“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mosteiro Docheiariou - Monte Atos

O Mosteiro Docheiariou fica na parte oeste da península a 30 m acima do mar. Foi fundado no começo do século X por São Eutímio, discípulo e amigo de Santo Atanásio, o Atonita. O Mosteiro é dedicado a São Nicolau. O Katholikon do mosteiro é dedicado a aos Santos Arcanjos. O Mosteiro possui 6 capelas no seu terreno e 4 capelas fora dos muros do mosteiro. O mosteiro possui duas kellia em Karyes. Entre as preciosidades do mosteiro conserva-se: pedaço da cruz de Cristo e um ícone milagroso da Mãe de Deus. Durante a guerra de independência da Grécia (1821-1831) o mosteiro perdeu a maior parte de suas relíquias e objetos preciosos.




quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Introdução à Fé Ortodoxa - Comentário do Símbolo de Nicéia-Constantinopla"

Creio em um só Deus
Pai Todo Poderoso
Criador do Céu e da Terra
E de todas as coisas visíveis e invisíveis

Nós confessamos que há um princípio imaterial e infinito, fonte e plenitude do ser, e este princípio nós o chamamos Deus. “Eu Sou aquele que É” (Ex. 3,14); “Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim; “Eu sou o primeiro e o último” (Ap.1,8 e 17). Fonte e plenitude do ser, Deus é também a fonte e a plenitude de toda perfeição moral, e como toda perfeição conduz ao amor, nestes termos podemos melhor conceber Deus :”Deus é amor” (I Jô. 4,16) “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós” (I Jo. 4,12). Não nos interessa então conceber Deus como uma sorte de homem, ou de super-homem, mas como um princípio espiritual, como o Amor infinito.

Deus criou “o céu e a terra”, quer dizer, o universo inteiro; tudo aquilo que existe. Criar deve ser tomado aqui em um sentido todo espiritual e especial. A matéria, a vida, o espírito são formas do ser; é o ser comunicado, dado por Deus, que é a fonte de todo ser. A criação por Deus não é uma forma de fabricação material, ela é um ato interior de Deus, ela se passa na consciência divina. Nós estamos em Deus, sem, no entanto, confundirmo-nos com Deus : Ele é o ser que se dá, e nós somos o ser que recebe. “Porque nele vivemos, e nos movemos , e existimos” (At. 17,28).

Deus criou por amor. Ele ama e cria por este mesmo ato. Deus fez o homem inteligente e livre para que o homem, por sua vez, possa amar. Todos os fenômenos do universo são uma manifestação da atividade divina.

Não há, neste ponto, contradição entre a ciência e a fé. A fé na criação não está ligada a tal ou tal teoria cosmológica. É à ciência que convém o examinar livremente problemas e questões tais como a idade do nosso planeta, a formação do sistema solar, a gênesis e a evolução das espécies viventes. Quaisquer que sejam os resultados atingidos pela busca científica, esses resultados não podem ir contra a nossa fé. Esta põe-se a afirmar que Deus-Amor é a origem, o sentido e o fim de tudo aquilo que existe.

A atividade criadora de Deus não se exprime ela pelo universo visível e os seres vivos que o completam ? Nós não temos o direito de nos restringirmos assim. De uma parte a tradição hebraica, seguida pela tradição cristã, nos fala de seres imateriais que são os ministros da bondade e do amor divinos : “ os anjos” – de outra parte, estas mesmas tradições objetivam e personificam o poder das trevas e, certos espíritos maus. Como nós o vemos, o símbolo de Nicéia-Constantinopla não precisa nada à este respeito, mas confessa, além das “coisas visíveis”, a existência das “coisas invisíveis”.

Os profetas hebreus, e sobretudo o próprio Cristo, nos ensinam a considerar Deus como um Pai com o qual cada um de nós pode estabelecer uma relação pessoal e viva : “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt.5,48). Estas relações com nosso Deus e nosso Pai receberam sua mais alta expressão na oração que Jesus Cristo nos ensinou : o Pai-Nosso.

Creio em um só Senhor, Jesus Cristo
Filho Único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos,
Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
Gerado não criado, consubstancial ao Pai,
Por quem todas as coisas foram feitas.

O Pai fez-Se-nos conhecer pelo Seu Filho. Nós somos todos filhos de Deus, mas somente um é “O” Filho de Deus, em um sentido único e excepcional. Este filho, este mediador não foi criado ou adotado. Ele procede do Pai pelo nascimento espiritual. Aquele a quem nós chamamos Filho, é a palavra, o Verbo ou o pensamento eterno do Pai : “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,1-4). A palavra de Deus é para nós “o Senhor”, o Mestre, o Guia Supremo , a Luz. “Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo o homem que vem ao mundo. A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome” (Jo 1, 9 e 12).

A palavra de Deus não é uma abstração, mas uma realidade viva. Ela nos é mostrada sob uma forma humana e real, na pessoa de Jesus de Nazaré, a quem nós chamamos Cristo (“Ungido”) e Messias (“Enviado”). A consciência cristã dos primeiros séculos esforça-se em precisar, na linguagem da metafísica grega de então, as relações do Pai e de Jesus. Tanto que Jesus é a encarnação da palavra de Deus, a expressão e a manifestação do Pai; tanto que n’Ele somente alcançamos o Pai (“Quem me vê a mim vê o Pai”), a Igreja confessa que Jesus, o Filho é “consubstancial ao Pai”; e, proclamando que Ele é, em verdade, homem, ela adora-O como Deus verdadeiro.

Que por nós homens e para a nossa salvação
Desceu dos céus
E encarnou pelo espírito Santo no seio de Maria Virgem
E se fez homem.

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14). É esta união da palavra de Deus com uma natureza humana, na pessoa de Jesus, que nós chamamos o mistério da encarnação. Traduzindo em termos humanos este mistério inefável, que ultrapassa o pensamento teológico e filosófico, porque escapa à investigação histórica, e querendo exprimir a intuição profunda, provada pela consciência cristã, de uma pureza única que rodeia a vinda entre nós do Filho de Deus, a Igreja professa que o nascimento de Cristo faz exceção às condições ordinárias da vida da carne, e Ela formulou a doutrina da “concepção virginal” pela operação do “sopro” divino ou “Espírito Santo”.

A palavra (o Verbo) fez-se carne “para nós e para a nossa salvação”. Em efeito, o plano divino havia sido profundamente alterado. A humanidade, usando de sua liberdade, transviou-se do Deus-Amor para seguir as vias da realidade egoísta. Esta infidelidade primordial, este “pecado original”, havia introduzido no mundo o sofrimento e a morte, tanto físicos como espirituais. Era necessário vencer o mal, reconciliar aquilo que estava separado, salvar o que estava perdido. Era necessário divinizar a natureza humana. Tal era a obra de salvação reservada à palavra feita carne.

E por nós foi crucificado, sob Pôncio Pilatos,
Padeceu e foi sepultado

A obra de salvação realizada por Cristo revestiu-se de diversos aspectos. Jesus, ao curso de sua vida terrestre, suportou a tentação, curou almas e corpos. Pregou o “reino de Deus”, chamou a este reino os sofredores, os pobres, os perseguidos. Os mansos de coração; ensinou que o “reino” consiste na realização deste duplo preceito: “amarás ao senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma. E de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc. 10,27). Ele próprio dizia o que profeta algum havia jamais dito: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ao resistir à tentação, ao curar, ao perdoar, ao anunciar a “boa nova”, Cristo já nos salvava. Mas Ele, no entanto, quis realizar e cumprir às supremas exigências de Seu amor por nós : “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Sua morte sobre a cruz nos “libertou”, não em um sentido jurídico ou comercial, como se o Pai reclamasse uma expiação sangrenta do pecado humano, mas porque o ato interior de amor e de oferta (oferecer-se), cuja crucifixão era a expressão visível, a expressão visível, reparava, para além, toda a revolta dos homens contra o Pai e provocaria em nossos corações uma resposta de conversão. A cruz, que Jesus quis para Ele próprio, tornou-se o sinal e a condição necessária de toda vida cristã: “se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz e siga-me” (Lc. 9,23).

Ressuscitou ao terceiro dia
Conforme as escrituras

“Depois d’Ele ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus” (At. 1,3). A convicção dos discípulos de que a pedra do túmulo não havia selado para sempre seu mestre e Sua obra, tornou-se a Fé de toda a Igreja. Pois que esta proclama que não é necessário procurar entre os mortos aquele que está vivo (Lc. 24,5). O fato da Ressurreição não pode ser nem demonstrado, nem negado sobre o plano puramente histórico, e não pode mesmo ser plenamente “realizado” pelo pensamento humano. É um mistério. Mas a realidade deste mistério é atingida pela fé e pela experiência espiritual, tanto individual como coletiva. A certeza e a alegria da ressurreição são o coração da piedade ortodoxa : “Cristo ressuscitou dos mortos; pela morte Ele venceu a morte, aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida !” (tropário Pascal)

E subiu aos céus
Onde está sentado à direita de Deus Pai

Os dois símbolos físicos de uma ascensão “ao céu” e de uma seção à direita do Pai significam, de uma parte, que Cristo tomou gloriosamente possessão deste “Reino” que Ele anunciou e onde Ele nos deu a esperança de o franquearmos (o reino é a vida eterna no Deus-Amor). De outra parte, que Ele ocupa no reino, o lugar único que, junto do pai, é reservado ao Filho : “Tu és Meu Filho amado, em Ti me comprazo” (Lc. 3,22).

De novo há-de-vir, cheio de glória
Julgar os vivos e os mortos,
E o Seu reino não terá fim

Os Evangelhos e o Apocalipse descrevem a vinda de Cristo “com poder e grande glória” (Mt. 24,30), “à hora em que não penseis” (Mt. 24,44) – “e os mortos foram julgados segundo as suas obras” (Ap. 20,13). Se certos detalhes destas descrições contêm uma grande parte de simbolismo, isto seria ir contra toda a tradição cristã , ao ver na “segunda vinda” e no julgamento final uma simples imagem. Porém não é necessário representar uma espécie de processo judiciário. O próprio homem se julga e determina a sua escolha segundo, voluntária e cientemente, o afastar-se ou o aproximar-se do Deus –Amor. A vida eterna só faz manifestar a livre escolha de cada homem, inscrita nos seus sentimentos e nos seus atos. Este mundo passará, todas as coisas serão feitas novas; e então o reino será restaurado para sempre.

Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida,
Que procede do Pai
E com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória
Foi Ele quem falou pelos profetas

“E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o espírito de Verdade... o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu Nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito... quando vier o Consolador. Aquele espírito de verdade Ele testificará de mim” (Jo 14, 16,26; 15,27). Este espírito ou “sopro” do Pai, enviado sobre os homens pelo Filho, preencheu os apóstolos e continua a santificar aqueles que vivem na fé e no amor. Nós o chamamos “Senhor”, tal como o Filho, porque Ele também é nosso Mestre e nosso Guia. Ele nos vivifica, pois toda a nossa vida espiritual depende deste “sopro”. Ele é a manifestação visível do Pai em nossas almas, assim como o Filho foi Sua manifestação exterior e visível. Não podemos separar o Pai de Sua palavra e de Seu sopro, não podemos dividir o Deus-Amor e cindir n’Ele o princípio transcendente (o Pai), a revelação objetiva (o Filho), a ação imanente (o Espírito). É por isso que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são “adorados e glorificados” da mesma forma, como sendo uma mesma essência divina em três hipóstases ou sujeitos. Esta formulação teológica provém dos primeiros concílios que, sob o nome de Santíssima Trindade, tentamos exprimir o mistério do Pai que se manifesta a nossos olhos pelo Seu Filho e vive em nossas almas pelo Seu Espírito (Santo).

O Espírito Santo “falou pelos profetas”. Nós entendemos com isto que as Santas Escrituras, os livros do Antigo e do Novo Testamento foram redigidos por homens sob a inspiração divina. Esta inspiração aporta o conteúdo religioso e moral da Sagrada Escritura. Ela não confere aos escritores dos livros sagrados nenhuma infalibilidade em cronologia, história, cosmografia. Matérias em que eles partilham as idéias de seu tempo. A Sagrada Escritura constitui uma preparação pedagógica progressiva à vinda de Cristo e o reino do Espírito. Podemos dizer que uma preparação paralela se operaria nas nações pagãs por certos progressos do pensamento, de sorte que Deus não deixou povo algum desprovido de toda a luz. Temos o direito de aplicar os métodos críticos da história da filosofia, com uma plena liberdade que exige a ciência, a tudo aquilo que na Sagrada Escritura é susceptível de uma verificação de fato, de uma constatação positiva. Mas o conteúdo espiritual das Santas Escrituras não revela nenhuma interpretação particular. Sua interpretação pertence à Igreja, que fala sob a ação do Espírito Santo.

Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica

A palavra igreja significa “assembléia” e “eleição”. Cada comunidade cristã primitiva nomeava-se “assembléia dos eleitos”. A totalidade dos crentes formava a Igreja, no sentido geral, e não mais local e particular desta palavra. Os apóstolos já se preocupavam em organizar mais solidamente as comunidades cristãs. As comunidades da época apostólica apresentavam os mesmos traços gerais que as comunidades cristãs modernas. Cada uma era um grupo de fiéis perseverando na doutrina dos apóstolos, na fração do Pão e oração (At. 2,42), sob a presidência de um intendente (episkopos; “bispo”), rodeado de anciãos (presbyteroi; “presbíteros”) e de servidores (diakonoi; ”diáconos”).

Estas funções subsistem até hoje entre nós. Mas não convém concebermos esta escada de funções ou hierarquia como constituindo uma autoridade exterior, transcendente ao corpo dos fiéis. Não há na Igreja autoridade “exterior” alguma. Um concílio ecumênico reunido todos os bispos é uma expressão da consciência religiosa dos fiéis em um tempo dado, e só se torna uma norma na medida em que esta consciência o aceita.

A infalibilidade é imanente à unanimidade dos fiéis, a revelação da verdade é uma resposta ao nosso amor fraternal. É por isso que a tradição “ortodoxa” – à qual estamos nós ligados – não admite nem as doutrinas romanas sobre a autoridade na Igreja e, em particular sobre o poder do Papa, nem certas concepções protestantes dentre as quais a busca e a descoberta da verdade religiosa seriam algo puramente individual.

Além da oração em privado, a relação pessoal e interior com Deus, existe a oração em comum, a santificação coletiva que se opera ao seio da comunidade. De lá provêm as formas exteriores, os ritos, que não têm, em partes, nada de absoluto, mas são submetidos à uma evolução histórica.

A tradição ortodoxa professa que há uma comunhão entre os santos glorificados e nós próprios; nós não os adoramos, mas podemos nos dirigir a Deus pelas suas orações e nos apoiarmos em sua intercessão. Ao venerarmos a memória de Maria, Mãe do Senhor, àquela dos apóstolos, à dos mártires, e de outros santos, ao honrarmos suas imagens (ícones) e suas relíquias, é a Deus, que manifesto neles, prestamos homenagem. Não é, portanto, uma idolatria.

A vida coletiva da comunidade cristã exprime-se sobretudo pelos “Mistérios”, símbolos materiais eficazes ao meio dos quais nós participamos dos Dons divinos, não de uma maneira mecânica ou mágica, mas na condição que o espírito humano assimile estes dons pela fé e o amor. O mistério central, o próprio mistério da Igreja e de sua unidade é o “mistério da ceia” ou Eucaristia: comendo o pão partido e bebendo o cálice de vinho sobre os quais a Igreja tomou, nós comungamos, de uma maneira não carnal, mas real, ao corpo e ao sangue de Cristo, ao sacrifício da morte e à todos os nossos irmãos e irmãs que são seus membros.

O casamento cristão indissolúvel, pelo qual dois seres formam uma criatura nova em Cristo, é também um mistério exprimindo a unidade da Igreja, um embrião de Igreja.

A Igreja de cristo é Uma e Universal. Ela se estende a todos os homens a todos os tempos, a todos os lugares. Sua fé é aquela recebida desde sempre, por todos e para todos; ela pensa e vive unanimemente: é isto que exprime a palavra “católica”, o que não é monopólio à confissão romana. A igreja é santa, não no sentido em que todos os seus membros sejam efetivamente santos, mas porque a santidade é a vocação de todos e porque a Igreja possui e oferece todos os meios à santificação. A Igreja é apostólica porque ela beneficia-se da tradição dos apóstolos e porque, pelo mistério da imposição das mãos, pelo qual se transmite todo o ofício pastoral, ela remonta até eles. A Igreja compreende homens, que lhe são aparentemente estranhos e hostis. Todo o homem fiel à medida da luz, que a ele foi dada, participa na Graça, à vida do próprio Cristo; mesmo se ele não conheça Cristo, estas almas de uma tão boa vontade, sejam quais forem suas ignomínias ou suas negações, são membros invisíveis da Igreja. Esta transborda toda medida visível. Não devemos, desta forma , conceber a Igreja como uma organização jurídica, sob o único aspecto temporal. A Igreja, na sua profunda realidade é, segundo as palavras de São Paulo, “o Corpo de Cristo” (I Co. 12,27) e segundo o apocalipse, “a Esposa de Cristo”.

Reconheço um só batismo
Para a remissão dos pecados

Todo pecado consiste em violar o sentido divino da vida, que é o amor. Na revelação feita outrora ao povo hebreu, o decálogo (10 mandamentos) indicava quais eram os pecados, enunciando as seguintes prescrições positivas : adorar a Deus somente; não pronunciar Seu nome em vão; observar os dias de santificação; honrar pai e mãe; não matar; não furtar; não cometer adultério; não dar falso testemunho; não cobiçar. O apóstolo João relaciona todo pecado a uma das três “concupiscências” : desejos da carne, desejos de possessão e orgulho (I Jo. 2,16). São três formas de egoísmo, de afirmação do eu, separado de Deus. Todos estes pecados, quer por palavra, quer por pensamento, quer por ação. Violam o preceito de Cristo : amar a Deus de todo seu coração; amar a seu próximo como a si-mesmo (Lc. 10,27) .

O pecador não pode tornar-se novamente justo pelos seus próprios méritos ou pelas suas obras (oração, misericórdia, ascese, etc.), embora as obras sejam um sinal necessário de justificação. Ele é justificado gratuitamente pela participação à vida de Cristo: “...e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl.2,20). Mas necessário é morrer para o pecado – seja o nosso pecado voluntário e consciente, ou a falta original em que nós somos não culpados, mas solidários – e nascer à vida nova em Cristo. O mistério do batismo é o sinal eficaz deste novo nascimento*: “aquele que não nascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo.3,5) e “portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28,19). Isto não quer dizer que a água tenha um poder mágico; mas o batismo de água, ao qual Jesus submeteu-se, Ele próprio, junto de São João Batista era um símbolo de penitência e de purificação. E Jesus quer marcar que não podemos receber o batismo do espírito se não tivermos recebido previamente o batismo de penitência.

O batismo é o sinal exterior necessário de pertencer à Igreja, mas nós o temos dito que também a Igreja tem membros invisíveis, os quais não receberam o batismo da água. Ao conceder Sua graça, Deus não se limita por qualquer condição material. Segundo a antiga tradição da Igreja, o mistério do “dom do Espírito Santo”, renovação da graça do Pentecostes, está ligada ao batismo e se confessa logo em seguida, sob a forma de uma unção, o “mistério do Crisma”. A vida em Cristo recebida pelo batismo pode se perder por pecados ulteriores. O pecador pode então (e à cada vez) se purificar por um novo batismo, não mais de água, mas de espírito, que é o “mistério da penitência”. Este é o mistério do perdão divino concedido ao arrependimento do coração, tal como o evangelho nos oferece tantos exemplos. Segundo a disciplina ortodoxa atual, o mistério da penitência, na sua forma exterior, supõem a confissão de suas faltas diante de um ministro da Igreja, delegado por ele (diante de um ministro e não a um ministro, pois a confissão dirige-se a Cristo, o ministro não passa de uma simples testemunha), a partir da qual a absolvição é concedida em nome de Cristo, pelo ministro.

Outro mistério que desliga os pecados é aquele da “unção dos enfermos”, conforme as palavras do apóstolo Tiago : “Está alguém entre vós doente ? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tg. 5, 14-15).

Nós confessamos um único batismo, pois só há um batismo e uma remissão dos pecados : o batismo e a remissão instituídos por Cristo.

E espero a ressurreição dos mortos
E a vida do mundo que há-de-vir.

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos e foi feito as primícias dos que dormem, porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo..., ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (I Co. 15,19-22 e 26).

“Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita : vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt. 25,34).

“Amados, agora somos Filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é O veremos” (I Jo. 3,2).

“Então dirá também aos que estiverem à Sua esquerda : apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt. 25,41).

“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Ap. 22,15; 20,15).

Nós entre-olhamos, tal como através de um véu, o que poderá ser para aqueles que estão à direita do rei – aqueles que encontraram o reino de Deus – a vida do mundo que há-de-vir. É mais difícil a nós representar a sorte daqueles que morrem pela sua própria escolha, separados de Deus. Como já antes dizemos: não é Deus que os julga, que os condena, a morte, enquanto uma conseqüência lógica, os fixa no estado em que eles próprios escolheram. Mas como Deus pode – Ele permitir que a sua escolha seja ela afastamento de tal maneira ? A consciência religiosa moderna rejeita, cada vez mais, a idéia de uma tortura e de um fogo material destinados aos condenados. Mas a idéia de uma separação eterna de Deus e o sofrimento moral que o acompanha, não parecem eles muito mais aceitáveis ?

É verdade que, de fato, não podemos dizer nada à respeito de ninguém que foi ou será condenado. Mas, em contrapartida, que a possibilidade da condenação subsiste, não seria isto como um limite lógico, neste ponto, para nossa confiança na bondade do Pai, uma prova e um escândalo dolorosos ?

Nós propusemos a este enigma soluções diversas. Falamos de uma aniquilação das almas pecadoras, de uma reparação radical entre o pecado (em algum sentido ontológico) – eternamente condenado – e o pecador salvo a partir de um perdão último. Antes de recorrer à hipóteses ainda sem resultados, é-nos mais prudente manter como advertências solenes as palavras do Evangelho, sem procurar extenuar o sentido ou a interpretar os símbolos. É necessário, por outra parte, admitir que estas palavras escondem um mistério, atualmente inacessível e que só nos será revelado na vida eterna; enfim, é-nos necessário lembrar que se Deus é amor, a solução do mistério só pode ser uma solução de amor e que a misericórdia infinita autoriza esperanças infinitas.

A tradição ortodoxa admite que as orações dos fiéis vivos possam trazer ajuda às almas daqueles que repousam, unidos a Deus, mas não ainda completamente purificados de suas faltas.

“E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará Aquele que todas as coisas lhe sujeitou. Para que Deus seja tudo em todos” (I Co. 15,28).

“Amém! Ora vem, Senhor Jesus” (Ap. 22,20).

Padre Levgillet
Traduzido pela monja Rebeca
Boletim Interparoquia

terça-feira, 13 de maio de 2008

Mosteiro Zographou - Monte Atos

O Mosteiro Zographou situa-se no sudoeste da península, no topo de um de seus montes com 160 metros de altitude. Os monges Moisés, Aarão e João fundaram o mosteiro no século X. Nos últimos anos do Império Bizantino, o mosteiro foi destruído por piratas catalães e reconstruído com a ajuda da dinastia dos Palaeologos, assim como de soberanos da Europa Oriental como: Andrônicos II e Andrônicos III (1282-1328) da Moldávia e reis da Sérvia que restauraram o mosteiro. O Katholikon do mosteiro é dedicado a São Jorge e foi construído em 1801. Entre as relíquias miraculosas que o mosteiro preserva encontra-se: relíquias de São Jorge e seu sangue, relíquias de Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria e de São Mateus, o Evangelista, assim como 2 ícones milagrosos de São Jorge.




segunda-feira, 12 de maio de 2008

OrtoFoto

Sérvia
autor: Aleksa Stojkovic

"O Verdadeiro Valor do Homem"

Duas noções colocam-se em evidência, depois de uma guerra, talvez mais do que nos anos que a precedem, a noção da grandeza do homem, da sua significância tanto para os homens quanto para Deus; e a noção da solidariedade humana. E estes são dois pontos sobre os quais eu gostaria de dizer poucas palavras. E fazendo isto nós temos que medir quão longe nós ousamos na valorização da significância dos homens, e quão longe nós ousamos ir em nossa solidariedade; isto é, quão grande nossa coragem pode ser ou também quais são seus limites.

Por séculos, como nos parece, dentro da Igreja nós temos tentado fazer nosso Deus tão grande quanto podemos fazendo o homem pequeno. Isto pode ser visto até em trabalhos de arte nos quais o Senhor Jesus Cristo é representado grande e suas criaturas realmente muito pequenas a Seus pés. A intenção era mostrar quão grande Deus era, mas isto resultou na falsa, enganada, quase blásfema visão de que o homem é pequeno, e numa negação desse Deus que trata os homens como se eles não tivessem nenhum valor.

Estas duas reações são igualmente erradas. Uma pertence às pessoas que defendem que os filhos de Deus, os escolhidos de Deus, refere-se a Igreja. Eles fazem isto de tal forma a sê-lo tão pequeno quanto a imagem que eles têm dos homens, é a mesma falta de perspectiva e grandeza em relação as suas pequenas comunidades e as partes que a constituem. A outra atitude nós a encontramos fora da Igreja, entre os agnósticos, os racionalistas e ateus. Nós somos responsáveis por estas duas atitudes e nós seremos responsáveis por ambas tanto na história quanto no dia do Julgamento. Mas esta não é a visão de Deus sobre o homem.
Quando nós buscamos entender o valor que Deus dá pelo homem nós vemos que nós fomos comprados por um preço muito alto, que o valor que Deus dá pelo homem é toda a vida e toda a morte, a trágica morte, de seu Unigênito Filho sobre a Cruz. Isto é o que Deus pensa do homem, do seu amigo, criado por Ele com o propósito de estar em Sua companhia por toda a Eternidade.

Novamente, quando nós abrimos o Evangelho na Parábola do Filho Pródigo, nós vemos este homem que tendo deixado a grandeza de sua filiação, de sua vocação, depois volta para seu pai. No caminho ele prepara a sua confissão. Ele está pronto a admitir que ele pecou contra o céu e contra seu pai. Ele está preparado a reconhecer que ele não é digno de ser chamado de filho. Mas, quando ele encontra seu pai, seu pai só lhe permite fazer metade de sua confissão, reconhecer que ele não é digno, que ele é um pecador, que ele pecou contra o céu e contra ele; mas lhe permitir um lugar no Reino em termos mais baixos daqueles de filiação, “deixe-me ser como um dos seus servos assalariados”, isto Ele não permite. Ele o interrompe no momento que o jovem rapaz reconhece sua indignidade, indigno da primitiva, original e eterna relação para a qual ele foi chamado. Ele pode ser um filho indigno; ele pode ser um filho arrependido; ele pode voltar à casa do pai, mas sempre como seu filho. Ele até pode ser indigno enquanto filho, mas ele jamais poderá tornar-se um assalariado digno.

E esta é a forma pela qual Deus olha para o homem: em termos da filiação oferecida a nós pela Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, implicada tanto no ato da Criação quanto no nosso chamado a tornarmo-nos participantes da natureza divina, a tornarmo-nos filhos por adoção do Unigênito Filho; a tornarmo-nos, nas próprias palavras de Santo Irineu de Lyon, o filho unigênito no Cristo total.

Esta é a nossa vocação. É para isto que somos chamados. E nada menos do que isto é aceitável para o Senhor. Vejam, esta visão do homem é algo que é incompatível com a pequena visão que nós muito freqüentemente adquirimos de falsos ensinamentos: a servil aproximação ao Senhor. Este é o motivo pelo qual o mundo de fora não pode receber nossa mensagem: esta mensagem tornou-se falsa, ninguém que conheça o espírito do homem dentro de si mesmo estará preparado para ser tratado como se ele fosse menos do que ele sabe que é.

O homem é o ponto de encontro entre o crente e o não crente, entre o fiel e o homem que está sem Deus, reintegrados, nós estamos preparados para um encontro e para um único pensamento. Você se lembra da passagem no Livro dos Atos no qual São Paulo nos fala da descoberta em Atenas de um altar dedicado ao deus desconhecido? Não é este deus desconhecido um homem? Nos nossos dias ele parece sê-lo mais do que nunca. Aqueles que repudiaram Deus e rejeitaram Cristo fizeram do homem seu deus, a medida de todas as coisas. E na verdade, convictos, eles estão indo de encontro à imagem falsificada que através dos tempos lhes é oferecida. Eles fizeram do homem o seu deus e eles o colocaram no altar; mas este homem que eles transformaram em seu deus, na verdade, é um ídolo. Ele é um homem bi-dimensional, um prisioneiro das duas dimensões de tempo e espaço.

Este homem, transformado em deus, não é um homem com profundidade. É um homem como nós o vemos na prática, comum, é empírica vida antes de nós descobrirmos que o homem tem uma profundidade.

Ele está dimensionado nestas duas coordenadas, ele tem volume, ele ocupa espaço, ele tem forma; ele é tangível e visível, mas ele não tem conteúdo. De certa forma alguém pode dizer que ele pertence ao mundo da geometria na qual pode-se falar de volumes, mas estes volumes são vazios; não há nada a dizer sobre o que há dentro destes volumes. O homem considerado somente em termos de espaço e tempo, neste sistema bi-dimensional, aparece para nós apenas como uma concha, uma forma exterior. Ele é uma presença e nós nos relacionamos com sua presença. Sua presença pode ser agradável ou desagradável. Não há profundidade para sondar, não há profundidade que nós possamos investigar ou mesmo perceber, porque a profundidade do homem é nada dentro do tempo e do espaço; ela não pode ser encontrada lá.

Quando as Escrituras nos dizem que o coração do homem é profundo elas falam daquela profundidade que escapa à geometria, é uma terceira dimensão, de eternidade e imensidão – aquela dimensão que é própria da dimensão de Deus. Mas quando o homem é colocado no altar para ser venerado, será apenas como um evento histórico desenvolvido no tempo e no espaço, no entanto não há nada a ser venerado nele. Ele pode ser grande; ele pode expandir sua estatura. Ele pode tornar-se um daqueles muito vistosos ídolos das antigas civilizações, mas ele nunca terá grandeza, porque grandeza não reside em tamanho. Somente se o homem tiver esta terceira dimensão, invisível, intangível, a dimensão de profundidade e de conteúdo, esta dimensão do Infinito e da Eternidade, que está mais no homem que o visível, então, mesmo na humilhação, o homem torna-se grande. Mesmo derrotado ele pode ser maior do que aquele que aparentemente o derrotou.

A revelação de Deus em Cristo, ou a dimensão absoluta da eternidade e imensidade em Cristo, está unida com a revelação da derrota e da humilhação.

Para aqueles que, no mundo pagão ou mesmo na tradição Hebraica, pensam em Deus como revestido de toda a imaginável grandiosidade do homem, que vêem em Deus a soma total de todas as suas aspirações, de todos os seus objetivos, aquilo tudo que eles admiram na criatura, a revelação de Deus em Cristo foi um insulto e uma blasfêmia, algo que eles não podiam suportar porque o grande, transcendental e vitorioso Deus que eles imaginavam e que lhes era descrito, por exemplo, com tamanha beleza e poder pelos amigos de Job, aquele Cristo aparece a eles como um Deus indefeso, desprotegido, vulnerável, derrotado e, por conseguinte, desprezível.

Mas, nEle nós achamos a decisiva grandeza porque em tudo isto, nesta aparente derrota, nós vemos a vitória do amor, um amor que investe até as últimas conseqüências, até a última possibilidade, talvez além das possibilidades, se nós pensarmos em nossos termos de referência, mas que permanece invencível e vitorioso. Ninguém, diz Cristo, tira a minha vida de mim. Eu a dou livremente. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos. Aparente derrota, perfeita vitória do amor testado até o último limite.

Este homem, Jesus Cristo, nós também colocamos sobre o altar. Ele é também a medida de todas as coisas para nós. Porque Ele tem uma qualidade muito diferente daquele pobre ídolo ao qual nós somos chamados a adorar, ao qual nós somos chamados a sacrificar, a nós mesmos e aos outros, por um mundo sem Deus. Todavia nós Cristãos podemos encontrar nos infiéis, nós podemos encontrar naqueles que procuram ou naqueles que ainda não procuram, a imagem do homem. Mas para isso nós precisamos estar preparados para afirmar que o homem é maior do que a mais selvagem imaginação do infiel. Nossa consciência do homem é maior que o orgulho daqueles que querem criar um homem tão grande quanto possível no mundo exterior, bidimensional, do qual Deus está excluído. É ainda nesta questão, na visão do homem, que nós podemos encontrar todos aqueles que afirmam que o homem tem o direito de ser grande e de ser venerado, porque nós veneramos um Deus que é homem; nós nos prostramos perante Ele; Ele é nosso Deus.

E agora eu vou ao segundo ponto da nossa meditação. O quão longe nós podemos sentir a total e definitiva solidariedade por aqueles que negam a existência da própria possibilidade desta dimensão de grandeza e profundidade? São Paulo, em seu tempo, referindo-se aos judeus, estava preparado até para ser excluído da presença de Deus, se somente isso tornasse possível para o povo de Deus ser salvo em sua totalidade. Podemos nós ir tão longe, podemos nós juntos com Cristo e não contra Ele, juntos com Deus e não contra Ele, dizer: “deixe nossa vida ser o resgate da vida do mundo”?. E quando eu digo “a vida” não quero dizer a existência temporária, mas todo o destino da humanidade. Podemos nós estar preparados a correr o risco final da solidariedade, a salvação juntos ou mesmo a perdição juntos? Um cristão não pode ter uma atitude com as coisas diferente daquela do próprio Cristo: do Deus revelado em Cristo dentro da história humana, dentro da tragédia e da glória do destino da humanidade. Vamos então lançar um olhar no tipo de solidariedade que Deus, em Cristo, oferece aos homens.

A solidariedade começa no momento da criação quando o Verbo de Deus chama todas as coisas a ser, e quando o homem é chamado, não à uma transitória e efêmera existência, não à uma experiência, ele é chamado a ser, e ser para sempre, o companheiro na eternidade do Deus vivo. Este é o momento quando Deus e o homem acham-se unidos, e se eu posso dizer esta palavra, pelo e no mesmo risco, porque é na criação que Deus toma sobre Ele não somente as conseqüências de ter criado o homem, mas também as conseqüências do que o homem fará do tempo e da eternidade. Em toda as Sagradas Escrituras nós vemos o modo como Deus nunca renuncia da responsabilidade nem da solidariedade para com o homem; como Ele suporta as várias situações que o homem cria, uma após outra; como Ele se ajusta a eles no propósito de prover a nossa salvação, que é a realização final da vocação do homem.

Mas o evento essencial, o ato essencial de solidariedade é a encarnação do Verbo de Deus. Deus torna-se homem. Ele entra na história. Pode-se dizer, Ele adquire um destino temporal; Ele se torna parte e parcela de um desenvolvimento.

Mas quão longe esta solidariedade vai? Habitualmente em nossos sermões nós sublinhamos, e também ouvimos as pessoas dizerem, Ele se torna participante de tudo que era a condição do homem exceto o pecado. E se nós perguntarmos o que são estas coisas das quais Ele torna-se participante, nos dirão que são as limitações do tempo e do espaço e as condições da vida humana, cansaço, fome, sede, sofrimento, isolamento, solidão, ódio, perseguição e no final morte na cruz. Mas quando nós dizemos isto nós contemplamos alguma coisa que é subjacente a tudo isso, algo que a mim parece mais importante que todas estas coisas. Sim, Cristo aceita, no fim de tudo, não somente a vida humana, mas também a morte humana. Mas em que isso implica? Quão longe esta solidariedade vai?

Se você voltar às Escrituras você verá que morte e pecado, isto é morte e separação de Deus, morte e perda de Deus (o que podemos chamar etimologicamente de ateísmo), estão inseparavelmente unidos.

O fato de recusar Deus está na raiz da morte. São Máximo, o Confessor em um dos seus escritos, traz isso à tona da forma mais admirável; falando da Encarnação, ele diz que no próprio momento da concepção de Cristo, mesmo na sua humanidade Cristo era imortal, porque ninguém pode nascer de uma carne humana unida com a Divindade e ser suscetível à morte. E mais, quando nós falamos da crucifixão nós estamos cientes do fato de que a morte de Cristo na Cruz era um impossível rompimento entre uma alma imortal e um corpo imortal; não era o definhar da vida; era um dramático, um impossível evento imposto, pela vontade de Deus, a um que era, igualmente e perfeitamente, ambos, Deus e homem.

Sendo assim as palavras de Cristo sobre a Cruz adquire uma significância que é mais profunda e mais apavorante que qualquer pensamento que possamos fazer delas.

Quando o Senhor diz: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?”, é o momento no qual, metafisicamente, de um modo indizível, de um modo que nós não podemos calcular (porque nós não podemos calcular nada no mistério de Cristo), Jesus pregado na Cruz perde a consciência da Sua união com Deus. Ele pode morrer, porque Ele, livre de pecado, torna-se naquele momento totalmente participante da vocação do homem, Ele também é deixado sem Deus, e não tendo Deus Ele morre. Isto é o que significa no Credo Apostólico quando diz: “Ele desceu aos infernos”. Inferno na tradição Hebraica era o lugar onde Deus não estava; Ele foi fundo na ausência de Deus e Ele morreu. Aqui está a medida da divina solidariedade conosco, não somente o derramamento de sangue, não somente a morte na Cruz, mas a própria condição dessa morte na Cruz, dessa morte conjunta com a perda de Deus.

E aqui nós vemos que não há um só ateu no mundo, quer ideológico ou, se podemos colocar dessa forma, gástrico – se você pegar as palavras de São Paulo que alguns fizeram do seu estômago o seu Deus – nenhum ateu nunca foi tão fundo no ateísmo, na perda de Deus, do modo como foi em Cristo, como experimentou e morreu disto – Ele, imortal em Sua humanidade tanto quanto em Sua divindade.

Isto está muito mais além de qualquer outra forma de solidariedade. Isto é a medida cheia do “Amor de Cristo e de Deus pelo homem o qual Deus está preparado a fazer, e a medida de quão longe Ele está preparado a ir em Sua unidade conosco”. Mas quando novamente pensamos no homem, naqueles homens que não são da Igreja, naqueles homens que estão fora dela, que se voltaram contra ela por nossa causa, porque o nome de Deus foi blasfemado entre as nações por nossa causa, então nós podemos ver quão longe nós temos coragem de ir, e quão grande nossa coragem precisa ser.

Nossa solidariedade precisa ser primeiro com Cristo, e Nele, com todos os homens, até o fim, à inteira medida da vida e morte. Somente então, se nós aceitarmos isto, nós podemos, cada um de nós, e a congregação de todo o povo fiel, o povo de Deus, crescendo dentro daquilo que estava em Cristo e dentro daquilo que estava nos Apóstolos, dentro de um grupo de pessoas cuja visão era maior que a visão do mundo, cujo objetivo era maior que o objetivo do mundo, realmente a Igreja no começo podia conter tudo isso, podia ser participante de todas aquelas coisas que são as condições do homem, e, portanto, podia conduzir a humanidade à salvação. Mas este não é o estado no qual nós estamos.

Nós crescemos pouco porque nós transformamos nosso Deus em um ídolo e nós mesmos em escravos. Nós temos que reconquistar o senso de grandeza que Deus revelou em Cristo e a grandeza do homem revelado por Ele. E então o mundo pode começar a acreditar e nós podemos nos tornar cooperadores de Deus para a salvação de todas as coisas. Amém.

Metropolita Anthony de Sourozh
“Sermons and Talks”
http://www.metropolit-anthony.orc.ru/
Traduzido por Sr. Dom Ambrósio, Bispo Ortodoxo do Refife
Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polônia
Boletim Interparoquial

sexta-feira, 9 de maio de 2008

OrtoFoto

Romênia
autor: Ovidiu-Mihail Coşerea

"Alguns Aspectos da Doutrina da Criação"

Eu gostaria, se eu puder, de tratar de algumas categorias que pertencem ao mistério e ao fato da criação.

Primeiramente, o fato de ser criado implica que nós fomos desejados por Deus e isto primeiramente, a partir do primeiro momento, estabelece entre nós e Deus, que nos criou, uma relação.

Deus não tinha necessidade de colocar face a face com Ele mesmo nenhum outro ser. E, contudo, por um ato da vontade Ele nos ordena ser, e Ele envolve não somente nosso destino, mas se eu posso colocar dessa forma, Seu destino, porque cada homem chamado do nada à existência torna-se uma presença para sempre, uma companhia de Deus por toda a eternidade.

O fato de que nós somos desejados por Deus é essencial porque aí pousa toda nossa segurança, toda nossa esperança, toda a nossa alegria de viver.

Nós não fomos criados sem um motivo; nós não somos necessários a Deus, mas nós não somos um acidente do ser. Deus decidiu chamar-nos ao ser, e isto já é um germinal e incipiente modo de relação de amor – e quando eu digo um germinal e incipiente modo não é porque o amor de Deus é incipiente, mas porque nós só conseguimos progredir a partir da existência para a realidade do ser, da vida para o mistério do amor que é mais que uma simples comunhão com Deus – que é estar partilhando a vida de Deus, tornando-se participantes da natureza divina. Então, na base de nossa existência há uma oferta de Deus, uma oferta de companheirismo, de amor e para sempre.

É este o único modo no qual nós somos relacionados a Deus? Antes de tudo deixe-me dizer que nós não nos relacionamos com Deus de qualquer modo genérico: nós não temos nenhuma raiz n’Ele pela natureza; nós não somos da Sua substância; nós não somos necessários à Sua existência, e o ato da criação como ele aparece na Bíblia é criação saindo do nada.

Agora, este “nada”, eu acredito, poderia ser entendido um pouco melhor do que usualmente é. Quando nós pensamos no nada, muito freqüentemente imaginamos Deus cercado pelo nada – talvez não você que é teologicamente mais desenvolvido – mas grande parte das pessoas, se você perguntar-lhes concretamente como eles entendem isto, dirão que eles vêm Deus em Seu trono, então um vasto espaço vazio do qual podem emergir pessoas, coisas, etc..., ao comando de Deus. Isto não é o “nada”, porque não existe uma coisa como Deus no centro e nada em redor e então o nada sendo povoado gradualmente por toda sorte de coisas! Nada não é uma coisa rarefazendo-se de existência e de matéria que torna-se imperceptível; isto não é “nada”, isto é “nulidade”. Não é “nada” como ausência radical – é “nada” em um comparativo e relativo senso de falta de concretude, de densidade, de presença; mas isto ainda é uma forma de presença. Isto não é o nada do qual nós fomos criados. O nada do qual a Bíblia fala é uma radical ausência, uma situação em que a criatura que agora existe, simplesmente não era e não poderia ser sem que Deus escolhesse comandá-la à ser. Antes de toda a criação há a intacta plenitude, a intacta abundância da presença divina, auto-suficiente e auto-abrangente. O ato da criação coloca alguma coisa que não era de forma alguma e que nunca teria se desenvolvido pelo seu próprio poder. Isto significa duas coisas: por um lado que nós dependemos absolutamente de Deus e por outro lado que sendo ou não sendo necessários a Deus nós somos independentes d’Ele de um modo estranho. Isto eu quero elucidar um pouco mais.

Deus não tem nenhuma necessidade de nós; se Ele nos cria, é um ato da livre vontade e livre amor; isto é que nos dá concretude e realidade. Se nós fôssemos necessários a Deus, por mais valiosos que nós fôssemos, nós seríamos somente uma paupérrima sombra de Sua existência. Se nós fôssemos alguma sorte de emanação de Deus, por mais gloriosa emanação, Deus seria infinitamente mais glorioso e mesmo a nossa luz seria nada mais do que uma sombra. Se nós fôssemos conectados a Deus mesmo por necessidade ou por um elo genérico, nós não seríamos nada comparados com nossa origem. O que faz a nossa grandiosidade – porque o homem é grande – não é a nossa origem na natureza, é o amor de Deus que chama-nos ao ser e que nos apavora. Isto é verdade, mesmo nas relações humanas. A pessoa adquire plenitude do ser, plenitude de presença, quando ela é amada. Falando de nós, tendo em vista Deus, nós somos nada; e agora, o valor que Deus nos transmite é a vida, o sofrimento e a morte de Seu Filho unigênito. Este é nosso valor real. Mas este valor real não está enraizado no que nós somos, mas no amor de Deus por nós. Nós somos merecedores disso tudo porque nós somos muitíssimo amados e por isso Deus deu Seu Filho unigênito com a finalidade de que o mundo possa ser salvo. E então nossa situação é absolutamente segura e totalmente precária. Tanto quanto nós estamos em nós mesmos, nós dificilmente sairemos da não-existência e a nossa verdadeira existência é precária, transitória. Tanto quanto nós somos amados por Deus, nós não podemos cair de volta ao não-ser porque nós somos chamados à eterna companhia no interior do amor de Deus. Se tivermos em conta nós mesmos, então, nós podemos tanto achar imensa inspiração e alegria neste fato de não ter raízes de necessidades em Deus quanto nós podemos nos sentir extremamente deprimidos.

Lembrem-se da primeira Bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito”. Pobreza nós possuímos por natureza. Nós não temos nada que seja nosso. Nós fomos chamados do nada e nós não temos nenhuma raiz, mesmo no nada, porque nada é “nada”. Foi-nos dado a vida que já é participação em alguma coisa dinâmica e concreta, que existe somente em Deus. Nós somos dotados de um corpo, com um coração, com uma mente, com uma vontade, com inumeráveis possibilidades, e agora, quando nós levamos isso em conta, nós estamos em posse de nada. Nós não podemos proteger nada do que possuímos contra a decadência ou desaparecimento. Nossa vida caminha para um final e por mais que nos apeguemos a ela, nós não podemos retê-la. Nossa saúde está a mercê do mais frágil acidente. A mente mais grandiosa pode ser apagada por um minúsculo vaso rompendo dentro do seu cérebro. No momento quando nós desejamos dar a alguém toda nossa simpatia, todo nosso amor, todo nosso entendimento e nosso interesse, nós descobrimos que nosso coração é frio e incapaz de agitar-se. Nós desejamos fazer o bem mas fazemos o mal. E então, tudo que nós somos, ou que nós imaginamos que somos, nós somos somente de um modo emprestado, como um presente. Nada do que nós somos é nosso. Nada do que possuímos é nosso. E se nós pararmos nesse ponto, que é o próprio ponto da criação tal qual ele era, continuando por toda nossa vida e por todo destino da humanidade, e do mundo criado, nós podemos chegar ao absoluto desespero. O que há? O que sou eu? Quanto do nada é meu? Quanto eu estou à mercê de tudo que me circunda, tudo que há dentro de mim, e Deus acima!

E agora, o Senhor diz: “Bem-aventurados os pobres em espírito”, porque nós podemos entender esta pobreza em outros termos, que são os termos da alegria e de significação. Se nós não possuímos o que temos, então tudo quanto nós temos a cada momento, a cada segundo da nossa vida, é um presente e um sinal da divina solicitude e divino amor. E então, a própria precariedade de nossas posses torna-se a mais preciosa posse que nós temos. Se eu pudesse dizer que meu corpo, minha alma, meu coração, minha mente, qualquer coisa que eu tenho, ou qualquer coisa que eu sou, isto seria retirado da relação entre Deus e eu. Se eu sou consciente de que nada é meu, e agora, olhe: Eu vivo! Eu sou! Eu penso! Eu sinto! Eu tenho um corpo e uma alma! Eu tenho um ambiente e uma vocação! E tudo isto é um concreto ato de Deus, então nós podemos dizer: minha alegria é plena e realizada. Então, realmente, pobreza torna-se abençoada – porque pobreza, unida com esta riqueza de destino e de ser, significa que Deus continua a amar ativamente, concretamente, inteligentemente, de um elaborado e sutil modo.

Esta é uma das coisas essenciais sobre nossa criação, ser desejado, e ainda nossa criação do nada do qual nós continuamos possuir esta qualidade: nada é nosso. Nós existimos somente, como Filarete de Moscou o coloca no século XIX, como pessoas apoiadas na vontade de Deus, entre dois imensos abismos. Abaixo o abismo do nada do qual a palavra criativa de Deus chamou-nos e acima, em torno, na verdade todos os lugares em torno de nós, o abismo da divina realidade no qual nós já estamos no momento em que nós somos chamados ao ser e no qual nós somos chamados a crescer mais e mais profundamente até nós verdadeiramente e realmente tornarmo-nos participantes da divina natureza, deuses pela participação, filhos do Pai Eterno. Esta é a primeira coisa que eu quero mencionar.

O segundo ponto é que juntos com a primeira criatura que aparece, junto com o primeiro evento que inicia um encadeamento de eventos, de mudanças, de devir – o tempo aparece. E tempo é uma das categorias essenciais da história e da vida humana. Tempo e criação são correlativos; tempo e vir a ser são correlativos, e tempo precisa ser salvo e redimido. Esta é uma categoria preciosa: não é simplesmente uma estrada na qual nós andamos, que não tem sentido. Tem sentido porque tempo e tornar-se são inseparavelmente um. Agora, nós somos chamados a alguma coisa que cresce mais que o tempo e suplanta o tempo. Isto é eternidade. Mas nós precisamos estar conscientes de que a eternidade não é uma linha final do tempo; não é tempo que não tem fim; não é tempo que terá se expandido a uma medida que não é a nossa medida. Ela é alguma coisa profundamente diferente. Você se lembrará de Cristo parado face a face com Pilatos: “O que é verdade?” Disse Pilatos; e Cristo não deu resposta, porque para Pilatos Ele não tinha resposta a dar. Ele deu uma resposta a Seus discípulos quando Ele disse, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. A verdade não é alguma coisa – ela é Uma. Nos mesmos termos pode-se dizer que eternidade não é alguma coisa – ela é Uma.

Nós somos chamados ao abismo da comunhão com Deus que é a vida eterna. Cristo disse isto – que a vida eterna é conhecer Deus. Não é uma categoria do ser, uma nova forma de caminho, uma nova dimensão do tempo. É Deus Ele Mesmo e a divina realidade compartilhada e vivida. Em certo sentido alguém poderia dizer que o tempo, como nós o imaginamos, é alguma coisa que se desenvolve e na qual as coisas mudam e movem-se, não é destruído pela eternidade, mas torna-se profundamente diferente. Se nós imaginarmos que vida eterna é um crescimento indo para dentro da profundidade de Deus, um crescimento desdobrado do mistério de Deus perante nós, um crescimento partilhado neste mistério, objetivamente falando, tempo é como movimento contínuo. Mas tempo no sentido de um momento decaído desaparece na comunhão que é um eterno “agora”. Da mesma forma em que alguém pode estar em movimento e ainda em completa imobilidade, tempo pode desaparecer em um modo, enquanto continua em outro.

Por último, a categoria da dependência e da liberdade. Nós dependemos de Deus e nós somos livres. Hoje em dia, eu me impressiono mais e mais pelo fato de que nossa noção de liberdade parece ser tão contraditória ou, muito freqüentemente, tão ingênua. Quando uma pessoa diz a uma outra: “Porque você não atinge o que você quer? Porque você não se torna aquilo que você é chamada a tornar-se? Você não é livre para escolher?” Esta pessoa pergunta algo que é infinitamente ingênuo e irreal. Não é suficiente querer ou desejar. Por outro lado, se nós falamos do ser determinado e incapaz de tornar-se ou de fazer, nós estamos também menosprezando algo de essencialmente verdadeiro.

A primeira coisa que eu acredito que nós precisamos nos lembrar aqui é que a liberdade do ser criado não é idêntica à liberdade de Deus, se nós falamos da presente situação, antes da realização de todas as coisas. A liberdade de Deus é incondicional. Ele é e Ele é Liberdade em Si mesmo, bem como Ele é Eternidade, e Verdade, e Vida, e Realidade. Nossa liberdade é uma liberdade condicionada: uma liberdade que é tão condicionada que algumas vezes parece não existir. A primeira limitação está no próprio começo da criação. Sem o nosso acordo ou consentimento Deus mandou-nos ser, e nós não somos livres a não ser. Nós não podemos retornar ao nada. Danação não é o retorno ao nada. Cair nas trevas exteriores não é retornar ao nada. É continuar a existir, ao mesmo tempo em que deixa de estar vivo. O ato da criação, o comando dado por Deus de que nós deveríamos ser, é a primeira limitação da nossa liberdade e não nos permite andar para trás ou para fora disto. A liberdade nos é dada. Agora nós sabemos que no fim de nossa vida privada e individual, bem como no fim da história quando todas as coisas estiverem consumadas, nós estaremos sob julgamento. Nós não somos livres para fazer o que Ivan Karamazov queria fazer: devolver a Deus seu “ticket” para a vida e dizer: “Eu rescindo o contrato e eu vou”. Nós não somos livres para dizer a Deus: “A vida que Você imaginou, planejou e desejou não é a vida que eu quero; fique com ela que eu vou seguir meu caminho”, porque não há caminho. “Eu sou o Caminho”, e não há outro. Há trevas exteriores, mas não há caminho dentro dessas trevas. Então novamente, nossa liberdade é limitada (na própria conclusão das coisas) – no próprio fim das coisas pelo fato de que o que quer que nós pensemos do ato da criação de Deus, nós permaneceremos e seremos responsáveis, ambos pelo que nós tivermos feito na vida e, se você quiser colocar deste modo, pela decisão de Deus de nos criar. Nós enfrentamos isso: há duas forças, Deus e nós inseparáveis, e não há caminho fora disto.

Em terceiro lugar, tudo que é a nossa vida, nossa própria existência, nosso corpo, alma e o resto, mesmo as circunstâncias que nos cercam, na forma de outras criaturas, são também elementos dados por Deus. Toda esta linha entre o comando de Deus “Seja” e a pergunta de Deus, “O que você fez da sua existência?” Também é determinada, dentro de certos limites. E então, se eu colocar isto da forma em que eu coloquei certa vez em uma transmissão na Rússia, nós nos encontraremos como um besouro num copo. Em todos os lados há limitação. Há um fundo do copo, há um lado e outro. Onde está nossa liberdade, então? Mover-se desta forma, isto é liberdade? Dificilmente, mesmo se o copo é grande, mesmo se você não puder imaginar seus limites. É limitado, e não há liberdade mesmo se houver um possível limite, mesmo que longe. Alguém pode consolar outro dizendo o que muitas vezes se diz, que liberdade é a capacidade de escolher, de escolher direito ou esquerdo, para cima ou para baixo. Isto é liberdade? Isto é a liberdade de um ser normal? Isto é liberdade real, estar entre o bem, o mal e hesitar? É normal, saudável, são, estar entre morte, vida e hesitar? Esta é a marca de um ser intacto, ver Deus e Satã e não saber qual deles escolher? Esta forma de liberdade não é liberdade, essencialmente. Esta é a liberdade da criatura decaída que não sabe como ir diretamente à Verdade, à Vida, a Deus, e hesita. A liberdade de escolha já é uma marca da queda. Não é liberdade.

Agora deixe-me dizer rapidamente alguma coisa sobre liberdade trazendo à tona três palavras que, eu acredito, nos dá uma saída da determinação, uma saída desta prisão da vida. A primeira é a palavra latina libertas, liberdade. A palavra significa o estado de uma criança nascida livre em uma família livre. O liber é uma criança nascida livre em contraste com o puer, o pequeno escravo, o que nas colônias chamam “um rapaz”, apesar de sua idade. No interior desta relação de uma família de pessoas livres e uma criança nascida livre, a criança é educada para ser livre, estar na posse de si e de bens. E a vontade do seu pai não é uma compulsão externa, uma limitação, é o limite na direção que tende à expansão de todas as habilidades e capacidades da criança. Ele é ensinado a ser livre, ele mesmo. Isto é verdade em nossa relação com Deus.

Deus não nos criou escravizados. Ele é A Suprema Liberdade que nos chama a ser tão livres quanto Ele é, ensinando-nos como alguém é livre. Originalmente, no Pacto com Adão, um pacto de amor mútuo e confiança, mais tarde, por vários pactos que limitam a arbitrária e destruída liberdade do homem com o objetivo de dar à liberdade um novo formato e uma nova direção. Khomyakov, um escritor russo do século XIX, diz: “A vontade de Deus é liberdade para os anjos e os santos. Esta é a lei para aqueles que estão no processo de formação. Esta é a maldição dos demônios, a mesma vontade de Deus”.

Metropolita Anthony de Sourozh
Boletim Interparoquial

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Santo Apóstolo e Evangelista, Marcos (+ 63) - 25 abr/08 mai


Carismático evangelista de Cristo, judeu de uma tribo de Levi, inicialmente João depois tomou um nome romano, criador do gênero literário Evangelho como autor do segundo dos evangelhos sinóticos e considerado fundador da igreja do Egito e da cidade italiana de Veneza.

A principal fonte de informações sobre sua vida está no livro Atos dos Apóstolos. Filho de Maria de Jerusalém e primo de Barnabé, não pertenceu ao grupo dos doze apóstolos originais. Foi convertido à fé cristã depois da morte de Jesus e batizado pelo próprio Pedro, que costumava freqüentar a casa de seus pais, juntamente com Maria mãe de Jesus e outros cristãos primitivos.

Assim já fazia parte de uma das primeiras famílias cristãs de Jerusalém, quando Paulo e Barnabé chegaram a Jerusalém (44) trazendo os auxílios da Igreja de Antioquia, na hoje Turquia. Depois acompanhou Barnabé e Paulo na volta à Antióquia, em viagem missionária, onde atuou como auxiliar de Paulo, mas quando chegaram a Perge, na Panfília, desentendeu-se com o apóstolo, deixou-os e voltou para Jerusalém.

Depois, com Barnabé, embarcou para à ilha de Chipre (50), na sua primeira viagem apostólica, onde fundou Comunidades e depois foi para Roma, visitar e vencer suas mágoas com Paulo, prisioneiro naquela cidade. Seu nome aparece nas epístolas de Paulo, que se refere a ele como um de seus colaboradores que enviavam saudações de Roma.

Em Roma, trabalhou com Pedro durante um tempo considerável do seu ministério, gozando da sua íntima amizade, e auxiliando-o como seu intérprete ou secretário com Pedro, pois este, dirigindo-se aos fiéis do Ponto, da Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, saúda-as em nome do evangelista, a quem afetuosamente chamava de filho.

Neste paríodo começou a escrever seu evangelho (56) com base nas pregações de Pedro, sendo o primeiro a tratar sobre a vida de Jesus, cronologicamente. É possível que tenha deixado Roma antes da perseguição de Nero (64), pois depois (67) o apóstolo de Tarso, prisioneiro pela segunda vez, escrevia a Timóteo pedindo-lhe que levasse consigo, de Éfeso para Roma, o seu discípulo e colaborador, já que este lhe era muito útil em seu ministério. Passou difundindo seu evangelho por Chipre, na Ásia Menor e fixou-se no Egito, na cidade de Alexandria.

Segundo a tradição, na cidade egípcia fundou e foi o primeiro Patriarca da Igreja Copta Egipícia. Após os martírios (67) de Pedro e Paulo, ele também foi martirizado em Alexandria, no dia da Páscoa, enquanto celebrava o santo sacrifício da missa, e teve seu corpo arrastado por uma parelha de cavalos, aos 54 anos. Seu Evangelho, que teria sido concluído antes de sair de Roma (64), destinou-se aos cristãos provenientes do paganismo e tem um estilo simples e vigoroso e com seus 661versículos.

É o mais curto se comparado aos demais, mas traz uma visão toda especial, de quem conviveu e acompanhou a paixão de Jesus quando ainda era criança. Contou com maestria a vida do divino personagem que sequer chegou a conhecer, conseguindo narrar os milagres de Jesus de forma mais simples e clara. No século II, o bispo Pápias de Hierápolis, Anatólia, afirmou que ele teria sido intérprete de Pedro. Embora sejam parcas as informações sobre o evangélico, é indiscutível sua importante participação nos primeiros tempos da igreja cristã. Na Itália seu nome está ligado à cidade de Veneza, para onde mercadores venezianos provenientes de Alexandria, transportaram o que diziam ser as suas relíquias (828) e a cidade veneziana o tomou como padroeiro desde então.

Seu símbolo como evangelista é o leão e a Santa Igreja Ortodoxa festeja seu dia em 25 de abril/ 08 de maio, data em que o evangelista teria sido martirizado. Alguns estudiosos defendem que a casa onde se celebrou a Última Ceia, quando Jesus instituiu a eucaristia, era a de seus pais e que o Jardim de Getsêmani pertencia a sua família. E que, também, foi naquela casa que os apóstolos receberam a visita do Espírito Santo, após a ressurreição.

Pelas orações do Santo Apóstolo e Evangelista Marcos, ó Cristo nosso Deus, tem piedade de nós!

quarta-feira, 7 de maio de 2008

OrtoFoto

Egito
autor: fr.Seraphim

"A Beleza como Revelação de Deus e Oferenda do homem"

A Beleza do Culto:

A Liturgia da Igreja Ortodoxa é inteiramente um ícone da liturgia celeste, uma imagem do século futuro. Tudo nela é utilizado a fim de revelar ao coração do homem a beleza do Reino de Deus. Tanto em grego como em hebraico, a mesma palavra significa por vezes o Belo e o Bom.

Para compreender isto, o homem deve adquirir este espírito de infância pelo qual nos convida Cristo, não na ingenuidade ou de forma amaneirada, mas nesta faculdade insubstituível de maravilhamento pela qual Deus deixa-se descobrir no mais profundo de nós mesmos. Somente os corações puros, simples e humildes diante de Deus podem alcançar esta beleza na qual Deus nos mostra a Sua face, no esplendor radiante de Seu amor.

O ensinamento da hinografia, a riqueza dos textos litúrgicos, tal como o conjunto daquilo que podemos chamar de estética litúrgica, não dirigem-se unicamente à razão. Eles falam também diretamente ao coração do homem. Desta forma, a liturgia é feita para englobar o homem, alimenta-lo, ilumina-lo. O fiel que participa à oração da igreja não vem a se concentrar intelectualmente sobre um ensinamento petrificado, mas vem para impregnar-se da beleza da liturgia, deixar-se mergulhar na sua atmosfera, a fim de nutrir-se, alma, coração e também espírito. Repetimos que é necessário estar na liturgia tal como uma criança que saboreia as maravilhas do mundo, o que significa uma atitude pacífica, descontraída, ainda que concentrada.

É por isso que os ofícios geralmente longos não são vividos como uma contradição, mas como uma vida na vida, onde o tempo é suspenso, em um antegozo do reino, necessitando de uma ascese, no esforço de estar em pé e atento.

Na liturgia, a beleza não é somente um ícone da glória de Deus. Ou ainda, ela só é este ícone porque é consagrada a Deus. Por “consagrada”, é necessário compreender literalmente “oferta a Deus como uma oferenda de sacrifício”.
Ao seio da liturgia, o homem é chamado a aportar a Deus tudo aquilo que compõe a sua vida, tudo aquilo que a torna preciosa, em definitivo, tudo aquilo que constitui um dom de Deus e que Lhe é trazido em ação de graças. Ora, o senso do belo é certamente a marca mais profunda da imagem divina no homem. Ao desenvolver a beleza litúrgica em todos os seus aspectos, o homem oferece a Deus não somente os talentos que Deus nele pôs para os realizar, mas também esta faculdade inestimável de poder maravilhar-se diante da beleza modulada pelo homem, para torná-la em ícone do reino.

A Igreja : Local Sagrado

O edifício da igreja tem uma arquitetura que responde às necessidades da celebração segundo o rito da Igreja Ortodoxa. O que diferencia a igreja de todo e qualquer outro lugar, é o altar. É sobre o altar que se realiza o mistério da Eucaristia, o cume de todas as celebrações da Igreja, onde o pão e o vinho tornam-se o Corpo e o Sangue de Cristo. Ele é assimilado no sacramento ao túmulo de Cristo, onde teve lugar a Ressurreição de Seu corpo. O espaço que rodeia o altar, o santuário, é delimitado por uma divisão que suporta ícones, a iconostase. No centro desta divisão abre-se uma porta. Encontramos geralmente o ícone de Cristo à direita, e aquele da Mãe de Deus, à esquerda. Somente os celebrantes franqueiam esta porta. Da mesma forma, somente aqueles que são chamados ao serviço litúrgico entram no santuário. Esta disposição do altar no santuário e da iconostase caracteriza todas as igrejas ortodoxas, (mesmo se o lugar de culto não passe de um lugar improvisado). À esquerda do altar, uma pequena mesa serve à preparação dos santos dons: a protese (proskomídia). Antes do início da celebração, o cálice e a patena (disco sobre o qual vem a repousar a prósfora durante a celebração) são dispostos sobre a mesa da protese. O celebrante enche o cálice de vinho e de água e retira, dispondo-a sobre a patena, a parte central (e especial) da prósfora, (esta parte chamamos de cordeiro o qual será imolado pela remissão dos nossos pecados) que tornar-se-á, pela Epiclesis, o Corpo de Cristo.
No momento do ofertório, durante a celebração da eucaristia, o cálice e a patena (disco) são solenemente levados em procissão à partir da protese até o altar. Os celebrantes saem do santuário por uma porta lateral, vêm ao centro da igreja e em seguida entram no santuário fazendo-os pousar sobre o altar.
À direita do altar encontra-se o diaconicon ou sala de paramentação, onde são arrumados os ornamentos e os objetos litúrgicos.

Fora do santuário, os fiéis, o coro e os chantres permanecem na nave. É na nave que a comunhão é distribuída aos fiéis. É lá também que acontece a maior parte dos sacramentos; à exceção do sacramento da ordenação, que tem lugar no altar, e a unção dos enfermos que pode ser feita na casa do enfermo ou no hospital.

O nartéx é um vestíbulo entre a nave e o exterior onde permanecem os penitentes. Os monges, que são penitentes antes de qualquer coisa, aí dizem os ofícios tipicamente monásticos. Aquando dos ofícios litúrgicos solenes, aí pronunciamos uma grande oração chamada litia, destinada à intercessão pelo mundo, a fim de o preservar das calamidades e das catástrofes anuais.

Ao exterior encontramos enfim um peristilo, um gênero de pátio com uma fonte. Às vezes estas duas partes, o nártex e o peristilo são encontradas somente nas igrejas construídas. Quando um simples local é improvisado em vias de celebração, contentamo-nos, geralmente, com o santuário, a iconostase e a nave.

Em uma igreja construída, a elevação em altura é realizada sempre em harmonia com o plano ao solo, de maneira que as proporções sejam agradáveis ao homem, para que ele possa sentir-se ele próprio, inspirando-lhe, em tudo, um sentimento de elevação de espírito. A harmonia das proporções cria uma impressão de paz e de bem-estar, em quaisquer que sejam as medidas do edifício.É desta forma, que a igreja de Santa Sofia de Constantinopla, um dos mais maravilhosos exemplos da arquitetura litúrgica ortodoxa, mas também uma das maiores basílicas da cristandade, não engendra sensação alguma de desarmonia, ao contrário de muitas catedrais de estilo gótico. A cúpula hemisférica desta basílica reúne o espaço interior, reproduzindo a harmonia do cosmos recapitulada na igreja. Esta cúpula encontra-se na maioria das igrejas ortodoxas, ultrapassando a nave. Um afresco representando Cristo Pantocrator (Todo-Poderoso) que quer dizer “Soberano do Universo” nela é pintado.

A maioria das paredes são também ornadas de afrescos pintados segundo a mesma técnica representativa dos ícones; eles representam as cenas da vida de Cristo e das figuras de santos. O fiel encontra-se, desta forma, “ambientado em uma ordem de testemunhas”. Esta onipresença da santidade e do mistério da obra de Cristo tem a grande vantagem de criar pela sua profusão um clima psicológico particularmente propício à oração e à paz interior. As cores utilizadas nestes afrescos combinam-se ao jogo de luzes particularmente estudado na construção do edifício, as quais contribuem também à criação do ambiente inexplicável da liturgia ortodoxa.

O Ícone: Janela para o Reino

A veneração dos ícones é bem conhecida do grande público à propósito da ortodoxia. O mistério do ícone é de ordem sacramental: o sacramento da presença daquele que é representado. Uma foto de alguém querido para nós traz-nos à memória a sua presença, e fazendo a memória dele, nós nos sentimos próximos, pelo menos sobre o plano afetivo. O ícone isto desenvolve à medida do mistério da liturgia. Pois o ícone não tem por objeto lisonjear nossos sentimentos pela sua beleza, mas nos permite de orar em presença daquele que está representado, seja face à face direta com Cristo, a Mãe de Deus ou dos Santos. Venerado pelos fiéis, incensado pelos celebrantes, levado em procissão, o ícone está integrado à liturgia da igreja. À cada festa litúrgica corresponde um ícone em expressão visual, tal como os cânticos litúrgicos são a expressão verbal.

Fazendo-se carne habitando entre os homens, Deus “saiu” de Sua transcendência a fim de humilhar-Se e tornar-Se assim visível e descritível sob os traços de um homem, a própria pessoa do Filho de Deus. E esta face não é anônima, ela traz um nome, aquele de Jesus, o Salvador e o Senhor do mundo, Deus verdadeiro e homem verdadeiro (símbolo da fé de Nicéia- Constantinopla).

Antes do fato inaudito da Encarnação, nenhuma representação era possível, pois que a revelação de Deus não estava ainda realizada com uma tal clareza, sem uma tal plenitude : a face de Deus não era ainda mostrada. Quem viu o Filho viu o Pai (Jo.14,9), mas também o espírito que repousa sobre Ele. Em efeito, nenhuma representação do Pai e do Espírito é possível. O único ícone da Trindade que é aceite pela ortodoxia é um ícone simbólico: aquele dos três anjos acolhidos por Abraão nos carvalhais de Manre.

O ícone não é o próprio Cristo, mas a Sua imagem, imagem pela qual Ele torna-Se misteriosamente presente. O ícone é um meio, um suporte da oração e um sustento do amor. A veneração que a ele é feita é uma veneração relativa, ela não é dirigida ao objeto em si próprio, mas aquele que nele está representado. No lugar de ser uma realidade fechada em si mesma, tal como seria um ídolo, ele é uma “janela para o reino”, um meio de acesso ao invisível. É por isso que ele reponde a cânones e à uma estética que lhe são próprias. Ao inverso de um retrato ou de uma foto, o ícone descreve de maneira dinâmica um estado que não é deste mundo: aquele da natureza humana transfigurada, tal como ela apareceu aos discípulos aquando da transfiguração de Cristo no Monte Tabor; mas também a todos aqueles que viram Cristo ressuscitado. Nos ícones, qualquer que seja o momento da vida da existência de Cristo ou dos santos representados, a carne já está ressuscitada, iluminada ao interior por uma luz que não é deste mundo. É por esta razão que as formas, a perspectiva, as cores, o sentido da luz e a ausência de sombras no ícone trazem-lhe este aspecto próprio, totalmente estranho e incomum à qualquer arte figurada, que só busca imitar a realidade visível.

O Canto : Louvor de Deus

O canto litúrgico é complementar ao ícone e ocupa um grande espaço na liturgia. O homem é particularmente sensível aquilo que ouve, e a música exerce nele uma influência muito grande, tanto em seu espírito como em seu corpo. A igreja, ao tomar os usos do antigo testamento (os salmos, por exemplo, são antes de tudo, orações cantadas) sempre utilizou o canto em suas celebrações. Ela criou assim um universo sonoro apto a elevar o espírito do homem pacificando-o, para o abrir à contemplação dos mistérios celebrados.

O canto litúrgico responde à exigências precisas, em todos os pontos comparáveis àquelas que governam a iconografia. Ele não visa exprimir sentimentos ou emoções humanas; tal como um ícone ele tem por objetivo abrir o espírito do homem à presença de Deus, fazendo-o esquecer os laços deste mundo para elevar-se ao seu criador. O uso de instrumentos musicais é interditado pela igreja ortodoxa. Somente a voz humana é apta a louvar o Senhor.

O canto cria uma harmonia de sons que se une à harmonia das cores e das formas no seio do edifício litúrgico. O aspecto rítmico é também fortemente importante. O ritmo do canto deve combinar-se aquele da celebração, aos gestos do celebrante, sublinhando os momentos importantes ou criando tempos de transição necessários ao desenvolvimento da liturgia. Este aspecto rítmico é muito importante, pois contribui à criação da atmosfera particular da liturgia. Sensível aos sons e às cores, o homem o é igualmente aos ritmos. O ritmo litúrgico tende, antes de tudo, a pacificar os fiéis, chamando-os a ingressarem neles próprios a fim de participarem o mais profundamente possível à oração comum.

Este sentido de ritmo e de melodia encontram-se, da mesma forma, na leitura dos textos bíblicos, tal como os salmos, a epístola e o evangelho. Estes são lidos segundo uma maneira própria, sem jamais deixar lugar à mínima emoção.

O leitor, tal como o chantre, o celebrante ou o iconógrafo não buscam expressar seus próprios sentimentos. Mas, pelo contrário, abandonam sua individualidade para fazer lugar à inspiração do Espírito, deixando livre curso à palavra de Deus. A leitura deve somente entrar no coração dos fiéis sem que a personalidade do leitor a interfira, da mesma maneira, o iconógrafo deve apagar-se o máximo possível, a fim de representar de uma forma plena a expressão do reino futuro.

Boletim Interparoquial, 2003

terça-feira, 6 de maio de 2008

Santo Megalomártir, Jorge o Vitorioso da Nicomédia (+303) - 23 abr/06 mai


Estamos no ano 303, sendo Imperador dos romanos, Dioclesiano. Comprovando o sucesso da sua política, quer ao interior do império, quer face aos inimigos do exterior, em breve se apressou a cultuar com grande cuidado o que ele chamava de “respeito para com a divindade”.

Oferecia sem cessar numerosas vítimas aos seus deuses, sobretudo ao “deus” Apolo, em virtude da sua habilidade em predizer o futuro. Consultando um dia este deus (Apolo) sobre um assunto respeitante ao governo do Estado, obteve como resposta algo que o deixara perplexo: “os justos que estão na terra impedem-me de dizer a verdade”.

Consternado com o que lhe havia sido respondido, o infeliz imperador quis conhecer os justos que estavam sobre a terra. Um dos sacerdotes ao serviço de Apolo informou-o logo de seguida que os cristãos eram o motivo da resposta do mesmo deus. A partir desta data ficou o augusto príncipe mais enfurecido do que nunca, desencadeando aquela que viria a ser conhecida com a mais terrível e mais cruel de todas as perseguições que até então haviam sido movidas contra os cristãos.

Sabendo do assustador crescimento do número de cristãos no império e do desdém e desprezo que estes manifestavam diante das leis injustas que tinha promulgado, ordenou que todos os governadores e procuradores do Oriente se apressassem a reunir-se consigo na capital do império.

Nesta assembléia foram tomadas medidas drásticas e deliberações mais radicais com o intuito de reprimir, e mesmo aniquilar, a propagação do cristianismo nos territórios do império. Não satisfeito com o resultado obtido, mandou que fossem convocadas duas novas assembléias para ajuizarem a eficácia das decisões anteriormente aceites.

É precisamente na segunda destas duas assembléias que São Jorge vai estar presente. General dos exércitos imperiais, nascera na Capadócia, filho de pais cristãos de ilustre estirpe. Ainda menino, tiveram por bem os seus pais educá-lo segundo os princípios da Igreja de Cristo, introduzindo no seu dócil coração a piedade, a caridade e a compaixão que um dia viriam ser postas à prova.

Seu pai, também ele oficial e comandante de várias legiões, perece em combate, altura em que São Jorge se dirige para a Palestina, província donde era originária sua mãe. Em breve era nomeado tribuno militar (representante dos exércitos do senado), posto que lhe granjeou, pela sua coragem no campo de batalha, a fama de um soldado intrépido.

Desconhecendo a fé de São Jorge, Dioclesiano fá-lo comitês (companheiro). Presenciando a morte de sua mãe, após a partida dessa para o reino dos céus, toma todos os seus bens e vai encontrar-se com o imperador.

Desde o primeiro dia da assembléia, altura em que constatou de perto a crueldade e as atrocidades que, em virtude dos decretos do senado, muito rapidamente se iriam abater sobre os cristãos indefesos, deu início à distribuição de todos os seus haveres pelos pobres da cidade. É aconselhável que digamos que a sua fortuna pessoal era uma das maiores do império.

São Jorge tomara a decisão de, no terceiro dia da assembléia, enveredar pela defesa da sua Igreja e do seu Deus, divulgando perante tão douta e grandiosa reunião de personalidades, a sua fé.

Colocando-se de pé, no meio da assembléia, falou nestes termos: - “Imperador, senadores romanos, romanos! Até onde irá o nosso furor contra os cristãos? Leis sábias educaram-vos e alimentaram-vos e agora decretais contra os cristãos leis injustas e perseguis os inocentes. Eles tiveram a alegria de encontrar a verdadeira religião e vós quereis forçá-los a escolher a vossa, sem saberdes vós próprios se ela é verdadeira. Os vossos ídolos não são deuses; não, eu repito, não são deuses, não vos deixeis enganar pelo erro; o único Deus é Cristo; e Ele é ao mesmo tempo o único Senhor na glória de Deus Pai. Por Ele tudo foi feito e o Espírito Santo governa. Escolhei vós também, a verdadeira religião, ou, pelo menos, não provoqueis confusão e morte nas almas daqueles que a praticam”.

Boquiaberto com as palavras do jovem patrício, incumbiu o imperador ao cônsul Magnâncio, seu amigo, de lhe responder. Chamando-o à razão, Magnâncio pergunta-lhe: - “Quem te inspirou na palavra tamanha liberdade e audácia ?” São Jorge reponde-lhe – “A verdade !” – “Qual é a verdade ?” acrescenta o cônsul. – “A verdade é o próprio Cristo que vós perseguis” – “E tu, continua Magnâncio, és cristão?” – “Eu sou servidor de Cristo”, retorquiu São Jorge.

Vendo que o seu amigo Magnâncio nada consegue perante a determinação do general-menino, é o próprio imperador que toma a palavra e, falando com astúcia e malícia, enumera com uma doçura e suavidade de termos, que não lhe era peculiar, a fulgurante carreira, honras e glória que São Jorge tem à sua frente. Não conseguindo demovê-lo do seu firme propósito, manda que o ponham na prisão, conduzindo-o a golpes de lança.

Já no cárcere, é deitado no chão, os pés postos sob enormes traves e uma enorme pedra jogada sobre o seu peito, como havia o tirano desejado. São Jorge passa toda a noite louvando e glorificando o seu Senhor. Quando na manhã seguinte, fraco e dolorido, se apresenta ao soberano, as suas palavras tinham o mesmo fulgor e a mesma força. Disse que não temia a morte, uma vez que esta lhe iria possibilitar o tão desejado encontro com o Mestre e todas as torturas que lhe pudessem ser infligidas, por mais violentas que fossem jamais o fariam invocar a clemência do carrasco.

Trouxeram, então, uma roda armada de pontas de ferro onde o ataram com tal brutalidade que as correias que o ligavam se embrenhavam na sua carne. Encontravam-se, por baixo da roda, que estava suspensa do teto, várias mesas sobre as quais algumas dezenas de pontas de lança haviam sido fixadas, de modo que, ao aproximar-se das mesas a roda do suplício, na qual Jorge permanecia imóvel, possibilitava que todo o seu corpo fosse dilacerado pelas pontiagudas lanças. Jorge começou por orar em voz alta, depois em silêncio... Não deixou escapar um único suspiro.

Persuadido que ele estivesse morto, Dioclesiano dirigiu-se ao templo de Apolo para lhe agradecer por tê-lo livrado de tão impertinente e irreverente cristão. Pouco depois, desamarraram o cadáver do mártir e inauditamente, apareceu uma grande nuvem, da qual saíam relâmpagos e trovões. Então ouviu-se uma voz que dizia : “Jorge, não temas; Eu estou contigo”. Aproximou-se da roda um anjo vestido de branco. O seu rosto brilhava como o sol. Estendeu a mão ao mártir, abençoou-o e beijou-o. Quando o anjo desapareceu, aproximaram-se de Jorge e viram que o seu corpo não tinha ferimento algum.

Foram anunciar ao imperador o sucedido, mas este não quis acreditar, mesmo quando o trouxeram à sua presença. Os príncipes que ladeavam o soberano reconheceram-no, dois oficiais da guarda pretoriana, Anatol e Protoléon, que haviam sido iniciados no cristianismo, não podendo mais conter-se, gritaram bem alto : “O Deus do cristãos é o único e verdadeiro Deus”. Nesse instante, foram conduzidos para fora da Cidade, onde lhes cortaram a cabeça.

Ordenou o imperador que deitassem Jorge num poço cheio de cal viva durante três dias. No fim deste período, mandou que fossem ao poço buscar os ossos que tivessem restado para os esconder, receando que os cristão levassem-nos. Mas, qual não foi a admiração dos soldados, quando ao destaparem o poço, viram o mártir ileso, resplandecendo de luz ! Erguendo as mãos ao céu, Jorge deu graças a Deus pela sua misericórdia. Toda a multidão que comprovou este acontecimento rejubilou de alegria, entoando cânticos de louvor.

Assim que foi notificado, Dioclesiano exigiu que o colocassem diante de si, para o inquirir sobre a magia da qual certamente se valera para sair vivo de tais torturas. Novamente o aconselha a que reconsidere as suas propostas, caso contrário, ver-se-ia coagido a continuar com os suplícios. Inabalável, Jorge recusa a pseudo-bondade do soberano, persistindo no seu intento.

Desta vez, obrigaram-no a calçar uns pesados sapatos de ferro, armados de afiados pregos no interior, após terem sido aquecidos ao rubro no interior das chamas. Forçado a correr até a prisão, foi sendo vergastado com nervos de boi em cujas extremidades pendiam bolas de chumbo, ao mesmo tempo que os seus pés eram perfurados pelos pregos em brasas. Jorge não desfaleceu, passando o dia e a noite orando e louvando o seu Deus. Na manhã seguinte, de novo se apresentou ao imperador, que ficou estupefato ao vê-lo caminhar como se nada tivesse acontecido. Reunira o augusto príncipe o seu tribunal perto do teatro público, acompanhado de todo o senado.

Fora, uma vez mais, pelo imperador aconselhado a renunciar à sua fé, pois, segundo o mesmo, se Jorge não se submetesse à sua vontade, seria obrigado a encurtar o tempo de vida que este tinha à sua frente. Jorge em nada alterou a sua posição, razão pela qual Dioclesiano pediu que chamassem um conhecido “mago”, de nome Athanásio, cuja habilidade nas artes da magia era sobejamente conhecida.

Athanásio, por meio de três poções mortíferas, tentou retirar ao Bem-Aventurado mártir o sopro da vida. Não conseguiu! Em Jorge, as poções “mágicas” obtiveram o mesmo resultado que a límpida e cristalina água da fonte mais pura.

Constatando o seu fracasso, Athanásio achou por bem – já que o Mestre dos cristãos ressuscitava os mortos – proporcionar ao mártir a oportunidade de fazer o mesmo que o seu Deus.

A poucas dezenas de metros do local onde estava reunido o tribunal, encontrava-se um túmulo. Desataram Jorge das correias que o seguravam e ordenaram-lhe que se dirigisse ao túmulo.

Afirmara o imperador que, se conseguisse ressuscitar o defunto, ele e todos os seus súditos reconheceriam Cristo como o único Deus verdadeiro. Voltando-se para ele, Jorge retorquiu-lhe por doces palavras: “Se o meu Deus foi capaz de criar a partir do nada, também por meu ministério ressuscitará um morto, trazendo-o à vida“. Ajoelhou-se durante algum tempo, vertendo abundantes lágrimas. Em seguida, ergueu-se e orou em voz alta, de forma que todos o pudessem escutar. Apenas tinha concluído a sua prece, logo um barulho espalhou o terror naqueles que ali se encontravam. A pedra do sepulcro abriu-se e do seu interior saíra o ressuscitado que se agarrou a Jorge, proclamando bem alto ser Cristo o Deus verdadeiro. O próprio Athanásio (o mago) vem prostrar-se em face do mártir implorando-lhe que rogue a Cristo que lhe perdoe os seus malefícios.

O imperador, incrédulo, não cumprira o que havia prometido, acusou o mago de ter favorecido Jorge e mandou que lhe cortassem a cabeça, bem como ao morto ressuscitado. Quanto a Jorge, ordenou que o prendessem novamente até decidir o que fazer com ele.

Então a multidão, que tudo vira, abeirou-se dos guardas da prisão, ofereceu-lhes dinheiro e entraram nessa. Encontrando-o, pediram-lhe que os curasse, na medida em que muitos eram os que sofriam de doenças várias. Em nome de Cristo, a todos curou.

Surgira um camponês, de nome Glicério, cujo boi morrera de repente na lavoura, implorando a Jorge que lhe restituísse a vida. Jorge reenviou-o ao campo, dizendo-lhe que Deus trouxera à vida o seu boi. Tão depressa como foi, assim voltou o camponês, relatando por toda a cidade o que havia acontecido. Tendo sido encontrado por acaso pelos soldados, imediatamente foi conduzido ao Imperador, que, nesse momento, o sentenciou à morte. Feliz com a sentença, Glicério corria para o suplício como um jovem para um festim. Ia à frente dos soldados, para fora da cidade aonde lhe iam corta a cabeça, pedindo a Deus que aceitasse o seu martírio em vez do Batismo que não iria poder receber. Jorge foi acusado de sublevar o povo contra o imperador, criando instabilidade na almejada harmonia do império. Muitos dos adoradores dos falsos deuses se haviam convertido ao cristianismo.

De novo, Dioclesiano julgou necessário submeter Jorge a mais tormentos e, aconselhando-se com Magnâncio, deu ordem para prepararem o tribunal junto ao templo do deus Apolo.

No decorrer dessa noite, Cristo apareceu ao mártir em sonhos e levantando-o e beijando-o, pôs-lhe uma coroa na cabeça, dizendo-lhe: “Não temas, tem coragem, pois foste julgado digno de reinar comigo. Não tardes; vem ter Comigo para usufruir da alegria que te foi preparada”.

No dia seguinte, ao ser levado perante Dioclesiano, pediu-lhe que o deixasse entrar no templo do deus Apolo. Rejubilando de alegria, ao pensar que Jorge tinha por fim apostasiado, prontamente o imperador acedeu ao seu pedido. Todo o povo entrou no templo. Jorge aproximou-se da estátua de Apolo e perguntou-lhe: “Como te atreves tu, que não és nenhum deus, a querer receber o meu sacrifício, como se o fosse?”. O demônio que habitava a estátua respondeu-lhe: “Não, eu não sou nenhum deus, nem eu, nem os meus semelhantes. Não existe senão um único Deus; Aquele que vós anunciais”.

O Bem-Aventurado mártir inquiriu-o de novo: “Como ousas tu permanecer neste local, quando eu, adorador do Deus verdadeiro, aqui estou?”. A estas palavras, todas as estátuas do templo ruíram, acabando por desintegrar-se. Todos os demônios haviam abandonado aquelas paragens, quando de novo o imperador, cuja cólera nada podia conter, se apressou a ordenar aos soldados que levassem Jorge para fora da cidade, onde lhe seria cortada a cabeça.

Neste instante, a imperatriz Alexandra, esposa de Dioclesiano, que havia muito tempo nutria pelos cristãos uma profunda admiração, tendo ouvido tão invulgar turbulência na cidade e sabendo a aversão do soberano para com o cristianismo, abeirou-se dele, apelidando-o de injusto, cruel e ímpio.

O imperador, que não conhecia a misericórdia nem a compaixão, sentenciou a imperatriz Alexandra a perecer juntamente com o mártir. Conduzidos ao local da execução, ambos demonstraram uma coragem indômita comum aos mártires.

Assim, no dia 23 de abril no ano da graça de 303, partiu para o reino dos céus Jorge, com a idade de 20 anos, e Alexandra, imperatriz. A notícia de sua fé, do seu amor por Cristo, Nosso Deus e Salvador e da sua heroicidade, em breve se propagou por todo o império, incutindo em todos os cristãos uma arraigada e sincera temeridade que lhes permitiu suportar as injustiças e vencer todas as ciladas do demônio. Neste dia, a corrente inquebrantável que une, pela santidade e pelo exemplo de suas vidas, todos os heróis do cristianismo, viu-se acrescentada em mais dois elos, tão fortes e tão imprescindíveis como os anteriores. Aqueles que durante mil e novecentos anos sempre estiveram presentes na Igreja de Cristo, pelas suas orações e pela sua proteção aos cristãos, seus irmãos, são, desde o dia do seu nascimento nos céus, glorificados com o sublime e inefável nome de mártires.

Pelas orações dos teus santos mártires Jorge e Alexandra, ó Cristo Nosso Deus, tem piedade de nós. Amém!

Revista ORTODOXIA - 1986

segunda-feira, 5 de maio de 2008

OrtoFoto

Monte Athos, Grécia
autor: Nikos Boulgaris