sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Grande Dodeca-Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo – 06/19 ago
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14:55
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sexta-feira, 23 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo – 29 de junho/ 12 de julho
“Exaltemos Pedro e Paulo, estes dois luzeiros da Igreja pois eles brilham no firmamento da fé...” Assim cantamos nas vésperas da festa, na noite de 28 de junho. Nas matinas como nas vésperas os hinos parecem partilhar igualmente o louvor entre os dois apóstolos, a quem nos dirigimos um a cada vez. Entretanto o evangelho lido nas matinas trata especialmente sobre o apóstolo Pedro. Aí ouvimos nosso Senhor (Jo. 21,14-25) perguntar três vezes a Pedro: “Tu me amas?”. Na primeira vez Jesus diz: “Tu me amas mais do que estes?” Três vezes Pedro responde com uma humildade às vezes triste e às vezes chorosa: “Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo”. E três vezes Jesus lhe diz para apascentar o rebanho do Bom Pastor: “Apascenta os meus cordeiros... apascenta as minhas ovelhas...” Depois Jesus prediz a Pedro de maneira velada “o gênero de morte pelo qual Pedro devia glorificar a Deus”. Este evangelho tem duas coisas para nos dizer. Primeiro, coloca claramente a pergunta única, pergunta que temos e que teremos que responder: “Tu me amas?” Tudo, na vida cristã, se reduz a esta pergunta. Podemos nós responder como Pedro: “Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo?” Não seriam nossas ações um lamentável desmentido desta afirmação? Entretanto responder simplesmente que não amamos o Senhor seria desconhecer e sufocar as aspirações - por mais fracas que sejam - que o Espírito Santo põe em nossos corações e dirige para Cristo. Digamos, então, a Jesus: “Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que Te amo. Não espero nada de mim; espero tudo da Graça”. O segundo ensinamento dado por este evangelho concerne a natureza da autoridade na Igreja. O Senhor confere aqui a Pedro uma autoridade especial. Percebemos primeiro que esta autoridade está fundamentada sobre uma primazia do amor - “tu me amas mais do estes?” - e em seguida que ela consiste em um serviço humilde e desinteressado - “apascenta minhas ovelhas...”. Entre cristãos toda preeminência que não for uma preeminência de amor e de serviço não corresponde às intenções de nosso Senhor. Toda autoridade que, na Igreja, se expressasse em termos de prestígio ou de posse material ou de domínio tornar-se-ia estranha e hostil à solicitude verdadeiramente pastoral à qual Jesus chama Pedro para participar. Sobre estas palavras do Senhor a Pedro serão julgados todos aqueles que reivindicam uma autoridade no seio da comunidade dos fiéis.
A liturgia de 29 de junho/ 12 de julho manifesta, pelos textos que nos faz ouvir, o quanto o ministério de Pedro e o de Paulo são todos dois necessários e complementares. O evangelho (Mt.16,13-19) contém a confissão de Pedro em Cesaréia de Filipos: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo...” e a resposta de Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei minha Igreja, e as Portas do Inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Este texto levantou muitas controvérsias. Mas permanece certo que Jesus quis reconhecer e sancionar pela concessão de um poder espiritual eminente, o ato de Fé que Pedro acabava de formular. A epístola (2Co.11,21-12;9) - da qual ouvimos a maior parte no 19º domingo após o Pentecostes - enumera os títulos de Paulo, chamado diretamente ao apostolado por Cristo, foi considerado como igual ou mesmo superior em autoridade aos ministros do Evangelho já regularmente instituídos e reconhecidos: “Eles são ministros de Cristo?...Eu, mais do que eles...” Paulo fundamenta esta afirmação de um lado pelos sofrimentos que enfrentou, de outro pelas graças e revelações que lhe foram concedidas. Um estudo atento das relações dele com os Onze pode ensinar-nos muito sobre a questão da autoridade na Igreja. Paulo nunca levantou-se contra o elemento institucional representado pelo apostolado “histórico” dos Onze. Ele recebeu a imposição de mãos daqueles que já eram reconhecidos como possuindo o Espírito Santo. Ele submeteu à aprovação da Igreja reunida em Jerusalém seus próprios métodos de apostolado. Mas jamais admitiu nem que sua vocação extraordinária fosse inferior à vocação normal dos outros apóstolos, nem que seu conhecimento de Cristo, todo espiritual e recebido pela graça, fosse menor que o conhecimento que tinham de Jesus os seus primeiros discípulos; nem que ele devesse sacrificar suas próprias convicções face ao mais autorizado dos apóstolos: “quando Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe em face, porque ele estava errado”. Quanto mais a Igreja for dominada pelo Espírito Santo, mais ela ultrapassará toda tensão entre autoridade regularmente adquirida e a liberdade espiritual. Uma síntese deve estabelecer-se entre a tradição e a inspiração. Pedro e Paulo não podem ser separados; e é por isso que a Igreja os comemora no mesmo dia. Digamos com ela: “Rejubila, ó Apóstolo Pedro, tu, o grande amigo do Mestre, Cristo nosso Deus. Rejubila bem amado Paulo, pregador da fé e doutor do universo. Por isso, intercedei junto a Cristo nosso Deus pela salvação de nossas almas”.
A Igreja quer associar todos os outros apóstolos à homenagem que ela presta a Pedro e Paulo. Assim, no dia 30 de junho, ela dedica à comemoração coletiva dos Doze. Como diz o Kondakion do dia: “... comemorando hoje a sua memória, nós glorificamos Aquele que os glorificou”.
Boletim Interparoquial, Julho de 2002
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06:00
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terça-feira, 6 de julho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
A Água e a Luz do Mundo (Jo. 7:37 – 8:12)
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amados irmãos.
No Evangelho que acaba de ser proclamado, nosso Senhor afirma “Se alguém tem sede, venha a mim” e se tornará a fonte de “rios de água viva”. E depois diz “Eu sou a luz do mundo”. Ele escolheu esses dois elementos, a água e a luz, não por acaso, mas porque, na terra, sem esses dois elementos, a vida é impossível.
A nossa vida, a vida de todos os seres vivos deste planeta, depende da água e depende da luz. Mas quando Cristo usa a água e a luz, Ele não usa esses elementos apenas como símbolo ou como imagem. As palavras que Deus profere são expressões do plano de Deus (ou da Sua vontade, do amor ou o querer do Deus criador, neste contexto tudo tem o mesmo sentido).
Deu disse “Haja luz” e houve luz. Ele proferiu a palavra “Haja”. E com essa palavra a luz se fez. Essa palavra é o Logos de Deus, a Sabedoria de Deus, o Verbo de Deus. A imagem da vontade divina que organiza e possibilita a existência de toda a criação.
Mas, para que essa luz tenha se feito, algum “combustível”, alguma energia, alguma potência, alguma força teve que fazê-la acontecer. E tudo existe assim. Tudo tem uma força, ou, na linguagem usada pela Igreja, todo movimento tem um espírito ou é conforme um espírito. Da mesma forma que nenhum carro anda sem combustível, nós também precisamos de força, de energia, para poder agir. Tudo na criação é assim, pressupõe uma energia, uma força, uma potência que oferece condições para que algo aconteça. E isso é assim porque no sublime momento da Criação uma potência estava presente para que a palavra se realizasse. Essa força procede de Deus, é o Seu Espírito, a terceira Pessoa da SS. Trindade.
Se nós pararmos para lembrar, tudo foi criado pela Palavra. Tudo foi criado por Deus Pai, pelo Cristo e com Espírito Santo. Se nós formos parar para pensar na profundidade das realidades, podemos dizer que todo o alimento, assim como tudo que mata a sede, é, em última instância, a Palavra, pela qual tudo foi criado. O Verbo de Deus é a última instância de tudo o que existe em nossa vida e no mundo. Tudo deriva da palavra criadora que foi proferida e da ação (potência) do Santo Espírito. E a criação está aí, decaída ou não decaída, não importa está aí. Mantêm-se.
E Cristo nela permanece. E quando a plenitude dos tempos chegou, Ele apresentou-se como homem. E foi como homem que proferiu essas palavras que acabamos de ouvir. Ele, como homem, cumpriu os princípios que foram estabelecidos na natureza para todos os homens. Também teve que entregar Seu corpo a Terra e como Deus que é, ascender aos céus. Ele fez isso em Seu corpo glorioso, no corpo ressuscitado. Mas Ele prometeu que, quando viesse o Paráclito, Ele permaneceria conosco até os confins dos tempos. E Ele permanece. Hoje. Ele está aqui, misteriosamente presente, não mais em carne e osso. Ele está numa forma diferente, Ele está espiritualmente. Atualizado pelo Espírito Santo. O Seu corpo é que agora é oferecido na forma de pão e vinho misteriosamente transformados pelo Espírito.
Esse pão era um trigo que foi amassado, macerado, foi levado ao fogo, para só então ficar pronto para ser doado, entregue e consumido. A uva era uma fruta singela que foi esmagada e fermentada, elevada as últimas temperaturas da fermentação, para se transformar num vinho bom. São transformações naturais, ainda no plano do nosso entendimento, da nossa vivência. Depois, esse pão e esse vinho são, misteriosamente, transformados em carne e sangue de Cristo. Aí, já é um mistério que a nossa inteligência não alcança. Mas também não precisamos dela nesse estágio. Precisamos de outra coisa, precisamos da fé.
Todos nós que temos sede. Quando ela aperta, vamos imediatamente atrás de um copo d’água. Mesmo sem entender qual é o processo bioquímico que faz com que a sede cesse. Quando a luz elétrica pifa, a primeira coisa que fazemos é buscar uma vela, uma luz. Nós temos esse instinto de proteção de não ficar na escuridão. Nós procuramos a luz, independentemente de prévios questionamentos. Nós fazemos isso porque luz e água são necessárias ao nosso bem estar.
Mas aqueles homens, que estavam lá, caíram na armadilha da inteligência carnal. Eles questionaram que aquele homem não podia ser profeta. Eles estavam presos a regras, a princípios, a leis, a raciocínios humanos. Porque a Lei dizia que o Messias viria de Belém, da casa de Davi. Ora, aquele ali vinha da Galiléia. Mal eles sabiam que estavam arando em plena ignorância. Eles não sabiam que, na verdade, Cristo havia nascido em Belém. Tal como nós, que ignoramos como a água mata a sede.
Na hora que temos sede, nós não nos deixamos cair na armadilha do raciocínio. Nós não assumimos a postura de não beber a água antes de entender o processo pelo qual ela faz a sede cessar. A conclusão é que há um “que” de fé ao saciarmos a nossa sede. Por isso que Cristo diz “Se alguém tem sede, venha a mim” e dele “jorrarão rios de água viva”. A relação com Cristo é a mesma coisa. Tem que necessariamente ser um ato de fé. Não interessa saber se Ele é da Galileia ou se é de Belém. Ou se é profeta ou se não é. Não temos que ficar fazendo essas contabilidades e esses raciocínios. É para se investir na Fé.
Ou agente ama ou agente não ama. Ou agente quer ou agente não quer. Ou agente tem sede ou agente não tem sede. E nisso Cristo não interfere. Ele deixa que sintamos a sede que nos é natural. Mas de uma coisa se pode ter certeza, Ele mata a sede. Essa é a relação. Não há outra maneira de se relacionar com Deus que não seja assim. É preciso que nós, de certa forma, no cotidiano, nos processos da vida, sejamos um pouco pão e um pouco vinho. São os exercícios de fé.
É preciso se deixar ser macerado como o grão, amassado como a massa, para crescer, tomar forma, ser assado e virar alimento. É preciso que nos deixemos esmagar e fermentar como a uva para que viremos vinho. Isso por nossa própria decisão. Nessa dimensão da vida, nós temos o domínio necessário para tomar a decisão de buscar a ascese espiritual, a decisão de nos empenharmos no exercício das virtudes cristãs, para assim sermos imagem do pão. E ao mesmo tempo tomar a atitude, perante Deus, de se entregar, se derramar e aceitar a Fé que Ele nos convida a viver e, assim, ser imagem do vinho.
Isso é necessário. Porque se nós não formos um pouco pão e um pouco uva, não haverá comunhão alguma entre nós e a carne e o sangue que nós recebemos na Eucaristia. Para haver comunhão é preciso que haja sinergia (encontro de vontades, esse é o amor verdadeiro). Deus vem e nós vamos, para que haja um encontro. Se Deus vem e nós não vamos, o encontro não acontece. E a comunhão se torna uma mentira. No plano do humano, nós precisamos fazer esse exercício de ser pão e vinho. Mas, depois, temos que fazer o exercício da sede, que é a própria fé. É preciso a entrega. É preciso ir buscar aquilo de que se sente necessidade interior. Se não houver o exercício, nós não vamos descobrir essa sede e fome interior. Por isso são necessários os exercícios cristãos. Por isso nós nos reunimos em Igreja. Por isso rezamos. Por isso nos confessamos. Por isso jejuamos.
E, uma vez que essa necessidade seja encontrada, vamos buscar a saciedade em Cristo. Sem questionamento, sem querer entender, sem querer fazer como Lúcifer ou como Adão no Paraíso. Sem essa de querer entender primeiro para depois aceitar.
Não. Uma vez que a sede e a fome interior foram encontradas, nós estamos preparados para a comunhão. Então é só aceitar. Da mesma forma que o Criador enviou o Seu Espírito Santo sobre a Terra, através de Seu Filho, para que os Apóstolos obrassem em Igreja. O mesmo acontecerá com cada um de nós. Se nós fizermos o exercício espiritual de buscar a comunhão com Deus. De aceitar os preceitos da Igreja. De se entregar a uma vida cristã.
Depois, conscientes da própria fome e sede de Espírito, vamos saciá-la em Cristo e com Cristo. Nesse momento já não é mais a nossa vontade, já não é nossa a inteligência, já não é o nosso entendimento. É o Espírito Santo que estará nos conduzindo.
Se não fizermos isso, ficaremos como cegos na escuridão, como aqueles homens, presos ao questionamento sobre se é possível, se é verdade. “Será possível que um Profeta venha de Belém?”
Aqueles homens estavam na escuridão, discutindo se Jesus seria ou não um profeta. Enquanto, no final do Evangelho, Cristo diz: “Eu sou a Luz do mundo”.
Portanto, amados irmãos. Essa é a mensagem do Evangelho de hoje, nesse dia de Pentecostes, ela diz que nós devemos nos deixar iluminar pelo Espírito de Deus. Se nós não estivermos dispostos a nos entregar, pela fé, ao desconhecido, na esperança de que o Espírito nos conduza à Vida eterna, então, a vida nesse mundo será inútil. As nossas relações uns com os outros serão inúteis. E estarmos aqui presentes nessa Igreja também será uma inutilidade total.
É necessário que primeiro tenhamos essa pré-disposição interior (humana, psicológica, da inteligência) de querer e aceitar o que a Igreja nos chama a viver. É a partir desse momento que verdadeiramente começaremos a nos conhecer, conhecer a nossa sede interior. Aos poucos, vamos descobrir quem nós somos no plano de Deus. Então a Luz irá se fazendo em nossa vida. Descobriremos qual é a nossa imagem, qual é a nossa semelhança, qual é o nosso papel, ou seja, o que Deus quer de nós. E nós vamos saber isso através da nossa própria fome e sede. Ao tentar saciar a sede e a fome interior, estaremos sendo iluminados e conduzidos pelo Espírito até a Vida Eterna. Onde viveremos todos pela Graça de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Jesus entre os samaritanos (Jo. 4,5-42)
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Cura de enfermo na piscina de Betesda (Jo 5, 1-15)
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amados irmãos.
No Evangelho que acabou de ser proclamado, tem uma frase que nós precisamos aprender a entender para não cair na armadilha que a nossa cultura possibilita.
Quando o nosso Senhor Jesus Cristo volta a encontrar o paralítico curado, Ele diz: “não peques mais, para que não te aconteça coisa pior”. E o entendimento próprio de nossa cultura, fundado no pensamento racional, vai chegar a uma conclusão lógica: Se Ele diz que “não peques mais para que não te aconteça algo ainda pior” é lógico que o paralítico estava paralítico porque pecou. Engano! Isso é o que o moralismo diz. Isso é o que a mentalidade racionalista diz. Mas não é a realidade dos fatos.
Para entendermos isso, nós precisamos andar um pouco para trás e vermos o diálogo anterior de Nosso Senhor Jesus Cristo com esse doente. Jesus encontra esse homem na beira da piscina, onde se proporciona curas, e pergunta: “Queres ficar curado?”. E isso já cria em nós um certo questionamento para nossa racionalidade: Mas que cristo mais duro e injusto é esse que curou apenas aquele? Por que Ele curou só um e não curou todo mundo? Que predileção é essa? Se nós seguirmos esse raciocínio, nós vamos cair em armadilhas. Se podia fazer com que todos os cegos saíssem dali enxergando, todos os aleijados andando e todos os surdos ouvindo, por que Ele escolheu aquele, e só aquele, para ser curado. É claro que aí tem coisa.
Prestemos atenção no diálogo. Cristo pergunta: “Queres ficar curado?”. Mas o homem não responde: “Sim. É tudo o que eu quero” assim como quem pensa: “Oba! me dei bem!”. Não. A resposta do homem foi a de uma pessoa resignada. É a resposta de alguém que diz: “Senhor, não tenho quem me jogue na piscina quando a água é agitada” (A água é agitada pelo Anjo do Senhor, quando isso acontece o primeiro que entrar é curado).
Aquele homem apenas relata os fatos para aquele que o interpela. E faz isso de forma humilde, falando de seus limites humanos e pessoais. Ele diz que não tem ninguém que o jogue na piscina e “ao chegar, outro já desceu antes de mim”. Que estado interior é o desse aleijado que está ha 38 anos esperando por uma cura, mas que está sempre sendo deixado de lado. A resposta desse homem não é a de um revoltado. Não é de um inconformado. Não é de alguém que está egoisticamente em busca da sua solução. É alguém que está ali sabendo que existe uma salvação e está a espera dela, em busca dela. Nesse meio tempo, refletiu sobre si próprio, sobre seus próprios limites e resignadamente concluiu em simplesmente esperar, mesmo não tendo ninguém por ele. Esse homem há 38 anos devia estar fazendo esse exercício de contemplação interior e de oração. Por isso ele, e não outro, foi interpelado e curado por Cristo (que acabou deixando o homem numa situação difícil quando mandou-o carregar a própria cama em pleno sábado, quando todo trabalho é interditado para os judeus).
Um mendigo, quando vê alguém mais aprumado, naturalmente trata por Senhor. Aquele homem chamara Cristo de Senhor, mas ele não tinha a menor ideia de quem se tratava. Ele não tinha ideia de que estava falando com o Senhor do universo, o Filho de Deus vivo. E a prova disso é que, quando os judeus o interpelaram por estar carregando a cama num sábado, ele respondeu “Aquele que me curou disse: ‘Toma o teu leito e anda’”. Mas ele não soube dizer quem o havia curado. Ele não conhecia o Cristo, exatamente como nós que também não conhecemos. E aí tem mais uma armadilha mais séria que a da interpretação da frase.
Depois disso o que o homem faz? Vai para o templo (olha o estado interior dele). Lá ele encontra novamente com Cristo. E então questiona: Quem és Tu? Esse diálogo não aparece explícito no Evangelho, mas nós sabemos que ocorreu porque depois o Evangelho esclarece: “O homem saiu e informou aos judeus que fora Jesus quem o havia curado”.
Então houve esse diálogo dentro do templo e é nesse contexto que vem a tal frase: “Eis que estás curado; não peques mais, para que não te suceda algo ainda pior!”. O que pode haver de pior do que viver 38 anos na borda de uma piscina buscando uma cura sem conseguir? Algo pode ser pior do que isso? Sim, pode ser pior se algo acontecer com nossa alma, pois é nela que está a essência do nosso ser. É a nossa alma, o nosso ser interior, que não pode ficar aleijado, nem ficar perdido. E Cristo quando curou o corpo é obvio que já tinha perdoado os pecados. É claro que a alma daquele homem já havia sido reintegrada. Era uma alma em plenitude. Só faltava a ressurreição da carne, só faltava a cura do corpo e o Salvador veio e o curou. É nesse momento que Cristo diz: “não peques mais, para que não te suceda algo ainda pior”, que é exatamente perder a alma e a Vida do mundo que há de vir.
Porque para nós é tão difícil corresponder a esse “não peques mais”. Nós não estamos mais na borda da piscina, nós já mergulhamos na piscina. Nós fomos salvos, nós fomos recuperados, nós fomos curados. E mais do que lavados de nossas faltas pessoais, nós fomos ungidos (...) com o óleo e o selo do Espírito Santo. Então esse aviso fica para nós: “não volte a pecar”. Por que é tão difícil? Será que é porque nós não ficamos 38 anos aleijados com tempo para meditar sobre nós próprios para assim adquirirmos a humildade necessária? Será que ainda estamos pensando na vida a partir do nosso próprio umbigo, a partir do nosso próprio ego, e não conseguimos perceber o que se passa? Será que ainda não encontramos o lugar da cura ou ainda não acreditamos na cura? Será que ainda não buscamos a cura como aquele homem?
Primeiro, para que se tenha o espírito que aquele homem tinha, é preciso se considerar aleijado. Segundo, é preciso buscar a cura do “aleijão”. Depois, tem que encontrar o lugar da cura, se reconhecer aleijado e ficar em busca dessa cura para que ela venha. Pois esse tipo de cura não pode ser realizada por nós mesmos. Então temos que desistir dessa mania idólotra que temos de tentar resolver todos os nossos problemas por nossa própria conta. É necessária a vivência na fé. É necessário o apelo à fé. É necessária a confiança de que Cristo vem nos curar e nos salvar. Mas, para isso, precisamos buscar essa cura, querer essa cura e acreditar nessa cura. Isso é a vivência e o exercício na fé. Depois, é preciso guardar em nossa memória. E, quando digo memória, não estou falando de lembrança, porque lembrança é uma coisa e memória é outra. Memória significa ter sempre presente no entendimento o banho de cura que recebemos e viver coerentemente com o que aconteceu. Por isso que Cristo diz “vá e não voltes a pecar”.
É isso que está nessa frase. Quando nós detectamos que fizemos uma coisa errada, porque mentimos ou invejamos, o pecado já estava lá atrás, antes do sentimento, do pensamento ou do fato ter acontecido. A ‘coisa errada’ só acontece porque antes desviamos o olhar do Cristo, meu Criador e Salvador. Em vez de estarmos centrados na essência, na busca daquilo que sou enquanto homem... Não. Eu me distraio com as coisas mundanas, aceitei a máscara/personalidade que o mundo me impõe através de sua cultura e estou agindo conforme essa lógica. Nessa distração, personificação e aculturação já me separei de Deus. Estou agindo igualzinho a Adão no paraíso. O pecado já aconteceu mesmo antes da sua materialização. E quando nós conseguimos ter essa consciência e reverter essa atitude interior, o que foi feito não conta, já foi. É só um aleijão que nós vamos ficar esperando a hora de curá-lo. Mas antes é preciso que haja essa conversão, essa mudança da atitude interior. Em outras partes da sagrada Escritura, está dito: “onde está o teu olhar está o teu tesouro” e “os olhos são a candeia da alma”.
O quê que nós buscamos? Para o quê estamos olhando? O quê que nós queremos? Esse exercício de interiorização, que a Quaresma nos deu uma oportunidade impar, pelo jejum e pela oração, de olharmos para dentro de nós mesmos e sabermos quem nós somos, o que queremos e como conseguir o que queremos. É uma oportunidade ímpar que continua existindo dentro da Igreja e nós podemos e devemos continuar a investir nela. Se não, não adianta ser cristão de casca, ser cristão de verniz, ser cristão apenas de presença. O apóstolo Thiago disse: “A fé sem obras é morta”. Nós temos que agir e agir sobre nós próprios. É isso que significa “não peques mais, para que não te suceda coisa pior”. Se nós entendermos essas coisas por essa lógica, então nós entenderemos a justiça divina. Porque os outros continuaram lá tentando se lavar na água. Os outros cegos continuaram cegos, os aleijados continuaram aleijados, etc. Cristo não tem nada a haver com isso. Porque não é povo de Deus, não é gente de seu rebanho. Não são criaturas que buscam ser Seu discípulo. Não são ovelhas que se possam resgatar. Porque não são ovelhas. São lobos travestidos de ovelha.
Diante dessa frase do evangelho, nós devemos nos perguntar qual é a nossa dificuldade. Nós nos batizamos, depois reconhecemos o pecado, buscamos o confessor. E, daqui a pouco, estamos, de novo fazendo a mesma coisa. (Pelo menos vamos ser mais criativos, vamos inventar um pecado novo ao invés de estarmos sempre voltando para os mesmos e velhos).
É preciso se lembrar dessa frase: “para que não suceda algo ainda pior” e sim o melhor. Para que possamos além de curar os nossos aleijões sociais, os nossos aleijões psíquicos, os nossos aleijões espirituais, antes que se tornem aleijões na alma.
Para que com ela ressuscitemos na vida eterna junto com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Amém.
Grande Festa da Ascenção de Nosso Senhor Jesus Cristo - 13 maio/30 abril
É portanto, para nós também, um dia triunfal: por nossa união com o Cristo, na unidade de Seu Corpo místico, fazemos igualmente nossa entrada no céu, pelo menos em direito, esperando que o Senhor venha novamente para julgar o universo e chame seus eleitos, para introduzi-los em Seu Reino.
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10:52
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
Curso de Iconografia - Módulo I (Elementos de Grafismo Iconográfico e "Escritura" do Ícone)
O "Atelier Ortodoxo São Lucas" comunica a conclusão do Curso de Iconografia - Módulo I, realizado na Catedral da SS. Virgem Maria, em Copacabana-RJ.
Agradecemos, primeiramente a Deus e ao nosso Arcebispo, bem como a todos aqueles que estiveram envolvidos nestes harmoniosos dias de aprendizado.
Mediante o pedido dos fiéis da Paróquia de São João Precursor, o Atelier ministrará o mesmo Módulo I (Curso de Iconografia) no próximo final de semana, dos dias 07 a 09 de Maio, em Cordeiro -RJ. Contamos com as vossas orações pelo trabalho de nossos irmãos.
às
16:29
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Canto Ortodoxo para todos
Ficou decidido, ainda, que o ensaio mensal será dedicado principalmente à harmonização e à integração de todos os fiéis no canto litúrgico em sua forma uníssona. E uma segunda parte desse ensaio poderá ser dedicado ao canto polifônico.
O próximo encontro mensal será no dia 13 de Maio, após os ágapes da Sagrada Liturgia de Domingo.
às
16:23
"O Túmulo vazio"
O episódio de nosso Senhor em casa de Marta e Maria, sempre representou para a Tradição da Igreja as duas vertentes da vida espiritual, a ação e a contemplação. Se Maria aos pés do Mestre demonstra que existe uma certa prevalência - porque o objetivo é a contemplação Divina – Marta executa as tarefas necessárias para que a contemplação possa acontecer. Tanto a ação quanto a contemplação são necessárias.
Se o Apóstolo Paulo diz que não seremos julgados pelas obras e sim pela fé; São Thiago dirá que a fé sem obras é morta. A contemplação não é mágica caída dos céus, ela é trabalho. Por isso o ORE ET LABORE.
Mas como enveredar por duas vias tão distintas? Como não privilegiar uma em detrimento da outra? Na vida em comum, na Igreja, é possível unir essas duas vias. É possível uni-las pela Caridade. São Paulo, escrevendo aos Coríntios previne: “Ainda eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos...e ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que toda a fé, de maneira que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria” (Co. 13,1-2). E amar nada mais é do que serviço ao próximo. São Pedro, quando restabelecido no círculo apostólico ouve, e três vezes: “Apascenta as minhas ovelhas”. Em varias ocasiões nosso Senhor afirmará que no Seu Reino, grande é aquele que serve. Ele próprio disse de Si mesmo que não veio para ser servido e sim para servir.
Agora vejamos a situação descrita no Evangelho de hoje: ...após a paixão era o medo e a decepção. Tinham perdido o Mestre que tinha trazido grandes esperanças e que tanto amavam. Cada um dos discípulos além da dor e da frustração, ainda tinha medo que aquilo pudesse acontecer consigo também.
Por que então aquelas mulheres voltam ao sepulcro, que estava interditado e vigiado, para rever o corpo? De onde veio a ousadia e a coragem de burlar a vigilância dos romanos e dos judeus? Elas fizeram isso por caridade, por amor. Gastaram altas somas para adquirir os ungüentos e perfumes. Aproveitam a primeira oportunidade após o Sabat, era de madrugada! Aquelas mulheres penetram no jardim, preocupadas em como se removeria a pesada pedra que impedia de se penetrar no buraco escavado na pedra. E tudo isso para cuidar do objeto do seu amor!
Mas, em vez do corpo, elas irão encontrar a Ressurreição, o Mistério.
Vamos nos deter um pouco nesse Mistério. Em toda festa de Páscoa nós o revivemos no concreto, no real. Ficamos diante do túmulo vazio, dos lençóis abandonados, do Anjo que falou com elas. E depois, tal como Maria Madalena, que pensa que está falando com um jardineiro, estamos verdadeiramente aos pés do próprio Cristo ressuscitado. Mas, elas foram as primeiras. E, vejam bem, elas não eram seres angélicos. Eram mulheres normais, que estavam com medo, mas que também estavam se santificando sem saber. Elas saíram correndo, precisavam falar com alguém, não podiam ficar caladas.
Elas falaram com os Apóstolos e deram o recado: “O Mestre vos espera na Galiléia”. Foram as primeiras a viverem e a anunciar a Ressurreição do Cristo! E essa Ressurreição é eterna porque é para a Eternidade.
É isso que nós temos que ter em mente. Se nós verdadeiramente quisermos a nossa ressurreição com Cristo na Vida eterna, enquanto nós tivermos um corpo aqui na Terra, nós teremos que participar dela praticando a caridade. É preciso dedicar-se ao objeto do nosso amor. Praticar a caridade com o Cristo? Sim. Mas Cristo já não está mais presente com seu corpo aqui na terra. Mas Ele é presença no próximo. Porque Ele disse: amai ao próximo como a si mesmo. Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. E Ele nos amou ao ponto de dar a Sua vida por nós. É isso que se comemora. Se nós verdadeiramente quisermos ser santificados vamos pegar uma vassoura e varrer a casa do irmão. Vamos lavar a louça do irmão. Vamos cuidar do irmão. Vamos cuidar uns dos outros. Vamos servir uns aos outros. Se não, a nossa fé é morta. Se não, a nossa busca de contemplação será vã. Se não, as nossas orações serão inúteis. Mas, se nós não fizermos isso por amor ao próximo e enquanto mandamento de nosso Senhor, qualquer caridade que fizermos também será inútil.
Nós temos que fazer caridade com o próximo. Nós temos que fazer o exercício do amor com o próximo, tendo em vista a nossa relação com Cristo. Não é para modificar o mundo. Não é para mudar a situação do próximo. Nada disso. Deve ser sempre em prol do meu exercício espiritual, minha ascese espiritual com Cristo. Eu tenho que me relacionar com o próximo como se ele fosse um enviado de Cristo para a minha vida. Eu tenho que tratá-lo com essa veneração, com essa honra, com essa dedicação. Por isso, que o ícone que nos remete a imagem da Santíssima Trindade é mais corretamente chamado de “hospitalidade abraonica”. Pois Abraão viu três homens, recebeu três homens, cozinhou para três homens e serviu a mesa para três homens. Entretanto, eram anjos enviados do Senhor.
É assim que devemos receber todos os que batem à nossa porta. Como se fosse um enviado de Deus. Independente se tem dente ou se não tem. Se está cheirando mal, se está cheirando bem. Se é educado, se não é educado. Se é bandido, se é polícia. Não interessa. A nossa relação não é somente com o fato concreto, ali presente. Ela transcende ao fato. Nós não podemos ficar limitados ao material e circunstancial. Nós temos que ir além. Nós temos que dar o salto. Nós temos que ter olhos espirituais para olhar através dos fatos e ver, em qualquer que seja a situação, o outro como um enviado de Deus para minha vida.
Eu tenho que praticar no corpo do próximo, com o meu corpo, nessa Terra corporal, material. Eu tenho que fazer esse exercício de memória, de caridade. Se eu fizer esse exercício de caridade, estarei unindo as duas vertentes da vida espiritual: ação e contemplação.
Então, quando Deus nos conceder, nós veremos na vida eterna, como essas mulheres viram aqui nesse mundo, a Ressurreição de todos, junto com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.
às
16:02
























