“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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segunda-feira, 21 de julho de 2008

OrtoFoto

Bulgária
autor: Atanas Dimitrov

"A Necessidade da Igreja"

A floresta não pode produzir Newtons ou Einsteins, Apóstolos Paulos ou reverendos Serafins. Entretanto, mesmo dotado, ou até mesmo um gênio, um homem não consegue compreender tudo sobre si próprio, e precisa de família e sociedade para o seu desenvolvimento. Até a pessoa mais talentosa, não se torna um excelente violinista se se der para ela um violino e partituras de música. Alguém tem que ensinar e passar experiência para ela. O progresso visível da humanidade, o avanço da civilização tem lugar pela experiência anteriormente ganha. As gerações precedentes servem como base para o crescimento intelectual das gerações que se seguem. Quando um estado ou império entra em colapso como resultado de algum desastre, a cultura colapsa com ele. Esforços de muitas gerações serão necessários posteriormente para o restauro do conhecimento e experiência.

Para o desenvolvimento de habilidades mentais e progresso geral harmonioso um homem necessita de professores, escolas e uma estrutura muito complexa da sociedade humana. O homem cresce, melhora e se torna útil como um membro da comunidade. Sem ela, o homem se torna um selvagem, não adaptado à vida. Em resumo, o homem foi criado de modo tal que não pode viver fora da comunidade.

Idealmente, a família e a comunidade tem que formar não só as habilidades mentais e práticas de um homem, mas construir seu ser espiritual também. Foi assim que Deus projetou. O mundo angélico celestial é a comunidade ideal de bondade e verdade, fundado nos princípios do amor divino, onde seres inocentes vivem não para si próprios, mas para cada um dos outros, com um alegre louvor do Autor.

O pecado se introduziu na ordem inteira da vida humana, perverteu a natureza espiritual do homem, e a vida social como um todo. A comunidade, que por projeto de Deus, teria que facilitar o correto desenvolvimento espiritual dos humanos, na prática perdeu a capacidade para isto. Sem os pontos de conferência espiritual, a comunidade dirigiu todos os esforços no desenvolvimento de avanços exteriores, coisas materiais, resultando isto na visão unilateral de seus membros, e às vezes resultando em frieza, crueldade, brutalidade e outras coisas que nós vemos diariamente no mundo que nos cerca.

Por isso, para a salvação de nossas almas, e para a elevação e desenvolvimento espiritual do homem, Deus estabeleceu outra comunidade: a Igreja. "mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes Daquele Que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz; vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus" (I Pe. 2:9).

A Igreja é uma comunidade peculiar, estabelecida e santificada por Deus. A Igreja é diferente de qualquer outra sociedade ou estado humano, pis ela é o Reino de Deus na Terra, e seus objetivos são a renovação moral dos humanos e a condução para a salvação. Cristo deu para a Igreja tudo que era necessário para a realização deste propósito, que pode ser posto em duas palavras: graça e verdade. Estes são os tesouros espirituais dela Igreja os quais ela é chamada a guardar, e enriquecer os fiéis com eles. Mas nem mesmo a maior jóia não será de nenhuma valia para o homem se ele não fizer uso dela. Por esta razão é que é necessário para todos se enriquecerem com os tesouros espirituais da Igreja: apreender com a verdade que ela guarda, receber a santificação através dos dons de graça dela, absorver a experiência do povo justo dela.
Um homem tem um corpo e uma alma, e similarmente a Igreja tem uma parte visível e uma parte invisível. Sua parte invisível é a ação da graça de Cristo, a melhoria espiritual dos fiéis, e sua porção celeste — a Igreja Triunfante. A Igreja é uma comunidade celeste-terrestre, encabeçada por Cristo. Eis porque muito da vida eclesiástica não pode ser assunto de estudo. A parte visível da Igreja é seu ensinamento, sua hierarquia eclesiástica, concílios ecumênicos e locais, templos, ofícios divinos, festas e tradições, leis canônicas e assembléias religiosas.
Muitos Cristãos contemporâneos não compreendem para que existe a Igreja. Eles acham que é suficiente ler os Evangelhos e creditar em Cristo. Mas, primeiro, o Evangelho não caiu do céu. Alguém teve que coletar os livros escritos pelos apóstolos conferi-los in totum, e incorporá-los no corpo das Escrituras. Alguém teve que tirar das Escrituras qualquer escrito falso ou herético. A Igreja fez isto nos três primeiros séculos. Segundo, não se pode apreender somente por livros. Mesmo na ultra precisa e lógica ciência da matemática, um estudante precisa de alguém que lhe explique o que não está claro para ele, confira seus acertos, e lhe de orientação para futuro aprendizado. Do mesmo modo, a educação espiritual do homem requer guias espirituais para explicar o que não está claro, e preveni-lo contra falsos professores e falsos profetas que sempre foram abundantes.

Prestando atenção no ensinamento do Salvador e de Seus Apóstolos, nós podemos entender que, de acordo com o plano Divino, as pessoa não são chamadas ao acaso e isoladamente; ao contrário, elas podem ser salvas em seu estar-juntas, como membros de uma grande família. Os fiéis não são chamados somente para utilizar o que a Igreja dá, mas também para assistir uns aos outros quanto à salvação. Pecado e egoísmo são fontes de desintegração, enquanto caridade e carinho iniciam integração.

Nenhum homem pode atingir a perfeição num piscar de olho. A vida Cristã é um processo de auto-melhora. É, portanto natural que a Igreja consista de pessoas de diferentes estágios de desenvolvimento espiritual. Aqueles que atingiram um maior grau de perfeição, deveriam ajudar seus companheiros mais fracos. O próprio Senhor estabeleceu a ordem que uns ensinem e outros sejam ensinados.

Na Igreja um Cristão apreende a verdade e recebe santificação pela graça do Espírito Santo. No Santo Sacramento da Eucaristia, ele entra em real comunhão com Cristo, Filho Encarnado de Deus, e através Dele torna-se partícipe da Divina natureza. Nesta misteriosa comunhão com Deus o homem recebe poderosas forças espirituais, que o ajudam a crescer e melhorar espiritualmente. Perfeição moral é o objetivo de nossa vida: "Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai Que está nos céus" (Mt. 5:48).

http://www.fatheralexander.org
Bispo Alexander (Mileant).
Tradução: Rev. Pedro Oliveira Junior

Oração à Mãe de Deus

Ó Toda-Santa Soberana, Mãe de Deus, luz de minha alma tenebrosa, minha esperança, meu Sustento, meu Refúgio, minha Consolação e minha Felicidade, eu Te dou graças por me teres tornado digno, ainda que indigno, de comungar ao puríssimo Corpo e ao Sangue preciosíssimo de Teu Filho. Tu que deste a luz à Luz verdadeira, ilumina os olhos espirituais do meu coração. Tu que trouxeste à vida a Fonte de imortalidade, restaura-me a vida, a mim que o pecado fez morrer. Tu que és a Mãe compassiva do Deus de misericórdia, tem compaixão de mim e enraíza a contrição e a compunção em meu coração, a humildade em meus pensamentos e a reflexão em meu raciocínio. Torna-me digno, até meu último sôpro, de receber, sem condenação, a santificação destes puríssimos Mistérios para a cura da minha alma e do meu corpo. Concede-me as lágrimas da penitência e da confissão afim de que Te cante e Te glorifique todos os dias de minha vida, pois Tu és bendita e coberta de glória pelos séculos. Amém.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sto. Igúmeno e Místico, Atanásio, o Atonita (+ 1003) - 05/18 de julho

Santo Atanásio, o Atonita, introduziu grandes mudanças na vida dos monges do Monte. Era oriundo de Trebizond e foi professor em Constantinopla. Santo Atanásio seguiu para o Monte Atos, provavelmente em 957, com o objetivo de tornar-se eremita. Posteriormente, participa com seu amigo Nicéfor Focas, na campanha militar na ilha de Creta, nos anos 960-961, amealha algum dinheiro e consegue organizar um pequeno grupo de anacoretas, que rapidamente transforma-se em uma comunidade de 80 monges. Seu amigo Nicéfor II Focas torna-se imperador, reinando de 963 a 969, e o ajuda financeiramente a construir a chamada Grande Lavra. Esta Grande Lavra destacava-se, em comparação com outros mosteiros, principalmente por tratar-se da primeira comunidade cenobítica, isto é, de vida em comunidade contrapondo-se à vida nos eremitérios, à vida anacorética, isto é, em solidão e em isolamento.

OrtoFoto

Liturgia na Capela dos Apóstolos São Pedro e São Paulo
Primeiro local de celebração Ortodoxa do Brejo Paraibano
Pipiri, Paraíba

"O Essencial da Espiritualidade Ortodoxa"

O fim e os meios da Vida Cristã

O objetivo da vida do homem é a união (Sinergia) com Deus e a deificação (théosis).

Os Padres gregos deram ao termo “deificação” uma conotação mais ampla que aquela conferida pelos Latinos, não no sentido de uma identidade panteísta, porém no sentido de participação na vida divina através da graça. “...Por elas, as maiores e mais preciosas promessas nos foram dadas, afim de que vós vos tornásseis também partícipes da natureza divina...” (2P1,4)

A participação introduz o homem na própria vida íntima das Três Pessoas divinas e o coloca nessa corrente incessante e transbordante de amor que vai do Pai ao Filho e ao Espírito. Nessa corrente que expressa a verdadeira natureza de Deus. Ali encontra-se a verdadeira felicidade do homem. Sua felicidade eterna.

A união com Deus é a realização perfeita do Reino anunciado pelo Evangelho. A realização perfeita dessa caridade e desse amor que resumem a Lei e os Profetas. É quando une-se à vida das Três Pessoas que o homem pode amar a Deus com toda a sua alma, com todo o seu coração, com todo seu espírito e ao próximo como a si mesmo.

A união entre Deus e o homem não pôde ser realizada sem um mediador: O Verbo feito carne, Nosso Senhor Jesus Cristo. “Eu sou o caminho... Ninguém vai ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14,6)

No Filho nós nos tornamos filhos. “Nós somos feitos filhos de Deus” disse Santo Atanásio.

Essa incorporação no Cristo é a única maneira de alcançarmos nosso fim sobrenatural. O Espírito Santo opera e aperfeiçoa essa incorporação. Santo Irineu escreveu: “É pelo Espírito que se vai ao Filho e pelo Filho, vai-se ao Pai”.

Nunca poderemos insistir o bastante sobre o fato de que o objeto da espiritualidade cristã é a vida sobrenatural da alma. Ela não é responsável por efeitos naturais normais ou sobrenaturais, obtidos por discípulos humanos, mesmo aqueles “ditos” religiosos. Trata-se aqui da ação de Deus (e não de ações humanas) sobre a alma. A essência da vida espiritual não é psicológica. Ela é ontológica. É por isso que um relato sobre a espiritualidade não consiste em descrever certos estados de alma, sejam eles místicos ou outros, ou a ver como, certos princípios teológicos, definidos podem aplicar-se a cada alma em particular. A ação salvadora de Nosso Senhor é o Alfa e o Ômega, e o centro da espiritualidade cristã.

Graça divina e vontade humana.

A incorporação do homem em Cristo e sua união com Deus requerem a cooperação de duas forças desiguais mas igualmente necessárias: a graça divina e a vontade humana.

A vontade (e não o entendimento ou o sentimento) é o instrumento humano da união com Deus. Não pode haver união íntima com Deus se nossa própria vontade não estiver submetida e conformada à Sua Vontade: “Tu não quiseste nem sacrifício, nem oblação... Vêde, eu venho para fazer, ó Deus, a Tua Vontade” (Hb 10, 5-9).

Nossa fraca vontade permanece impotente se não for informada e sustentada pela graça de Deus. “É pela graça do Senhor Jesus que seremos salvos” (Atos 15,11). Sua graça aperfeiçoa em nós a vontade e a ação.

O Oriente Cristão não precisou suportar as controvérsias que sublevaram no Ocidente as noções de graça e predestinação.

Na Igreja Ortodoxa, a idéia de graça guardou o frescor primaveril que a palavra charis evocava nos gregos. Beleza luminosa... Presente... Complacência... Harmonia.

Os Padres gregos enfatizam a importância do livre-arbítrio na obra da salvação. Contraste chocante com Santo Agostinho. São João Crisóstomo escreveu: “Cabe a nós adentrar o reto caminho e a Deus nos ajudar nessa caminhada. Sua graça não impede nem força nossa liberdade, pois se assim fosse não gozaríamos de nosso livre-arbítrio”. Palavras que poderiam parecer tingidas de um semi-pelagianismo. Todavia, lembremo-nos que os Padres gregos nada tinham a ver com a heresia pelagiana. Ao contrário, combateram fortemente uma gnose fatalista oriental. São João Crisóstomo reconhece plenamente a graça amorosa e a sua necessidade. Ele escreveu: “Por vós mesmos, nada valeis: vós tudo recebestes de Deus. Dele, vós tendes recebido tudo o que possuis; sim, não isso ou aquilo, mas tudo aquilo que tendes. Vós não o deveis aos vossos próprios méritos, mas à graça de Deus. É inútil atribuí-lo à vossa fé, pois é à Sua graça que deveis fazê-lo”. Orígenes já havia dito que a graça reforça a energia da vontade, sem destruir a liberdade. Santo Efrém escreveu sobre a necessidade da ajuda de Deus.

Clemente de Alexandria inventou a palavra “sinergia” (cooperação), para exprimir a ação dessas duas energias combinadas: a graça e a vontade humana. Ainda hoje o termo e a idéia de sinergia resumem a doutrina da Igreja Ortodoxa sobre esse tema.

Ascetismo e Misticismo

A distinção entre a vontade humana e a graça divina, e sua interpretação nos ajudam a compreender como, na vida espiritual, o elemento ascético e o elemento místico podem, ao mesmo tempo, divergir e convergir.

Por ascetismo entende-se, geralmente, um “exercício” da vontade humana sobre ela mesma. Quanto ao termo “misticismo”, é lamentável que seja freqüentemente tão mal utilizado. “Místico” é confundido com “obscuro”, “poético”, “irracional”, etc. Psicólogos incréus (Delacroix, Janet), escritores cristãos (Von Hügel, Evelyn Underhill) permanecem bastante vagos em suas definições de misticismo. Definir o termo como o conhecimento experimental das coisas divinas é apenas uma aproximação. Os mestres da vida espiritual e, após eles, escritores católicos romanos (Garrigou-La-Grange, Guibert, Maritain) tiveram o mérito de precisar um pouco esses termos, dando às palavras “ascético” e “místico” um significado estritamente técnico. A “vida ascética” é uma vida na qual as virtudes dominantes são virtudes “adquiridas”. Por “virtudes adquiridas” entendo as virtudes resultantes de um esforço pessoal, acompanhado apenas pela graça que Deus concede a cada boa vontade. A “vida mística” é uma vida na qual os dons do Espírito Santo sobrepujam os esforços humanos. É uma vida na qual as virtudes “infusas” sobrepujam as virtudes “adquiridas”: a alma torna-se, aqui, mais passiva que ativa.

Tomemos uma comparação bastante básica. Entre a vida ascética (onde prevalece a ação humana) e a vida mística (onde prevalece a ação divina) há a mesma diferença que entre o remo e a vela. O remo representa o esforço ascético, a vela simboliza a passividade mística, que temos que desfraldar para poder gozar do vento divino.

Paralelo que se coloca bem na linha da Teologia dos Padres gregos. Esses nunca nos deram definições técnicas para o ascetismo ou o misticismo. Eles, no entanto, fazem uma distinção muito clara entre o estado onde o homem está “ativo” e aquele onde ele “sofre a ação”. O pseudo Diniz sublinha que o amor divino caminha na direção do êxtase, e faz o homem sair de si próprio, de sua condição normal.

Evitemos, porém, separar de maneira drástica a vida mística da vida ascética. A predominância dos dons não exclui a prática das virtudes adquiridas, assim como a predominância dessas virtudes não exclui os dons. Um desses dois elementos, é claro, será o predominante. A vida espiritual é, em geral, uma síntese entre o “ascético” e o “místico”.

Os carismas e os fenômenos extraordinários que acompanham alguns estados de oração (vozes interiores, visões, os estigmas, permanecem atributo dos ocidentais) fazem parte da via mística. Nem tais fenômenos, nem os carismas constituem a essência desta. Não importa quão grande o seu significado, não passa de um acidente. A via mística consiste na plenitude dos dons do Espírito Santo na alma.

Os carismas de ordem mística não são indispensáveis à salvação. A vida mística não é um sinônimo de perfeição cristã. A perfeição é feita de caridade e de amor. Ela pode ser conseguida por almas que nunca conhecerão nada além da observância simples e amorosa dos mandamentos. A maioria dos Padres gregos, com o seu santo otimismo, parecem favorecer a tese defendida pelos dominicanos e maritanos. Segundo esta tese, as graças místicas, longe de serem um privilégio da elite, são oferecidas a todas as almas de boa vontade. Sua raridade empírica vem do fato de que poucos respondem ao apelo. Elas são o desabrochamento normal, mas não necessário, da autêntica vida cristã. O Rei deseja que todo tomem faça parte no festim messiânico. Nosso Senhor veio para acender uma luz sobre a terra.. Que mais poderia ele querer, senão ver suas chamas acesas, e queimando em cada um de nós.

Oração e Contemplação.

A oração é um instrumento necessário à salvação. Cassiano, que fez eco aos Padres do deserto, distingue três graus ascendentes na oração cristã: súplica (por si), intercessão (pelos outros), ação de graça ou louvor. Esses três graus na oração reproduzem o itinerário completo da vida espiritual. Pouco importa se a oração é verbal ou mental, o essencial é que ela seja feita com amor.

Por outro lado, a contemplação não é necessária à salvação. Mas, de maneira geral, a oração assídua e fervorosa torna-se contemplativa.

Mas o que é a contemplação ? Ela não é sinônimo de especulações intelectuais muito elevadas, nem de uma interiorização extraordinária que pertença apenas a umas poucas e raras almas, previamente escolhidas. De acordo com os “clássicos” da vida espiritual, a contemplação começa pela “oração de simplicidade” ou “oração de olhar simples”. A oração de simplicidade consiste em se colocar na presença de Deus e a permanecer um momento em sua presença, guardando um silêncio interior tão perfeito quanto possível, concentrando-se inteiramente no objeto divino. Devemos nos esforçar para unificar a multiplicidade de pensamentos e sentimentos, para permanecermos calmos, sem palavras ou discursos interiores. A oração de simplicidade é a fronteira da contemplação. Ela é o seu degrau mais elementar. Ela não é difícil. Aquele que possui o hábito de orar, pelo menos um pouco, certamente já fez a experiência desta forma de contemplação, ainda que apenas por alguns instantes. Ela é portadora de frutos maravilhosos. É como uma chuva que cai sobre o jardim da alma. Ela reforça nossos esforços de ordem moral a fim de evitar o pecado e realizar a vontade de Deus.

Os atos de contemplação são benéficos, mas ainda melhor é ainda viver em estado de contemplação. Não pensemos, porém, que vida contemplativa signifique uma vida onde não se faz nada além de contemplar. Se assim o fosse, a vida contemplativa só seria possível no deserto, ou no interior de um claustro - e, no entanto, ela está disponível a todos. A vida contemplativa é simplesmente uma vida orientada para a contemplação. Uma vida ordenada à volta de freqüentes atos de contemplação, que constituem seu apogeu. Se a cada dia você conceder alguns minutos à oração de simplicidade, se você aprender a fazer abstração das pessoas e das coisas de forma a não se deixar agarrar por elas, se em seus pensamentos e em suas leituras você guarda sempre dentro de si a lembrança de Deus, a atenção à Sua presença, você está no caminho da vida contemplativa, mesmo que ainda viva no mundo.

O estado de contemplação é conseguido se os atos de contemplação forem resultado de um esforço pessoal. Ela é infundida se esses atos são produzidos pela graça divina, sem nenhum - ou quase nenhum - esforço humano. A contemplação adquirida releva da vida ascética. A contemplação infundida, da vida mística. Esta última é o ponto culminante da vida contemplativa.

Existe uma correspondência entre a classificação dos graus da contemplação no Ocidente e sua classificação no Oriente. Santa Tereza d’Ávila estabeleceu a classificação dos estados de contemplação que prevalecem no Ocidente. Ela distingüiu 4 aspectos:

1. A oração de concentração calma e silenciosa da alma em Deus, que ainda não exclui toda distração.
2. A união total na qual não há mais distrações. Ela é acompanhada de um sentimento de “união de forças da alma”.
3. A união extática, na qual a alma “sai de si própria”.
4. A união transformadora ou casamento espiritual.

Nos Padres gregos, nós encontramos talvez algo não tão preciso, mas algumas distinções análogas.

A oração de olhar simples, a oração de quietude e a união total são os degraus da “hésychia”, ela mesma - de uma forma ou outra, uma introdução à contemplação oriental. Para além da “hésychia” vem a união extática da qual encontramos exemplos no Novo Testamento. Ela é ainda bem descrita pelos Padres do deserto e pelo pseudo-Dinis (em sua teoria do êxtase e do movimento circular que conduz a alma a Deus). A união transformadora ou o casamento espiritual é descrita por aqueles que concebem a vida espiritual como uma deificação e também por aqueles que insistem na relação nupcial entre a alma e o seu Senhor. Uma transição imperceptível, um encadeamento de tintas e meias-tintas liga esses estados entre si. Eis porque, com os Ortodoxos, o nome de Jesus torna-se não somente o ponto de partida, mas também o suporte e o fim dos estados místicos que vão da “hésychia” à “ekstasis”.

Aquilo que falamos da vida mística pode ser repitido em relação à vida contemplativa. Ela não é um privilégio reservado a algumas poucas almas excepcionais. É verdade que o monaquismo oferece condições especialmente favoráveis ao seu exercício. Ainda assim, a contemplação está aberta a todos. O casamento, a vida familiar ou profissional não excluem de nenhuma maneira, nem a oração, nem as graças místicas. Ao contrário, o contemplativo ou o místico é uma benção para o seu meio-ambiente, que, no entanto, não deixa de lhe causar sofrimentos, deixando de lado os estados místicos mais elevados (como o êxtase e o casamento espiritual), lembremos que os estados hesicastas iniciais (a oração de simplicidade e os estados místicos que a seguem, principalmente a oração de quietude e a oração não extática de união) são o fim normal de toda e qualquer vida orante e cuidadosa, guardar e respeitar os preceitos do Senhor. A contemplação é freqüentemente a melhor maneira de Lhe ser fiel, pois ela faz crescer nosso amor e é o amor que nos auxilia na observância dos mandamentos - e não o contrário.

Não podemos deixar de insistir no fato de que nem a contemplação nem o misticismo devem ser identificados com a perfeição. A perfeição é caridade, amor. Uma vida contemplativa que desenvolve o exercício da caridade, no seu mais elevado grau, culmem caritatis, será igualmente o supremo grau da perfeição, culmen perfectionis. Ela será um fim em si própria e merecerá a oferenda de toda uma vida humana.

Extraído de Introduction a la spiritualité Orthodoxe, por “um monge da Igreja do Oriente”
Ed. Desclée de Brouwer
Bolertim Interparoquial, agosto de 2003

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Inauguração da Capela dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo em Pipiri, Paraíba

No domingo passado, dia 13, em Pipiri, arredores da cidade de Guarabira-PB, foi inaugurada a capela de uma Missão dedicada aos SS Apóstolos Pedro e Paulo.

Antes da Sagrada Liturgia o Hieromonge Jerônimo foi exaltado Arquimandrita e Abade do Mosteiro de S. Nicolau da Vila do Conde, na mesma oportunidade foi acolhido ao serviço do Santuário, como ceroferário, o Sr. Emiliano Camilo, líder do grupo de 22 pessoas que se converteram à Ortodoxia.

A referida capela foi construída com recursos e pelas próprias mãos das pessoas da região. Gente humilde e simples, mas com um magnífico tesouro em seus corações. Todos os presentes aos festejos saíram com a alma rejubilando com tal exemplo de amor a Cristo e Sua Igreja.








Tonsura no Mosteiro de São Nicolau

No ofício das Grandes Vésperas da última festa dos Corifeus dos Apóstolos SS. Pedro e Paulo, no mosteiro de S. Nicolau da Vila do Conde-PB, se entregou para se submeter à tonsura monástica o Igúmeno Lucas. Ao receber o pequeno hábito o professo tomou o nome de Jerônimo.

O ofício foi presidido pelo Sr. Dom Chrisóstomo coadjuvado pelo Bispo do Recife, o Sr. Dom Ambrósio presentes na assistência estavam fiéis do Recife e de João Pessoa e ainda o Seminarista Emanuel.

Que o Senhor conceda ao Arquimandrita Jerônimo ser salvo na ordem angélica!











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Ucrânia
autor: Igor Sadowski

Oração de São Simeão o Novo Teólogo

De lábios imundos, de um coração impuro, de uma língua profanada e de uma alma maculada acolhe a oração, ó meu Cristo. Não me repulses em virtudes de minhas palavras e de minhas ações, nem mesmo porque não sei mais rugir. Antes, concede-me de Te dizer em toda a confiança o que desejo, ó meu Cristo; ou ainda, ensina-me o que devo dizer e fazer. Eu Te ofendi mais que a pecadora, ela que conhecendo onde Te encontravas, compra mirra e ousa vir ungir os Teus pés, ó meu Cristo, meu Senhor e meu Deus. Assim como não a repulsaste ao dirigir-se a Ti de todo o seu coração, não me afastes também, ó Verbo; dá-me os Teus pés para que eu os tenha, para que eu os beije e ouse banhá-los com minhas próprias lágrimas, no lugar de uma mirra preciosa. Lava-me com minhas lágrimas, purifica-me por elas, redime os meus pecados, e concede-me o perdão, ó Verbo. Tu conheces a multidão de minhas maldades, Tu sabes as minhas dores e vê as minhas feridas. Mas Tu conheces também minha fé, levas em conta o meu bem querer, e ouves os meus prantos. Nada Te é oculto, ó meu Deus, meu Criador e meu Redentor. Tu vês todas as minhas lágrimas, uma por uma e a menor parte de cada uma delas. O ato ainda não concluído Teus olhos já o conhecem, e o que ainda não realizado, sobre o Teu livro, já se encontra inscrito. Vê a minha humilhação, vê qual é a minha labuta, perdoa todos os meus pecados, ó Deus de todas as coisas, afim de que eu comungue aos Teus veneráveis e puríssimos Mistérios, com um coração puro, um espírito pleno de temor e uma alma contrita; pois aquele que Te come e Te bebe com um coração sem mancha é vivificado e divinizado. Tu disseste, em efeito, ó meu Mestre, “Aquele que come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele”. A palavra de meu Mestre é inteiramente verdade. Aquele que participa a estes dons divinos e deificantes, seguramente não mais está só, antes con’Tigo, ó meu Cristo, Tríplice Luz que ilumina o mundo. Afim de que eu não esteja mais só e nem separado de Ti, ó Doador da Vida, meu sopro, minha vida, meu júbilo, salvação do mundo, eu me aproximo de Ti, como vês, em lágrimas e com uma alma contrita. Concede-me o perdão das minhas faltas e faz-me participar, sem incorrer de condenação, aos Teus Mistérios vivificantes e imaculados afim de que, segundo a Tua palavra, permaneças em mim, três vezes infeliz que sou e que o enganador, encontrando-me excluído de Tua graça, não me tome perfidamente afastando-me de Tuas palavras deificantes. Eis porque eu me prostro diante de Ti e Te suplico humildemente: assim como acolheste o Filho Pródigo e a Pecadora que se aproximavam de Ti, recebe-me a mim, impuro e pródigo, com um coração contrito, ó Misericordioso. Eu o sei, ó Salvador, que ninguém pôde ofender-Te e nem pecar como eu o fiz. Mas, sei também que nem a gravidade de minhas faltas, nem a multidão de meus pecados, podem ultrapassar a grande paciência de meu Deus, bem como o Seu extremo amor pelos homens. Aqueles que ardem de arrependimento, Tu os purifica e tornando-os resplandecentes pelo óleo de Tua compaixão; Tu os fazes participar à Tua luz, e comungar à Tua divindade em plenitude, o que ultrapassa toda inteligência angélica ou humana; eis que geralmente Te relacionas com eles como que com Teus verdadeiros amigos: o que me torna audacioso, dando-me asas, ó meu Cristo. Confiando na riqueza de Teus benefícios, com júbilo e com temor juntamente, eu que sou palha recebo fogo, e milagre estranho, torno-me indizivelmente coberto de orvalho, como outrora a sarça que queimava sem ser consumida. Eis porque eu Te dou graças com o meu espírito e o meu coração, com todos os meus membros, com a minha alma e a minha carne, eu me prostro diante de Ti, ó meu Deus, e Te magnífico, Te exalto e Te glorifico, Tu que és bendito, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Mosteiro de Konstamonitou - Monte Atos

O mosteiro de Konstamonitou fica a 20 m de altitude na costa sudoeste do Monte Ato. Segundo a tradição o mosteiro foi fundado por Constâncio, filho do Imperador Constantino, o Grande. Outras versões dizem que o mosteiro foi fundado por certo eremita da cidade de Kastamou na Panflagôna. Dados históricos informam que o mosteiro surgiu no século X. No começo do século XIV os catalães destruíram o mosteiro, mas logo foi restaurado. O mosteiro incendiou-se pela primeira vez em 1433 e pela segunda vez em 1438. Até o final do século XVII o mosteiro ficou vazio.

Entre as relíquias do mosteiro encontra-se: pedaço da madeira da Cruz de Cristo, a mão direita de Santo Estevão, osso da face de São Basílio, partículas de ossos de São Constantino, o Grande.


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Oração de São João Damasceno antes da Santa Comunhão

Ó Mestre, Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, Tu que és o único com o poder de desligar os pecados dos homens, em Tua bondade e em Teu amor pelos homens, não leves em conta todas as minhas transgressões, cometidas com conhecimento ou por ignorância, e torna-me digno de comungar, sem incorrer de condenação, aos Teus santos, divinos, gloriosos, puríssimos e vivificantes Mistérios. Que eles não se convertam em meu castigo nem condenação, e não agravem os meus pecados, antes me purifiquem, me santifiquem, sejam uma garantia da Vida e do Reino futuros, uma proteção e um socorro, que eles dispersem os meus inimigos e aniquilem meus numerosos pecados. Pois Tu és um Deus bom, misericordioso e Amigo dos homens e nós Te damos glória com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.