tempo. A Sagrada Escritura constitui uma preparação pedagógica progressiva à vinda de Cristo e o reino do Espírito. Podemos dizer que uma preparação paralela se operaria nas nações pagãs por certos progressos do pensamento, de sorte que Deus não deixou povo algum desprovido de toda a luz. Temos o direito de aplicar os métodos críticos da história da filosofia, com uma plena liberdade que exige a ciência, a tudo aquilo que na Sagrada Escritura é susceptível de uma verificação de fato, de uma constatação positiva. Mas o conteúdo espiritual das Santas Escrituras não revela nenhuma interpretação particular. Sua interpretação pertence à Igreja, que fala sob a ação do Espírito Santo.

Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica

A palavra igreja significa “assembléia” e “eleição”. Cada comunidade cristã primitiva nomeava-se “assembléia dos eleitos”. A totalidade dos crentes formava a Igreja, no sentido geral, e não mais local e particular desta palavra. Os apóstolos já se preocupavam em organizar mais solidamente as comunidades cristãs. As comunidades da época apostólica apresentavam os mesmos traços gerais que as comunidades cristãs modernas. Cada uma era um grupo de fiéis perseverando na doutrina dos apóstolos, na fração do Pão e oração (At. 2,42), sob a presidência de um intendente (episkopos; “bispo”), rodeado de anciãos (presbyteroi; “presbíteros”) e de servidores (diakonoi; ”diáconos”).

Estas funções subsistem até hoje entre nós. Mas não convém concebermos esta escada de funções ou hierarquia como constituindo uma autoridade exterior, transcendente ao corpo dos fiéis. Não há na Igreja autoridade “exterior” alguma. Um concílio ecumênico reunido todos os bispos é uma expressão da consciência religiosa dos fiéis em um tempo dado, e só se torna uma norma na medida em que esta consciência o aceita.

A infalibilidade é imanente à unanimidade dos fiéis, a revelação da verdade é uma resposta ao nosso amor fraternal. É por isso que a tradição “ortodoxa” – à qual estamos nós ligados – não admite nem as doutrinas romanas sobre a autoridade na Igreja e, em particular sobre o poder do Papa, nem certas concepções protestantes dentre as quais a busca e a descoberta da verdade religiosa seriam algo puramente individual.

Além da oração em privado, a relação pessoal e interior com Deus, existe a oração em comum, a santificação coletiva que se opera ao seio da comunidade. De lá provêm as formas exteriores, os ritos, que não têm, em partes, nada de absoluto, mas são submetidos à uma evolução histórica.

A tradição ortodoxa professa que há uma comunhão entre os santos glorificados e nós próprios; nós não os adoramos, mas podemos nos dirigir a Deus pelas suas orações e nos apoiarmos em sua intercessão. Ao venerarmos a memória de Maria, Mãe do Senhor, àquela dos apóstolos, à dos mártires, e de outros santos, ao honrarmos suas imagens (ícones) e suas relíquias, é a Deus, que manifesto neles, prestamos homenagem. Não é, portanto, uma idolatria.

A vida coletiva da comunidade cristã exprime-se sobretudo pelos “Mistérios”, símbolos materiais eficazes ao meio dos quais nós participamos dos Dons divinos, não de uma maneira mecânica ou mágica, mas na condição que o espírito humano assimile estes dons pela fé e o amor. O mistério central, o próprio mistério da Igreja e de sua unidade é o “mistério da ceia” ou Eucaristia: comendo o pão partido e bebendo o cálice de vinho sobre os quais a Igreja tomou, nós comungamos, de uma maneira não carnal, mas real, ao corpo e ao sangue de Cristo, ao sacrifício da morte e à todos os nossos irmãos e irmãs que são seus membros.

O casamento cristão indissolúvel, pelo qual dois seres formam uma criatura nova em Cristo, é também um mistério exprimindo a unidade da Igreja, um embrião de Igreja.

A Igreja de cristo é Uma e Universal. Ela se estende a todos os homens a todos os tempos, a todos os lugares. Sua fé é aquela recebida desde sempre, por todos e para todos; ela pensa e vive unanimemente: é isto que exprime a palavra “católica”, o que não é monopólio à confissão romana. A igreja é santa, não no sentido em que todos os seus membros sejam efetivamente santos, mas porque a santidade é a vocação de todos e porque a Igreja possui e oferece todos os meios à santificação. A Igreja é apostólica porque ela beneficia-se da tradição dos apóstolos e porque, pelo mistério da imposição das mãos, pelo qual se transmite todo o ofício pastoral, ela remonta até eles. A Igreja compreende homens, que lhe são aparentemente estranhos e hostis. Todo o homem fiel à medida da luz, que a ele foi dada, participa na Graça, à vida do próprio Cristo; mesmo se ele não conheça Cristo, estas almas de uma tão boa vontade, sejam quais forem suas ignomínias ou suas negações, são membros invisíveis da Igreja. Esta transborda toda medida visível. Não devemos, desta forma , conceber a Igreja como uma organização jurídica, sob o único aspecto temporal. A Igreja, na sua profunda realidade é, segundo as palavras de São Paulo, “o Corpo de Cristo” (I Co. 12,27) e segundo o apocalipse, “a Esposa de Cristo”.

Reconheço um só batismo
Para a remissão dos pecados

Todo pecado consiste em violar o sentido divino da vida, que é o amor. Na revelação feita outrora ao povo hebreu, o decálogo (10 mandamentos) indicava quais eram os pecados, enunciando as seguintes prescrições positivas : adorar a Deus somente; não pronunciar Seu nome em vão; observar os dias de santificação; honrar pai e mãe; não matar; não furtar; não cometer adultério; não dar falso testemunho; não cobiçar. O apóstolo João relaciona todo pecado a uma das três “concupiscências” : desejos da carne, desejos de possessão e orgulho (I Jo. 2,16). São três formas de egoísmo, de afirmação do eu, separado de Deus. Todos estes pecados, quer por palavra, quer por pensamento, quer por ação. Violam o preceito de Cristo : amar a Deus de todo seu coração; amar a seu próximo como a si-mesmo (Lc. 10,27) .

O pecador não pode tornar-se novamente justo pelos seus próprios méritos ou pelas suas obras (oração, misericórdia, ascese, etc.), embora as obras sejam um sinal necessário de justificação. Ele é justificado gratuitamente pela participação à vida de Cristo: “...e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl.2,20). Mas necessário é morrer para o pecado – seja o nosso pecado voluntário e consciente, ou a falta original em que nós somos não culpados, mas solidários – e nascer à vida nova em Cristo. O mistério do batismo é o sinal eficaz deste novo nascimento*: “aquele que não nascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo.3,5) e “portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28,19). Isto não quer dizer que a água tenha um poder mágico; mas o batismo de água, ao qual Jesus submeteu-se, Ele próprio, junto de São João Batista era um símbolo de penitência e de purificação. E Jesus quer marcar que não podemos receber o batismo do espírito se não tivermos recebido previamente o batismo de penitência.

O batismo é o sinal exterior necessário de pertencer à Igreja, mas nós o temos dito que também a Igreja tem membros invisíveis, os quais não receberam o batismo da água. Ao conceder Sua graça, Deus não se limita por qualquer condição material. Segundo a antiga tradição da Igreja, o mistério do “dom do Espírito Santo”, renovação da graça do Pentecostes, está ligada ao batismo e se confessa logo em seguida, sob a forma de uma unção, o “mistério do Crisma”. A vida em Cristo recebida pelo batismo pode se perder por pecados ulteriores. O pecador pode então (e à cada vez) se purificar por um novo batismo, não mais de água, mas de espírito, que é o “mistério da penitência”. Este é o mistério do perdão divino concedido ao arrependimento do coração, tal como o evangelho nos oferece tantos exemplos. Segundo a disciplina ortodoxa atual, o mistério da penitência, na sua forma exterior, supõem a confissão de suas faltas diante de um ministro da Igreja, delegado por ele (diante de um ministro e não a um ministro, pois a confissão dirige-se a Cristo, o ministro não passa de uma simples testemunha), a partir da qual a absolvição é concedida em nome de Cristo, pelo ministro.

Outro mistério que desliga os pecados é aquele da “unção dos enfermos”, conforme as palavras do apóstolo Tiago : “Está alguém entre vós doente ? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tg. 5, 14-15).

Nós confessamos um único batismo, pois só há um batismo e uma remissão dos pecados : o batismo e a remissão instituídos por Cristo.

E espero a ressurreição dos mortos
E a vida do mundo que há-de-vir.

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos e foi feito as primícias dos que dormem, porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo..., ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (I Co. 15,19-22 e 26).

“Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita : vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt. 25,34).

“Amados, agora somos Filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é O veremos” (I Jo. 3,2).

“Então dirá também aos que estiverem à Sua esquerda : apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt. 25,41).

“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Ap. 22,15; 20,15).

Nós entre-olhamos, tal como através de um véu, o que poderá ser para aqueles que estão à direita do rei – aqueles que encontraram o reino de Deus – a vida do mundo que há-de-vir. É mais difícil a nós representar a sorte daqueles que morrem pela sua própria escolha, separados de Deus. Como já antes dizemos: não é Deus que os julga, que os condena, a morte, enquanto uma conseqüência lógica, os fixa no estado em que eles próprios escolheram. Mas como Deus pode – Ele permitir que a sua escolha seja ela afastamento de tal maneira ? A consciência religiosa moderna rejeita, cada vez mais, a idéia de uma tortura e de um fogo material destinados aos condenados. Mas a idéia de uma separação eterna de Deus e o sofrimento moral que o acompanha, não parecem eles muito mais aceitáveis ?

É verdade que, de fato, não podemos dizer nada à respeito de ninguém que foi ou será condenado. Mas, em contrapartida, que a possibilidade da condenação subsiste, não seria isto como um limite lógico, neste ponto, para nossa confiança na bondade do Pai, uma prova e um escândalo dolorosos ?

Nós propusemos a este enigma soluções diversas. Falamos de uma aniquilação das almas pecadoras, de uma reparação radical entre o pecado (em algum sentido ontológico) – eternamente condenado – e o pecador salvo a partir de um perdão último. Antes de recorrer à hipóteses ainda sem resultados, é-nos mais prudente manter como advertências solenes as palavras do Evangelho, sem procurar extenuar o sentido ou a interpretar os símbolos. É necessário, por outra parte, admitir que estas palavras escondem um mistério, atualmente inacessível e que só nos será revelado na vida eterna; enfim, é-nos necessário lembrar que se Deus é amor, a solução do mistério só pode ser uma solução de amor e que a misericórdia infinita autoriza esperanças infinitas.

A tradição ortodoxa admite que as orações dos fiéis vivos possam trazer ajuda às almas daqueles que repousam, unidos a Deus, mas não ainda completamente purificados de suas faltas.

“E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará Aquele que todas as coisas lhe sujeitou. Para que Deus seja tudo em todos” (I Co. 15,28).

“Amém! Ora vem, Senhor Jesus” (Ap. 22,20).

Padre Levgillet
Traduzido pela monja Rebeca
Boletim Interparoquia

terça-feira, 13 de maio de 2008

Mosteiro Zographou - Monte Atos

O Mosteiro Zographou situa-se no sudoeste da península, no topo de um de seus montes com 160 metros de altitude. Os monges Moisés, Aarão e João fundaram o mosteiro no século X. Nos últimos anos do Império Bizantino, o mosteiro foi destruído por piratas catalães e reconstruído com a ajuda da dinastia dos Palaeologos, assim como de soberanos da Europa Oriental como: Andrônicos II e Andrônicos III (1282-1328) da Moldávia e reis da Sérvia que restauraram o mosteiro. O Katholikon do mosteiro é dedicado a São Jorge e foi construído em 1801. Entre as relíquias miraculosas que o mosteiro preserva encontra-se: relíquias de São Jorge e seu sangue, relíquias de Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria e de São Mateus, o Evangelista, assim como 2 ícones milagrosos de São Jorge.




segunda-feira, 12 de maio de 2008

OrtoFoto

Sérvia
autor: Aleksa Stojkovic

"O Verdadeiro Valor do Homem"

Duas noções colocam-se em evidência, depois de uma guerra, talvez mais do que nos anos que a precedem, a noção da grandeza do homem, da sua significância tanto para os homens quanto para Deus; e a noção da solidariedade humana. E estes são dois pontos sobre os quais eu gostaria de dizer poucas palavras. E fazendo isto nós temos que medir quão longe nós ousamos na valorização da significância dos homens, e quão longe nós ousamos ir em nossa solidariedade; isto é, quão grande nossa coragem pode ser ou também quais são seus limites.

Por séculos, como nos parece, dentro da Igreja nós temos tentado fazer nosso Deus tão grande quanto podemos fazendo o homem pequeno. Isto pode ser visto até em trabalhos de arte nos quais o Senhor Jesus Cristo é representado grande e suas criaturas realmente muito pequenas a Seus pés. A intenção era mostrar quão grande Deus era, mas isto resultou na falsa, enganada, quase blásfema visão de que o homem é pequeno, e numa negação desse Deus que trata os homens como se eles não tivessem nenhum valor.

Estas duas reações são igualmente erradas. Uma pertence às pessoas que defendem que os filhos de Deus, os escolhidos de Deus, refere-se a Igreja. Eles fazem isto de tal forma a sê-lo tão pequeno quanto a imagem que eles têm dos homens, é a mesma falta de perspectiva e grandeza em relação as suas pequenas comunidades e as partes que a constituem. A outra atitude nós a encontramos fora da Igreja, entre os agnósticos, os racionalistas e ateus. Nós somos responsáveis por estas duas atitudes e nós seremos responsáveis por ambas tanto na história quanto no dia do Julgamento. Mas esta não é a visão de Deus sobre o homem.
Quando nós buscamos entender o valor que Deus dá pelo homem nós vemos que nós fomos comprados por um preço muito alto, que o valor que Deus dá pelo homem é toda a vida e toda a morte, a trágica morte, de seu Unigênito Filho sobre a Cruz. Isto é o que Deus pensa do homem, do seu amigo, criado por Ele com o propósito de estar em Sua companhia por toda a Eternidade.

Novamente, quando nós abrimos o Evangelho na Parábola do Filho Pródigo, nós vemos este homem que tendo deixado a grandeza de sua filiação, de sua vocação, depois volta para seu pai. No caminho ele prepara a sua confissão. Ele está pronto a admitir que ele pecou contra o céu e contra seu pai. Ele está preparado a reconhecer que ele não é digno de ser chamado de filho. Mas, quando ele encontra seu pai, seu pai só lhe permite fazer metade de sua confissão, reconhecer que ele não é digno, que ele é um pecador, que ele pecou contra o céu e contra ele; mas lhe permitir um lugar no Reino em termos mais baixos daqueles de filiação, “deixe-me ser como um dos seus servos assalariados”, isto Ele não permite. Ele o interrompe no momento que o jovem rapaz reconhece sua indignidade, indigno da primitiva, original e eterna relação para a qual ele foi chamado. Ele pode ser um filho indigno; ele pode ser um filho arrependido; ele pode voltar à casa do pai, mas sempre como seu filho. Ele até pode ser indigno enquanto filho, mas ele jamais poderá tornar-se um assalariado digno.

E esta é a forma pela qual Deus olha para o homem: em termos da filiação oferecida a nós pela Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, implicada tanto no ato da Criação quanto no nosso chamado a tornarmo-nos participantes da natureza divina, a tornarmo-nos filhos por adoção do Unigênito Filho; a tornarmo-nos, nas próprias palavras de Santo Irineu de Lyon, o filho unigênito no Cristo total.

Esta é a nossa vocação. É para isto que somos chamados. E nada menos do que isto é aceitável para o Senhor. Vejam, esta visão do homem é algo que é incompatível com a pequena visão que nós muito freqüentemente adquirimos de falsos ensinamentos: a servil aproximação ao Senhor. Este é o motivo pelo qual o mundo de fora não pode receber nossa mensagem: esta mensagem tornou-se falsa, ninguém que conheça o espírito do homem dentro de si mesmo estará preparado para ser tratado como se ele fosse menos do que ele sabe que é.

O homem é o ponto de encontro entre o crente e o não crente, entre o fiel e o homem que está sem Deus, reintegrados, nós estamos preparados para um encontro e para um único pensamento. Você se lembra da passagem no Livro dos Atos no qual São Paulo nos fala da descoberta em Atenas de um altar dedicado ao deus desconhecido? Não é este deus desconhecido um homem? Nos nossos dias ele parece sê-lo mais do que nunca. Aqueles que repudiaram Deus e rejeitaram Cristo fizeram do homem seu deus, a medida de todas as coisas. E na verdade, convictos, eles estão indo de encontro à imagem falsificada que através dos tempos lhes é oferecida. Eles fizeram do homem o seu deus e eles o colocaram no altar; mas este homem que eles transformaram em seu deus, na verdade, é um ídolo. Ele é um homem bi-dimensional, um prisioneiro das duas dimensões de tempo e espaço.

Este homem, transformado em deus, não é um homem com profundidade. É um homem como nós o vemos na prática, comum, é empírica vida antes de nós descobrirmos que o homem tem uma profundidade.

Ele está dimensionado nestas duas coordenadas, ele tem volume, ele ocupa espaço, ele tem forma; ele é tangível e visível, mas ele não tem conteúdo. De certa forma alguém pode dizer que ele pertence ao mundo da geometria na qual pode-se falar de volumes, mas estes volumes são vazios; não há nada a dizer sobre o que há dentro destes volumes. O homem considerado somente em termos de espaço e tempo, neste sistema bi-dimensional, aparece para nós apenas como uma concha, uma forma exterior. Ele é uma presença e nós nos relacionamos com sua presença. Sua presença pode ser agradável ou desagradável. Não há profundidade para sondar, não há profundidade que nós possamos investigar ou mesmo perceber, porque a profundidade do homem é nada dentro do tempo e do espaço; ela não pode ser encontrada lá.

Quando as Escrituras nos dizem que o coração do homem é profundo elas falam daquela profundidade que escapa à geometria, é uma terceira dimensão, de eternidade e imensidão – aquela dimensão que é própria da dimensão de Deus. Mas quando o homem é colocado no altar para ser venerado, será apenas como um evento histórico desenvolvido no tempo e no espaço, no entanto não há nada a ser venerado nele. Ele pode ser grande; ele pode expandir sua estatura. Ele pode tornar-se um daqueles muito vistosos ídolos das antigas civilizações, mas ele nunca terá grandeza, porque grandeza não reside em tamanho. Somente se o homem tiver esta terceira dimensão, invisível, intangível, a dimensão de profundidade e de conteúdo, esta dimensão do Infinito e da Eternidade, que está mais no homem que o visível, então, mesmo na humilhação, o homem torna-se grande. Mesmo derrotado ele pode ser maior do que aquele que aparentemente o derrotou.

A revelação de Deus em Cristo, ou a dimensão absoluta da eternidade e imensidade em Cristo, está unida com a revelação da derrota e da humilhação.

Para aqueles que, no mundo pagão ou mesmo na tradição Hebraica, pensam em Deus como revestido de toda a imaginável grandiosidade do homem, que vêem em Deus a soma total de todas as suas aspirações, de todos os seus objetivos, aquilo tudo que eles admiram na criatura, a revelação de Deus em Cristo foi um insulto e uma blasfêmia, algo que eles não podiam suportar porque o grande, transcendental e vitorioso Deus que eles imaginavam e que lhes era descrito, por exemplo, com tamanha beleza e poder pelos amigos de Job, aquele Cristo aparece a eles como um Deus indefeso, desprotegido, vulnerável, derrotado e, por conseguinte, desprezível.

Mas, nEle nós achamos a decisiva grandeza porque em tudo isto, nesta aparente derrota, nós vemos a vitória do amor, um amor que investe até as últimas conseqüências, até a última possibilidade, talvez além das possibilidades, se nós pensarmos em nossos termos de referência, mas que permanece invencível e vitorioso. Ninguém, diz Cristo, tira a minha vida de mim. Eu a dou livremente. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos. Aparente derrota, perfeita vitória do amor testado até o último limite.

Este homem, Jesus Cristo, nós também colocamos sobre o altar. Ele é também a medida de todas as coisas para nós. Porque Ele tem uma qualidade muito diferente daquele pobre ídolo ao qual nós somos chamados a adorar, ao qual nós somos chamados a sacrificar, a nós mesmos e aos outros, por um mundo sem Deus. Todavia nós Cristãos podemos encontrar nos infiéis, nós podemos encontrar naqueles que procuram ou naqueles que ainda não procuram, a imagem do homem. Mas para isso nós precisamos estar preparados para afirmar que o homem é maior do que a mais selvagem imaginação do infiel. Nossa consciência do homem é maior que o orgulho daqueles que querem criar um homem tão grande quanto possível no mundo exterior, bidimensional, do qual Deus está excluído. É ainda nesta questão, na visão do homem, que nós podemos encontrar todos aqueles que afirmam que o homem tem o direito de ser grande e de ser venerado, porque nós veneramos um Deus que é homem; nós nos prostramos perante Ele; Ele é nosso Deus.

E agora eu vou ao segundo ponto da nossa meditação. O quão longe nós podemos sentir a total e definitiva solidariedade por aqueles que negam a existência da própria possibilidade desta dimensão de grandeza e profundidade? São Paulo, em seu tempo, referindo-se aos judeus, estava preparado até para ser excluído da presença de Deus, se somente isso tornasse possível para o povo de Deus ser salvo em sua totalidade. Podemos nós ir tão longe, podemos nós juntos com Cristo e não contra Ele, juntos com Deus e não contra Ele, dizer: “deixe nossa vida ser o resgate da vida do mundo”?. E quando eu digo “a vida” não quero dizer a existência temporária, mas todo o destino da humanidade. Podemos nós estar preparados a correr o risco final da solidariedade, a salvação juntos ou mesmo a perdição juntos? Um cristão não pode ter uma atitude com as coisas diferente daquela do próprio Cristo: do Deus revelado em Cristo dentro da história humana, dentro da tragédia e da glória do destino da humanidade. Vamos então lançar um olhar no tipo de solidariedade que Deus, em Cristo, oferece aos homens.

A solidariedade começa no momento da criação quando o Verbo de Deus chama todas as coisas a ser, e quando o homem é chamado, não à uma transitória e efêmera existência, não à uma experiência, ele é chamado a ser, e ser para sempre, o companheiro na eternidade do Deus vivo. Este é o momento quando Deus e o homem acham-se unidos, e se eu posso dizer esta palavra, pelo e no mesmo risco, porque é na criação que Deus toma sobre Ele não somente as conseqüências de ter criado o homem, mas também as conseqüências do que o homem fará do tempo e da eternidade. Em toda as Sagradas Escrituras nós vemos o modo como Deus nunca renuncia da responsabilidade nem da solidariedade para com o homem; como Ele suporta as várias situações que o homem cria, uma após outra; como Ele se ajusta a eles no propósito de prover a nossa salvação, que é a realização final da vocação do homem.

Mas o evento essencial, o ato essencial de solidariedade é a encarnação do Verbo de Deus. Deus torna-se homem. Ele entra na história. Pode-se dizer, Ele adquire um destino temporal; Ele se torna parte e parcela de um desenvolvimento.

Mas quão longe esta solidariedade vai? Habitualmente em nossos sermões nós sublinhamos, e também ouvimos as pessoas dizerem, Ele se torna participante de tudo que era a condição do homem exceto o pecado. E se nós perguntarmos o que são estas coisas das quais Ele torna-se participante, nos dirão que são as limitações do tempo e do espaço e as condições da vida humana, cansaço, fome, sede, sofrimento, isolamento, solidão, ódio, perseguição e no final morte na cruz. Mas quando nós dizemos isto nós contemplamos alguma coisa que é subjacente a tudo isso, algo que a mim parece mais importante que todas estas coisas. Sim, Cristo aceita, no fim de tudo, não somente a vida humana, mas também a morte humana. Mas em que isso implica? Quão longe esta solidariedade vai?

Se você voltar às Escrituras você verá que morte e pecado, isto é morte e separação de Deus, morte e perda de Deus (o que podemos chamar etimologicamente de ateísmo), estão inseparavelmente unidos.

O fato de recusar Deus está na raiz da morte. São Máximo, o Confessor em um dos seus escritos, traz isso à tona da forma mais admirável; falando da Encarnação, ele diz que no próprio momento da concepção de Cristo, mesmo na sua humanidade Cristo era imortal, porque ninguém pode nascer de uma carne humana unida com a Divindade e ser suscetível à morte. E mais, quando nós falamos da crucifixão nós estamos cientes do fato de que a morte de Cristo na Cruz era um impossível rompimento entre uma alma imortal e um corpo imortal; não era o definhar da vida; era um dramático, um impossível evento imposto, pela vontade de Deus, a um que era, igualmente e perfeitamente, ambos, Deus e homem.

Sendo assim as palavras de Cristo sobre a Cruz adquire uma significância que é mais profunda e mais apavorante que qualquer pensamento que possamos fazer delas.

Quando o Senhor diz: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?”, é o momento no qual, metafisicamente, de um modo indizível, de um modo que nós não podemos calcular (porque nós não podemos calcular nada no mistério de Cristo), Jesus pregado na Cruz perde a consciência da Sua união com Deus. Ele pode morrer, porque Ele, livre de pecado, torna-se naquele momento totalmente participante da vocação do homem, Ele também é deixado sem Deus, e não tendo Deus Ele morre. Isto é o que significa no Credo Apostólico quando diz: “Ele desceu aos infernos”. Inferno na tradição Hebraica era o lugar onde Deus não estava; Ele foi fundo na ausência de Deus e Ele morreu. Aqui está a medida da divina solidariedade conosco, não somente o derramamento de sangue, não somente a morte na Cruz, mas a própria condição dessa morte na Cruz, dessa morte conjunta com a perda de Deus.

E aqui nós vemos que não há um só ateu no mundo, quer ideológico ou, se podemos colocar dessa forma, gástrico – se você pegar as palavras de São Paulo que alguns fizeram do seu estômago o seu Deus – nenhum ateu nunca foi tão fundo no ateísmo, na perda de Deus, do modo como foi em Cristo, como experimentou e morreu disto – Ele, imortal em Sua humanidade tanto quanto em Sua divindade.

Isto está muito mais além de qualquer outra forma de solidariedade. Isto é a medida cheia do “Amor de Cristo e de Deus pelo homem o qual Deus está preparado a fazer, e a medida de quão longe Ele está preparado a ir em Sua unidade conosco”. Mas quando novamente pensamos no homem, naqueles homens que não são da Igreja, naqueles homens que estão fora dela, que se voltaram contra ela por nossa causa, porque o nome de Deus foi blasfemado entre as nações por nossa causa, então nós podemos ver quão longe nós temos coragem de ir, e quão grande nossa coragem precisa ser.

Nossa solidariedade precisa ser primeiro com Cristo, e Nele, com todos os homens, até o fim, à inteira medida da vida e morte. Somente então, se nós aceitarmos isto, nós podemos, cada um de nós, e a congregação de todo o povo fiel, o povo de Deus, crescendo dentro daquilo que estava em Cristo e dentro daquilo que estava nos Apóstolos, dentro de um grupo de pessoas cuja visão era maior que a visão do mundo, cujo objetivo era maior que o objetivo do mundo, realmente a Igreja no começo podia conter tudo isso, podia ser participante de todas aquelas coisas que são as condições do homem, e, portanto, podia conduzir a humanidade à salvação. Mas este não é o estado no qual nós estamos.

Nós crescemos pouco porque nós transformamos nosso Deus em um ídolo e nós mesmos em escravos. Nós temos que reconquistar o senso de grandeza que Deus revelou em Cristo e a grandeza do homem revelado por Ele. E então o mundo pode começar a acreditar e nós podemos nos tornar cooperadores de Deus para a salvação de todas as coisas. Amém.

Metropolita Anthony de Sourozh
“Sermons and Talks”
http://www.metropolit-anthony.orc.ru/
Traduzido por Sr. Dom Ambrósio, Bispo Ortodoxo do Refife
Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polônia
Boletim Interparoquial