“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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terça-feira, 26 de maio de 2009

OrtoFoto

Grabarka - Polônia

“Como ler a Bíblia”

Bispo Kallistos Ware
Tradução da Dra. Rosita Diamantopoulos

Nós acreditamos que as escrituras constituem um território coerente, divinamente inspiradas e humanamente expressadas. Elas outorgam a Deus a revelação de Si Mesmo,na criação, na encarnação no mundo, e em toda a história da salvação. Elas expressam a Palavra de Deus em linguagem humana. Nós sabemos, recebemos e interpretamos as escrituras de acordo com a Igreja e na Igreja. Nossa aproximação da Bíblia é uma forma de obediência.

Podemos distinguir na Igreja Ortodoxa quatro formas de ler as escrituras, denominadas
-Nossa leitura deve ser obediente
-Ela deve ser eclesiástica, junto com a Igreja
-Ela deve ser centrada em Cristo
- Ela deve ser pessoal
Primeiramente, quando lemos as escrituras, devemos conservar um espírito de obediência. A Igreja Ortodoxa acredita na Inspiração Divina da Bíblia. As Escrituras são uma "carta "de Deus, onde o próprio Cristo está falando. As Escrituras são um testemunho do próprio Deus. Elas expressam a palavra de Deus na linguagem humana. Uma vez que de Deus está falando conosco na Bíblia, a nossa resposta deve ser de atenção, obediência e receptividade. Quando lemos, esperamos no Espírito.

No entanto, embora divinamente inspirada, a Bíblia é, também, humanamente expressada. É uma verdadeira biblioteca de diversos livros escritos em diferentes tempos por pessoas diferentes. Cada livro da Bíblia reflete o momento em que foi escrito e a visão particular do autor. Para Deus, nada é isolado,a graça divina colabora com a liberdade humana.

Deus não termina com a nossa liberdade, ao contrário, a aumenta e isso é refletido na forma com que as Escrituras são redigidas. Os autores não são um instrumento passivo, alguém meramente escrevendo um ditado, cada autor nas escrituras reflete os seus dons pessoais. Portanto, ao longo do aspecto divino das escrituras, há uma participação humana e devemos valorizar as duas.

Cada um dos quatro Evangelhos, por exemplo, tem o seu relato particular. Mateus apresenta, principalmente, uma visão judaica de Cristo, com ênfase no Reino dos Céus. Marcos contém detalhes específicos do Ministério de Cristo não contidos em outro lugar. Lucas expressa a universalidade do amor de Cristo, a sua compaixão que abraçava judeus e gentios. Em João, há uma introspecção e uma visão mais mística de Cristo, com ênfase na luz e na reencarnação divinas. Essa variedade deve ser explorada por nós ao lermos a Bíblia.

Em razão de serem as escrituras a Palavra de Deus expressa em linguagem humana, há um espaço para questionamentos honestos ao se ler a Bíblia. Explorando o seu aspecto humano, enfatizamos a razão humana para os atos de Deus. A Igreja Ortodoxa não exclui a pesquisa da origem, datas e autores da Bíblia. No entanto, ao deparamo-nos com o elemento humano, vemos, também, o divino, ou seja, que não são livros simples escritos por autores comuns, nós ouvimos nas Escrituras não apenas palavras humanas, marcadas por uma maior ou menor percepção, mas a Palavra Eterna, Não Criada de Deus, a Palavra Divina de Salvação. Quando se lê a Bíblia, não o fazemos apenas por curiosidade ou informação, nos perguntamos "Como posso ser salvo"?

Como Palavra Divina de Deus em linguagem humana, as Escrituras devem maravilhar-nos. Você já não sentiu o quanto elas não lhe parecem familiares? A Bíblia é maçante? Não, continuamente devemos limpar a nossa percepção e olhar extasiados e com novos olhos o Senhor diante de nós. Devemos sentir expectativa e surpresa ao lermos a Bíblia, pois, certamente, ainda temos muitos livros a explorar. Há muita majestade e profundidade a ser descoberta, portanto a obediência implica em maravilhar-se, em prestar atenção.

Em geral, nos damos melhor falando do que ouvindo. Ouvimos o som da nossa própria voz, mas não paramos quando outro nos fala. Portanto, o primeiro requisito ao ler a Bíblia é parar e ouvir, e ouvir com obediência.
Quando entramos na Igreja Ortodoxa, decorada em sua maneira tradicional, e olhamos o lado oeste do santuário vemos o ícone da Virgem Maria com suas mãos elevadas ao céu- que é a maneira antiga de se rezar, descrita nas Escrituras e usada até hoje. Esse ícone simboliza a nossa atitude quando decidimos ler as Escrituras, a de receptividade, com as mãos invisivelmente elevadas aos céus. Lendo a Bíblia, modelamono-nos como a Virgem Maria, a que mais ouviu. Na Anunciação, ela ouviu com obediência "seja feito conforme a Sua vontade" (Lucas 1:38). Ela não poderia ter dado a luz à Palavra de Deus se não tivesse, primeiramente, escutado a Palavra de Deus em seu coração. Depois, foi dito que "ela guardava todas essas coisas em seu coração" (Lucas 2:19). Mais uma vez, ao encontrar Jesus no templo, Maria "guardou todas essas coisas em seu coração" (Lucas 2:51). A mesma atitude de ouvir é dita a nós em Caná, na Galiléia, quando ela menciona "façam tudo o que Ele disser" (João 2:5). Em tudo isso, a Virgem Maria nos serve de espelho,como um ícone vivo dos cristãos bíblicos. Devemos ser como Ela ao ouvir a Palavra de Deus: ponderar, guardar todas essas coisas em nosso coração e fazer o que Ele nos disser. Devemos ser obedientes ao que Deus fala.
Em segundo lugar, devemos receber e interpretar a Escritura através da Igreja e na Igreja. A nossa aproximação à Bíblia não é apenas obediente, mas também eclesiástica. É a Igreja quem nos dirá o que significa a Escritura. Um livro não faz parte da Escritura apenas devido a alguma teoria em particular sobre sua datação e autoria. Mesmo que pudesse ser provado, por exemplo, que o quarto Evangelho não foi realmente escrito por João, o amado discípulo de Cristo, isto não alteraria o fato de que a Igreja Ortodoxa aceita-o como Sagrada Escritura. Por que? Porque o Evangelho de João é aceito pela Igreja e na Igreja.

É a Igreja quem nos diz quais são as Escrituras e também é a Igreja quem nos diz como elas devem ser entendidas. Falando sobre o Etíope ao ler o Velho Testamento em sua carruagem, o Apóstolo Felipe perguntou-lhe: "Entendes o que lês?" E o etíope respondeu-lhe: "Como eu poderia, a não ser se fosse guiado por um homem?" (Atos 8:30-31). Todos nós estamos na mesma posição do etíope. As palavras da Sagrada Escritura não são auto-explicativas, Deus fala diretamente ao nosso coração quando lemos a Bíblia. A leitura das Escrituras é um diálogo pessoal entre cada um de nós e Cristo, mas precisamos de um guia, e o nosso guia é a Igreja. Podemos usar o nosso entendimento em plenitude, assistidos pelo Espírito Santo, podemos usar os achados de nossas pesquisas Bíblicas modernas, mas sempre submetemos a nossa opinião privada, seja a individual ou de nossos alunos, à total experiência da Igreja em todos estes séculos.

A opinião da Igreja Ortodoxa aqui se resume à questão utilizada pelos recém-convertidos nos serviços introdutórios da Igreja Ortodoxa Russa: "Você reconhece que a Sagrada Escritura deve ser aceita e interpretada de acordo com a nossa crença herdada de nossos Santos Patriarcas, a qual a Santa Igreja Ortodoxa, nossa Mãe, sempre guardou e ainda guarda?"

Lemos a Bíblia pessoalmente, mas não como indivíduos isolados, mas sim como membros de uma família, a família da Igreja Católica Ortodoxa. Quando a lemos não podemos dizer "eu," mas sim "nós," lemos em comunhão com outros membros do Corpo de Cristo, em todas as partes do mundo e em todas as gerações temporais. O teste decisivo e criterioso para o nosso entendimento do que é a Sagrada Escritura é o pensamento da Igreja. A Bíblia é o livro de nossa Igreja.

Por onde começarmos para descobrir qual é o pensamento da Igreja? Nosso primeiro passo é observar como a Escritura é usada em seus trabalhos, como as lições Bíblicas são particularmente escolhidas para serem lidas em diferentes festividades. Igualmente devemos consultar as anotações de nossos Patriarcas e ponderar como eles interpretaram a Bíblia, porque a maneira Ortodoxa da leitura Bíblica é, igualmente, litúrgica e patriarcal. E isto, como podemos perceber na prática, não é fácil de ser feito, porque dispomos de poucos comentários Ortodoxos das Escrituras em português, e a maior parte não engloba a visão patriarcal.

Como um exemplo do que significa interpretar as Escrituras liturgicamente, guiados pelas que são usadas em nossas festividades, podemos procurar no Velho Testamento pelas lições apontadas para a Festa da Anunciação, que são três: Gênesis 28:10-17, relatando o sonho de Jacó com a escada que ia da Terra ao Céu, Ezequiel 43:27—44:4, relatando a visão do Profeta sobre o Santuário de Jerusalém, com a porta fechada onde ninguém, com exceção do príncipe poderia passar e Provérbios 9:1-1, uma das mais sábias passagens do Antigo Testamento que diz "-A Sabedoria construiu a sua casa." Estes textos do Antigo Testamento portanto, uma vez selecionados para a Festividade da Anunciação, devem ser entendidos como profecias sobre a Encanação da Virgem Maria, que é descendente de Jacó, e supriu a forma carnal da entrada de Deus em nosso mundo humano. Maria é o portão fechado pelo qual pariu uma criança e permaneceu inviolada. Maria forneceu a casa na qual a nossa visão cristã de Deus (1 Cor 1:24) baseia-se. Explorando dessa forma a escolha das lições Bíblicas para as diferentes festividades, descobrimos camadas de interpretação Bíblica não evidenciadas em uma primeira leitura.

Tomando outro exemplo, no Sábado de Aleluia, a primeira parte da antiga Vigília Pascal tem quinze lições no Antigo Testamento, que iniciam-se para nós como um esquema inteiro da História Sagrada enquanto, ao mesmo tempo, subentendem uma maneira mais profunda de encarar a Ressurreição de Cristo. A primeira lição é Gênesis 1:1-13, a descrição da Criação: a Ressurreição de Cristo é uma nova Criação. A quarta lição, integralmente no livro de Jonas, descrevendo a permanência do Profeta por três dias no interior de uma baleia sugere, mesmo que por uma sombra, a Ressurreição de Cristo em sua tumba após três dias (conforme Mateus 12:40). A sexta lição nos lembra a passagem dos israelitas pelo Mar Vermelho (Êxodo13:20-15:19), que nos antecipa a nova passagem da morte para a vida (conforme Coríntios 5:7; 10:1-4). A lição final é a história dos três jovens no caldeirão (Daniel 3), mais um tipo de profecia do renascimento de Cristo de sua tumba.

Este é o efeito eclesiástico da Escritura, na Igreja e com a Igreja. Ao estudarmos liturgicamente o Antigo Testamento com a ajuda de nossos Patriarcas, podemos encontrar em todos os sinais apontando para o Mistério de Cristo e de sua Santa Mãe. Lendo o Novo Testamento à luz do Antigo, e o Antigo à luz do Novo, como nos encoraja a Santa Igreja, descobrimos a unidade do Espírito Santo. Uma das melhores maneiras de identificar as correspondências entre o Antigo e o Novo testamento é usar uma boa concordância Bíblica, que pode nos dizer um pouco mais sobre o significado das Escrituras e seus comentários.

Em estudos bíblicos em grupo, é interessante encarregar uma pessoa de anotar quais as passagens do Antigo Testamento usada para uma festividade em particular, para que as razões para isso possam ser discutidas, tendo como base a palavra dos patriarcas, como, por exemplo, as homilias de São Crisóstomo, que fora traduzidas em inglês. Os cristão sempre devem persistir na mente encontrar a Cristo quer onde procurem.
O terceiro elemento em nossa leitura bíblica é que Cristo deve ser o seu centro, por isso ela é coerente. A salvação através do Messias é o tópico central e unificador. Ele éuma ameaça que corre através de toda a escritura, da primeira à ultima frase (já mencionamos como Cristo pode ser visto nas sombras do Antigo Testamento, de modo profético).

Muitos críticos ocidentais modernos da Escritura adotaram um modo de ver analítico, quebrando cada livro de acordo com as suas fontes diferentes, não revelando as conexões entre elas, reduzindo a Bíblia a um amontoado de idéias primárias. Há um certo valor nisso, mas devemos ver a unidade acima da diversidade da Escritura,o seu fim que engloba toda a Escritura e seus inícios confusos. A Ortodoxia prefere sintetizar o todo do que promover uma abordagem analítica, vendo as escrituras como um todo integrado, assinado um papel particular ao método "tipológico"de interpretação, onde "tipos" de Cristo, sinais e símbolos de seu trabalho são discernidos ao longo de todo o Antigo Testamento. Um notável exemplo é Melquisedeque, o rei-sagrado de De Salém, que ofereceu pão e vinho a Abraão, (Gênesis 14;18), visto como um tipo de Cristo não apenas pelos Patriarcas, mas também pelo Novo Testamento (Hebreus 5:6;7:1). Outra circunstância é quando a velha passagem é substituída pela nova: a libertação de Israel pelo Faraó no Mar Vermelho antecipa a nossa libertação do pecado através da morte e ressurreição do Salvador. Este é o método de interpretação aplicado em toda a Bíblia.

Por que, por exemplo, a segunda parte do Levítico e as leituras de Gênesis no Antigo Testamento são dominadas pela figura de José? Por que lemos o Livro de Jô durante a Semana Santa? Porque José e Jô são sofredores inocentes, como "sombras "de Jesus Cristo, cujo sofrimento inocente na Cruz é motivo de celebração. Tudo se encaixa.

Um cristão Bíblico é aquele que encontra a Cristo em qualquer lugar em que lê, nas Escrituras.
Nas palavras de um dos primeiros ascetas do Ocidente Cristão, o Monge Marcos diz-"aquele que é humilde de pensamento e se engaja em um trabalho espiritual ao ler a Sagrada Escritura, deverá ter tudo aplicado a ele mesmo, e não ao seu vizinho. Como Cristão Ortodoxos devemos ter o mais possível de aplicação pessoal ao lermos a Sagrada Escritura, e não apenas perguntar o que Ela significa. Devemos perguntar-nos não apenas o que Ela significa, mas o que Ela significa para mim. A Escritura é um diálogo entre o Salvador e eu, é Cristo falando comigo e me respondendo. Este é o quarto critério em nossa leitura bíblica.

Cabe a mim ver todas as histórias da Bíblia como fazendo parte da minha própria história. Quem é Adão? Esse nome significa "humano," homem, e a queda de Adão relatada no Antigo testamento também tem a ver comigo. É isso que Deus fala a Adão quando pergunta: "quem és TU? Onde estás?" (Gênesis 3:9). Freqüentemente perguntamos onde está Deus, mas a real questão é que Deus nos perguntou primeiro onde estamos.

Quando, na história de Caim e Abel lemos as palavras de Deus a Caim: "Onde está o seu irmão Abel?" (Gênesis 4:9), elas estão endereçadas a cada um de nós. Quem é Caim? Sou eu mesmo. E Deus pergunta ao Caim de cada um de nós onde está o nosso irmão. A maneira de permanecer em Deus passa através do amor a outras pessoas e não há outro modo. Desonrando o meu irmão, eu substituo a imagem de Deus com a marca de Caim,e renuncio à minha humanidade vital.

Lendo as escrituras, podemos atravessar três caminhos: Primeiro: a Escritura é uma História Sagrada, é a história da Palavra da Criação, a história do povo escolhido,a história do Deus encarnado na Palestina, e os trabalhos distribuídos após o Pentecostes. O Cristianismo encontrado na Bíblia não é uma ideologia, nem uma teoria filosófica, mas uma história de Fé.

Vamos tomar o segundo caminho: a história é apresentada na Bíblia como pessoal, vemos a intervenção de Deus em tempos e lugares específicos, a medida que Ele dialoga com as pessoas. Ele se dirige a cada um pelo nome. Nós podemos salientar os chamados específicos de Deus a Abraão, Moises e Davi, de Rebeca e Ruth, de Isaías e de seus profetas e, finalmente, a da Virgem Maria e dos apóstolos. Podemos perceber a seletividade da ação divina na história, não um escândalo, mas uma benção. O amor de Deus é universal, mas Ele escolhe Encanar em um ser humano em particular, em um tempo particular e de uma Mãe em particular. Dessa forma, fica provada a unicidade de Deus em toda a Sagrada Escritura e a sua unicidade, também como fala a Sagrada Escritura.

O homem ama os aspectos da datação da Bíblia e a Ortodoxia tem uma intensa devoção à Terra Santa e aos lugares exatos onde Cristo viveu e ensinou, morreu e ressuscitou. Uma excelente maneira de aprofundar-se na Sagrada Escritura é peregrinar a Jerusalém e à Galiléia por onde Jesus andou. Ir ao Mar Morto, sentar-se sozinho em frente às pedras, sentir-se como Cristo sentiu-se durante os seus quarenta dias de tentação neste ambiente selvagem. Beber da mesma fonte frente à qual ele falou à Samaritana. Ir à noite ao Jardim de Getsêmane, sentar sobre as velhas oliveiras no escuro e olhar as luzes da cidade através do vale. Experimentar a plena realidade do cenário histórico, e ter a experiência de voltar no tempo em sua leitura Bíblica.

Aqui estamos prontos para o terceiro passo. Revendo a História Bíblica em suas particularidades, a aplicamos diretamente em nossas vidas, quando dizemos "estes lugares não estão distantes nem perdidos no tempo, mas fazem parte do meu encontro pessoal com Cristo! Essas histórias incluem-me!"

A traição, por exemplo, faz parte da vida pessoal de cada um de nós, não somos traídos em alguma parte de nossa existência e não sabemos o que é ser traído e, ainda mais, a memória destes acontecimentos ainda não está em nossa alma? Portanto, lendo o relato da traição de São Pedro a Cristo e a sua reparação após a ressurreição, podemos nos imaginar como atores na história. Considerando o que tanto Jesus como Pedro devem experimentado no momento imediato após a traição, entramos em seus sentimentos e fazemos com que sejam nossos. Eu sou Pedro: nesta situação como posso ser Cristo? Refletindo o processo de reconciliação de outra forma, vendo como Cristo ressuscitou para um amor devotado ao Pedro restaurado e vendo como Pedro, de seu lado, teve forças para aceitar essa restauração. Perguntamos a nós mesmos: como reajo ao Pedro traidor e ao Cristo que perdoa? E quanto às minhas próprias traições, estou preparado para aceitar o perdão alheio, estou preparado para perdoar a mim mesmo? Ou sou tímido, procuro esconder-me, e nunca estou pronto para nada, seja bom ou ruim? Como os nossos Patriarcas do Deserto disseram: "É melhor que alguém tenha pecado e se arrependido e se arrependido do que uma pessoa que não tenha pecado e se ache justa."

Já não ganhamos a constância de Nossa Senhora Madalena, sua constância e lealdade, quando ela anunciou a falta do corpo de Cristo na tumba? (João 20:1). Eu ouvi o Salvador chamar-me pelo nome, como Ele a chamou, e respondi Raboni (mestre) com sua simplicidade e plenitude? (João 20:16).

Lendo a Escritura desta forma, — na obediência, como um membro da Igreja de Cristo, encontrando Cristo em todos os lugares, vendo tudo como parte de sua história pessoal, podemos experimentar um pouco da profundidade encontrada na Bíblia. No entanto, devemos sempre imaginar que a nossa exploração Bíblica está apenas no começo. Somos como alguém timidamente atravessando o oceano em um bote.

"A Sua Palavra é como um facho que ilumina meus passos e luz no meu caminho" (Psalm 118[119]: 105).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Santo Apóstolo e Evangelista João, o Teólogo (+c.117) - 08/21 maio

Apóstolo e Evangelista João, cognominado Teólogo, era filho de um pescador galileu, Zebedeu e Solomia. Zebedeu era uma pessoa abastada, ele tinha vários trabalhadores e era um membro importante da comunidade judaica, tendo acesso são sumo sacerdote. A mãe de João, Solomia, é mencionada como uma das mulheres que serviram Jesus com as suas propriedades.

Primeiro, João era discípulo do são João Batista. Ao ouvir a pregação dele sobre Cristo como o Cordeiro de Deus, que toma sobre Si os pecados do mundo, ele junto com o André o Primeiro Chamado seguiu Jesus. No entanto era um pouco mais tarde que ele se tornou discípulo constante do Senhor, quando, após a milagrosa pesca no lago de Genezaré (mar de Galiléia) o Próprio Senhor chamou-o, junto com o seu irmão Tiago.

Ao apóstolo João, junto com o Pedro e o seu irmão Tiago foi concedida uma proximidade especial ao Senhor, pois estes três apóstolos estavam sempre junto com o Senhor nos momentos mais importantes e solenes da Sua vida na terra. Assim ele foi digno de presenciar a ressurreição da filha de Jairo, a transfiguração do Senhor no monte, ouvir as Suas palavras sobre os sinais da Sua segunda vinda, ser testemunha da Sua oração no Getsêmani. E durante a Ceia ele era apoiado no peito do Senhor, conforme ele mesmo testemunha.

Ele era tão humilde, que ao escrever sobre si no seu Evangelho, ele não menciona o seu nome, contentando-se a dizer somente "o discípulo predileto do Senhor." Este amor do Senhor teve a sua maior expressão nas palavras proferidas por Ele da cruz: "Eis aí a tua Mãe," desta forma encarregando-o de cuidar da Sua Puríssima Mãe.

Amando o Senhor com todo o seu coração, João era cheio de indignação dos que eram hostis ao Senhor, ou aqueles que estranharam Ele. Por isso ele proibia ao homem, que não andava junto com eles, de expulsar o demônio com o nome de Jesus e pediu a permissão ao Senhor de mandar descer o fogo sobre os habitantes de uma aldeia samaritana, que não queriam aceitá-Lo, quando Ele se dirigia ao Jerusalém, atravessando a Samária. Por causa disto, o Senhor chamou a ele e ao Tiago de "filhos de trovão." João sentiu a predileção do Senhor, mas ainda não era iluminado pela graça do Espírito Santo e portanto decidiu pedir para ele e para o seu irmão um lugar ao lado do Senhor no Reino dos Céus, e recebeu como resposta o anúncio dos futuros sofrimentos dos ambos.

Após a Ascensão vemos muitas vezes o apóstolo João junto com o apóstolo Pedro. Estes dois apóstolos são considerados os pilares da Igreja e o apóstolo João permanece na maior parte do tempo em Jerusalém e fiel ao mandamento do Senhor, cuida da Puríssima Virgem Maria, tornando-se o Seu filho mais fiel e somente após a assunção da Virgem, ele começa a pregar em outros países.

Na atividade missionária do apóstolo João percebemos uma particularidade: ele escolhe uma determinada região e se empenha com todas as suas forças para erradicar o paganismo e firmar lá o cristianismo. O seu alvo principal eram sete igrejas da Ásia Menor: Êfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Ele morava principalmente em Êfeso.

Sob o reinado do imperador Domiciano (81-96), o apóstolo João foi chamado para a Roma, pois ele era a único apóstolo ainda vivo, e sob a ordem do imperador foi jogado num caldeirão cheio de óleo fervendo, mas Deus salvou o seu fiel servo, que ficou ileso, igual aos três jovens na fornalha incandescente. Depois disto, Domiciano exilou o apóstolo para a ilha deserta de Patmos e foi aqui que ele escreveu o Apocalipse, que é uma revelação sobre o destino da Igreja e do mundo.

Após a morte de Domiciano o apóstolo João voltou do seu exílio para Êfeso. Os bispos e presbíteros da igreja de Êfeso lhe mostraram os três Evangelhos escritos pelos apóstolos Mateus, Marcos e Lucas. Ele aprovou estas obras, porém achou necessário completar ainda aquilo que foi omitido lá e que ele, como o último testemunha ocular ainda vivo conhecia bem de perto. Isto era muito importante, pois lá pelo final do século 1 se difundiam várias seitas gnósticas, que humilhavam ou até mesmo negavam a divindade do nosso Salvador, Jesus Cristo. E assim tornou-se absolutamente necessário proteger os fieis deste ensinamento.

O apóstolo João no seu Evangelho relatou os ensinamentos de Jesus, ditos por Ele na Judéia. Estes ensinamentos que eram dirigidos aos escribas cultos eram mais difíceis para a compreensão geral e provavelmente foi por isto que eles não foram relatados nos três primeiros Evangelhos, destinados aos pagãos recém convertidos. Antes de começar escrever o seu Evangelho, o apóstolo João impôs jejum à igreja de Êfeso e se retirou junto com o seu discípulo Prokhor para um monte, onde escreveu o Evangelho, que leva o seu nome.

O Evangelho de João era desde o começo chamado de "espiritual," pois nele, comparando com os três outros Evangelhos, são contidos os ensinamentos do Nosso Senhor sobre as verdades mais profundas da fé — sobre a encarnação do Filho de Deus, sobre a Trindade, sobre a redenção dos homens, sobre a ressurreição espiritual, sobre a graça de Espírito Santo e sobre a Comunhão. Logo no começo, nas primeiras palavras, João eleva os pensamentos dos fiéis para as alturas de procedência divina do Filho de Deus do Deus Pai: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus" (João 1:1). O apóstolo João explica assim a finalidade do seu Evangelho: "Esses foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, Filho de Deus, e assim crendo tenhais a vida em Seu nome" (João 20:31).

Além do Evangelho e do Apocalipse, o apóstolo João escreveu ainda três epístolas, que também foram incluídas no conjunto dos livros do Novo Testamento, pois eram dirigidas à toda a comunidade cristã. O primeiro e principal ensinamento é sobre o amor dos cristãos: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e todo aquele que ama nasce de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é Amor" (1 João 4:7-8).

"O amor que Ele nos tem terá seu cumprimento no dia do Juízo, infundindo-nos confiança. Porque como Ele é, também nós somos neste mundo. No amor não há lugar para o temor: o perfeito amor expele o temor, pois o temor supõe castigo e o que teme não é perfeito no amor. Quanto a nós, amemos à Deus, porque Ele nos amou primeiro. Se alguém diz: ‘Amo a Deus’ e detesta seu irmão, ele mente. Pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não é possível que ame a Deus, a Quem não vê. Sim, eis o mandamento que d’Ele recebemos: quem ama a Deus, ame também a seu irmão" (1 João 4:17-21).

A tradição nos deixou várias informações muito valiosas sobre as atividades do apostolo João, que nos mostram todo o seu amor que ele sentiu por todos. Durante a sua visita a uma das igrejas da Ásia Menor, João notou no meio da multidão um jovem que se destacava por talentos excepcionais e o confiou aos cuidados especiais de um bispo. Mais tarde este jovem fez amizade com maus elementos e enfim virou chefe de bandidos. Ao saber disto do próprio bispo, João foi até as montanhas, onde os bandidos atacavam as pessoas, foi capturado por eles e trazido até o chefe deles.

Quando o jovem viu o Apóstolo, ele ficou tão desconcertado, que se pôs a correr. João correu atras dele, o encorajou com as suas palavras cheias de amor, levou-o pessoalmente até a igreja, dividiu com ele a penitencia e não sossegou, enquanto não o reconciliou completamente com a Igreja. Nos últimos anos de sua vida o Apóstolo não se cansou de repetir sempre: "Meus filhos, amem uns aos outros." Os discípulos perguntaram: "Porque repetes sempre a mesma coisa?" O Apóstolo respondeu: "Porque este é o mandamento principal. Quem cumpre este mandamento, cumpre toda a lei Divina."

Este amor se transformava num ardente zelo, quando o Apóstolo se deparava com heresiarcas, que deturpavam os ensinamentos, privando as pessoas da eterna salvação. Uma vez, num edifício público ele se encontrou com um heresiarca Querinto, que rejeitava a divindade do Nosso Senhor Jesus Cristo. "Vamos sair rapidamente daqui, — disse o Apóstolo ao seu discípulo, — pois tenho medo que este prédio cairá encima de nos."


São João Teólogo era o único apostolo que morreu de morte natural na idade de quase 105 anos, durante o reinado do imperador Trajano. As circunstancias da morte dele eram extraordinárias e até misteriosas. Por insistência do próprio apostolo ele foi enterrado vivo. No dia seguinte, quando abriram o túmulo do apostolo, se verificou que ele era vazio. Este acontecimento confirmou a suposição de alguns cristãos, que o apóstolo não ia morrer, mas que ficaria vivo até a Segunda Vinda do Nosso Senhor e acusaria o Anticristo. O motivo desta suposição eram as palavras proferidos por Jesus um pouco antes da Sua ascensão. Respondendo a uma pergunta do apostolo Pedro sobre o que aconteceria com o apostolo João, Nosso Senhor respondeu: "Assim Eu quero que ele permaneça até que Eu venha (pela segunda vez), e que te importa isso?" E o apostolo João continua, a respeito disso: "Espalharam-se por isso entre os irmãos essas palavras de que tal discípulo não morreria" (João 21:22-23).


Tropário, t.2

Apóstolo Bem-amado de Cristo nosso Deus, apressa-te a livrar um povo indefeso. Aquele que te permitiu repousar em Seu peito, acolher-te-á prostrado a Seus pés, para intercederes por nós. Ora-Lhe, São João o Teólogo, para que dissipe a nuvem persistente do paganismo e nos conceda a Sua paz e a Sua grande misericórdia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

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Skete de Sant´Ana - Monte Athos
autor: Fanariotis

"A Dedicação Monástica."

Bispo Alexandre (Mileant).
Certas pessoas se dedicam completamente a ciência, artes, política ou qualquer outra atividade escolhida por eles. Porque ? Porque esta é a sua vocação. Estas pessoas contribuem para o progresso da arte ou ciência, a que elas se dedicaram. Por outro lado, existem pessoas, que não são atraídas pelo progresso intelectual ou material, mas sim pela aquisição de uma perfeição interior. Elas são atraídas por uma vida justa e por isso se tornam monges e freiras.

A vida dentro de uma sociedade secular pouco contribui para a perfeição, antes ela impede a atingi-la. O santo Evangelista João Teólogo diz, que a vida da sociedade é afetada por três males: "Porque tudo o que há no mundo — concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida." Portanto: "Não ameis o mundo, nem nada o que há no mundo," — ensina ele (1 João, 2:15). A vida monástica tem por finalidade livrar o homem do mal que reina no mundo: da concupiscência da carne — pela castidade e moderação, da inveja (i.e. desejo excessivo de riquezas e bens materiais) pela recusa de bens pessoais, e do orgulho — pela obediência ao superior. Desta maneira, a vida monástica está destruindo o mal na sua própria raiz e está colocando a pessoa no caminho certo, que leva à perfeição espiritual.

A palavra "monge" deriva da palavra grega "um." Ser monge significa que a pessoa vive na solidão. Os mosteiros surgiram como habitações solitárias e afastadas do mundo. A vida monástica difere da de outras pessoas, que vivem no mundo; daí o nome russo do monge: "inok" da palavra "inói" — outro, diferente.

Há muitos caminhos que levam ao Reino de Deus, e o Evangelho nos proporciona uma ampla escolha de como devemos proceder: o principal é evitar o mal e fazer o bem. Mas, para aqueles que sentem vocação para uma vida mais perfeita, dirigem-se as seguintes palavras do Nosso Senhor: "Se alguém quiser vir atrás de Mim, tome a sua cruz e siga-Me ... Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-Me ...Há impotentes que por si mesmos se tornaram tais por amor do Reino dos Céus. Quem é capaz de entender, entenda ... Qualquer um de vós que não renuncia a tudo que possui, não pode ser Meu discípulo" (Mateus 16:24; 19:12-21; Lucas 14:26-33). Aqui são determinadas as principais condições, na base das quais são formulados os votos (promessas feitas a Deus pelas pessoas que entram para o mosteiro).

A tendência de seguir uma vida cheia de provações surgiu junto com o cristianismo. De acordo com o são Cassiano (século IV) os discípulos do Evangelista Mateus, que era o primeiro bispo em Alexandria (Egito), eram os primeiros monges. Eles saíam das cidades para os lugares mais afastados, onde levavam uma vida diferente, seguindo os preceitos elaborados pelo são Marcos. O historiador judeu Filós, morador de Alexandria contemporâneo dos apóstolos, escreve sobre uns certos Terapeutas, que se afastaram do centro da Alexandria até os subúrbios dela, e onde levavam uma vida austera, exatamente igual aquilo que mais tarde nos diz são Cassiano sobre os primeiros monges da Alexandria e chama as moradias deles de mosteiros.

Há notícias de que os monges apareceram na Síria ainda durante a vida dos apóstolos. Santa Eudoxia, que desde o ano de 96 d.C. viveu na cidade de Heliópolis na Síria, durante o reinado de Trajano, foi convertida para o cristianismo pelo santo Herman, abade de um mosteiro, onde havia 70 monges. Ela mesma, após a sua conversão, entrou para um convento, onde havia 30 freiras.

Não obstante a escassez de documentos, não há dúvida de que a instituição monástica surgiu ainda durante a vida dos apóstolos. É difícil admitir a falta de sede da perfeição espiritual naqueles tempos, quando os cristãos deixavam tudo para seguir o ensinamento do apóstolo Paulo sobre a virgindade, formulado na sua epístola aos Coríntios (1 Cor., capítulo 7). Para estas pessoas, o exemplo vivo sempre eram e serão o Próprio Senhor Jesus Cristo, a Sempre Virgem Maria, o profeta João Batista, o discípulo amado e celibatário apóstolo João Teólogo, o apóstolo Paulo, o apóstolo Tiago, irmão do Senhor e primeiro bispo de Jerusalém, e muitos, muitos outros. Eis os exemplos, tão sublimes, que serviram de modelo para os monges, onde nasceu a vida monástica, eis a sua fonte espiritual.

É desta forma que o são Doroteu explica o surgimento da vida monástica, dizendo: "Eles (os cristãos) entenderam que para as pessoas que vivem no mundo, é muito difícil se aperfeiçoar espiritualmente e portanto escolheram uma maneira diferente de viver, uma maneira diferente de passar o tempo, uma maneira diferente de agir — que é uma vida monástica e assim eles começaram a sair das cidades e passaram a morar nos desertos, levando uma vida cheia de privações, jejuando, dormindo muito pouco no chão sem nenhum cobertor por baixo ou por cima e suportando voluntariamente muitas privações e sofrimentos, renunciando a vínculos de parentesco ou da pátria, de todos os bens materiais. Por outras palavras, eles se crucificaram ao mundo."

Nas antigas comunidades monásticas a atenção principal era dada a ocupações espirituais: à oração, ao jejum e às reflexões sobre Deus e sobre o mundo espiritual. Mas, ao mesmo tempo, o trabalho físico era tido como indispensável para proporcionar uma diversificação das atividades, porque ele proporcionava meios de subsistência e de ajuda aos pobres.

No começo do século IV surge uma enorme tendência à vida monástica. Isto surgiu como conseqüência do enfraquecimento no rigor da vida cristã, enfraquecimento este que aconteceu porque eram batizados muitos pagãos que continuavam a se interessar exclusivamente por assuntos materiais. Este fato estimulou muitos verdadeiros cristãos a se afastar das cidades, vilas e aldeias e viver nos desertos para lá, longe da agitação do mundo, se aperfeiçoar espiritualmente, rezando, jejuando e refletindo sobre Deus. O primeiro lugar no meio destes grandes homens pertence ao Antônio Magno.

Santo Antônio nasceu nos meados do século III no Egito. Visando solidão e perfeição ele se estabeleceu numas ruínas de um forte antigo, na margem oriental do Nilo. Ali ele viveu durante 20 anos numa completa solidão, jejuando, rezando e se submetendo a diversas privações. Com o passar do tempo, muita gente ficou sabendo sobre ele e começou a visitá-lo. Alguns até começaram a se instalar perto dele para serem guiados por ele e desejando levar a mesma vida austera. Assim, aos poucos, em volta do Santo Antônio se formou um círculo de discípulos (ano 305).

Santo Antônio não estabeleceu nenhuma regra sobre a vida monástica, mas explicou em linhas gerais o caminho para atingir perfeição espiritual. Assim, baseado no próprio exemplo, ele ensinava a renegação dos bens materiais, uma plena devoção à vontade de Deus, uma contínua oração, uma reflexão solitária sobre Deus e trabalho físico. Conforme foi estabelecido por ele, tais pessoas se encontravam sob cuidados de um padre (um "starets," um "ancião," que era uma pessoa com uma grande experiência espiritual e que era plenamente responsável por seus discípulos), moravam separados um do outro em cabanas ou cavernas e se empenhavam no aperfeiçoamento espiritual. Estas comunidades eram chamadas de "lavra."

Mas, ainda durante a vida do santo Antônio apareceu uma outra forma de vida monástica — comunidades. Os que desejavam atingir a perfeição se reuniam numa comunidade, que era dirigida por um abade, viveram juntos, as vezes todos num mesmo compartimento, as vezes em celas individuais, mas todos seguiram as mesmas regras. Estas comunidades eram chamadas de "mosteiros" (cenóbios). O fundador desta forma de vida monástica era o são Pacômio Grande (348).

São Pacômio também nasceu no Egito. Ele era militar e durante uma campanha teve a possibilidade de conhecer a caridade cristã, e desde então teve um grande desejo de abraçar o cristianismo e realmente, após o término do serviço militar, ele foi batizado. Ele conheceu a vida austera no deserto da Tebaida e para si escolheu um lugar deserto na margem do Nilo, chamado de Tavenna. É aqui que surgiu a idéia à são Pacómio de instituir uma comunidade monástica e assim, numa das ilhas do Nilo ele fundou um mosteiro para todos aqueles, que desejassem viver numa comunidade.

A vida austera do são Pacômio atraiu à ele muitos discípulos, tantos, que no mosteiro construído por ele não havia mais lugar e ele foi obrigado a construir mais alguns mosteiros nas margens do Nilo, próximos um do outro. Também foi ele quem fundou um convento para as mulheres na outra margem do Nilo.

Nos mosteiros por ele fundados são Pacômio introduziu certas regras. Este é o primeiro estatuto de uma vida monástica. Todos os monges eram divididos por são Pacómio em 24 categorias, conforme a evolução da vida espiritual deles, mas todos eram dirigidos por um único abade. Cada mosteiro teve seus próprios superiores, chamados de "hegúmenos." Eles todos eram subordinados ao abade principal e o informavam sobre a vida nos respetivos mosteiros. Nos mosteiros também houve ecônomos com ajudantes, que cuidavam da parte econômica da comunidade. Todos os superiores eram obrigados a levar uma vida que servisse de exemplo para o resto dos irmãos. Guiados pelos superiores, os monges eram obrigados a levar uma vida austera, rezando, lendo livros de conteúdo espiritual, principalmente as Escrituras Sagradas, e também deviam trabalhar muito. As missas eram celebradas duas vezes ao dia — de dia e de noite. Após um determinado sinal os monges, sempre modestos e calados, se reuniam na igreja, liam as Escrituras Sagradas e orações e cantavam. Aos domingos — comungavam. Além disso, os monges deviam rezar individualmente antes de dormir e ao levantar. Após as orações ou após as missas, o superior conversava com eles sobre uma vida cristã. Os monges se dedicavam à leitura individualmente nas suas celas, nas horas livres de trabalho e da oração. Os livros lhes eram entregues pelo ecônomo, da biblioteca do mosteiro.

Os monges trabalhavam nas hortas, pomares, ferrarias, moinhos, curtiam o couro, eram marceneiros, tecelões, fabricavam cestas de vime. Saíam para o trabalho numa completa ordem e silêncio, guiados pelo seu superior. O silencio era obrigatório em quaisquer circunstâncias. Tudo isso devia ser cumprido com absoluta obediência. Sem a permissão do superior, nenhum irmão poderia nem só sair do mosteiro, mas nem poderia começar um outro trabalho. Todos os monges eram vestidos em roupas muito simples e iguais para todos. A roupa de baixo era de linho — uma túnica sem mangas, e por cima dela era usada uma roupa de couro, na cabeça eles usavam um gorro e nos pés — sandálias. Esta roupa não era tirada nunca, nem para dormir. Eles não tinham camas, somente assentos entre duas paredes; eles só podiam dormir numa esteira. Os monges se levantavam bem antes de amanhecer. A comida deles era a mais simples, uma vez por dia, geralmente ao meio dia. A comida deles consistia de pão, azeitonas, queijo, legumes e frutas. Nos sábados e domingos havia também uma refeição à noite. Todos comiam juntos, num absoluto silencio.

A pobreza é um dos principais votos monásticos no regulamento de são Pacómio. As pessoas que entravam para a comunidade eram proibidas de trazer qualquer objeto, mesmo as roupas usadas por elas na chegada eram distribuídas entre os pobres. O trabalho executado por um irmão pertencia a todos. Os monges recebiam tudo o que for lhes necessário do próprio mosteiro. Os ecônomos distribuíam aos monges a comida e as roupas, que foram produzidas no próprio mosteiro, ou então compradas com o dinheiro ganho com a venda de objetos feitos pelos irmãos. Para que estas regras fossem obedecidas, são Pacómio determinou, que as pessoas, que desejavam entrar para a comunidade, não podiam ser aceitas antes de serem postas a prova durante um ano.

Durante a vida do são Pacômio, o número dos monges na comunidade dele era de 7.000, e cem anos mais tarde — 50 000. A vida monástica, tanto eremítica como em comunidade se espalhou rapidamente por todo o Egito e de lá passou para outros países. Assim, Ammon fundou uma ordem de eremitas no monte Nitrio com o seu deserto adjacente, Makários do Egito — no deserto de Sceto, onde viviam muitos homens maravilhosos. Hilário, o discípulo predileto de Antônio, levou a vida monástica até a sua pátria, Palestina onde, perto de Gaza, fundou o seu mosteiro. Daí, a vida monástica se espalhou por toda a Síria e Palestina.

São Basílio Grande, que viajou pelo Egito e pela Palestina e conheceu a vida monástica de lá, difundindo-a na Capadócia (Ásia Menor, hoje Turquia), tanto para homens, como para mulheres. O seu regulamento que ele estabeleceu para os seus monges se espalhou rapidamente pelo oriente e virou comum a todos. No século V todo o oriente já era literalmente coberto por mosteiros. Os monges mais notáveis do século V são Isidoro Polusiota, Simão Stolpnik (que passou a vida encima de uma coluna) Eufímio, Sava Santificado, e muitos outros.

São Simão nasceu na Síria, passou muitos anos em orações encima de uma coluna, sem descer de lá, sofrendo de fome e das intempéries. Ele foi o fundador de uma nova forma de dedicação: a vida sobre uma coluna — uma espécie de torre ("stolpnichestvo" — da palavra "stolp" — coluna). Eufímio, fundador do mosteiro em Palestina, por sua dedicação recebeu de Deus o dom de fazer milagres. Sava, discípulo de Eufímio, entrou para a vida monástica aos 8 anos de idade e virou eremita. Ele fundou muitos mosteiros na Palestina e introduziu lá o regulamento sobre missas.

Além do "stolpnichestvo," no século V apareceu ainda um outro modo de dedicação nos mosteiros: os que não dormiam. O monge Alexandre organizou um mosteiro, onde as missas eram rezadas ininterruptamente, durante 24 horas por dia. Um rico habitante de Constantinopla, Studio, gostou desta ordem e fundou em Constantinopla um mosteiro igual, chamando para lá os que não dormiam nunca. Este mosteiro passou a se chamar de "Studiiski."

Notáveis santos viveram no século VI: Simão "Iuródivyi" (Desvairado) que, gozando de absoluta lucidez, se apresentava a todos como um que perdeu razão; este modo de vida, que ele empreendeu por amor à Cristo, lhe dava a possibilidade de ser constantemente humilhado, e desta forma ele chegou a completa impassibilidade, e também são João Clímaco, que passou muitos anos sobre o monte Sinai e escreveu a obra chamada de "Lestvitsa" (Escada), onde ele demonstrou como se aperfeiçoar espiritualmente até chegar à perfeição; no século VII — Alípio "Stolpnik" , que viveu encima de uma torre mais de 50 anos, sem nunca descer de lá. No fim do século VIII e começo de IX houve um outro representante de uma vida monástica rigorosa, que também era um fervoroso defensor de adoração dos ícones — Teodoro Studita. O seu mosteiro, que era famoso pelo seu regulamento rigoroso, deu ao mundo muitos monges santos, conhecidos pela austeridade de suas vidas, como, por exemplo, Nicolau, que foi torturado por causa da adoração dos ícones, Joaniquio, famoso pelo seu dom de clarividência, e outros.

No mesmo século IX apareceram eremitas no monte Atos, tais como são Pedro (século XI), que lá viveu em solidão por mais de 50 anos, e santo Atanásio, (século X), que fundou um mosteiro no Atos, onde mais tarde viveram muitos monges, que procuravam a perfeição.

O monacato russo alcançou grandes proporções e êxito espiritual, a começar pelos santos Antônio e Teodósio de Kievo-Petchersk e terminando com os santos de Optina. Infelizmente, aqui é impossível relatar a história do desenvolvimento e a experiência espiritual do monacato russo.

Nenhum passado de uma pessoa pode impedir a ela de entrar no mosteiro, porque a vida monástica consiste de penitencia, e o mosteiro é um hospital. No começo, a pessoa que entra no mosteiro se encontra no estágio de teste para determinar, até que ponto ela realmente deseja se dedicar à esta vida. Se o abade se convence, de que esta pessoa é realmente sincera na sua decisão, ele lhe concede a benção de usar "podriasnik" com cinto e "scufiá" ("podriasnik" consiste de uma veste preta, comprida, com mangas estreitas e a "scufiá" é um gorro, lembrando um cone). Este futuro monge, que está ainda em fase de teste, se chama de "poslúshnik" (obediente), porque o principal dever dele é obedecer.

O poslúshnik deve demonstrar toda a sua paciência e humildade na execução de todas as tarefas que lhe forem atribuídas, pois estas são as principais virtudes de um monge. "A obediência é mais importante do que jejum e a oração," — diz um ditado monástico, porque a obediência, baseada na humildade, ajuda a exterminar a doença principal da nossa alma — o orgulho, bem como o amor próprio, que é o berço de todas as paixões.

Quando, após um determinado período de tempo, o poslúshnik prova com a sua boa conduta a sinceridade o seu desejo de monacato, ele pode ser ordenado para o segundo grau, chamado de "riasofór." Ele ainda não faz nenhum voto, mas geralmente recebe um novo nome e tem direito de usar, por cima do "podriasnik" a "riasa" e a "kamilávka" ("riasa" é uma veste comprida, preta, com mangas largas, usada por cima do "podriasnik"; a "kamilávka" é uma espécie de chapéu sem abas, mais larga em cima). A ordenação para o "riasofór" é feita durante uma missa especial, que se chama de "Missa para vestir a ‘riasa’ e a ‘kamilávka’.

"O homem que não é casado é solícito das coisas do Senhor: cuida e agrada ao Senhor; mas o que é casado é solícito das coisas do mundo: cuida e agrada a mulher" (1 Cor. 7:32-34). Jesus disse ao jovem, que procurava a vida eterna: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu." Baseando-se neste ensinamento, os monges se recusam a possuir qualquer coisa, para que nada lhes possa impedir alcançar a perfeição espiritual.

São Gregório Teólogo diz: "Será que o monge deve ser preocupar para que não seja roubado (seqüestrado) ele mesmo? Porque ele não possui nada além do seu próprio corpo, coberto por uma roupa velha, rasgada. Deixa os outros, que possuem muito dinheiro, tomar as medidas necessárias contra o roubo. Todos os meus bens consistem de Deus, e este tesouro ninguém conseguirá roubar. No que se refere à outras coisas, podem levar tudo; a minha condição é a mais segura, pois aquilo que eu possuo, ficará comigo eternamente. Deus é a minha parte. Não quero possuir nada além de Deus; quando sirvo no altar, tenho comida e roupa, e estou satisfeito com isto; pobre seguirei atras de uma pobre cruz, para que possa subir sempre mais, sem impedimentos, voando, conforme a palavra do apóstolo, encima de uma nuvem para encontrar o Senhor nas alturas."

É natural que o maior número dos santos provem dos monges, pois a meta do monacato é a perfeição espiritual. Os santos monges são chamados de "prepodobnyi" — reverendo — (podobnyi — semelhante), pois eles mais se assemelharam à Cristo. A pessoa que sentiu, que tudo na vida é somente uma preocupação sem um valor real, e que queria se livrar destas preocupações fúteis para encontrar Deus, entra para o mosteiro. O caminho do monge é um caminho reto, o caminho mais curto entre duas extremidades — o homem e Deus.

Nos mosteiros surgiu uma rica literatura espiritual. Para a maioria dos leigos ela é algo incompreensível e inatingível. As condições espirituais lá descritas são inatingíveis para as pessoas que vivem no mundo secular. Porém, há coisas que são perfeitamente atingíveis à todas as pessoas que procuram a Deus. Os russos sempre gostavam de ler o livro chamado "Dobrotoliubie" ("Amor às coisas corretas"), onde em 5 volumes estão compilados os ensinamentos dos monges da antigüidade; "Lestvitsa" ("Uma escada") do João, abade do mosteiro no monte Sinai; "Uma luta invisível" do são Nicodemo Sviatogorets; "Ensinamentos úteis para as nossas almas" do abade Dorotéu; os ensinamentos dos anciões Varsonófio e João; contos sobre antigos monges compilados em "Lavsaík" do bispo Paládio Helenopolitano, e "Campina espiritual" do bem-aventurado João Mosque. Para os leitores de hoje, podemos recomendar uma literatura mais atualizada, que seriam as cartas do bispo Teófano Recluso, as obras do bispo Inácio Brianchaninov, os ensinamentos dos "startsy" (anciões) da Optina, conversas de são Serafim de Sarov com o amigo dele, Motovilov.

Na Rússia, antes da revolução, havia muitos mosteiros e conventos, e sua influencia sobre os costumes e a vida do povo, sobre a sua história, era enorme. Lá, nos mosteiros, os peregrinos achavam uma renovação moral e espiritual, tranqüilidade, forças para a luta com o pecado. Aqui eles achavam o seu ideal. Os mosteiros eram centros de recuperação moral para o país inteiro.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

OrtoFoto


Sérvia

autor: Aleksa Stojkovic

Santa Megalomártir, Irene, Princesa da Tessalônica (+séc.II) - 05/18 mai

Santa Irene, que era de origem, eslava, viveu na segunda metade do século I e era filha de Licínio, prefeito da cidade de Maggedona na Macedônia. Ainda muito jovem Irene compreendeu a inconsistência do paganismo e aceitou a fé cristã. Conforme a tradição, apóstolo Timóteo, discípulo do apóstolo Paulo, batizou-a. Santa Irene decidiu dedicar a sua vida a Deus e recusou o casamento.

Aprofundando-se cada vez mais nos ensinamentos de cristianismo, santa Irene começou a persuadir também os seus pais a se tornarem cristãos. O pai dela, que no começo ainda ouvia as palavras dela com uma certa benevolência, mais tarde ficou com raiva dela e quando ela se recusou a venerar os ídolos pagãos, enfurecido jogou ela debaixo dos cavalos selvagens. Porém os cavalos nem tocaram na santa, mas se jogaram contra o Licínio e o mataram. Quando, após uma oração fervorosa da santa Irene o pai dela ressuscitou, ele e toda a sua família e junto com eles ainda 3.000 pessoas se converteram.

Após disto, santa Irene começou pregar abertamente o cristianismo entre os habitantes da Macedônia, pelo que muitas vezes foi humilhada e sofria muito. O prefeito de Sedêcia muitas vezes mandava jogar santa Irene num buraco fundo cheio de serpentes, várias vezes tentavam serrá-la, ou amarravam à roda do moinho. Mas todos estes sofrimentos da santa eram acompanhados de milagres, o que atraía muitas pessoas e muitos se convertiam. Assim: as serpentes nem tocavam no corpo da santa, as serras não lhe causavam nenhum ferimento e a roda do moinho não girava. O próprio torturador Vavodon se converteu e foi batizado. No total, Irene converteu mais de dez mil pagãos.

Quando o Senhor anunciou a ela o dia de sua morte, Irene se retirou para uma gruta perto da cidade de Éfeso e pediu aos outros de fechar a entrada da gruta com um monte de pedras. Após quatro dias, os seus conhecidos voltaram à gruta e abrindo-a e entrando nela não encontraram o corpo da santa Irene. Todos compreenderam, que Deus a levou ao céu.

Santa Irene era muito venerada no Bizâncio antigo. Lá foram construídas várias igrejas suntuosas, das quais ela era a santa padroeira.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Santo Pontífice e Doutor, Atanásio o Grande, Patriarca de Alexandria (+373) - 02/15 mai

A grande fileira dos santos padres e doutores da Igreja tem seu começo no tempo dos santos apóstolos. Geralmente, os santos padres da Igreja são escritores religiosos (na sua maioria na dignidade episcopal), que levavam uma vida santa. Os escritores religiosos não canonizados são chamados de doutores da Igreja.

Os padres e doutores da Igreja, nos seus livros, nos relegaram as tradições apostólicas e explicaram os verdadeiros ensinamentos e doutrinas da fé e religiosidade. Nos tempos difíceis de conflitos e lutas contra hereges e seus ensinamentos eles eram os defensores da Ortodoxia e a sua vida e atividade servem de um digno exemplo para todos.

Em particular, durante o século IV houve grandes padres e doutores, que defenderam a sua Igreja na época, em que a Igreja foi profundamente e por muito tempo abalada pela heresia de Ário (este herege renegava a natureza divina do Nosso Senhor Jesus Cristo).

O primeiro e grande defensor da Igreja contra os arianos era santo Atanásio Grande (293-373). Desde criança, este santo já demonstrou ter dons e talentos especiais e mais tarde a sua educação foi aperfeiçoada pelos arcebispos da Alexandria, Pedro e Alexandre. O santo Antônio Grande, cuja vida o santo Atanásio descreveu, exerceu uma grande influencia sobre ele. Após ter se aprofundado nos estudos das Escrituras Sagradas e obras dos santos padres e doutores da Igreja, bem como a literatura clássica da antigüidade, santo Atanásio assumiu um cargo muito importante naquela época de arcediácono junto do arcebispo Alexandre e lhe ajudou muito na luta inicial com a heresia de Ário.

Sendo o colaborador mais próximo, a quem o arcebispo Alexandre mais confiava, Atanásio acompanhou-o no Primeiro Concílio e neste Concílio foi notado por todos os presentes: ninguém falava tão enfaticamente contra Ário e ninguém era tão eloqüente e expressivo, como ele. Em menos de um ano após o Concílio, o jovem arcediácono foi nomeado arcebispo da Alexandria. Apesar da sua pouca idade (ele tinha somente 28 anos), o arcebispo Atanásio dirigiu toda aquela vasta região com rigor e sagacidade, se aproximou dos outros bispos, ordenou Frumêncio bispo mandando-o para a Abissínia, visitou os numerosos mosteiros em Tebaida e outras regiões do Egito e também visitou o seu mestre de juventude, santo Antônio.

Santo Atanásio era enérgico e simpático, inflexível no que se referia a verdade, porém condescendente com aqueles que se equivocavam. Ele era muito discreto e ao mesmo tempo era muito perspicaz, tinha uma vasta cultura e tudo isto contribuiu para que ele se tornasse logo muito querido e ao mesmo tempo muito respeitado. Mas esta sua atividade durou somente 2 anos; após este tempo começou um período de muitas provações e calamidades. Os adeptos de Ário, encabeçados pelo bispo Eusébio, bastante conhecido na corte de Nicomédia, e que ainda na escola era colega de Atanásio, tentaram de todos os meios levar de volta na igreja o Ário, e até conseguiram dispor a favor dele a irmã do imperador, Constância, e através dela o próprio imperador Constantino. Ficou decidido chamar Ário — que aparentemente se arrependeu — de volta do exílio e o arcebispo de Alexandria foi obrigado a aceitá-lo novamente na Igreja. Atanásio, compreendendo perfeitamente a astúcia e o fingimento dos pseudo-doutores, se recusou a aceitar o herege, que rejeitava a divindade do Nosso Senhor Jesus Cristo.

A partir deste momento começam as perseguições do confessor de Cristo e são inventadas contra ele as mais incríveis calunias. Ele foi acusado de extorsão e de roubo dos rendimentos da igreja, de contatos com os inimigos do império, do assassínio de um bispo chamado Arsênio, e foi acusado até de ter decepado a mão do Arsênio para fazer bruxaria com ela e para maior credibilidade, os inimigos do santo mostravam aquela mesma mão, que foi — diziam eles — achada nos aposentos do santo. Mas, inesperadamente para todos eles, o próprio Arsênio apareceu em pessoa e foi levado até a reunião dos caluniadores, mostrando-lhes ambas as mãos completamente sãs. Isto levou os inimigos do santo à uma ira irrefreável: eles avançaram contra ele e quase o estrangularam. Isto aconteceu ainda durante a vida do imperador Constantino, protetor da Igreja. Os sucessores dele, Constâncio-ariano e Juliano-apóstata, perseguiram abertamente o santo Atanásio, mas não conseguiram vencer a sua firmeza.

Houve uma época, em que os colaboradores mais fervorosos do santo Atanásio — Oseias, bispo de Córdoba, Libério, papa de Roma, que lutavam contra os arianos, e que como ele não conseguiram vencê-los, foram destituídos de suas cátedras, aprisionados, e em conseqüência disto fraquejaram e aceitaram compromissos com os arianos, mas o santo Atanásio permaneceu solitário e firme, liderando a luta dos ortodoxos contra os arianos. Durante os quase cinqüenta anos de seu exercício de arcebispado, santo Atanásio foi cinco vezes expulso da Alexandria, passou quase vinte anos nas prisões e no exílio e até os últimos dias de sua vida lutou contra os hereges tentando restabelecer a paz e a unanimidade na Igreja.

Durante a sua vida tão agitada e sacrificada, santo Atanásio escreveu muitas obras em defesa da Ortodoxia e ensinamentos para os fieis. As suas obras, traduzidas para o russo, foram editadas em quatro volumes. Até hoje, os pensamentos e as demonstrações e provas do santo Atanásio têm um grande significado para todos nos, a sua linguagem é muito rica. Este grande homem morreu aos 75 anos.

Tropário, t.3
Como pilar da Ortodoxia, sustentaste a Igreja com os teus divinos ensinamentos, ó Pontífice Atanásio, tu proclamaste o Filho consubstancial ao Pai, contra a doutrina de Ario; Pai Santo, roga a Cristo nosso Deus para nos conceder a graça da Salvação.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mosteiro de Rila - Bulgária




Acredita-se que o monastério de Rila foi criado pelo eremita São João de Rila (Ivan Rilski) durante o reinado de Pedro I (927-968). Na verdade, o eremita criou a idéia de um monastério, pois ele vivia numa caverna inteiramente desprovida de bens materiais, num local muito próximo ao monastério propriamente dito, que foi sendo construído pelos discípulos que subiam a montanha para estudar com ele.

Desde sua criação, o monastério de Rila tem sido respeitado pelos governantes da Bulgária. Do Segundo Império Búlgaro até a invasão e ocupação otomana, os czares búlgaros fizeram grandes doações, ajudando o monastério a se tornar um centro espiritual e cultural que promovesse a conscientização da nacionalidade entre os búlgaros, o que teve seu apogeu do século XII ao século XIV.

No século XIV, o prédio foi restaurado graças ao empenho de um senhor feudal. O mais antigo edifício do conjunto, ainda em uso, data desse período, e é a Torre de Hrelyu, nomeada em homenagem a esse mecenas. A pequena igreja, o trono e os portões ricamente adornados também pertencem ao mesmo período. Infelizmente, foi o que restou da invasão dos otomanos e dos numerosos ataques e assaltos sofridos pelo monastério durante o século XV.

Graças às doações da Igreja Ortodoxa Russa e do Monastério de Rossikon, no Monte Athos, o Monastério de Rila foi reconstruído no final do século XV pelos três irmãos Kyustendil, que trasladaram para ali os restos mortais de São João de Rila.

Seu maior valor foi ter sido depositário da língua e da cultura búlgaras durante a dominação estrangeira. E os búlgaros lhe são gratos até hoje, tendo pelo monastério o maior respeito. Em 1833, foi parcialmente destruído por um grande incêndio; foi reerguido entre 1834 e 1862, com a ajuda de toda a Bulgária.

O conjunto desse monastério é considerado uma das mais importantes obras primas do renascimento da Arquitetura Nacional da Bulgária e foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1983. Está submetido ao Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Búlgara.
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Rila_Monastery

quarta-feira, 13 de maio de 2009

OrtoFoto

Romênia
ator: Dragos Lumpan

"Comunhão com os Santos"

Protopresbítero Michael Pomazansky

A IGREJA ORA por todos aqueles que morreram na fé, e pede perdão pelos pecados deles, pois não há um só homem sem pecado, "ainda que tivesse vivido um só dia" (Jó 14:5 Septuaginta). "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós" (1 Jo. 1:8). Por isso, não importa quão justo um homem possa ser, quando ele parte desse mundo, a Igreja acompanha sua partida com orações por ele para o Senhor. "Irmãos, orai por nós.", pede o santo Apóstolo Paulo aos seus filhos espirituais (1 Tess. 5: 25).

Ao mesmo tempo, quando a Igreja testemunha a justeza de uma pessoa que partiu, os Cristãos, além de orar por ela, são ensinados pelo bom exemplo de sua vida e a colocam em um lugar para ser imitada.

E quando, além disso, a convicção comum sobre a santidade da pessoa que partiu é confirmada por testemunhos oficiais tais como martírio, destemida confissão, serviços com auto-sacrifício para a Igreja, dom de cura, e especialmente quando o Senhor confirma a santidade da pessoa que partiu com milagres depois da sua morte quando ele é lembrado em orações, então a Igreja a glorifica de maneira especial. Como a Igreja poderia não glorificar aqueles a quem o próprio Senhor chama de "Seus amigos"? "Vós sereis meus amigos... tenho-vos chamado amigos" (Jo. 15:14-15), a quem Ele recebeu em Suas mansões celestes em cumprimento das palavras, "para que onde Eu estiver estejais vós também" (Jo. 14:3). Quando isso acontece, orações para o perdão dos pecados daquele que partiu e para o seu repouso cessam; elas dão lugar a outra forma de comunhão da Igreja com ele, nomeadamente: primeiro, o louvor de suas lutas em Cristo, "pois nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa" (Mt. 5:15); segundo, são feitas petições para ele para que ele possa orar por nós, pela remissão dos nossos pecados, e pelo nosso avanço moral, e para que ele possa nos ajudar em nossas necessidades espirituais e em nossas angustias.

É dito: "Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor" (Apoc. 14:13) e na verdade nós os bendizemos. É dito: "Eu dei-lhes a glória que a Mim Me deste" (Jo 17:22), e na verdade, nós damos a ele essa glória de acordo com o comando do Salvador.

Da mesma forma o Salvador disse: "Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo" (Mt. 10:41). "Porque, qualquer que fizer a vontade de Meu Pai Que está nos céus, este é Meu irmão e irmã e mãe" (Mt. 12:50). Por isso, nós também deveríamos receber um homem justo como um homem justo. Se ele é irmão do Senhor, então ele também será tal para nós. Os santos são nossos irmãos espirituais, irmãs e mães e pais, e nosso amor por eles é expresso por nossa comunhão em oração com eles.

O apóstolo João escreveu para seus companheiros Cristãos: "O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com Seu Filho Jesus Cristo" (I Jo. 1:3). E na Igreja essa comunhão com os apóstolos não é interrompida; e ela segue em frente com eles para o outro reino da existência deles, o reino celeste.

A proximidade dos santos do Trono do Cordeiro e a elevação por eles de orações pela Igreja na terra são descritas no livro do Apocalipse de São João o Teólogo: E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do Trono, e dos animais e dos anciãos; e era o número deles de milhões de milhões e milhares de milhares.", que louvavam o Senhor (Apoc. 5:11).

Comunhão em oração é a concretização em fato real da ligação entre os Cristãos na terra e a Igreja Celeste da qual o Apóstolo fala: "Mas chegastes ao monte de Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; à universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoado" (Hb. 12: 22-23).

A Sagrada Escritura apresenta numerosos exemplos do fato que, enquanto ainda vivendo na terra, os justos podem ver, ouvir e saber muito mais do que é acessível ao conhecimento comum. Mais ainda, esses dons estão presentes com eles quando eles tiram a carne e estão no céu. O santo Apóstolo Pedro viu no coração de Ananias de acordo com o livro de Atos (5:3). Para Eliseu foi revelado o ato ilegal do servo Geazi (II Reis 5), e o que foi ainda mais notável, para ele foram reveladas todas as intenções secretas da corte síria, que ele então comunicou ao Rei de Israel (II Reis 6). Quando ainda estão na terra, os santos penetram em espírito no mundo acima; alguns deles viram coros de anjos, a outros foi concedido contemplara a imagem de Deus (Isaias e Ezequiel), e ainda outros foram exaltados ao terceiro céu e lá ouviram palavras místicas impronunciáveis. Além disso, quando eles estão no céu eles são capazes de saber o que está acontecendo na terra e de ouvir as petições daqueles que apelam a eles porque os santos no céu, pois são iguais aos anjos (Lc. 20:36).

Da parábola do Senhor sobre o homem rico e Lázaro (Lc. 16:19-31) nós sabemos que Abrahão, estando no céu, pôde ouvir o grito do homem rico que estava sofrendo no Inferno, apesar do "grande abismo" que os separava. As palavras de Abrahão sobre os irmãos do homem rico, "Têm Moises e os profetas; ouçam-nos." indicam claramente que Abrahão conhecia a vida do povo hebreu que estava acontecendo depois de sua morte; ele sabe de Moises e da lei, dos profetas e seus escritos. A visão espiritual das almas dos justos no céu, sem nenhuma dúvida, é maior do que era na terra. O Apóstolo escreve: "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face: agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (I Co. 13:12).

A santa Igreja sempre manteve o ensinamento da invocação dos santos, estando inteiramente convencida de que eles intercedem por nós diante de Deus no céu. Isso nós vemos nas antigas Liturgias. Na Liturgia do santo Apóstolo Tiago é dito: "Especialmente nós celebramos o memorial da Santa e Gloriosa Sempre Virgem, a Bendita Theotokos. Lembra-Te Dela, ó Senhor Deus, e por Suas puras e santas orações preserva-nos e tem piedade de nós." São Cirilo de Jerusalém, explicando a Liturgia da Igreja de Jerusalém, destaca, "Então nós também comemoramos (oferecendo o Sacrifício sem Sangue) aqueles que partiram previamente em primeiro lugar: antes de todos, os patriarcas, profetas,apóstolos, mártires, para que por suas orações e intercessões Deus possa receber nossas petições."
Numerosos são os testemunhos dos Padres e professores da Igreja, especialmente do quarto século para diante, a respeito da veneração de santos pela Igreja. Mas já no começo do segundo século há indicações diretas na literatura Cristã antiga a respeito da fé na oração pelos santos do céu por seus irmãos na terra. O testemunho da martírica morte de São Inácio o Teóforo ( no inicio do segundo século) diz: "Tendo retornado para casa em lágrimas, nós tivemos a vigília de noite inteira ... A seguir, depois de dormir um pouco, alguns de nós subitamente vimos o abençoado Inácio em pé e nos abraçando, e outros o viram orando por nós." Relatos similares, mencionando as orações e intercessões por nós de mártires, são encontrados em outros relatos das épocas de perseguições contra os Cristãos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

OrtoFoto

Ordenação de um presbítero
autor: Michał Czykwin

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Santo Apóstolo e Evangelista, Marcos (+63) - 25abr/08mai – Sexta

Apóstolo de Cristo de origem pouco conhecida, autor do segundo dos evangelhos sinóticos, os outros são os Mateus e Lucas, e considerado fundador da igreja do Egito e, também, fundador da cidade italiana de Veneza. Seu nome aparece nas epístolas de São Paulo, que se refere a ele como um de seus colaboradores que enviavam saudações de Roma. A principal fonte de informações sobre sua vida está no livro Atos dos Apóstolos. Filho de Maria de Jerusalém e primo de Barnabé, já se havia convertido ao cristianismo quando Paulo e Barnabé chegaram a Jerusalém (44) trazendo os auxílios da Igreja de Antioquia (At 11,30). Acompanhou Barnabé e Paulo a Antióquia (12,25), na hoje Turquia, onde atuou como auxiliar de Paulo, mas voltou à Jerusalém quando chegaram a Perge, na Panfília. Depois ele e Barnabé teriam embarcado para à ilha de Chipre (13,4-5), na sua primeira viagem apostólica, porém o apóstolo não voltou a ser mencionado nos Atos. De Chipre passou a evangelizar a Ásia Menor e, em decorrência de alguns conflitos, separou-se de Paulo e Barnabé em Perge (Panfília) e voltou para Jerusalém (13,13). Voltou a Chipre (50) acompanhado apenas de Barnabé (15,39) e depois foi para Roma como colaborador de Paulo, prisioneiro naquela cidade (Cl 4,10; Fm 24).

É possível que tenha deixado Roma antes da perseguição de Nero (64), pois depois (67) o apóstolo de Tarso, prisioneiro pela segunda vez, escrevia a Timóteo pedindo-lhe que levasse consigo, de Éfeso para Roma, o seu discípulo e colaborador, já que este lhe era muito útil em seu ministério (2Tm 4,11). Em Roma, também entrou em contato com Pedro, pois este, dirigindo-se aos fiéis do Ponto, da Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, saúda-as em nome do evangelista, a quem afetuosamente chama de filho (1Pe 5,13). Provavelmente escreveu em Roma o Evangelho (50-70) que traz o seu nome e que compila e reproduz a catequese de Pedro.

Seu Evangelho destinou-se aos cristãos provenientes do paganismo e tem um estilo simples e vigoroso e com seus 661 versículos, é o Evangelho menos extenso. No século II, o bispo Pápias de Hierápolis, Anatólia, afirmou que ele teria sido intérprete de São Pedro. Embora sejam parcas as informações sobre o evangélico, é indiscutível sua importante participação nos primeiros tempos da igreja cristã. Na Itália seu nome está ligado à cidade de Veneza, para onde mercadores venezianos provenientes de Alexandria, transportaram o que diziam ser as suas relíquias (828). Seu símbolo como evangelista é o leão e a Igreja Católica festeja seu dia em 25 de abril, data em que o evangelista teria sido martirizado.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

OrtoFoto

Montenegro
autor: Slobodan Simic

quarta-feira, 6 de maio de 2009

São Jorge Megalomártir (283-303) - 23 abril/06 maio


Estamos no ano 303, sendo Imperador dos romanos, Dioclesiano. Comprovando o sucesso da sua política, quer ao interior do império, quer face aos inimigos do exterior, em breve se apressou a cultuar com grande cuidado o que ele chamava de “respeito para com a divindade”.

Oferecia sem cessar numerosas vítimas aos seus deuses, sobretudo ao “deus” Apolo, em virtude da sua habilidade em predizer o futuro. Consultando um dia este deus (Apolo) sobre um assunto respeitante ao governo do Estado, obteve como resposta algo que o deixara perplexo: “os justos que estão na terra impedem-me de dizer a verdade”.

Consternado com o que lhe havia sido respondido, o infeliz imperador quis conhecer os justos que estavam sobre a terra. Um dos sacerdotes ao serviço de Apolo informou-o logo de seguida que os cristãos eram o motivo da resposta do mesmo deus. A partir desta data ficou o augusto príncipe mais enfurecido do que nunca, desencadeando aquela que viria a ser conhecida com a mais terrível e mais cruel de todas as perseguições que até então haviam sido movidas contra os cristãos.

Sabendo do assustador crescimento do número de cristãos no império e do desdém e desprezo que estes manifestavam diante das leis injustas que tinha promulgado, ordenou que todos os governadores e procuradores do Oriente se apressassem a reunir-se consigo na capital do império.

Nesta assembléia foram tomadas medidas drásticas e deliberações mais radicais com o intuito de reprimir, e mesmo aniquilar, a propagação do cristianismo nos territórios do império. Não satisfeito com o resultado obtido, mandou que fossem convocadas duas novas assembléias para ajuizarem a eficácia das decisões anteriormente aceites.

É precisamente na segunda destas duas assembléias que São Jorge vai estar presente. General dos exércitos imperiais, nascera na Capadócia, filho de pais cristãos de ilustre estirpe. Ainda menino, tiveram por bem os seus pais educá-lo segundo os princípios da Igreja de Cristo, introduzindo no seu dócil coração a piedade, a caridade e a compaixão que um dia viriam ser postas à prova.

Seu pai, também ele oficial e comandante de várias legiões, perece em combate, altura em que São Jorge se dirige para a Palestina, província donde era originária sua mãe. Em breve era nomeado tribuno militar (representante dos exércitos do senado), posto que lhe granjeou, pela sua coragem no campo de batalha, a fama de um soldado intrépido.

Desconhecendo a fé de São Jorge, Dioclesiano fá-lo comitês (companheiro). Presenciando a morte de sua mãe, após a partida dessa para o reino dos céus, toma todos os seus bens e vai encontrar-se com o imperador.

Desde o primeiro dia da assembléia, altura em que constatou de perto a crueldade e as atrocidades que, em virtude dos decretos do senado, muito rapidamente se iriam abater sobre os cristãos indefesos, deu início à distribuição de todos os seus haveres pelos pobres da cidade. É aconselhável que digamos que a sua fortuna pessoal era uma das maiores do império.

São Jorge tomara a decisão de, no terceiro dia da assembléia, enveredar pela defesa da sua Igreja e do seu Deus, divulgando perante tão douta e grandiosa reunião de personalidades, a sua fé.

Colocando-se de pé, no meio da assembléia, falou nestes termos: - “Imperador, senadores romanos, romanos! Até onde irá o nosso furor contra os cristãos? Leis sábias educaram-vos e alimentaram-vos e agora decretais contra os cristãos leis injustas e perseguis os inocentes. Eles tiveram a alegria de encontrar a verdadeira religião e vós quereis forçá-los a escolher a vossa, sem saberdes vós próprios se ela é verdadeira. Os vossos ídolos não são deuses; não, eu repito, não são deuses, não vos deixeis enganar pelo erro; o único Deus é Cristo; e Ele é ao mesmo tempo o único Senhor na glória de Deus Pai. Por Ele tudo foi feito e o Espírito Santo governa. Escolhei vós também, a verdadeira religião, ou, pelo menos, não provoqueis confusão e morte nas almas daqueles que a praticam”.

Boquiaberto com as palavras do jovem patrício, incumbiu o imperador ao cônsul Magnâncio, seu amigo, de lhe responder. Chamando-o à razão, Magnâncio pergunta-lhe: - “Quem te inspirou na palavra tamanha liberdade e audácia ?” São Jorge reponde-lhe – “A verdade !” – “Qual é a verdade ?” acrescenta o cônsul. – “A verdade é o próprio Cristo que vós perseguis” – “E tu, continua Magnâncio, és cristão?” – “Eu sou servidor de Cristo”, retorquiu São Jorge.

Vendo que o seu amigo Magnâncio nada consegue perante a determinação do general-menino, é o próprio imperador que toma a palavra e, falando com astúcia e malícia, enumera com uma doçura e suavidade de termos, que não lhe era peculiar, a fulgurante carreira, honras e glória que São Jorge tem à sua frente. Não conseguindo demovê-lo do seu firme propósito, manda que o ponham na prisão, conduzindo-o a golpes de lança.

Já no cárcere, é deitado no chão, os pés postos sob enormes traves e uma enorme pedra jogada sobre o seu peito, como havia o tirano desejado. São Jorge passa toda a noite louvando e glorificando o seu Senhor. Quando na manhã seguinte, fraco e dolorido, se apresenta ao soberano, as suas palavras tinham o mesmo fulgor e a mesma força. Disse que não temia a morte, uma vez que esta lhe iria possibilitar o tão desejado encontro com o Mestre e todas as torturas que lhe pudessem ser infligidas, por mais violentas que fossem jamais o fariam invocar a clemência do carrasco.

Trouxeram, então, uma roda armada de pontas de ferro onde o ataram com tal brutalidade que as correias que o ligavam se embrenhavam na sua carne. Encontravam-se, por baixo da roda, que estava suspensa do teto, várias mesas sobre as quais algumas dezenas de pontas de lança haviam sido fixadas, de modo que, ao aproximar-se das mesas a roda do suplício, na qual Jorge permanecia imóvel, possibilitava que todo o seu corpo fosse dilacerado pelas pontiagudas lanças. Jorge começou por orar em voz alta, depois em silêncio... Não deixou escapar um único suspiro.

Persuadido que ele estivesse morto, Dioclesiano dirigiu-se ao templo de Apolo para lhe agradecer por tê-lo livrado de tão impertinente e irreverente cristão. Pouco depois, desamarraram o cadáver do mártir e inauditamente, apareceu uma grande nuvem, da qual saíam relâmpagos e trovões. Então ouviu-se uma voz que dizia : “Jorge, não temas; Eu estou contigo”. Aproximou-se da roda um anjo vestido de branco. O seu rosto brilhava como o sol. Estendeu a mão ao mártir, abençoou-o e beijou-o. Quando o anjo desapareceu, aproximaram-se de Jorge e viram que o seu corpo não tinha ferimento algum.

Foram anunciar ao imperador o sucedido, mas este não quis acreditar, mesmo quando o trouxeram à sua presença. Os príncipes que ladeavam o soberano reconheceram-no, dois oficiais da guarda pretoriana, Anatol e Protoléon, que haviam sido iniciados no cristianismo, não podendo mais conter-se, gritaram bem alto : “O Deus do cristãos é o único e verdadeiro Deus”. Nesse instante, foram conduzidos para fora da Cidade, onde lhes cortaram a cabeça.

Ordenou o imperador que deitassem Jorge num poço cheio de cal viva durante três dias. No fim deste período, mandou que fossem ao poço buscar os ossos que tivessem restado para os esconder, receando que os cristão levassem-nos. Mas, qual não foi a admiração dos soldados, quando ao destaparem o poço, viram o mártir ileso, resplandecendo de luz ! Erguendo as mãos ao céu, Jorge deu graças a Deus pela sua misericórdia. Toda a multidão que comprovou este acontecimento rejubilou de alegria, entoando cânticos de louvor.

Assim que foi notificado, Dioclesiano exigiu que o colocassem diante de si, para o inquirir sobre a magia da qual certamente se valera para sair vivo de tais torturas. Novamente o aconselha a que reconsidere as suas propostas, caso contrário, ver-se-ia coagido a continuar com os suplícios. Inabalável, Jorge recusa a pseudo-bondade do soberano, persistindo no seu intento.

Desta vez, obrigaram-no a calçar uns pesados sapatos de ferro, armados de afiados pregos no interior, após terem sido aquecidos ao rubro no interior das chamas. Forçado a correr até a prisão, foi sendo vergastado com nervos de boi em cujas extremidades pendiam bolas de chumbo, ao mesmo tempo que os seus pés eram perfurados pelos pregos em brasas. Jorge não desfaleceu, passando o dia e a noite orando e louvando o seu Deus. Na manhã seguinte, de novo se apresentou ao imperador, que ficou estupefato ao vê-lo caminhar como se nada tivesse acontecido. Reunira o augusto príncipe o seu tribunal perto do teatro público, acompanhado de todo o senado.

Fora, uma vez mais, pelo imperador aconselhado a renunciar à sua fé, pois, segundo o mesmo, se Jorge não se submetesse à sua vontade, seria obrigado a encurtar o tempo de vida que este tinha à sua frente. Jorge em nada alterou a sua posição, razão pela qual Dioclesiano pediu que chamassem um conhecido “mago”, de nome Athanásio, cuja habilidade nas artes da magia era sobejamente conhecida.

Athanásio, por meio de três poções mortíferas, tentou retirar ao Bem-Aventurado mártir o sopro da vida. Não conseguiu! Em Jorge, as poções “mágicas” obtiveram o mesmo resultado que a límpida e cristalina água da fonte mais pura.

Constatando o seu fracasso, Athanásio achou por bem – já que o Mestre dos cristãos ressuscitava os mortos – proporcionar ao mártir a oportunidade de fazer o mesmo que o seu Deus.

A poucas dezenas de metros do local onde estava reunido o tribunal, encontrava-se um túmulo. Desataram Jorge das correias que o seguravam e ordenaram-lhe que se dirigisse ao túmulo.

Afirmara o imperador que, se conseguisse ressuscitar o defunto, ele e todos os seus súditos reconheceriam Cristo como o único Deus verdadeiro. Voltando-se para ele, Jorge retorquiu-lhe por doces palavras: “Se o meu Deus foi capaz de criar a partir do nada, também por meu ministério ressuscitará um morto, trazendo-o à vida“. Ajoelhou-se durante algum tempo, vertendo abundantes lágrimas. Em seguida, ergueu-se e orou em voz alta, de forma que todos o pudessem escutar. Apenas tinha concluído a sua prece, logo um barulho espalhou o terror naqueles que ali se encontravam. A pedra do sepulcro abriu-se e do seu interior saíra o ressuscitado que se agarrou a Jorge, proclamando bem alto ser Cristo o Deus verdadeiro. O próprio Athanásio (o mago) vem prostrar-se em face do mártir implorando-lhe que rogue a Cristo que lhe perdoe os seus malefícios.

O imperador, incrédulo, não cumprira o que havia prometido, acusou o mago de ter favorecido Jorge e mandou que lhe cortassem a cabeça, bem como ao morto ressuscitado. Quanto a Jorge, ordenou que o prendessem novamente até decidir o que fazer com ele.
Então a multidão, que tudo vira, abeirou-se dos guardas da prisão, ofereceu-lhes dinheiro e entraram nessa. Encontrando-o, pediram-lhe que os curasse, na medida em que muitos eram os que sofriam de doenças várias. Em nome de Cristo, a todos curou.

Surgira um camponês, de nome Glicério, cujo boi morrera de repente na lavoura, implorando a Jorge que lhe restituísse a vida. Jorge reenviou-o ao campo, dizendo-lhe que Deus trouxera à vida o seu boi. Tão depressa como foi, assim voltou o camponês, relatando por toda a cidade o que havia acontecido. Tendo sido encontrado por acaso pelos soldados, imediatamente foi conduzido ao Imperador, que, nesse momento, o sentenciou à morte. Feliz com a sentença, Glicério corria para o suplício como um jovem para um festim. Ia à frente dos soldados, para fora da cidade aonde lhe iam corta a cabeça, pedindo a Deus que aceitasse o seu martírio em vez do Batismo que não iria poder receber. Jorge foi acusado de sublevar o povo contra o imperador, criando instabilidade na almejada harmonia do império. Muitos dos adoradores dos falsos deuses se haviam convertido ao cristianismo.

De novo, Dioclesiano julgou necessário submeter Jorge a mais tormentos e, aconselhando-se com Magnâncio, deu ordem para prepararem o tribunal junto ao templo do deus Apolo.

No decorrer dessa noite, Cristo apareceu ao mártir em sonhos e levantando-o e beijando-o, pôs-lhe uma coroa na cabeça, dizendo-lhe: “Não temas, tem coragem, pois foste julgado digno de reinar comigo. Não tardes; vem ter Comigo para usufruir da alegria que te foi preparada”.

No dia seguinte, ao ser levado perante Dioclesiano, pediu-lhe que o deixasse entrar no templo do deus Apolo. Rejubilando de alegria, ao pensar que Jorge tinha por fim apostasiado, prontamente o imperador acedeu ao seu pedido. Todo o povo entrou no templo. Jorge aproximou-se da estátua de Apolo e perguntou-lhe: “Como te atreves tu, que não és nenhum deus, a querer receber o meu sacrifício, como se o fosse?”. O demônio que habitava a estátua respondeu-lhe: “Não, eu não sou nenhum deus, nem eu, nem os meus semelhantes. Não existe senão um único Deus; Aquele que vós anunciais”.

O Bem-Aventurado mártir inquiriu-o de novo: “Como ousas tu permanecer neste local, quando eu, adorador do Deus verdadeiro, aqui estou?”. A estas palavras, todas as estátuas do templo ruíram, acabando por desintegrar-se. Todos os demônios haviam abandonado aquelas paragens, quando de novo o imperador, cuja cólera nada podia conter, se apressou a ordenar aos soldados que levassem Jorge para fora da cidade, onde lhe seria cortada a cabeça.

Neste instante, a imperatriz Alexandra, esposa de Dioclesiano, que havia muito tempo nutria pelos cristãos uma profunda admiração, tendo ouvido tão invulgar turbulência na cidade e sabendo a aversão do soberano para com o cristianismo, abeirou-se dele, apelidando-o de injusto, cruel e ímpio.

O imperador, que não conhecia a misericórdia nem a compaixão, sentenciou a imperatriz Alexandra a perecer juntamente com o mártir. Conduzidos ao local da execução, ambos demonstraram uma coragem indômita comum aos mártires.

Assim, no dia 23 de abril no ano da graça de 303, partiu para o reino dos céus Jorge, com a idade de 20 anos, e Alexandra, imperatriz. A notícia de sua fé, do seu amor por Cristo, Nosso Deus e Salvador e da sua heroicidade, em breve se propagou por todo o império, incutindo em todos os cristãos uma arraigada e sincera temeridade que lhes permitiu suportar as injustiças e vencer todas as ciladas do demônio. Neste dia, a corrente inquebrantável que une, pela santidade e pelo exemplo de suas vidas, todos os heróis do cristianismo, viu-se acrescentada em mais dois elos, tão fortes e tão imprescindíveis como os anteriores. Aqueles que durante mil e novecentos anos sempre estiveram presentes na Igreja de Cristo, pelas suas orações e pela sua proteção aos cristãos, seus irmãos, são, desde o dia do seu nascimento nos céus, glorificados com o sublime e inefável nome de mártires.

Pelas orações dos teus santos mártires Jorge e Alexandra, ó Cristo Nosso Deus, tem piedade de nós. Amém!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

“Orthohoto.net”, produz exposição internacional.


O site “Orthophoto.net”, o maior banco de dados de imagens da Internet ortodoxa cristã, comemora 5 anos de existência.

Uma série de exposições internacionais das melhores e mais populares fotos do arquivo de “Orthphoto.net”, parece ser a forma mais lógica para mostrar o valor, a beleza e a riqueza das Igrejas Ortodoxas e sua tradição.

A exposição é realizada em 4 países simultaneamente, e conta com a ajuda local de, paróquias, empresas, amigos e associações como anfitriões, doadores e patrocinadores.

São 300 fotos de 170 autores de 43 países, inclusive o Brasil.


Mosteiro da Dormição da Mãe de Deus

"Estejamos na Alegria Divina"

(S. Bulgakov)

“Meu gozo permaneça em vós e o vosso gozo seja completo”(Jo. 15,2)

“Vinde... comunguemos da divina alegria... com o Reino de Cristo”
(Cânon de Páscoa, 8ª ode, 1º tropário)

Quando, durante a noite Pascal, depois de ter feito a volta à Igreja, a procissão para diante das portas fechadas, nós conhecemos um instante de silêncio, inapreensível, uma dúvida: “Quem irá rolar a pedra de diante do túmulo” (Mc. 1, 3). estará ele vazio, se o Cristo ressuscitou? Mas quando as portas abrem-se ao sinal da cruz e nós entramos na Igreja resplandecente, ao canto do hino da alegria, nosso coração transborda de alegria, pois Cristo ressuscitou. Nós “vemos a ressurreição de Cristo”. Com os sentidos purificados”, nós vemos “O Cristo resplandecente e nós nos aproximamos dele “como do Esposo, saído do túmulo”.

Então, nós não temos mais consciência do lugar onde nos encontramos, nós saímos de nós mesmos, o tempo é suspenso. Nós entramos no sabat, “o repouso sabático do povo de Deus” (Hb. 4, 9-10). As cores da terra apagam-se diante da luz branca da Páscoa e a alma não vê senão o “brilho inacessível da Ressurreição”: “hoje tudo está repleto de luz, a terra, os Céus e o inferno”.

Nessa noite pascal foi dado ao homem conhecer, por antecipação, a vida do século a vir; foi-lhe permitido entrar no Reino da Glória, o Reino de Deus. A linguagem de nosso mundo não possui palavras para expressar a revelação da noite pascal, pois ela é o mistério do século futuro, cuja “linguagem é o silêncio”.

A alegria perfeita que essa noite nos dá, de acordo com a promessa do Senhor, é o Espírito Santo. Ele nos revela o Cristo ressuscitado pela vontade do Pai. Ele constitui a alegria essencial no seio da Santa Trindade, a alegria do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai. E é, em nós, a alegria da Ressurreição. Por Ele, nós vemos o Cristo ressuscitado e Ele é em nós a Luz ressurrecional.

A Páscoa não é uma das festas, ela é “a Festa das festas, a solenidade das solenidades”. As doze grandes festas nos levam a conhecer o Reino através das obras de Deus, que se manifestam como acontecimentos dentro do nosso tempo. Ora, a Páscoa não é a lembrança de um entre esses acontecimentos, ela visa a vida a vir. Ela é a manifestação antecipada da Glória que o Cristo pediu ao Pai em Sua oração pontifical, ela é a prefiguração da Jerusalém Celeste que descerá do Céu sobre a terra na consumação dos tempos, de acordo com a visão profética: “Resplandece, resplandece, ó Nova Jerusalém, pois a Glória do Senhor brilhou sobre ti!”. A Páscoa é a vida eterna, que é conhecer Deus e comungar com Ele. Ela é a justiça, a paz e a alegria ao exemplo do Espírito Santo. A primeira palavra do Ressuscitado às mulheres miróforas foi: “Alegrai-vos” (Mt. 28,9) e diz aos apóstolos, quando aparece diante deles: “Paz a vós” (Lc. 11, 36; Jo. 20, 19, 29).

A vida do mundo futuro não é uma simples negação deste mundo, nem seu aniquilamento, ela eterniza tudo aquilo que é digno. Da mesma forma que a eternidade não é o esquecimento nem a supressão do tempo: ela coloca um fim em seu curso mutável. Na ressurreição, a criatura é glorificada pela força divina, porém no seio de sua própria vida, pelo grande feito de sua renúncia. Pois a Ressurreição de Cristo está em virtude de Sua Paixão e de Sua morte voluntária. Pela morte Ele venceu a morte”. A vitória sobre a morte é vivida até o fim pelo esgotamento da morte do Cristo; a própria morte é provada e conhecida em toda a sua extensão, e ela não é mais capaz de O reter (At. 2,29), pois Nele, ela se esgota: “Onde está, ó Morte, o teu aguilhão” (1Co. 15,55); “tragada foi a morte na vitória” (1Co. 15,54).

A Ressurreição não é a criação de uma vida nova, mas a vitória alcançada sobre a morte dentro da própria morte, a Vida eterna que resplandece do Cristo, saído do túmulo. A Ressurreição é o triunfo eterno de sua morte salvífica que coroa Sua Paixão redentora e toda a economia da Encarnação. Ela é crucial pois ela se completa pela Cruz, pela força do enorme ato sacrificial do amor e da obediência. “Nós nos prostramos diante da Tua Cruz, ó Mestre, nós cantamos e comemoramos Tua Santa Ressurreição”. Apagando a morte com Sua vitória, a Cruz torna-se fundamento e a força da alegria ressurrecional. A bem aventurança no Paraíso guarda a memória dos sofrimentos iluminados e superados da mesma forma que a luz é a vitória sobre as “trevas abaixo do abismo” e que o mundo de Deus reveste de ordem e de beleza “terra vazia e disforme”. Tudo sendo mantido, este mundo passa ao mundo ainda por vir, transfigura-se em mundo futuro, como o corpo terrestre do Senhor Jesus transfigurou-se na Ressurreição. Seu corpo guarda as marcas dos cravos, Seu lado está transpassado, em testemunho da identidade com Ele próprio. É nesta unidade da vida deste mundo com a do mundo futuro que se manifesta a força da Ressurreição.

Sua figura é traçada na natureza. Seu selo aparece quando esta renasce na primavera. Após a inércia do inverno, o verde aparece, novas forças saem da terra, carregadas com as seivas da vida. A primavera reveste-se com a roupagem multicolor da Ressurreição, sob os raios vivificantes do Sol. Cada primavera da natureza profetiza a primavera à vir do mundo inteiro. A morte foi vencida pelo calor da vida e a páscoa da natureza precede à Páscoa cristã. Tal como o inverno, cujo áspero caminhar conduz à primavera, os dias da Quaresma e da Semana da Paixão introduzem a vida cristã na Santa Páscoa.

Alguns procuram evitar esse caminho e não passar pela prova da semana dos sofrimentos. Seus sentimentos permanecem latentes, não há em suas almas a vela que permitirá acender a luz pascal. “Ontem, Contigo eu estive enterrado: hoje Contigo eu me levanto, pois ressuscitaste, já que ontem eu fui crucificado Contigo”. Bem aventurado aquele que pode repetir em seu coração as palavras do hino pascal. A alegria coroa a pena, uma grande luz se levanta das trevas e sombreia a morte que foi vencida pela própria morte. O triunfo da Páscoa é o fruto da aflição e da obra do jejum. Após a tristeza invernal, o Esposo chama a alma, sua noiva: “Levanta-te minha amada; formosa minha, e vem!” (Cant. 2,10)

Os raios da luz de Cristo penetram todo o universo. Nela também os defuntos estão vivos para nós. Ela lhes transmite nossa saudação pascal, como um anúncio da Ressurreição, da qual eles também tomam conhecimento por um modo que lhes é próprio. A criatura animada e dotada de razão não é a única a receber a força da ressurreição; pelo corpo de Cristo, o universo inteiro ressuscita na alegria do júbilo pascal. “Que os céus exultem, que a terra rejubile, que o mundo visível e o invisível celebrem!”. O olhar do expectador percebe essa subida da exultação pascal na natureza. O sol brinca com seus raios, o ar, a água, as plantas brilham aos raios da bonança divina. O espírito do homem, em vias de ressuscitar, não poderia encontrar no exterior uma natureza inerte: ela ressuscita com ele e ele a chama à Ressurreição do Cristo.

A Páscoa é uma alegria eucarística. Por sua Ascensão, o Senhor não se separa de nós. Nós permanecemos ligados a Ele, nós tocamos o Cristo manifestado e lhe elevamos o cântico da Ressurreição: “Ó Santa e grande Páscoa! ó Cristo! ó Sabedoria, Força e Verbo de Deus! Concede-nos comungar em verdade contigo na luz sem declínio do Teu Reino!”. A Solenidade Pascal já é esse dia sem noite. A alegria da Páscoa une-se à da Eucaristia. Os fiéis se saciam com o Cristo, o Senhor está perto de nós. Ele nos aparece, como aos Apóstolos, antes da Ascensão. A Páscoa é o mistério sacramental concedido pelo Espírito Santo à Igreja, a fim de permitir que tomemos conhecimento do Senhor ressuscitado: “Tendo visto a Ressurreição do Cristo, prostremo-nos diante do Senhor Jesus!”

No que concerne à Igreja, a Páscoa é a nossa alegria. É por sua força que nós adquirimos nosso ser e nosso estar em Igreja, na vida única de um só Corpo, o do Cristo. O que é habitualmente apenas um chamado e uma promessa nos aparece agora como a suprema realidade. A alegria da Igreja nos permite ver uns aos outros em Deus e nos alegrarmos com o nosso próximo, como convém entre pessoas que se amam. A Páscoa nos preenche com o Espírito Santo, que é a alegria do amor. É o dom que recebem os pneumatóforos, como coroamento de sua obra ascética. A luz da Páscoa brilhou continuamente na alma de São Serafim de Sarov. Ele acolhia seus visitantes com a saudação pascal: “Cristo ressuscitou, minha alegria”.

Em nós também, que estamos sombrios, cabisbaixos, avarentos de nossos sorrisos, nesta noite nosso coração abre-se à exultação do amor, ao nos expressarmos com o beijo e a saudação pascal: “Cristo Ressuscitou!”. As ofensas pessoais, os pensamentos maldosos dissolvem-se nesta luz. É possível, para aquele que ama, não perdoar? O perdão não é a alegria maior? Ele nos assemelha a Deus, que perdoa os erros de Seu filho e coroa no festim nupcial. A Páscoa é o perdão universal na alegria do amor. O amor pascal nos aproxima do amor de Deus, o qual ultrapassa toda compreensão. Não sobra nem a menor zona sombria nessa luz. Seu brilho funde e une todas as coisas. “Dia da Ressurreição! Sejamos iluminados por esse dia e beijem-nos uns aos outros! Pela Ressurreição, perdoemos tudo, mesmo àqueles que nos odeiam!”

A alegria do amor aquece o coração, como o daqueles discípulos que viram e ouviram Aquele que caminhava ao lado deles. E ei-Lo novamente entre nós, invisivelmente manifesto. Amén!

Boletim Interparoquial, maio e 2002