sábado, 13 de dezembro de 2008
Santo Apóstolo, André, de Betsaida, o Primeiro-Chamado (+62) - 30 nov/13 dez
André, filho de Jonas e irmão de Pedro, nasceu em Bestaida e era pescador de profissão. No começo era discípulo de São João Batista, mas quando São João apontou para o Senhor Jesus e disse: Eis aqui o Cordeiro de Deus (Jo 1:36), André deixou seu primeiro mestre e seguiu o Cristo. Depois André trouxe seu irmão Pedro ao Senhor. Após a descida do Espírito Santo, coube por quinhão a Santo André, o primeiro apóstolo do Cristo, pregar o Evangelho em Bizâncio e na Trácia, depois nas terras ao longo do Danúbio e na Rússia ao redor do Mar Negro e enfim no Epiro, na Grécia e no Peloponeso, onde padeceu. Em Bizâncio, designou Santo Estáquis como seu primeiro bispo; em Kiev, fincou uma Cruz num local elevado e profetizou um brilhante futuro cristão para o povo russo; pela Trácia, Epiro, Grécia e Peloponeso, converteu multidões de pessoas para a Fé e ordenou para eles bispos e padres. Na cidade de Patras, realizou muitos milagres em nome de Cristo e ganhou muitos para o Senhor. Entre os novos fiéis estavam o irmão e a mulher do Procônsul Egeates. Enfurecido com isso, Egeates submeteu Santo André à tortura e depois o crucificou. Enquanto o Apóstolo do Cristo estava ainda vivo na Cruz, dava instruções benéficas aos cristãos reunidos à sua volta. O povo queria retirá-lo da cruz, mas ele se recusou a permitir-lhes. Então o Apóstolo orou a Deus e uma luz extraordinária o envolveu. Essa iluminação brilhante durou meia hora e, quando desapareceu, o Apóstolo rendeu sua santa alma a Deus. Assim terminou sua trajetória terrena o Apóstolo Protocleto, o primeiro dos Doze Grandes Apóstolos a conhecer o Senhor e segui-lo. Santo André sofreu pelo seu Senhor no ano de 62. Suas relíquias foram levadas a Constantinopla; sua cabeça mais tarde foi levada a Roma, e uma mão foi levada a Moscou.
E o Apóstolo Protocleto do Cristo,
Proclamava o Senhor dia após dia
E batizava o povo com a Cruz.
Como um jardineiro em seu próprio jardim,
Andava ele por cidades e aldeias,
E com talento enxertava árvores bravias,
Regando-as com a Água Viva,
Até chegar ao fim de seus dias
E ver a Cruz a aguardá-lo.
O jubiloso André disse à Cruz:
"Saudações, ó Cruz! Deus te santificou,
O Cristo te santificou com Seu corpo.
Ó Cruz, sê meu lugar de repouso.
Leva-me do pó da terra;
Ergue-me a Deus nas alturas
E deixa o Cristo tomar-me de ti;
O próprio Cristo que, por minha causa, foi crucificado em ti."
Discípulo do santo Batista
E apóstolo do Cristo Salvador,
Ó André, astro protocleto,Ajuda-nos pelas tuas orações.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
"O novo Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa será eleito no final de janeiro e entronizado em 1º de fevereiro"
A Rússia de despediu do Patriarca ortodoxo Alexis II na última terça-feira, dia 9 de dezembro, em um grande funeral, no qual os oradores o elogiaram por reanimar a fé cristã no país depois de décadas de ateísmo comunista. As ruas do centro de Moscou foram interrompidas e a televisão estatal cancelou a programação para transmitir o tributo a Alexis II, que morreu na sexta-feira, aos 79 anos. O presidente Dmitry Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin, ambos vestidos de preto, chegaram acompanhados de suas mulheres três horas depois que a cerimônia começou. Eles ficaram ao lado do caixão, segurando velas acesas. «O número de igrejas subiu para 30 mil e o número de monastérios subiu de 18 para 700 (sob o comando de Alexis)», disse o arcipreste Dimitry Smirnov, chefe do departamento do Patriarcado para a cooperação com o Exército e forças de reforço da lei. «Este é um número fantástico, tão fantástico que é difícil acreditar, mas é verdade».
O Concílio da Igreja Ortodoxa Russa será o encarregado de escolher durante sua sessão de 27 a 29 de janeiro, o sucessor de Alexei II, o patriarca russo desde 1990 que morreu na sexta-feira passada, segundo as agências russas.
A entronização acontecerá na Catedral Cristo Salvador, em Moscou, onde aconteceu o velório de Alexei II.
"O Santo Sínodo decidiu convocar o Concílio no qual deve ser eleita Sua Santidade, o patriarca", disse o metropolita Kirill, guarda do trono até a escolha do novo líder dos ortodoxos russos.
Antes de 15 de janeiro do próximo ano, as 156 dioceses devem nomear seus três representantes e o chefe da delegação que assistirá ao Concílio.
O Concílio também terá a presença de dois representantes das dioceses ortodoxas dos Estados Unidos, Canadá e Escandinávia.
O metropolita Kirill, que protagonizou recentemente uma viagem pela América Latina na qual consagrou vários templos e se reuniu com Fidel Castro em Havana, é considerado o principal candidato a substituir Alexei II.
às
15:01
Marcadores: Notícias Gerais
"Sobre como os fiéis devem crescer"
Irmãos, eis aqui tudo o que é pedido de nós nessa jornada terrena: que nos mantenhamos fiéis à verdade e que vivamos em amor. A verdade é revelada pelo Cristo Senhor, e o exemplo de amor é dado pelo Cristo Senhor. Não podemos alcançar a verdade sem o Cristo Senhor, e nem podemos encontrar um exemplo de amor verdadeiro sem Ele. Ao ver nesse caminho o único e verdadeiro caminho para a luz e salvação na confusão de muitos caminhos falsos, o Apóstolo Paulo nos lembra de antemão: Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina (Efésios 4:14). Somente Deus pode revelar a verdade; somente Deus pode demonstrar o amor verdadeiro. Um homem pode saber mais do que outro homem, mas somente Deus pode revelar a verdade. Os pensamentos vêm ao homem como o vento, e as ilusões podem parecer verdade para ele. Iludido por seus próprios pensamentos, um homem ilude o outro; enganado por muitas ilusões, um homem engana o outro; mas a verdade está em Deus e é de Deus. Irmãos, Cristo é toda a nossa verdade e todo nosso amor. Quando pensamos em Cristo, pensamos na verdade; quando agimos de acordo com Cristo, agimos corretamente; quando amamos Cristo, amamos o próprio Amor. Por Cristo nós vivemos, por Cristo nós crescemos, por Cristo tornamo-nos imortais e somos glorificados. Ele é nossa Cabeça – não simplesmente a cabeça titular de um grupo, mas a verdadeira cabeça de um corpo vivo, do qual somos membros. Ao aderirmos à verdade e ao amor, nos tornamos dignos de habitar nesse Corpo de Cristo eternamente.
Ó Senhor Cristo, nossa verdade maravilhosa e nosso amor terno, entra em nós e recebe-nos em Ti.
A Ti sejam a glória e o louvor para sempre. Amém.
às
11:00
Marcadores: Pastoral, Prólogo de Ohrid
Santo Eremita e Mártir, Estêvão o Novo, de Constantinopla, (+767) - 28 nov/11 dez
Tal como em certa ocasião Ana, a mãe de Samuel, orou a Deus para que lhe desse um filho, assim também fez Ana, a mãe de Estêvão. Orando dessa forma na Igreja de Blaquernas perante o ícone da Santíssima Deípara, um leve sono lhe sobreveio e ela viu a Santíssima Virgem radiante como o sol, e ouviu uma voz vindo do ícone: "Mulher, vai em paz. Conforme a tua oração, tens um filho em teu ventre." Ana de fato concebeu e deu à luz um filho, o santo Estêvão. Aos dezesseis anos, Estêvão recebeu a tonsura monástica no Monte Auxêncio, perto de Constantinopla, das mãos do ancião João, que também lhe ensinou a sabedoria divina e o ascetismo. Quando João repousou no Senhor, Estêvão permaneceu na montanha, numa vida de rigoroso ascetismo, tomando sobre si trabalho após trabalho. Sua santidade atraiu para ele muitos discípulos. Enquanto o Imperador Constantino Coprônimo perseguia ícones com maior ferocidade do que o seu tolo pai Leão, o Isauriano, Estêvão mostrou-se um zeloso defensor da veneração dos santos ícones. O imperador demente aceitou várias calúnias obscenas contra Estêvão e pessoalmente tramou intrigas para quebrantar Estêvão e tirá-lo do seu caminho. Estêvão foi banido para a ilha de Proconeso e depois levado a Constantinopla, acorrentado e lançado à prisão, onde veio a encontrar 342 monges, trazidos de toda parte e aprisionados por venerarem os ícones. Ali, na prisão, eles cumpriam o Típico inteiro da Igreja, como num mosteiro. Então o pérfido imperador condenou Estêvão à morte. O santo previu sua morte com quarenta dias de antecedência e pediu perdão aos irmãos. Os serviçais do imperador arrastaram-no da prisão e, aos murros e empurrões, arrastaram-no pelas ruas de Constantinopla, convocando todos os que fossem leais ao imperador para apedrejarem esse "inimigo do imperador". Um dos hereges acertou o santo na cabeça com um pedaço de madeira e o santo rendeu a sua alma. Assim como Santo Estêvão Protomártir sofreu nas mãos dos judeus, também este Estêvão sofreu nas mãos dos hereges iconoclastas. Esse glorioso soldado do Cristo sofreu no ano de 767, aos cinqüenta e três anos de idade, e foi coroado com a glória imperecível.
Estêvão, o Novo, também deu sua vida em batalha.
O orgulhoso imperador herege, o poder maligno encarnado,
Estava armado até os dentes com armas terrenas.
A arma de Estêvão era um poder que não tinha origem física,
Uma arma espiritual: a verdade celeste.
O imperador tinha soldados, defensores da falsidade,
Enquanto Estêvão era posto à vontade pelo Deus invisível.
Sereno como o céu, Estêvão aguardou a tortura,
A morte e a vida eterna depois deste século.
Enquanto, em seu ódio, o imperador rugia
E assinava a sentença de morte e suplícios para o homem justo.
Estêvão não desanimou, mesmo espancado e pressionado,
Unido que estava aos céus em espírito e em oração.
O imperador, mais forte que o corpo do santo, esmagou seu corpo;
Porém o santo era mais forte em espírito e acabou vitorioso.
Ó Santo Estêvão, cavaleiro espiritual,
Ajuda-nos a evitar as redes do demônio,
E a venerar com honra os santos ícones,
Para que sempre possamos seguir seu exemplo admirável
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
“A Busca de Deus na Tradição hesicasta”
Pode ser importante, para começar, tentar dar uma tradução, uma definição da palavra Hesíquia. É uma palavra de origem grega, que poderia ser traduzida como paz, silêncio, e talvez também como «tranqüilidade do coração». Vocês sabem como é difícil, partindo de uma palavra estrangeira, chegar a uma tradução exata. E é por esta razão que evoco vários significados. De qualquer forma, neste termo que significa paz, silêncio, repouso, temos que tomar o cuidado de não deformar o sentido da tradução. Por exemplo, se nos referimos à palavra repouso, não se trata de um repouso que evocaria o sono. Na tradição hesicasta não se trata, em absoluto, de dormitar, como veremos logo; muito pelo contrário, é uma tradição de ação e de vigilância.
Não quero lhes dar uma aula de história sobre as origens do hesicasmo. Apenas gostaria de recordar rapidamente como a hesíquia se desenvolveu. Como nasceu? Pois bem, eu diria que nós a recebemos como recebemos muitas outras coisas; é a atitude do Cristo no Novo Testamento. Temos aqui uma curta passagem do Evangelho que mostra a atitude do Cristo e que nos ajuda a compreender o que é a hesíquia.
Neste episódio, é a entrada de Jesus na sinagoga de Nazaré, seu país de origem, o que se evoca. Ele fala e é mal recebido, mal entendido. O final do relato nos conta: «Todos os que estavam na sinagoga, ao ouvirem estas coisas, ficaram cheios de ira. E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o despenhadeiro do monte em que a sua cidade estava edificada, para dali o precipitarem. Ele, porém, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.» (Luc 4, 28-30). A última frase deste texto é significativa. O hesicasta, aquele que vai tentar viver na Paz do coração, na quietude, encontra o seu modelo na atitude do Cristo. Ele que, agredido, contestado, violentado, pôde passar através desse gentio, sem dizer nada, sem demonstrar nenhuma agressividade, porque tinha, evidentemente à perfeição, um coração cheio de paz. O seu coração silencioso, banhado de hesíquia, era a resposta à agressividade do entorno.
A partir do estudo e da meditação sobre o modo de ser do Cristo durante a sua vida, os cristãos, e principalmente os primeiros monges, buscaram a aquisição desta hesíquia, desta paz silenciosa, desta tranqüilidade do coração. E se pode dizer que o ideal monástico está totalmente ligado à tradição hesicasta. Podemos ouvir dizer, entre os cristãos ortodoxos, que existem monges hesicastas e monges não hesicastas. Não gosto muito de fazer esta distinção O monge, que é fundamentalmente um buscador de Deus, como outros buscam ouro, deve obrigatoriamente passar por esta busca de paz, de silêncio, de abandono, que entranha outras virtudes, como veremos mais tarde. Portanto, não faço nenhuma diferença entre monges hesicastas e monges não hesicastas. Acho que todos são fundamentalmente hesicastas.
Os primeiros monges, os primeiros ermitãos – posto que, como provavelmente já sabem, o monasticismo nasceu no século IV, com homens e mulheres dos quais Santo Antônio é o mais célebre – foram ao deserto para buscar por Deus. E vemos imediatamente — observem com atenção — que há um objetivo na hesíquia. Esse objetivo é o descobrimento de Deus. Eu diria, inclusive, que é o desejo de encontrar Deus. O hesicasta é um homem de desejo, o seu coração está cheio de desejo de Deus, e, por causa disso, vai buscar um modo de liberar o seu coração das paixões, para encontrar seu Deus. Os primeiros monges partem para o deserto, e isto é significativo. O deserto, como sabemos, é o lugar de retiro, o lugar de silêncio. Opõe-se, de certa forma, à cidade turbulenta. Esta solidão, este isolamento são desejados e vão ser um dos terrenos do hesicasta, do monge, para encontrar Deus. Não podemos encontrar Deus na agitação. Deus mesmo, em certos textos do Antigo Testamento, diz isso. Explica ao profeta Elias: «Ao que Deus lhe disse: Vem cá fora, e põe-te no monte perante o Senhor: E eis que o Senhor passou; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto, porém o Senhor não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo, porém o Senhor não estava no fogo; e ainda depois do fogo uma voz mansa e delicada.» (cf. 1 Reis 19, 11-13). Deus não pode ser encontrado mais que no silêncio, e é preciso que o monge hesicasta parta para o deserto ou busque a solidão interior. Se falo do monge, é porque tudo isso veio da tradição monástica, mas é evidente que cada qual pode viver esta tradição hesicasta, se deseja encontrar Deus. Um leigo pode ser um hesicasta e alguns deles foram canonizados e reconhecidos santos pela Igreja.
No começo, o movimento monástico foi essencialmente eremítico e os primeiros monges eram principalmente solitários. Ocorreu, depois, uma evolução bastante rápida, privilegiando a vida em comunidade. Isto se concretizou, sobretudo, com São Basílio, no século IV, com São Teodoro, o Estudia, no século X, entre outros. Eles organizaram o monasticismo e propuseram regras de conduta relativas ao modo de viverem juntos esta busca de Deus. Isto gerou os mosteiros que conhecemos e que continuam esta tradição hoje em dia. Portanto, há duas correntes: a dos eremitas, que se retiram realmente, vivendo na solidão total ou quase total; e a dos que vivem em comunidade. As duas empreendem uma busca idêntica, as duas passam pela tradição da hesíquia, e não somente pelo método. Sou reticente em utilizar o termo “método”, porque devemos ter muito cuidado com isso. A hesíquia não pode ser um método, no sentido «técnico», no sentido que corremos o risco de compreender hoje em dia, e que é ambíguo.
O homem de hoje está como que perdido. Ele procura – porém, todos nós procuramos desde que estamos nesta terra – busca como se achar. Esquece-se, entretanto, de que é dirigindo-se Àquele que o fez, à Deus, ao seu Criador, que poderá encontrar-se. E vive esta busca com uma tremenda agitação, tanta agitação que até quer experimentar qualquer meio para chegar a se encontrar.
A hesíquia não é um método como há um método para aprender inglês, ou como existem todos esses métodos que conduzem necessariamente a um resultado caso sejam bem aplicados. Não, a hesíquia não é esse tipo de coisa. A hesíquia é uma atitude, e não é só porque o monge se retira para o deserto, foge do mundo, e busca o silêncio, que vai encontrar Deus. O método não é mágico. O método é um suporte, mas precisa, como já disse, de uma tensão de amor, de um desejo profundo do encontro com Deus. Então, o método é posto no seu lugar no momento que convém, e o monge procura viver dessa hesíquia. Vai viver no silêncio, num certo retiro, e vai orar. Vai utilizar o que chamamos a «oração do coração» ou também «oração de Jesus». Esta forma de oração está totalmente ligada à tradição hesicasta. Como é esta oração? Repetimos com um rosário, que sempre levamos à mão: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tem piedade de mim pecador». Essa é a fórmula mais completa. Pode ser simplificada, dizendo simplesmente: «Senhor» ou «Jesus».
Os gregos dizem «Kyie eleison», «Senhor, tem piedade». É a mesma fórmula, mais ou menos desenvolvida. Esta oração repetitiva que o monge utiliza não é um meio que, depois de duzentas ou trezentas repetições, possibilita que ele encontre Deus. É, simplesmente, um grito de amor, porque quando se ama, os amantes gostam de manifestar o seu amor. O amor, bem sabemos, passa pela palavra, mas pela palavra mais limpa. Quando um casal se encontra e decide casar-se, o efeito amoroso lhes dá uma possibilidade de encontro que passa pelas palavras. Cada um quer dizer sem cessar ao outro que o ama, mas quando voltamos a encontrar esse casal no final da sua vida, eles já não se dizem nada, eles apenas se olham um ao outro. O simples olhar é suficiente para manifestar esse amor, que se vive no silêncio, na paz, no coração totalmente despojado daquilo que o estorvava no começo, provavelmente por causa da paixão. O monge vive isso, ao seu modo, claro, transpondo esta experiência. É preciso que ele se cale; é preciso que vá até o silêncio e que repita este nome de amor: Jesus. «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim»: trata-se de uma declaração de amor. Reconhecemos nosso Deus, e Lhe dizemos: «Tem piedade de mim», não numa atitude miserável, na que estaríamos como que “pisoteados” pelo nosso Deus, não se trata disso de jeito nenhum. Simplesmente, reconhecemos, na humildade, que não sabemos amar. Não sabemos amar, mas queremos amar. Por causa disso, dizemos: «Tem piedade de nós. Ajuda-nos a amar». Já que se queremos ser amantes de Deus, pois bem, é preciso que Ele, que nos criou e que é Amor, mostre-nos este Amor, faça-nos partícipes Dele, acolha-nos Nele. Não há outra fonte. Então, o monge hesicasta vai se esforçar ao longo da sua vida para orar ao Cristo, o Cristo que disse: «Orar sem cessar» (Cf. Luc 18,1). Poderíamos responder-lhe: «Mas como, Senhor, se ora sem parar? O que significa este convite perpétuo?»
Não se trata, para o Cristo, de repetir-nos sem parar: «Fala comigo», já que Ele nos advertiu: «E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.» (Mt 6,7). Já sabemos, nós lhe falamos muito amiúde para lhe pedir, pedir e mais pedir. Em certos momentos, Ele deve colocar algodões nas orelhas dizendo: «Parem, parem de sempre pedir alguma coisa!». Acho que o nosso Deus, quando nos diz que oremos sem cessar, convida-nos a contemplá-lo, a desejá-lo. É isso a oração. Não é obrigatoriamente uma formulação exterior, mas é, principalmente, uma atitude do coração. É preciso desejar o Senhor. É neste desejo que se instala esta oração perpétua. A oração de Jesus, a oração do coração que utilizamos, ajuda-nos a isto, já que é muito limpa. Torna-se, é verdade, um hábito, uma chamada interior à qual é preciso responder.
Quase sempre, quando monges jovens vêm ao meu mosteiro, me dizem: «Bom, ensina-me a orar». Não sabem orar direito. Então, dou-lhes um rosário de oração. Além disso, eles o recebem litúrgicamente, com a tomada do hábito. Eu lhes digo: «Agora, começa esta oração!». Como são monges jovens, cheios de desejo, de energia e de brio, querem uma regra de oração forte, densa, a mais dura possível. Então, deixo que eles façam isso e lhes digo, “está bem”. E depois, quinze dias ou três semanas mais tarde, vêm e chamam à porta da minha cela dizendo: «Não consigo!». Não compreenderam que não é um método. Cansam-se, e isso pode ser inclusive perigoso, ficar repetindo esta invocação obstinadamente. Isto não tem nenhum interesse no plano espiritual e pode representar um perigo, inclusive no plano físico. Não compreendem que é preciso começar muito suavemente, mas tendo uma atitude de desejo de Deus.
De fato, talvez simplesmente seja suficiente dizer o nome de Jesus. Vocês sabem quanta importância, em nossas tradições comuns, tem o nome. Aí está, simplesmente tem que dizer este nome e deslizar para dentro, muito suavemente, sem o desejo de realizar uma proeza. É preciso que a nossa oração seja humilde se quer ser verdadeiramente hesicasta. A humildade é absolutamente indispensável. É muito evidente que nenhum de nós, neste mundo, é perfeitamente humilde. Somos aprendizes do amor e da humildade. E temos de aceitar isso, mas também é preciso lutar para adquirir esta humildade, que nos permite então o verdadeiro encontro com Deus. Buscar a humildade e pedir a humildade a Deus, são outras atitudes indispensáveis para os monges hesicastas.
Gostamos muito de um santo russo do século passado, São Serafim de Sarov, um homem extremamente humilde. Um dia, explicou a alguém que veio vê-lo como viver a hesíquia, como viver esta quietude em Deus. E lhe disse esta frase: «Se tu tens a Paz no teu coração, isto é, se és hesicasta, então salvarás milhares de almas ao teu redor». O que significa esta frase? É preciso compreendê-la. Se São Serafim diz: «Se tu tens a Paz no teu coração, salvarás milhares de almas», é porque ele passou por todo um caminho que é para nós um exemplo. Mostrou-nos através da sua vida que é preciso ser humilde, que temos que aceitar sermos pequenos, não sabermos, não conhecermos Deus, principalmente não o possuirmos, o que seria um erro fundamental. Temos que passar pela humildade e pelo abandono, e São Serafim passou por isso. O que é a humildade, senão o descobrimento objetivo do que nós somos: pobres, pequenos, desamparados, não amantes. Isto pode nos conduzir ao desespero, o qual não é o bom caminho. É preciso que esse descobrimento na humildade nos conduza à paz. E a única via possível é o abandono nas mãos de Deus. Se descubro que sou pobre, não devo me desesperar, nem me rebelar. Não é a melhor solução. Quando me desespero e me rebelo, a quem faço referência? A mim, mas não ao meu Criador! Mas se sei ver a minha fraqueza humildemente, se sei não me rebelar, se sei realmente voltar-me para Deus, na confiança, dizendo-lhe: «Sou pequeno e pobre, mas Tu, Tu podes tudo, toma-me na palma da Tua mão e guia-me!», então este abandono, que é a segunda etapa – humildade, depois abandono – vai me conduzir à quietude, à paz do coração, porque estarei finalmente nas mãos do Único que pode me dar esta paz, Aquele que é o Amor, o nosso Deus. Aqui está, então, pelo exemplo de São Serafim de Sarov, como a tradição hesicasta pode ser vivida.
Gostaria de terminar com um exemplo bíblico, evangélico, que vocês conhecem. Trata-se do episódio no qual Jesus está na casa dos seus amigos Lázaro, Marta e Maria, judeus que amavam o Senhor, a quem acolhiam freqüentemente. Neste episódio, não se fala muito de Lázaro, mas principalmente das irmãs dele, Marta e Maria. Uma delas, Marta, atarefada, prepara a comida, move-se, põe a mesa, enfim, podemos imaginar tudo o que acontece. A outra, Maria, está aos pés do Senhor, olha para Ele, simplesmente, e o escuta. Então, a que põe a mesa diz para Jesus: « Senhor, não se te dá que minha irmã me tenha deixado a servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada. » (Luc, 10, 38-42) Dito de outra forma, nesta passagem evangélica, nesta experiência de Marta e Maria, o Cristo ensina: «Atenção com a agitação inútil!». Não quer dizer que não fosse acolhedora esta agitação. Ele não censura a que prepara a comida, mas simplesmente diz: «Atenção, Maria escolheu a melhor parte!»
Todos nós temos uma Marta e uma Maria dentro de nós. Vamos tentar escolher, nós também, a melhor parte. Amém.
Mosteiro de Saint-Silouane (Saint-Mars-de-Locquenay)
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
“O Arrependimento”
O arrependimento é o único sacrifício que Deus aceita do espírito decaído do homem. Os outros sentimentos, e até mesmo a ascese mais exigente que podemos sem exagero chamar de “holocausto”, Deus os rejeita por estarem manchados pelo pecado e precisam, antes de serem oferecidos em sacrifício, ser purificados pelo arrependimento. Este é o único sacrifício do homem decaído que o Senhor não despreza nem rechaça (cf. Salmo 51, 19). Mas quando, graças ao arrependimento, Sião é renovada e as paredes da nossa Jerusalém espiritual são reerguidas, então podemos com confiança oferecer no altar do nosso coração sacrifícios de justiça: nossos sentimentos renovados pela graça de Deus. Então o homem se torna capaz de oferecer-se a si mesmo em holocausto e em total oblação (cf. Salmo 51, 19-21). O santo mártir Sadoc disse: “O homem espiritual aguarda a morte pelo martírio com alegria, desejo e grande amor, a não a teme, porque está pronto; quanto ao homem carnal, terrível é para ele a hora da morte”.
O arrependimento nos é pregado pelo Evangelho. Conforme palavras do Evangelho, a conseqüência direta do nosso arrependimento há de ser a nossa entrada no Reino dos Céus. Eis porque todo o tempo compreendido entre a nossa adoção por Cristo, e a nossa entrada na eternidade, ou seja, toda a duração da nossa vida na terra, deve constituir o campo do nosso arrependimento. E evidente que aqueles que se arrependeram entram definitivamente na posse do Reino dos Céus. Eis porque todo o tempo compreendido entre a nossa adoção por Cristo e a nossa entrada na eternidade, ou seja, toda a duração da nossa vida na terra, deve constituir o campo do nosso arrependimento. É evidente que aqueles que se arrependem entram definitivamente na pose do Reino dos Céus. A primeira palavra, o primeiro mandamento dado pelo Deus feito Homem à humanidade decaída que Ele veio salvar, dizia respeito ao arrependimento: A partir desse momento, começou Jesus a pregar e a dizer: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mat. 4, 17). Após Sua Ressurreição e antes da Sua Ascensão, o Senhor abriu o espírito dos discípulos e eles compreenderam as Escrituras. Então, disse-lhes que de acordo com elas, fora necessário que o Cristo sofresse e que ressuscitasse ao terceiro dia, e que, em Seu Nome, fosse proclamado o arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém (Lc. 24, 45-47).
Para alguém crer em Cristo e tornar-se cristão, é preciso ter a consciência do seu estado de pecador e arrepender-se; para permanecer cristão, é preciso enxergar seus pecados, ter consciência deles, confessá-los e arrepender-se deles. Quando os judeus que demonstravam boa disposição para com a fé perguntaram ao santo apóstolo Pedro o que deviam fazer, ele lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados (Atos 2, 28). Igualmente, o apóstolo Paulo conjurava por toda parte ao arrependimento diante de Deus e à crença em Jesus, nosso Senhor (Atos 20, 21).
Não é possível unir-se a Cristo permanecendo nos pecados e gostando deles: Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis (Jo. 3, 20). Que afinidade pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Beliar? (II Co. 6, 14-15). Para aproximar-se de Cristo e unir-se a Ele pelo Santo Batismo, é preciso, antes de tudo, arrepender-se. Mesmo depois do Santo Batismo, guardamos a liberdade de ou permanecermos unidos ao Senhor ou rompermos esta união ligando-nos ao pecado. Mais ainda, o Santo Batismo não suprimiu na nossa natureza decaída a sua tendência a misturar o bem e o mal, para que a nossa liberdade seja constantemente posta à prova e para que, ao escolhermos o bem divino ou preferimos o mal mesmo ao nosso próprio bem corrompido, ajamos livremente, o que provamos pela nossa submissão a todas as aflições encontradas pelo caminho da Cruz.
O Santo Batismo apaga em nós o pecado original, assim como os pecados cometidos antes do batismo; por ele, o pecado perde o domínio poderoso que tinha sobre nós antes do nosso renascimento, a graça do Espírito Santo, pela qual somos unidos a Deus em Cristo, desce sobre nós e recebemos a força de vencer e esmagar o pecado. Por não estarmos liberados da necessidade de lutar contra o pecado, não podemos, durante toda a nossa vida na terra, ficar totalmente isentos de quedas: Pois o justo cai sete vezes (isto é, várias vezes) e se levanta (Prov. 24, 16) pelo arrependimento, diz a Santa Escritura. Ele cai por causa da sua fraqueza e das suas limitações, pois ainda não discerne o pecado que surge sutil e imperceptivelmente da nossa natureza decaída, ou que nos é trazido e sugerido com malícia e dissimulação pelos espíritos decaídos; o arrependimento torna-se o quinhão inalienável do justo, sua arma constante, seu inestimável tesouro. É pelo arrependimento que o justo protege sua união com Cristo. É por ele que o justo se cura das feridas causadas pelo pecado.
São João, o Teólogo, adverte-nos: Se dissermos: “Não temos pecado”, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, Ele, que é fiel e justo, perdoará de toda a injustiça. Se dissermos: “Não pecamos”, fazemos d´Ele um mentiroso, e a Sua palavra não está em nós (1 Jo. 1, 8-10). O Teólogo diz isso dos pecados involuntários devidos à nossa fraqueza e às nossas limitações, dos pecados pouco importantes aos quais nem mesmo os santos podem escapar. Mas a respeito de uma vida voluntariamente pecadora, ele diz: Todo aquele que permanece n´Ele (no Senhor Jesus Cristo) não peca. Todo aquele que peca não O viu nem O conheceu. Filhinhos, que ninguém vos desencaminhe. O que pratica a justiça é justo, assim como Ele é justo. Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. Para isto é que o Filho de Deus Se manifestou: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado (isto é, não leva uma vida de pecado, não incorre nos pecados mortais e nos pecados intencionais), porque Sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus. Nisto se revelam os filhos de Deus e os filhos do diabo (1 Jo. 3, 6-10).
Os filhos de Deus levam uma vida conforme os mandamentos do Evangelho e, em suas inclinações para o pecado, fazem penitência. Se acontecer de um servo de Deus incorrer, por algum infeliz acidente, num pecado mortal, ele se cura da ferida pelo arrependimento e pela confissão, e nem por isso deixa de ser filho de Deus. Aqueles que levam voluntariamente uma vida de pecado, por apreciá-la, que incorrem de bom grado no primeiro pecado que se lhes apresenta, que encontram os gozos da vida em todas as formas da luxúria e em qualquer transgressão dos mandamentos do Evangelho, esses são os filhos do diabo, ainda que se digam cristãos, ainda que assistam a alguns ofícios ou cerimônias religiosas, ainda que se aproximem dos Sacramentos, por eles profanados pela sua própria condenação.
Este é o lugar que ocupa o arrependimento na vida de todo o cristão.
















