“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

"Homilia sobre o Dia do Batismo de Cristo - São João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla"

Diremos agora alguma coisa sobre esta presente festa. Muitas pessoas comemoram os dias festivos e conhecem seus significados, mas a causa pelas quais elas foram estabelecidas, elas não conhecem. Neste caso, a presente festa é chamada de Teofania – todos sabem; mas o que ela é, a Teofania, não sabem. É vergonhoso – celebrar-se o dia da festa, todo ano, e não saber-se sua razão.

Por causa disso, antes de tudo, é necessário dizer que não há uma Teofania, mas duas: uma atual, que já ocorreu, e a segunda no futuro, que acontecerá com a Glória do final dos tempos. Sobre uma e outra você ouvirá hoje de Paulo, que conversa com Tito, falando assim, do presente: “A Graça de Deus se há manifestado, tendo salvado toda a humanidade, decretando que rejeitássemos as iniqüidades e os desejos mundanos e habitássemos no tempo presente na prudência, na retidão e na piedade”. E sobre a outra, o futuro: “Na expectativa da bem-aventurada esperança e no aparecimento glorioso de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tit 2:11-13).Um profeta fala assim sobre Esta última: “O sol tornar-se-á em escuridão e a lua em sangue antes que venha o grande e iluminado Dia do Senhor” (Joel 2:31).

Por que o dia do nascimento de Cristo não é considerado o dia da Teofania? Mas exatamente no dia no qual Ele foi batizado? Porque neste dia Ele batizou e santificou a natureza da água. Por causa deste dia, nós obtemos água para levar para casa e guardá-la todo o ano. Desde este dia as águas ficaram santificadas e um fenômeno óbvio ocorre: estas águas em sua essência não se estragam com o passar do tempo, mas obtidas hoje, por um ano inteiro e freqüentemente por dois ou três anos permanecem incólumes e frescas e posteriormente por longo tempo, não deixando de ser água como aquelas obtidas nas fontes.

Por que então este dia é chamado Teofania? Porque Cristo fez-Se conhecer a todos não quando Ele nasceu, mas quando Ele foi batizado. Até este momento Ele estava desconhecido do povo E como o povo não o conhecia, quem Ele era, ouviram falar d’Ele através de João Batista, que disse “No meio de vós está um a quem vós não conheceis” (Jo 1:26). E não é uma surpresa que os outros não O conhecessem, pois mesmo o Batista não o conhecia até aquele dia. “E eu – disse ele – não O conhecia, mas o que me mandou batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo” (Jo 1:33).

Nisto está evidente que, há duas Teofanias, por esta razão é necessário conhecer uma e igualmente a outra. Primeiramente é importante falar sobre Seu amor sobre o último, de modo que aprendamos sobre o Criador.

Havia o batismo judaico, que limpava as imundices corporais, mas não removia pecados. Assim, aquele que cometia adultério, roubo, ou quem tivesse cometido qualquer espécie de crime, ele não o livrava da culpa. Mas aquele que tivesse tocado os ossos de um morto ou em uma comida proibida pela lei, que tivesse se contaminado ou contraído lepra, estando impuro até à tarde, após lavar-se, já estaria limpo. “Deixe que lave seu corpo em água pura – diz a Escritura – e se estiver impuro até à tarde, então será limpo” (Lev 15:5, 22:4). Não se tratava de fato, apenas, de pecados ou impurezas, mas de que: quando os judeus tornaram-se imperfeitos, Deus, manifestando nisso Sua grande piedade, preparou-os para a iniciação da observância das coisas importantes. Então, rituais judaicos não perdoam pecados, mas livram as impurezas corporais.

O mesmo não acontece conosco: ele é muito mais sublime e manifesta a poderosa Graça, por meio da qual Ele nos livra dos pecados, limpa o espírito e confere os dons do Espírito.

O batismo de João foi muito mais sublime do que aquele dos judeus, mas menos do que o nosso: ele foi como uma ponte entre dois batismos, fazendo passar por ele mesmo do primeiro ao último. Por qual razão João não nos indicou apenas a observância das purificações corporais, mas juntamente com elas ele nos exortou e advertiu à conversão dos vícios às boas ações e a confiar na esperança da salvação e na realização das boas ações, do que em diferentes lavagens e purificações pela água. João não disse: lavem vossas roupas, lave vosso corpo e tu ficarás puro, mas o quê?: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3:8). Desde então, o batismo de João foi maior para os judeus, mas menos para nós: o batismo de João não nos concedeu o Espírito Santo e não outorgou-nos o perdão pela Graça: ele deu os mandamentos para o arrependimento, mas não estava capacitado à absolvição dos pecados. Esta é a razão pela qual João também disse: “Eu vos batizo com água... Todavia, Aquele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3:11). Obviamente ele não batizou com o Espírito.

Mas o que isto significa: “com o Espírito Santo e com fogo?” Lembremos aquele dia no qual os Apóstolos “lá apareceu diferentes línguas como fogo que repousaram sobre cada um deles” (At 2:3). E que o batismo de João não concedera o Espírito e a remissão dos pecados fica evidente pelo que se segue: Paulo encontrou alguns discípulos e lhes perguntou: “Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? ”Eles lhe responderam : “Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo”. Ele respondeu-lhes: “Em que fostes batizados?” Eles responderam: “No batismo de João”. Paulo então disse: “João de fato batizou com o batismo do arrependimento” – arrependimento, mas não remissão dos pecados; para quem ele batizou? “... dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram isto foram batizados em nome do Senhor Jesus. E impondo-lhes as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo” (At 19:1-6). Veja, como incompleto estava o batismo de João. Se este não estivesse incompleto, Paulo então os teria batizado novamente e colocado suas mãos neles; tendo realizado apenas o segundo ato ele mostrou a superioridade do batismo apostólico e que o batismo de João era inferior ao dele. Assim, deste modo reconhecemos a diferença dos batismos.

Agora é necessário perguntar: por quem Cristo batizou-Se e em qual batismo? Nem pelo Criador dos judeus, nem pelos os últimos – nós. Por acaso teve ele necessidade da remissão dos pecados, como isto foi possível para Ele, que não tem pecados? É dito nas Escrituras: “O qual não cometeu pecado, nem na Sua boca se achou engano” (1 Pe 2:22) e mais “Quem dentre vós me convence do pecado ?” (Jo 8:46). Se Sua carne estava privada do Espírito Santo; como poderia ser isto possível, quando ela no começo foi talhada pelo Espírito Santo? E deste modo, se Sua carne estava privada do Espírito Santo e Ele não estava sujeito aos pecados, então por quem foi Ele batizado?

Antes de mais nada é necessário conhecermos por qual batismo Ele foi batizado e então ficará mais claro para nós. Em qual batismo Ele foi de fato batizado? – Não no Judeu, nem no nosso, nem no de João. Por que Ele foi batizado não por causa do pecado e não havendo necessidade do dom do Espírito; no entanto, como demonstramos, este batismo estava ligado tanto a um quanto ao outro. É evidente que Ele veio ao Jordão não para o perdão dos pecados e não para receber os dons do Espírito. Mas deste modo, algumas pessoas daquele tempo não pensaram que Ele veio para o arrependimento como outros, ouvindo o que João prevenira. Eis o que ele falou a aqueles: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento”; mas ouça o que ele disse a Ele: “Eu tenho necessidade de ser batizado no Teu (batismo) e Tua sabedoria vem até a mim? (Mt 3:8,14). Nestas palavras ele demonstrou que Cristo veio a ele não movido pelas mesmas necessidade que as pessoas vinham e que Ele estava muito distante da necessidade de ser batizado por esta razão – ele que é muito mais sublime e perfeitamente puro do que o próprio batismo.

Por que Ele foi batizado? Isto foi feito não por arrependimento, não pela remissão dos pecados, não para receber os dons do Espírito. Mas outras duas razões, na qual sobre uma o discípulo fala, e sobre a outra Ele próprio fala à João. João não declarou qual foi a razão deste batismo? Isto é, que o Cristo deveria ser revelado às pessoas, como Paulo também menciona: “João, portanto, batizou com o batismo de arrependimento, de modo que cressem naquele que viria” (At 19:4). Esta foi a razão do batismo. Se, ao contrário, João tivesse ido ao íntimo de cada um ou ficado na porta, proclamando o Cristo dizendo: “Ele é o filho de Deus”, tal testemunho deveria ser duvidoso, esta ação causaria extrema perplexidade. Mesmo ainda, se ele estivesse, em defesa de Cristo, ido às sinagogas e testemunhasse sobre Ele, este testemunho poderia ser suspeito de ser fabricado. Mas quando todas as pessoas invadiram o Jordão vindo das suas cidades e permaneceram às margens do rio quando Ele próprio veio para ser batizado e recebeu o testemunho do Pai pela voz do alto e pela descida do Espírito na forma de pomba, então o testemunho de João sobre Ele foi dado além de qualquer questionamento.
E desde então ele disse: “E eu não O conhecia” (Jo 1:31), Seu testemunho dado é digno de confiança. Eles eram parentes consangüíneos “pelo que Isabel, Sua parenta também concebeu um filho – disse o Anjo à Maria sobre a mãe de João (Lc 1: 36); se as mães foram parentes, então obviamente também foram as crianças. Apesar de parentes - não nos parece que João testificasse o Cristo por causa de seu parentesco; a Graça do Espírito formou-o com tal ardor, que João passara todos os últimos anos no deserto. Deste modo não parecia ter João dado seu testemunho devido amizade ou outra razão similar. Mas João, exatamente, como tinha sido instruído por Deus, assim anunciou sobre Ele, mesmo quando disse: “e eu não O conhecia”. Como tu o conheceste? “Ele me havia enviado a batizar com água, Aquele que me disse...” - “O que ele te disse ?” – “ Eu vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e repousar sobre Ele. Este é batizado pelo Espírito Santo” (Jo 1: 32-33). Veja, o Espírito Santo não desceu como na primeira vez, abaixando sobre Ele, a fim de proclamar Sua inspiração – como através de um dedo, ele apontou-O a todos. Por esta razão Ele veio ao batismo.

E a segunda razão, sobre a qual Ele próprio falou – o que exatamente foi? Quando João disse: “Eu tenho necessidade de ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?” Ele lhe respondeu: “Deixa por ora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3:14-15). Por justiça compreendemos o cumprimento de todos os mandamentos, como é dito: “ambos eram justos, andando sem repreensão nos mandamentos do Senhor” (Lc 1:6). O cumprimento da justiça era necessário para todo o povo – mas nenhum deles guardava-o ou cumpria-o – Cristo veio então e cumpriu esta justiça.

E que justiça está lá, alguém diria, em ser batizado? Obediência a um profeta era correto. Como Cristo estava circuncidado, sacrifício oferecido, guardava o Sábado e observava as festas judaicas, assim Ele também acrescentou este gesto tradicional, sendo obediente ao ter sido batizado por um profeta. Foi a vontade de Deus então, que todos fossem batizados – após ter ouvido João, que disse: “Ele me enviou para batizar com água” (Jo 1:33); assim também disse Cristo: “os publicanos e o povo de Deus realmente justificaram Deus, tendo sido batizados com o batismo de João; os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus em relação a eles próprios, não sendo batizados por ele” (Lc 7:29-30).

Desse modo, se obediência a Deus significa justiça, e Deus enviou João para batizar a nação, então Cristo também cumpriu isto juntamente com os outros mandamentos. Considerar que o mandamento da lei é o ponto essencial entre dois valores: dívida, esta, que nossa raça precisava pagar; mas nós não a pagamos, e fracassados diante de uma acusação, ficamos contidos na morte. Cristo veio, e nos encontrando aflitos por esta dívida – pagou – realizou o necessário e ligou aqueles que não foram capazes de pagar.

Por esta razão Ele não disse: “é necessário para nós fazer isto ou aquilo”, mas “cumprir toda justiça”. “É da Minha responsabilidade, sendo o Mestre – Ele disse – fazer o pagamento do que é necessário”. Tal foi a razão do Seu batismo – por conseguinte, eles puderam ver, que Ele cumprira a lei – tanto esta quanto a outra, sobre a qual Ele falara antes. Por isso também o Espírito desceu como uma pomba: porque onde houver reconciliação com Deus – também haverá uma pomba. Deste modo, também na arca de Noé a pomba trouxe um ramo de oliveira – um sinal do amor de Deus pela humanidade e da cessação do dilúvio. E agora, na forma de pomba, e não num corpo – este particular merece ser notado – que o Espírito desceu, anunciando a universal Misericórdia de Deus e mostrando com ela, que o homem espiritual necessita ser gentil, simples e inocente, como Cristo sempre diz : “Se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18:3). Mesmo como aquele arco, após o término do dilúvio, permaneceu sobre a terra; este arco, após a cessação da fúria, é colocado no céu, e agora este Imaculado e Imperecível Corpo é colocado à direita do Pai.

Tendo feito menção sobre o Corpo do Senhor, direi um pouco sobre Ele e então concluiremos esta conversa.

Muitos agora se aproximarão da ceia por ocasião da festa. Mas alguns se aproximarão não com tremor, mas empurrando, ferindo uns aos outros, em fúria de raiva, gritando, blasfemando, asperamente com seus companheiros, com muita confusão. Com o que, meu amigo, estás preocupado? O que o inquieta? Certamente assuntos urgentes te chamam. Até esta hora tu estás particularmente consciente do que estes assuntos te lembram, que tu estás situado sobre a terra e que tu pensas realmente em se unir com as pessoas? Mas não pense com a alma igual a uma pedra, que neste caso tu estarás sob a terra e não exultante com os Anjos, com os quais levantamos uma vitoriosa canção a Deus. Por isso Cristo representou-nos como Anjos, dizendo: “onde estiver o corpo, ali se reunirão as águias” (Mt 24:28). Deste modo devíamos subir ao céu e elevarmo-nos às alturas, tendo ascendido nas asas do Espírito; mas, ao contrário, como cobras, nós nos arrastamos sobre a terra e comemos sujeiras. Tendo Deus nos convidado à ceia, tu, embora saciado com muitas coisas, não ousaria deixar antes estas coisas enquanto elas estão ainda sujeitas? Enquanto os acontecimentos sagrados continuam, tu passarias por tudo, exatamente no meio, e irias embora? É por uma desculpa merecida? Que desculpa poderia ser? Judas tendo traído no final da tarde, naquela última noite, deixou-os apressadamente enquanto todos os outros, calmos, ainda reclinavam. (...).Se ele não tivesse ido embora, não teria concluído a traição; se não tivesse deixado seus co-discípulos, não teria perecido; se não tivesse se retirado do rebanho, o lobo não o teria agarrado e o devorado sozinho. Por esta razão, ele (Judas) permaneceu com os judeus, e aqueles (os apóstolos) foram embora com o Senhor. Veja atentamente, de qual maneira a oração final após a oferta do sacrifício é finalizada.

Nós devíamos, amados, lembrados disso, ponderar, receosos do julgamento que haveremos de ter. Nos aproximaríamos do Sacrifício Sagrado com grande respeito, com uma piedade adequada, de modo que venhamos a ter a benevolência de Deus, para limpar nossas almas e recebermos as bênçãos eternas, das quais todos nós seremos dignos pela Graça e Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos homens, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, tenham Glória e Poder.

Eternamente agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.

"Boletim Interparoquial jan 2003, Tradução Irmã Irene"