“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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terça-feira, 14 de outubro de 2008

História Resumida do Patriarcado da Bulgária

Calendário Litúrgico da Igreja Ortodoxa da Polônia de 2003
Tradução do Rev. Ighúmeno Lucas

O cristianismo no território da atual Bulgária surgiu muito cedo. O apóstolo Paulo durante sua segunda viagem missionária em torno do ano 52 visitou esta região. Relembra isso em sua Epístola aos Romanos: “...pela força de sinais e prodígios, na força do Espírito de Deus: como de Jerusalém e arredores até a Ilíria, eu levei a termo o anúncio do Evangelho de Cristo,...” (Rm 15, 19). De acordo com a Santa Tradição, também o Santo Apóstolo André pregou no litoral do Mar Negro, na foz do rio Dunai.

O rápido desenvolvimento do cristianismo ocorreu particularmente nos séculos III e IV. Depois do édito de Milão do ano de 313, existia aqui, uma estrutura eclesiástica já bastante organizada. Em 343 em Sardyka (Sófia) teve lugar um Concílio Local em defesa da ortodoxia de Nicéia e a condenação do arianismo. O traço característico do cristianismo nos Bálcãs foi seu caráter nacional. Os cristãos desta região não foram forçados nem à cultura romana nem à helenística. Ainda antes do século VII eram usados aqui os idiomas litúrgicos nacionais.

No começo do século V a Igreja Búlgara enfrentou o problema de invasões de povos bárbaros: hunos, visigodos, ostrogodos e tribos eslavas. No ano de 681 o soberano Asparuch (Isperych 681-702), filho de Kubrata, depois da ocupação de Dobrudja e do baixo Mezja fundou o primeiro país búlgaro-eslavo com capital em Pliska. Os novos soberanos intencionavam a total dominação dos povos nativos dos Bálcãs. Destruíram sua cultura e tradições. Muitas igrejas e mosteiros forma destruídos. Com o tempo, entretanto, os invasores depois de familiarizaram-se com a cultura local eles mesmos renderam-se à cristianização.

Em 865 (ou como citam outros historiadores, em 25.05.866) o soberano búlgaro Boris I aceitou o batismo, em Bizâncio, e com a ajuda de clérigos gregos iniciou a cristianização do país. Em 870 o Concilio em Constantinopla estabeleceu no território da Bulgária um arcebispado autônomo, cujo primeiro bispo foi José. Esta independência parcial favoreceu um desenvolvimento dinâmico da Igreja.

No tempo do filho de Boris, Simeão o Grande (893-927), a Bulgária tornou-se uma potência no caráter político e militar. O exército búlgaro conquistou quase toda a Península Balcânica. Simeão proclamou-se, então, “czar–imperador dos Búlgaros”.

Em 919 aconteceu o Concilio de todos os bispos búlgaros, no qual foi anunciada a Autocefalia da Igreja Búlgara. O arcebispado foi elevado à dignidade de patriarcado com sede na capital PresBavie. O primeiro líder tornou-se Leôncio. Apesar dos protestos da parte de Bizâncio, no reinado de filho mais jovem de Simeão foi assinado um acordo búlgaro-bizantino, à força do qual foram aceitas as conquistas territoriais da Bulgária, ratificado o titulo imperial de seus soberanos, confirmada a independência da Igreja e ao patriarca foi concedido o título de seu líder. Como primeiro patriarca foi reconhecido, entretanto, não Leôncio, mas seu sucessor Demétrio.

No ano de 979, o imperador bizantino João Tsimski invadiu e conquistou a Bulgária oriental, e posteriormente a subordinou a si, politicamente e eclesiasticamente. Neste mesmo ano o patriarcado e a independência eclesiástica foram liquidados. Apenas na parte ocidental e independente da Bulgária foi conservada a independência política e eclesiástica. Foi transferida a cátedra patriarcal para Triadic, capital do país búlgaro-ocidental do czar Samuel (976-1014). Nesta parte da Bulgária conseguiu-se preservar a autocefalia, mas apesar disso a Igreja estava bastante enfraquecida.

Em 1018, Bizâncio sob a autoridade de Basílio II, o Matador de búlgaros (976-1025), finalmente conquistou e subordinou toda a Bulgária a si. Destronado o patriarca Davi. João tornou-se líder de toda a Igreja Búlgara, com o título de arcebispo de Ochryd. Em 1020 foi anulado o patriarcado. O imperador Basílio conservou, entretanto, a independência da Igreja Búlgara. Ratificou as leis que a Igreja obteve de soberanos anteriores. Os búlgaros não queriam concordar com a perda da independência. Desejavam a autonomia política e eclesiástica. Em 1186 explodiu a insurreição dos irmãos Pedro e Asen Asenow, que abrangeu praticamente todo o território da Bulgária. Depois de alguns meses chegaram à assinatura de um armistício. O país búlgaro renasceu parcialmente. Em 1187 Asen é aclamado czar. Renasce, então, também a Igreja Búlgara independente. Para além de suas fronteiras permaneceram, entre outros, o arcebispado de Ochryd. As relações com Constantinopla eram bastante tensas. Nessa situação o czar Kalojana (1197-1207) começou a buscar apoio no papa. O papa Inocente III aproveitando-se desta situação ofereceu ao czar a coroa real, e ao arcebispo concedeu o título de primaz. Desta maneira a Igreja Búlgara tornou-se dependente de Roma.

O rompimento dos contatos com Roma ocorreu no governo do czar Ivan Asen II (1218-1241), que em 1235 estabeleceu um acordo com o imperador bizantino João III Vatatzes (1222-1254). Por força deste acordo, o bispo Joaquim II obteve o título de patriarca búlgaro.

Em 1393 os turcos dominavam a Bulgária, e negativamente relacionaram-se com os cristãos locais. Foram destruídas tanto as estruturas estatais como eclesiásticas, então existentes. Sob pressão das autoridades, muitos cristãos aceitaram o islamismo. Igrejas e mosteiros foram demolidos ou transformados em mesquitas. Os cristãos foram obrigados a pagar altos impostos. Todas as manifestações de rebelião eram sufocadas sangrentamente. A Igreja Búlgara foi privada do patriarcado e autocefalia e ficou subordinada em parte ao patriarca de Constantinopla e em parte ao arcebispo de Ochryd. Em 1767 quando a independência do arcebispado de Ochryd foi aniquilada toda a Igreja ficou subordinada à jurisdição de Constantinopla.

Na interface dos séculos XVIII e XIX começou a surgir um forte sentimento de distinção nacional nos búlgaros. Como precursor do renascimento búlgaro é considerado o monge Paísios do mosteiro Chilander do Monte Atos, que escreveu “História eslavo-búlgara do país, dos czares, dos santos, e de todos os acontecimentos da história búlgara”. A obra foi escrita no idioma nacional com incrível fidelidade à verdade histórica sobre o país, a nação e a Igreja Búlgara. Neste livro foram relembradas a glória e a independência do patriarcado e ao mesmo tempo era um apelo à preservação das tradições nacionais e à luta pela independência. O processo de renascimento da Bulgária não se seguiu imediatamente. A idéia desenvolveu-se aos poucos. No começo desejava-se a independência da Igreja. Graças à firmeza dos búlgaros, em 1848, o patriarca de Constantinopla sagrou quatro bispos de nacionalidade búlgara. Em 1851 Hilarion, líder do movimento nacionalista búlgaro, foi sagrado como bispo titular.

No dia 28 de fevereiro de 1870 o sultão, com decreto, estabeleceu o Exarcado Autônomo Búlgaro. Sua liderança era exercida pelo Sínodo Búlgaro. Em importantes questões dogmáticas ele tinha que consultar Constantinopla de onde obtinha o santo óleo, assim como era obrigado comemorar o nome do patriarca de Constantinopla nos ofícios litúrgicos. Em 1872, Antym I foi escolhido como primeiro exarca. O patriarca de Constantinopla opôs-se duramente à esta decisão, que estava em acordo apenas com o sultão e sem a aprovação do patriarca ecumênico e excomungou o episcopado. Iniciaram-se, assim, 73 anos de cisma.

Em 1878, depois da guerra turco-russo, a Bulgária obteve independência como principado, e em 1908 foi proclamada a restauração da monarquia. O príncipe Ferdinando foi aclamado como czar e proclamado o terceiro reino búlgaro.

Não se encerrava, entretanto, o processo de formação da moderna nação búlgara. Em conseqüência da guerra do Bálcãs no começo do século XX, apesar da conquistas à custa da Turquia, o país perdeu parte de seus territórios para a Romênia, Grécia e Sérvia. Durante a I Guerra Mundial a Bulgária lutou do lado das potências centrais (Alemanha e Itália). Em 1917 ocorre a revolução bolchevique. De modo a não permitir a propagação no ocidente das tendências comunistas, foi assinado em Tessalônica um acordo de paz por força do qual a Bulgária recuperava as fronteiras anteriores à guerra. Entretanto, o país encontrava-se a beira de uma crise econômica. Até o momento da eclosão da II Guerra Mundial a Bulgária lutava pela recuperação da economia do país.

Em 1941, sob pressão alemã, a Bulgária desistiu da posição de país neutro e partiu para a guerra ao lado da Alemanha. Porém, não se subordinava à ideologia fascista. Graças a protestos conseguiu-se deter totalmente a propaganda anti-semita. A Bulgária foi um dos poucos países onde os judeus escaparam de perseguições abertas.

No dia 22 de fevereiro de 1945, por iniciativa da Igreja Russa deu-se a reconciliação da Igreja Búlgara com o patriarcado de Constantinopla. O patriarca retirou o anátema da Igreja Búlgara e novamente concedeu-lhe a autocefalia. A restituição do patriarcado seguiu-se, com a aprovação de Constantinopla, no Sínodo Búlgaro de 1953 em Sófia. O primeiro patriarca, depois de vários séculos de intervalo, foi Cirilo.

Em 1992 ocorre um cisma na Igreja Búlgara. Quatro bispos do Metropolita Estevão questionaram a canonicidade da eleição de Máximo, patriarca em exercício, e acusaram-no de atividades prejudiciais à Igreja. Com apoio do departamento búlgaro de questões religiosas criaram uma hierarquia paralela. O conflito durou até outubro de 1998. Nos dias 30 de setembro e 1º. de outubro de 2001 teve lugar em Sófia, um encontro dos líderes de todas as Igreja Ortodoxas Autocéfalas. Em conseqüência das conversações, três bispos cismáticos com o patriarca de Sófia à frente, em nome dos demais apresentaram um ato de arrependimento. Foram recebidos de volta à unidade canônica, entretanto, os bispos cismáticos de novo opuseram-se ao patriarca Máximo e queriam sua demissão. O cisma na Igreja Búlgara dura até hoje.
A Igreja Búlgara conta com 8 milhões de fiéis, 26 bispos e 2300 clérigos. Em 123 mosteiros vivem 500 monges e monjas. A Igreja possui 3200 igrejas e 500 capelas (dados de 1995). Além das dioceses nacionais a Igreja possui duas dioceses nos Estados Unidos e uma na Europa Ocidental. A formação dos futuros clérigos se dá em dois seminários clericais e em duas Academias Teológicas.

Na liderança da Igreja Ortodoxa Búlgara está Máximo, o 21º. patriarca búlgaro. O patriarca Máximo nasceu a 29 de outubro de 1914. Em 30 de dezembro de 1950 foi elevado à dignidade de bispo. A eleição de Sua Beatitude Máximo, como Chefe da Igreja Búlgara teve lugar a 4 de junho de 1971 e sua entronização neste mesmo dia.

O Chefe da Igreja Búlgara tem direito a usar o título de: “Sua Santidade Patriarca Búlgaro, Metropolita de Sófia”.

A residência e cátedra patriarcal dedicada a Santo Alexandre Newski situam-se em Sófia.


Sua Santidade MÁXIMO
Patriarca da Bulgária
Metropolita de Sophia