“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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domingo, 14 de dezembro de 2008

"Sobre a criação do mundo"

No princípio Deus criou o céu e a terra (Gen. 1:1).

Irmãos, esta é a resposta de Deus através da boca do Profeta; a resposta à questão que todos nós somos sedentos em saber: "De onde vem este mundo?" Deus ouve a nossa pergunta, falada ou não; Ele ouve e lhe dá resposta. Tal como Ele dá chuva à terra seca, tal como dá saúde a uma pessoa doente, tal como dá pão e vestimenta ao corpo, assim também Ele dá uma resposta ao nosso espírito. Ele dá uma resposta à pergunta que lhe causava fome e sede, dor e nudez, até que ele (o espírito) seja alimentado e saciado, restaurado à saúde e vestido com a resposta verdadeira. Esta é a pergunta: "De onde, portanto, vem este mundo?" Eis a resposta: No princípio Deus criou o céu e a terra. Este mundo não é por si só, assim como nada neste mundo é por si só, e nem é este o mundo de um poder maligno, nem é este o mundo de muitos criadores, bons e maus; mas sim de um único e bondoso Deus. Esta resposta suscita alegria no coração de todo homem e o incita às boas obras. E daí sabemos, dentre outras coisas, que esta é a única resposta correta e verdadeira. Qualquer outra resposta contraditória a esta suscita pesar e temor em nós e nos incita às más obras, e por aí sabemos, dentre outras coisas, que tais respostas são falsas. Irmãos, o mundo é de Deus – rejubilemos e alegremo-nos! O mundo é de origem divina, e conseqüentemente o seu fim também será em Deus. O mundo provém de uma raiz boa, e conseqüentemente dará bons frutos. Ele procede da câmara de luz, e terminará na luz. Quando sabemos que a origem é boa, então sabemos que ele tende para o bem e que o fim será bom. Eis que nessas palavras acerca do princípio, a profecia acerca do fim já está oculta. Tal como foi o princípio, assim também será o fim. Naquele de Quem veio o princípio, Nele também está o fim. Guardemos portanto essa verdade salvadora, a fim de termos uma esperança radiante e sermos fortificados no amor para com Aquele que, por amor, nos criou.

Ó Senhor Deus, nosso Criador Todo-Poderoso, Deus único e único Criador, boa Fonte da bondade, nós Te adoramos e a Ti oramos: conduz-nos a um bom fim, pelo Teu Espírito Santo, através do Senhor Jesus Cristo.

A Ti sejam a glória e o louvor para sempre. Amém.

Santo Profeta Naum, um dos Doze Pequenos (+séc.VII aJ.C.) - 01/14 dez

Naum nasceu da Tribo de Simeão, em uma localidade chamada Elcosh, para além do Jordão. Viveu mais ou menos 700 anos antes de Cristo e profetizou a destruição de Nínive, cerca de 200 anos depois do Profeta Jonas. Por causa da pregação de Jonas, os ninivitas haviam se arrependido e Deus, com isso, preservou-os da destruição. Mas, com o decorrer do tempo, esqueceram-se da misericórdia de Deus e corromperam-se novamente. O Profeta Naum profetizou sua destruição e, uma vez que não houve arrependimento, Deus não os preservou. Toda a cidade foi destruída por terremotos, enchentes e pelo fogo, de modo que sua localização já não é mais conhecida. São Naum viveu quarenta e cinco anos e repousou no Senhor, deixando-nos um pequeno livro com estas profecias verdadeiras.

sábado, 13 de dezembro de 2008

"Sobre a ignorância e dureza de coração dos pagãos"

Os gentios andam na vaidade de sua mente, entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração (Efésios 4:17-18).


Que é a vaidade, meus irmãos? Tudo o que é visto fora de Deus, separado de Deus e feito sem o temor de Deus. Que é a vaidade da mente, meus irmãos? Viver e interpretar a vida não pela Lei de Deus mas antes pelos próprios pensamentos e desejos passageiros. Donde vem, meus irmãos, esse mal aos homens? Da dureza de coração e da ignorância interior. O que significa a dureza de coração, irmãos? Significa um coração vazio do amor de Deus e do temor de Deus e repleto de luxúria e de temor de tudo por amor ao corpo. Irmãos, que nasce da dureza de coração? A ignorância -- a completa ignorância das coisas divinas, dos caminhos divinos e das leis divinas; um coração completamente entorpecido para a vida espiritual e para o pensamento espiritual. Qual é a conseqüência final, irmãos, da dureza de coração e da ignorância da verdade divina? Um entendimento obscurecido e a alienação do Deus Vivo. O entendimento obscurecido acontece quando a mente do homem se torna tão obscurecida quanto o corpo, e a luz que há no homem se torna trevas. Oh, que trevas! Um entendimento obscurecido é uma mente obscurecida. Uma mente obscurecida não conhece o sentido de nada, ou nega o sentido de tudo. Numa tal condição, um homem fica alienado da vida de Deus, resseca e morre como uma parte do corpo amputada do corpo. Assim são os pagãos; assim são os ímpios; e assim são os de pouca fé ou os falsos cristãos. Mas até o lenho seco, quando regado com a água vivificante do Cristo, vêm à vida e floresce verdejante. Até o mundo pagão ressequido foi ressuscitado e trazido à vida pelo Cristo Senhor. Quanto mais aconteceria com pecadores cristãos arrependidos!

Olhemos para nós mesmos, meus irmãos. Façamos isso todo dia. Perguntemo-nos a cada dia se nos tornamos obscurecidos e alienados da vida de Deus por causa de nossa vaidade. Em breve haverá a morte, o fim e o juízo. O lenho seco será lançado ao fogo inextinguível.
Ó Senhor Jesus, nossa Mente e nossa Vida, ajuda-nos a pensar Contigo e a viver Contigo.

A Ti sejam a glória e o louvor para sempre. Amém

OrtoFoto

Rússia
autor: Марина Журбенко

Santo Apóstolo, André, de Betsaida, o Primeiro-Chamado (+62) - 30 nov/13 dez

André, filho de Jonas e irmão de Pedro, nasceu em Bestaida e era pescador de profissão. No começo era discípulo de São João Batista, mas quando São João apontou para o Senhor Jesus e disse: Eis aqui o Cordeiro de Deus (Jo 1:36), André deixou seu primeiro mestre e seguiu o Cristo. Depois André trouxe seu irmão Pedro ao Senhor. Após a descida do Espírito Santo, coube por quinhão a Santo André, o primeiro apóstolo do Cristo, pregar o Evangelho em Bizâncio e na Trácia, depois nas terras ao longo do Danúbio e na Rússia ao redor do Mar Negro e enfim no Epiro, na Grécia e no Peloponeso, onde padeceu. Em Bizâncio, designou Santo Estáquis como seu primeiro bispo; em Kiev, fincou uma Cruz num local elevado e profetizou um brilhante futuro cristão para o povo russo; pela Trácia, Epiro, Grécia e Peloponeso, converteu multidões de pessoas para a Fé e ordenou para eles bispos e padres. Na cidade de Patras, realizou muitos milagres em nome de Cristo e ganhou muitos para o Senhor. Entre os novos fiéis estavam o irmão e a mulher do Procônsul Egeates. Enfurecido com isso, Egeates submeteu Santo André à tortura e depois o crucificou. Enquanto o Apóstolo do Cristo estava ainda vivo na Cruz, dava instruções benéficas aos cristãos reunidos à sua volta. O povo queria retirá-lo da cruz, mas ele se recusou a permitir-lhes. Então o Apóstolo orou a Deus e uma luz extraordinária o envolveu. Essa iluminação brilhante durou meia hora e, quando desapareceu, o Apóstolo rendeu sua santa alma a Deus. Assim terminou sua trajetória terrena o Apóstolo Protocleto, o primeiro dos Doze Grandes Apóstolos a conhecer o Senhor e segui-lo. Santo André sofreu pelo seu Senhor no ano de 62. Suas relíquias foram levadas a Constantinopla; sua cabeça mais tarde foi levada a Roma, e uma mão foi levada a Moscou.

Hino de Louvor
Santo André, iluminado pelo Espírito,
E o Apóstolo Protocleto do Cristo,
Proclamava o Senhor dia após dia
E batizava o povo com a Cruz.
Como um jardineiro em seu próprio jardim,
Andava ele por cidades e aldeias,
E com talento enxertava árvores bravias,
Regando-as com a Água Viva,
Até chegar ao fim de seus dias
E ver a Cruz a aguardá-lo.
O jubiloso André disse à Cruz:
"Saudações, ó Cruz! Deus te santificou,
O Cristo te santificou com Seu corpo.
Ó Cruz, sê meu lugar de repouso.
Leva-me do pó da terra;
Ergue-me a Deus nas alturas
E deixa o Cristo tomar-me de ti;
O próprio Cristo que, por minha causa, foi crucificado em ti."
Discípulo do santo Batista
E apóstolo do Cristo Salvador,
Ó André, astro protocleto,Ajuda-nos pelas tuas orações.

Reflexão
São João Crisóstomo diz: "Tudo é dado aos apóstolos". Isto é, todos os dons, todos os poderes, toda a plenitude da graça que Deus dá aos fiéis. Vemos isto na vida do grande apóstolo, Santo André, o Protocleto: ele era apóstolo, evangelista, profeta, pastor e doutor (Efésios 4:11). Como evangelista, levou a boa nova do Evangelho aos quatro cantos da terra; como profeta, profetizou o batismo do povo russo e a grandeza de Kiev como cidade e centro cristão; como pastor, estabeleceu e organizou muitas igrejas; como doutor, ensinou incessantemente as pessoas, até e durante a sua própria crucificação, quando ensinou da cruz até o seu último suspiro. Em acréscimo a isso, ele foi um mártir, o que também é conforme o dom do Espírito Santo, e não é dado a todos. E assim vemos neste apóstolo, como nos outros, a plenitude da graça do Espírito de Deus. E toda grande obra que um seguidor do Cristo realiza deve ser atribuída àquela graça. São Frumêncio nos dá testemunho disso. Quando retornou de Alexandria para a Abissínia como um bispo consagrado, começou a operar os maiores milagres, convertendo assim grandes massas de gente à Fé. Então o rei perplexo lhe perguntou: "Tantos anos viveste entre nós e nunca te vimos realizar tais maravilhas. Como é que agora as fazes?" A isso o Beato Frumêncio respondeu ao imperador: "Isso não é obra minha, mas obra da graça do sacerdócio". O santo então explicou ao rei como ele tinha abandonado pais, casamento e o mundo inteiro pelo Cristo, e como ele havia -- pela imposição das mãos de Santo Atanásio -- recebido a graça do sacerdócio: a graça da taumaturgia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

OrtoFoto

Eslováquia
autor: Marianna Šmigová

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"O novo Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa será eleito no final de janeiro e entronizado em 1º de fevereiro"

A Rússia de despediu do Patriarca ortodoxo Alexis II na última terça-feira, dia 9 de dezembro, em um grande funeral, no qual os oradores o elogiaram por reanimar a fé cristã no país depois de décadas de ateísmo comunista. As ruas do centro de Moscou foram interrompidas e a televisão estatal cancelou a programação para transmitir o tributo a Alexis II, que morreu na sexta-feira, aos 79 anos. O presidente Dmitry Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin, ambos vestidos de preto, chegaram acompanhados de suas mulheres três horas depois que a cerimônia começou. Eles ficaram ao lado do caixão, segurando velas acesas. «O número de igrejas subiu para 30 mil e o número de monastérios subiu de 18 para 700 (sob o comando de Alexis)», disse o arcipreste Dimitry Smirnov, chefe do departamento do Patriarcado para a cooperação com o Exército e forças de reforço da lei. «Este é um número fantástico, tão fantástico que é difícil acreditar, mas é verdade».

O Concílio da Igreja Ortodoxa Russa será o encarregado de escolher durante sua sessão de 27 a 29 de janeiro, o sucessor de Alexei II, o patriarca russo desde 1990 que morreu na sexta-feira passada, segundo as agências russas.
A entronização acontecerá na Catedral Cristo Salvador, em Moscou, onde aconteceu o velório de Alexei II.

"O Santo Sínodo decidiu convocar o Concílio no qual deve ser eleita Sua Santidade, o patriarca", disse o metropolita Kirill, guarda do trono até a escolha do novo líder dos ortodoxos russos.

Antes de 15 de janeiro do próximo ano, as 156 dioceses devem nomear seus três representantes e o chefe da delegação que assistirá ao Concílio.

O Concílio também terá a presença de dois representantes das dioceses ortodoxas dos Estados Unidos, Canadá e Escandinávia.

O metropolita Kirill, que protagonizou recentemente uma viagem pela América Latina na qual consagrou vários templos e se reuniu com Fidel Castro em Havana, é considerado o principal candidato a substituir Alexei II.

Metropolita Kirill de Smolensk e Kaliningrado

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Sérvia
autor: Sreten Pantelic

"Sobre como os fiéis devem crescer"

Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo Naquele que é a cabeça, Cristo (Efésios 4:15).

Irmãos, eis aqui tudo o que é pedido de nós nessa jornada terrena: que nos mantenhamos fiéis à verdade e que vivamos em amor. A verdade é revelada pelo Cristo Senhor, e o exemplo de amor é dado pelo Cristo Senhor. Não podemos alcançar a verdade sem o Cristo Senhor, e nem podemos encontrar um exemplo de amor verdadeiro sem Ele. Ao ver nesse caminho o único e verdadeiro caminho para a luz e salvação na confusão de muitos caminhos falsos, o Apóstolo Paulo nos lembra de antemão: Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina (Efésios 4:14). Somente Deus pode revelar a verdade; somente Deus pode demonstrar o amor verdadeiro. Um homem pode saber mais do que outro homem, mas somente Deus pode revelar a verdade. Os pensamentos vêm ao homem como o vento, e as ilusões podem parecer verdade para ele. Iludido por seus próprios pensamentos, um homem ilude o outro; enganado por muitas ilusões, um homem engana o outro; mas a verdade está em Deus e é de Deus. Irmãos, Cristo é toda a nossa verdade e todo nosso amor. Quando pensamos em Cristo, pensamos na verdade; quando agimos de acordo com Cristo, agimos corretamente; quando amamos Cristo, amamos o próprio Amor. Por Cristo nós vivemos, por Cristo nós crescemos, por Cristo tornamo-nos imortais e somos glorificados. Ele é nossa Cabeça – não simplesmente a cabeça titular de um grupo, mas a verdadeira cabeça de um corpo vivo, do qual somos membros. Ao aderirmos à verdade e ao amor, nos tornamos dignos de habitar nesse Corpo de Cristo eternamente.

Ó Senhor Cristo, nossa verdade maravilhosa e nosso amor terno, entra em nós e recebe-nos em Ti.

A Ti sejam a glória e o louvor para sempre. Amém.

Santo Eremita e Mártir, Estêvão o Novo, de Constantinopla, (+767) - 28 nov/11 dez

Tal como em certa ocasião Ana, a mãe de Samuel, orou a Deus para que lhe desse um filho, assim também fez Ana, a mãe de Estêvão. Orando dessa forma na Igreja de Blaquernas perante o ícone da Santíssima Deípara, um leve sono lhe sobreveio e ela viu a Santíssima Virgem radiante como o sol, e ouviu uma voz vindo do ícone: "Mulher, vai em paz. Conforme a tua oração, tens um filho em teu ventre." Ana de fato concebeu e deu à luz um filho, o santo Estêvão. Aos dezesseis anos, Estêvão recebeu a tonsura monástica no Monte Auxêncio, perto de Constantinopla, das mãos do ancião João, que também lhe ensinou a sabedoria divina e o ascetismo. Quando João repousou no Senhor, Estêvão permaneceu na montanha, numa vida de rigoroso ascetismo, tomando sobre si trabalho após trabalho. Sua santidade atraiu para ele muitos discípulos. Enquanto o Imperador Constantino Coprônimo perseguia ícones com maior ferocidade do que o seu tolo pai Leão, o Isauriano, Estêvão mostrou-se um zeloso defensor da veneração dos santos ícones. O imperador demente aceitou várias calúnias obscenas contra Estêvão e pessoalmente tramou intrigas para quebrantar Estêvão e tirá-lo do seu caminho. Estêvão foi banido para a ilha de Proconeso e depois levado a Constantinopla, acorrentado e lançado à prisão, onde veio a encontrar 342 monges, trazidos de toda parte e aprisionados por venerarem os ícones. Ali, na prisão, eles cumpriam o Típico inteiro da Igreja, como num mosteiro. Então o pérfido imperador condenou Estêvão à morte. O santo previu sua morte com quarenta dias de antecedência e pediu perdão aos irmãos. Os serviçais do imperador arrastaram-no da prisão e, aos murros e empurrões, arrastaram-no pelas ruas de Constantinopla, convocando todos os que fossem leais ao imperador para apedrejarem esse "inimigo do imperador". Um dos hereges acertou o santo na cabeça com um pedaço de madeira e o santo rendeu a sua alma. Assim como Santo Estêvão Protomártir sofreu nas mãos dos judeus, também este Estêvão sofreu nas mãos dos hereges iconoclastas. Esse glorioso soldado do Cristo sofreu no ano de 767, aos cinqüenta e três anos de idade, e foi coroado com a glória imperecível.

Hino de Louvor
Do mesmo nome que o primeiro Estêvão,
Estêvão, o Novo, também deu sua vida em batalha.
O orgulhoso imperador herege, o poder maligno encarnado,
Estava armado até os dentes com armas terrenas.
A arma de Estêvão era um poder que não tinha origem física,
Uma arma espiritual: a verdade celeste.
O imperador tinha soldados, defensores da falsidade,
Enquanto Estêvão era posto à vontade pelo Deus invisível.
Sereno como o céu, Estêvão aguardou a tortura,
A morte e a vida eterna depois deste século.
Enquanto, em seu ódio, o imperador rugia
E assinava a sentença de morte e suplícios para o homem justo.
Estêvão não desanimou, mesmo espancado e pressionado,
Unido que estava aos céus em espírito e em oração.
O imperador, mais forte que o corpo do santo, esmagou seu corpo;
Porém o santo era mais forte em espírito e acabou vitorioso.
Ó Santo Estêvão, cavaleiro espiritual,
Ajuda-nos a evitar as redes do demônio,
E a venerar com honra os santos ícones,
Para que sempre possamos seguir seu exemplo admirável

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

OrtoFoto

Rússia
autor: Jozef Klucha

“A Busca de Deus na Tradição hesicasta”

Pode ser importante, para começar, tentar dar uma tradução, uma definição da palavra Hesíquia. É uma palavra de origem grega, que poderia ser traduzida como paz, silêncio, e talvez também como «tranqüilidade do coração». Vocês sabem como é difícil, partindo de uma palavra estrangeira, chegar a uma tradução exata. E é por esta razão que evoco vários significados. De qualquer forma, neste termo que significa paz, silêncio, repouso, temos que tomar o cuidado de não deformar o sentido da tradução. Por exemplo, se nos referimos à palavra repouso, não se trata de um repouso que evocaria o sono. Na tradição hesicasta não se trata, em absoluto, de dormitar, como veremos logo; muito pelo contrário, é uma tradição de ação e de vigilância.

Não quero lhes dar uma aula de história sobre as origens do hesicasmo. Apenas gostaria de recordar rapidamente como a hesíquia se desenvolveu. Como nasceu? Pois bem, eu diria que nós a recebemos como recebemos muitas outras coisas; é a atitude do Cristo no Novo Testamento. Temos aqui uma curta passagem do Evangelho que mostra a atitude do Cristo e que nos ajuda a compreender o que é a hesíquia.

Neste episódio, é a entrada de Jesus na sinagoga de Nazaré, seu país de origem, o que se evoca. Ele fala e é mal recebido, mal entendido. O final do relato nos conta: «Todos os que estavam na sinagoga, ao ouvirem estas coisas, ficaram cheios de ira. E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o despenhadeiro do monte em que a sua cidade estava edificada, para dali o precipitarem. Ele, porém, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.» (Luc 4, 28-30). A última frase deste texto é significativa. O hesicasta, aquele que vai tentar viver na Paz do coração, na quietude, encontra o seu modelo na atitude do Cristo. Ele que, agredido, contestado, violentado, pôde passar através desse gentio, sem dizer nada, sem demonstrar nenhuma agressividade, porque tinha, evidentemente à perfeição, um coração cheio de paz. O seu coração silencioso, banhado de hesíquia, era a resposta à agressividade do entorno.

A partir do estudo e da meditação sobre o modo de ser do Cristo durante a sua vida, os cristãos, e principalmente os primeiros monges, buscaram a aquisição desta hesíquia, desta paz silenciosa, desta tranqüilidade do coração. E se pode dizer que o ideal monástico está totalmente ligado à tradição hesicasta. Podemos ouvir dizer, entre os cristãos ortodoxos, que existem monges hesicastas e monges não hesicastas. Não gosto muito de fazer esta distinção O monge, que é fundamentalmente um buscador de Deus, como outros buscam ouro, deve obrigatoriamente passar por esta busca de paz, de silêncio, de abandono, que entranha outras virtudes, como veremos mais tarde. Portanto, não faço nenhuma diferença entre monges hesicastas e monges não hesicastas. Acho que todos são fundamentalmente hesicastas.

Os primeiros monges, os primeiros ermitãos – posto que, como provavelmente já sabem, o monasticismo nasceu no século IV, com homens e mulheres dos quais Santo Antônio é o mais célebre – foram ao deserto para buscar por Deus. E vemos imediatamente — observem com atenção — que há um objetivo na hesíquia. Esse objetivo é o descobrimento de Deus. Eu diria, inclusive, que é o desejo de encontrar Deus. O hesicasta é um homem de desejo, o seu coração está cheio de desejo de Deus, e, por causa disso, vai buscar um modo de liberar o seu coração das paixões, para encontrar seu Deus. Os primeiros monges partem para o deserto, e isto é significativo. O deserto, como sabemos, é o lugar de retiro, o lugar de silêncio. Opõe-se, de certa forma, à cidade turbulenta. Esta solidão, este isolamento são desejados e vão ser um dos terrenos do hesicasta, do monge, para encontrar Deus. Não podemos encontrar Deus na agitação. Deus mesmo, em certos textos do Antigo Testamento, diz isso. Explica ao profeta Elias: «Ao que Deus lhe disse: Vem cá fora, e põe-te no monte perante o Senhor: E eis que o Senhor passou; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto, porém o Senhor não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo, porém o Senhor não estava no fogo; e ainda depois do fogo uma voz mansa e delicada.» (cf. 1 Reis 19, 11-13). Deus não pode ser encontrado mais que no silêncio, e é preciso que o monge hesicasta parta para o deserto ou busque a solidão interior. Se falo do monge, é porque tudo isso veio da tradição monástica, mas é evidente que cada qual pode viver esta tradição hesicasta, se deseja encontrar Deus. Um leigo pode ser um hesicasta e alguns deles foram canonizados e reconhecidos santos pela Igreja.

No começo, o movimento monástico foi essencialmente eremítico e os primeiros monges eram principalmente solitários. Ocorreu, depois, uma evolução bastante rápida, privilegiando a vida em comunidade. Isto se concretizou, sobretudo, com São Basílio, no século IV, com São Teodoro, o Estudia, no século X, entre outros. Eles organizaram o monasticismo e propuseram regras de conduta relativas ao modo de viverem juntos esta busca de Deus. Isto gerou os mosteiros que conhecemos e que continuam esta tradição hoje em dia. Portanto, há duas correntes: a dos eremitas, que se retiram realmente, vivendo na solidão total ou quase total; e a dos que vivem em comunidade. As duas empreendem uma busca idêntica, as duas passam pela tradição da hesíquia, e não somente pelo método. Sou reticente em utilizar o termo “método”, porque devemos ter muito cuidado com isso. A hesíquia não pode ser um método, no sentido «técnico», no sentido que corremos o risco de compreender hoje em dia, e que é ambíguo.

O homem de hoje está como que perdido. Ele procura – porém, todos nós procuramos desde que estamos nesta terra – busca como se achar. Esquece-se, entretanto, de que é dirigindo-se Àquele que o fez, à Deus, ao seu Criador, que poderá encontrar-se. E vive esta busca com uma tremenda agitação, tanta agitação que até quer experimentar qualquer meio para chegar a se encontrar.

A hesíquia não é um método como há um método para aprender inglês, ou como existem todos esses métodos que conduzem necessariamente a um resultado caso sejam bem aplicados. Não, a hesíquia não é esse tipo de coisa. A hesíquia é uma atitude, e não é só porque o monge se retira para o deserto, foge do mundo, e busca o silêncio, que vai encontrar Deus. O método não é mágico. O método é um suporte, mas precisa, como já disse, de uma tensão de amor, de um desejo profundo do encontro com Deus. Então, o método é posto no seu lugar no momento que convém, e o monge procura viver dessa hesíquia. Vai viver no silêncio, num certo retiro, e vai orar. Vai utilizar o que chamamos a «oração do coração» ou também «oração de Jesus». Esta forma de oração está totalmente ligada à tradição hesicasta. Como é esta oração? Repetimos com um rosário, que sempre levamos à mão: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tem piedade de mim pecador». Essa é a fórmula mais completa. Pode ser simplificada, dizendo simplesmente: «Senhor» ou «Jesus».

Os gregos dizem «Kyie eleison», «Senhor, tem piedade». É a mesma fórmula, mais ou menos desenvolvida. Esta oração repetitiva que o monge utiliza não é um meio que, depois de duzentas ou trezentas repetições, possibilita que ele encontre Deus. É, simplesmente, um grito de amor, porque quando se ama, os amantes gostam de manifestar o seu amor. O amor, bem sabemos, passa pela palavra, mas pela palavra mais limpa. Quando um casal se encontra e decide casar-se, o efeito amoroso lhes dá uma possibilidade de encontro que passa pelas palavras. Cada um quer dizer sem cessar ao outro que o ama, mas quando voltamos a encontrar esse casal no final da sua vida, eles já não se dizem nada, eles apenas se olham um ao outro. O simples olhar é suficiente para manifestar esse amor, que se vive no silêncio, na paz, no coração totalmente despojado daquilo que o estorvava no começo, provavelmente por causa da paixão. O monge vive isso, ao seu modo, claro, transpondo esta experiência. É preciso que ele se cale; é preciso que vá até o silêncio e que repita este nome de amor: Jesus. «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim»: trata-se de uma declaração de amor. Reconhecemos nosso Deus, e Lhe dizemos: «Tem piedade de mim», não numa atitude miserável, na que estaríamos como que “pisoteados” pelo nosso Deus, não se trata disso de jeito nenhum. Simplesmente, reconhecemos, na humildade, que não sabemos amar. Não sabemos amar, mas queremos amar. Por causa disso, dizemos: «Tem piedade de nós. Ajuda-nos a amar». Já que se queremos ser amantes de Deus, pois bem, é preciso que Ele, que nos criou e que é Amor, mostre-nos este Amor, faça-nos partícipes Dele, acolha-nos Nele. Não há outra fonte. Então, o monge hesicasta vai se esforçar ao longo da sua vida para orar ao Cristo, o Cristo que disse: «Orar sem cessar» (Cf. Luc 18,1). Poderíamos responder-lhe: «Mas como, Senhor, se ora sem parar? O que significa este convite perpétuo?»

Não se trata, para o Cristo, de repetir-nos sem parar: «Fala comigo», já que Ele nos advertiu: «E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.» (Mt 6,7). Já sabemos, nós lhe falamos muito amiúde para lhe pedir, pedir e mais pedir. Em certos momentos, Ele deve colocar algodões nas orelhas dizendo: «Parem, parem de sempre pedir alguma coisa!». Acho que o nosso Deus, quando nos diz que oremos sem cessar, convida-nos a contemplá-lo, a desejá-lo. É isso a oração. Não é obrigatoriamente uma formulação exterior, mas é, principalmente, uma atitude do coração. É preciso desejar o Senhor. É neste desejo que se instala esta oração perpétua. A oração de Jesus, a oração do coração que utilizamos, ajuda-nos a isto, já que é muito limpa. Torna-se, é verdade, um hábito, uma chamada interior à qual é preciso responder.

Quase sempre, quando monges jovens vêm ao meu mosteiro, me dizem: «Bom, ensina-me a orar». Não sabem orar direito. Então, dou-lhes um rosário de oração. Além disso, eles o recebem litúrgicamente, com a tomada do hábito. Eu lhes digo: «Agora, começa esta oração!». Como são monges jovens, cheios de desejo, de energia e de brio, querem uma regra de oração forte, densa, a mais dura possível. Então, deixo que eles façam isso e lhes digo, “está bem”. E depois, quinze dias ou três semanas mais tarde, vêm e chamam à porta da minha cela dizendo: «Não consigo!». Não compreenderam que não é um método. Cansam-se, e isso pode ser inclusive perigoso, ficar repetindo esta invocação obstinadamente. Isto não tem nenhum interesse no plano espiritual e pode representar um perigo, inclusive no plano físico. Não compreendem que é preciso começar muito suavemente, mas tendo uma atitude de desejo de Deus.

De fato, talvez simplesmente seja suficiente dizer o nome de Jesus. Vocês sabem quanta importância, em nossas tradições comuns, tem o nome. Aí está, simplesmente tem que dizer este nome e deslizar para dentro, muito suavemente, sem o desejo de realizar uma proeza. É preciso que a nossa oração seja humilde se quer ser verdadeiramente hesicasta. A humildade é absolutamente indispensável. É muito evidente que nenhum de nós, neste mundo, é perfeitamente humilde. Somos aprendizes do amor e da humildade. E temos de aceitar isso, mas também é preciso lutar para adquirir esta humildade, que nos permite então o verdadeiro encontro com Deus. Buscar a humildade e pedir a humildade a Deus, são outras atitudes indispensáveis para os monges hesicastas.

Gostamos muito de um santo russo do século passado, São Serafim de Sarov, um homem extremamente humilde. Um dia, explicou a alguém que veio vê-lo como viver a hesíquia, como viver esta quietude em Deus. E lhe disse esta frase: «Se tu tens a Paz no teu coração, isto é, se és hesicasta, então salvarás milhares de almas ao teu redor». O que significa esta frase? É preciso compreendê-la. Se São Serafim diz: «Se tu tens a Paz no teu coração, salvarás milhares de almas», é porque ele passou por todo um caminho que é para nós um exemplo. Mostrou-nos através da sua vida que é preciso ser humilde, que temos que aceitar sermos pequenos, não sabermos, não conhecermos Deus, principalmente não o possuirmos, o que seria um erro fundamental. Temos que passar pela humildade e pelo abandono, e São Serafim passou por isso. O que é a humildade, senão o descobrimento objetivo do que nós somos: pobres, pequenos, desamparados, não amantes. Isto pode nos conduzir ao desespero, o qual não é o bom caminho. É preciso que esse descobrimento na humildade nos conduza à paz. E a única via possível é o abandono nas mãos de Deus. Se descubro que sou pobre, não devo me desesperar, nem me rebelar. Não é a melhor solução. Quando me desespero e me rebelo, a quem faço referência? A mim, mas não ao meu Criador! Mas se sei ver a minha fraqueza humildemente, se sei não me rebelar, se sei realmente voltar-me para Deus, na confiança, dizendo-lhe: «Sou pequeno e pobre, mas Tu, Tu podes tudo, toma-me na palma da Tua mão e guia-me!», então este abandono, que é a segunda etapa – humildade, depois abandono – vai me conduzir à quietude, à paz do coração, porque estarei finalmente nas mãos do Único que pode me dar esta paz, Aquele que é o Amor, o nosso Deus. Aqui está, então, pelo exemplo de São Serafim de Sarov, como a tradição hesicasta pode ser vivida.

Gostaria de terminar com um exemplo bíblico, evangélico, que vocês conhecem. Trata-se do episódio no qual Jesus está na casa dos seus amigos Lázaro, Marta e Maria, judeus que amavam o Senhor, a quem acolhiam freqüentemente. Neste episódio, não se fala muito de Lázaro, mas principalmente das irmãs dele, Marta e Maria. Uma delas, Marta, atarefada, prepara a comida, move-se, põe a mesa, enfim, podemos imaginar tudo o que acontece. A outra, Maria, está aos pés do Senhor, olha para Ele, simplesmente, e o escuta. Então, a que põe a mesa diz para Jesus: « Senhor, não se te dá que minha irmã me tenha deixado a servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada. » (Luc, 10, 38-42) Dito de outra forma, nesta passagem evangélica, nesta experiência de Marta e Maria, o Cristo ensina: «Atenção com a agitação inútil!». Não quer dizer que não fosse acolhedora esta agitação. Ele não censura a que prepara a comida, mas simplesmente diz: «Atenção, Maria escolheu a melhor parte!»

Todos nós temos uma Marta e uma Maria dentro de nós. Vamos tentar escolher, nós também, a melhor parte. Amém.

Ighúmeno Simeon
Mosteiro de Saint-Silouane (Saint-Mars-de-Locquenay)
Bokletim Interparoquial, Novembro 2003