“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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quinta-feira, 10 de abril de 2008

Oração

Ó Deus, Mestre Santo e Inacessível, que disseste à luz que brilhasse sobre as trevas, que nos fizeste repousar no sono da noite e que nos fizeste levantar para o louvor e súplica da Tua bondade, comovidos pela Tua própria misericórdia, atende-nos a nós que Te adoramos e, pelo nosso poder, Te damos graças, e concede-nos o que Te pedimos para a nossa salvação. Declara-nos filhos da luz e do dia e herdeiros dos teus bens eternos. Lembra-Te, Senhor, na abundância da Tua compaixão, de todo o Teu povo aqui presente, orando conosco, de todos os nossos irmãos que se encontram em terra ou mar e em toda a parte, sujeitos ao Teu poder e que imploram o Teu amor pelos homens; concede-nos a todos a Tua grande piedade para que, salvos de alma e corpo, perseveremos sempre e louvemos livremente o Teu nome Admirável e Bendito, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

"O Sinal da Cruz"

A tradição ortodoxa diz, que primeiro é devido colocar a mão no ombro direito e depois no esquerdo, a católica-romana diz o contrário. Explanação sobre este tema nos dá UspieDskij B. A. no livro “Krestonje znamienije i sakralnoje prostranstwo”.

Na tradição ortodoxa o cristão coloca a mão, ao fazer o sinal da cruz, primeiro no lado direito, depois no lado esquerdo. Porém, quando faz em alguém o sinal da cruz – abençoa da esquerda para a direita. Recebendo a benção recebe o sinal da cruz primeiro no ombro direito e depois no esquerdo. Na tradição ocidental a benção de outra pessoa é realizada nesta mesma seqüência, isto é ao contrário do que faz sobre si mesmo.

Na tradição da Igreja Ocidental até o Concílio de Trento (1545-1563) era permitida ambas as práticas. Finalmente, foi adotada pelo papa Pio V (1566-1572) a prática de execução do sinal da cruz com todos os dedos na seqüência: testa, barriga, ombro esquerdo e ombro direito.

A tradição grega permaneceu inalterada, em relação a isso (ombro direito – ombro esquerdo).

O lado direito sempre é considerado(associado) como correto, normal, favorável, propício (é normal o tratamento da mão direita como dominante, etc). Fazer o sinal da cruz do lado direito para o lado esquerdo podemos entender como a vitória sobre Satã, a defesa contra o pecado. É, também, repetição daquilo o que o catecúmeno recebe do sacerdote na benção.

O homem quando faz o sinal da Cruz sobre si mesmo une-se a Deus, recebe as boas energias da graça Divina, torna-se objeto da ação da força da Cruz.

A execução do sinal da Cruz abrange conteúdos dogmáticos. A colocação dos dedos na testa simboliza a permanência de Deus nos céus e o nascimento de Cristo de Deus Pai (no Credo: “....nascido do Pai antes de todos os séculos...”). A colocação da mão na barriga expressa a descida dos céus à terra (“...desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio de Maria Virgem e Se fez Homem...”). A elevação da mão para o ombro direito corresponde às palavras: (“...e subiu aos Céus, onde está sentado à direita de Deus Pai”) e para o ombro esquerdo significa a separação dos bons dos maus (bons para o lado direito e os maus para o lado esquerdo) (“De novo há de vir, cheio de glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu Reino não terá fim”). Tal explicação encontramos em muitos teólogos (entre outros Máximo, Grego (1470-1555), Pedro Damasceno; Laurêncio e Estevão de “Zyzania” na obra de 1596).

A execução do sinal da cruz do lado direito para o lado esquerdo expressa o triunfo de Deus sobre Satã, vitória sobre a morte, confissão, declaração de fé, expressão de verdades dogmáticas, comunicação do homem com Deus, permanência sob a Sua proteção, defesa do homem frente à ação das forças do mal.

Apresentando em forma de imagem a execução do sinal da Cruz na tradição ortodoxa podemos representar como a abaixo:

Os cristãos ortodoxos se prostram (fazem o sinal da cruz) nas orações, depois de entrar na igreja, durante os ofícios, antes e depois das refeições, antes e depois de qualquer trabalho.

Através do sinal da Cruz confessamos a fé em Jesus Cristo e na Santíssima Trindade e concordamos com Sua vontade.

Com a inclinação da cabeça e as prostrações durante as orações expressamos nossa humildade e submissão a Deus.

Os três dedos simbolizam a Santíssima Trindade: Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo.

Os dois dedos simbolizam as duas naturezas de Cristo, Divina e humana.

Os dedos no sinal da Cruz devem estar colocados juntos.

Padre Aleksy Andrejuk
Professor do Seminário Ortodoxo de Varsóvia
Tradução do Igúmeno Lucas
Boletim Interparoquial de Maio de 2007

terça-feira, 8 de abril de 2008

OrtoFoto

Ucrânia
autor: Jarek Kupryjaniuk

Triódio

A palavra Triódio significa literalmente: cânon com três odes. Estes cânones encontram-se nos livros litúrgicos aos quais deram seu nome:

  1. Triódio de Quaresma – Livro de ofícios litúrgicos que contém todos os textos pertinentes à Grande Quaresma, e assim chamado por que os cânones de Matinas normalmente possuem apenas três odes. O livro abrange o período que vai do Domingo do Fariseu e o Publicano e termina no Grande Sábado Santo. Seu uso substitui o do Octoecos, exceto para os Hinos Triádicos, o primeiro catisma-poético e os Photagogika, que são impressos como adendos ao Triódio. A característica dominante desses textos é seu aspecto penitencial, a Quaresma que é proposta aos fiéis para que eles se purifiquem e se preparem para as solenidades da Paixão e da Ressurreição do Salvador.

  2. Triódio Pascal ou Pentecostário – encontra-se neste livro os textos utilizados desde a Páscoa e até ao domingo que se segue aos Pentecostes, Domingo de Todos os Santos (nele se encontram essas duas festas). Os textos exprimem antes de tudo a alegria pela Ressurreição do Salvador, que torna possível a ressurreição do gênero humano. Os diversos temas evocados ao longo deste período esclarecem, cada qual à sua maneira, o mistério da Redenção e Salvação, onde a obra se completa com a Ascensão e o Pentecostes.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sermão sobre a Anunciação da Santa Mãe de Deus


Nossa presente assembléia em honra da Santíssima Virgem me inspira, irmãos, a falar Dela uma palavra de louvor, também em favor daqueles que vieram para esta solenidade da igreja. Esta palavra inclui um louvor às mulheres, uma glorificação ao seu gênero, cuja glória é trazida por Ela, Ela que é ao mesmo tempo Mãe e Virgem. Ó desejada e maravilhosa assembléia! Celebre, ó natureza, na qual é rendida honra à Mulher; rejubila, ó raça humana, na qual a Virgem é glorificada. “Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rom.5;20). A Santa Mãe de Deus e Virgem Maria nos reuniu aqui, Ela o puro tesouro da virgindade, o paraíso planejado para o Segundo Adão – o lugar exato, em que foi cumprida a co-união das naturezas, em que foi confirmado o Conselho da salvífica reconciliação.

Quem alguma vez viu, quem alguma vez ouviu, que dentro de um ventre o Ilimitado Deus poderia habitar, Aquele que os Céus não podem conter, Aquele que o ventre de uma Virgem não pode limitar?

Aquele que nasceu da mulher não é somente Deus e Ele não é somente Homem. Este que nasceu fez da mulher, sendo a antiga porta do pecado, a porta da salvação; onde o Mal, pela desobediência, despejou seu veneno, lá o Verbo fez para Ele próprio,pela obediência, um templo vivificante, de onde o arqui-pecador Caim saltou para fora, lá sem semente nasceu Cristo o Redentor da raça humana. O Amante da Humanidade não desdenhou nascer da mulher, uma vez que isto concedeu a Sua vida. Ele não estava sujeito à impureza, sendo assentado dentro do ventre, que Ele mesmo adornou livre de toda iniqüidade. Se por acaso esta Mãe não permanecesse Virgem, então aquele que nascesse Dela poderia ser um mero homem, e o nascimento não seria nenhum sábio milagre; mas uma vez que Ela depois do nascimento permaneceu uma Virgem, então como é que Aquele que nasceu de fato – não é Deus? É um mistério inexplicável, uma vez que de uma maneira inexplicável nasceu Ele Que sem nenhum impedimento passa através das portas quando elas estão fechadas. Tomé, confessando Nele a co-união de duas naturezas, gritou: “Meu Senhor, e meu Deus” (Jô.20:28).

O Apóstolo Paulo diz, que Cristo é “escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (I Cor. 1:23): eles não perceberam o poder do mistério, uma vez que Ele era incompreensível para a mente: “porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da Glória” (I Cor.2:8). Se o verbo não fosse colocado dentro do ventre, então a carne não teria ascendido com Ele ao Trono Divino; se Deus tivesse desdenhado entrar no ventre, que Ele criou, então os Anjos também poderiam ter desdenhado servir à humanidade.

Aquele, que por Sua natureza não estava sujeito aos sofrimentos, através de Seu amor por nós sujeitou-Se a muitos sofrimentos. Nós cremos, não que Cristo através de alguma gradual elevação em direção à natureza Divina foi feito Deus, mas que sendo Deus, através da Sua misericórdia Ele foi feito Homem. Nós não dizemos: “um homem feito Deus”; mas nós confessamos, que Deus encarnou e se fez Homem. Sua Serva foi escolhida para Ele mesmo como Mãe por Aquele que, em Sua essência não tinha mãe, e Aquele que, através da Divina providência apareceu sobre a terra na imagem de homem, não tem pai aqui. Como alguém, Ele mesmo pode ser ambos sem pai e sem mãe, de acordo com as palavras do Apóstolo: “Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida...” (Heb. 7:3)? Se Ele – fosse somente um homem, então Ele não poderia ser sem mãe – mas verdadeiramente Ele teve uma Mãe. Se Ele – fosse somente Deus, então Ele não poderia ser sem Pai – mas de fato Ele tem um Pai. E ainda como Deus o Criador Ele não tem mãe, e como Homem Ele não tem pai.

Nós podemos ser convencidos disto pelo verdadeiro nome do Arcanjo, fazendo anunciação a Maria: seu nome é Gabriel. O que este nome significa? Ele significa: “Deus e homem”. Uma vez que Aquele sobre Quem ele anunciava era Deus e Homem, então seu verdadeiro nome aponta antecipadamente para este milagre, então com fé aceitamos o fato da Divina revelação.

Seria impossível para um mero homem salvar as pessoas, uma vez que todo homem necessita do Salvador: “Porque todos pecaram – diz São Paulo - e destituídos estão da glória de Deus” (Rom. 3:23). Desde que o pecado sujeita o pecador ao poder do demônio, e o demônio o sujeita à morte, então nossa condição torna-se extremamente infeliz: não existe nenhum caminho que nos livre da morte. Foram mandados médicos, isto é, os profetas, mas eles somente podiam apontar mais claramente a enfermidade. O que eles fizeram? Quando eles viram, que a doença estava fora do alcance da habilidade humana, eles chamaram do Céu o Médico; um deles disse “Abaixa, ó Senhor, os teus céus, e desce” (Salmos 143[144]:5); outros gritaram: “Cura-me, Ó Senhor, e eu serei curado” (Jer. 17:14); “faze resplandecer o Teu rosto, e seremos salvos” (Sl. 79[80]:3). E ainda outros:”Mas, na verdade, habitaria Deus na terra?” (I Reis 8:27); “apressa-te e antecipem-se-nos as tuas misericórdias, pois estamos muito abatidos” (Sl.78[79]:8). Outros disseram: “Pereceu o benigno da terra, e não há entre os homens um que seja reto” (Miq.7:2). “Apressa-te, ó Deus, em me livrar; Senhor, apressa-te em ajudar-me” (Sl.69[70]:1). “Se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará” (Hab.2:3). “Desgarrei-me como a ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos” (Sl.118[119]:176). “Virá o nosso Deus, e não se calará” (Sl.49[50]:3). Aquele que, por natureza é Senhor, não desdenhou a natureza humana, escravizada pelo sinistro poder do demônio, o misericordioso Deus não consentiu que ela estivesse para sempre sob o poder do demônio, o Eterno veio e deu em resgate o Seu Sangue; para a redenção da raça humana da morte Ele deu Seu Corpo, que Ele aceitou da Virgem, Ele livrou o mundo da maldição da lei, aniquilando a morte pela Sua morte. “Cristo nos resgatou da maldição da lei” – exclama São Paulo (Gal. 3:13).

Portanto sabemos, que nosso Redentor não é simplesmente um mero homem, uma vez que toda a raça humana estava escravizada pelo pecado. Mas Ele da mesma forma não é somente Deus, não participante da natureza humana. Ele tinha um corpo, porque se Ele não tivesse Se revestido em mim, então Ele, da mesma maneira, não poderia ter me salvado. Mas, tendo habitado o ventre da Virgem, Ele Se vestiu em meu destino, e dentro deste ventre Ele concluiu uma mudança miraculosa: Ele concedeu o Espírito e recebeu um corpo, o Único Que verdadeiramente (habitou) com a Virgem e (nasceu) da Virgem. E então, Quem é Ele, que Se manifesta a nós? O Profeta Davi mostra isto para ti nestas palavras: “Bendito aquele que vem em Nome do Senhor” (Sl. 117[118]:26). Mas diga-nos mais claramente, Ó profeta, Quem é Ele? O Senhor é o Deus das Multidões, diz o profeta: “O Senhor é Deus, e ele Se nos manifestou” (Sl.117[118]:27). “O Verbo Se fez carne” (Jo.1;14): foram unidas as duas naturezas, e a união permaneceu sem se misturar.

Ele veio para salvar, mas teve também que sofrer. O que um tem em comum com o outro? Um mero homem não pode salvar; e Deus em Sua natureza não pode sofrer. Por que meios foi feito um e outro? Como que Ele, Emanuel, sendo Deus, foi feito também Homem; Ele salvou através do que Ele era – e isto, Ele sofreu pelo que Ele foi feito. Razão pela qual quando a Igreja observou que a multidão dos Judeus O coroou com espinhos, lamentando a violência dos espinhos, ela disse: “Filhas de Sião, saiam e vejam a coroa, de quê é coroado Ele, Filho da Sua Mãe” (Cant. 3:11). Ele usou a coroa de espinhos e destruiu o julgamento sofrendo pelos espinhos. Ele, somente Ele, é Aquele que é ambos no seio do Pai e no ventre da Virgem; Ele, somente Ele, é Aquele – nos braços da Sua Mãe e nas asas dos ventos (Sl.103[104]:3); Ele, a Quem os Anjos inclinam-se em adoração, ao mesmo tempo reclina-se na mesa dos publicanos. Ele, sobre Quem os Serafins não ousam fitar, sobre Ele, ao mesmo tempo, Pilatos pronunciou a sentença. Ele é Aquele e o Mesmo, a Quem o servo golpeou e perante O Qual toda a criação treme. Ele foi pregado na Cruz e subiu ao Trono de Glória – Ele foi colocado no sepulcro e Ele estendeu os céus como uma tenda (Sl.103[104]:2) – Ele foi contado no meio dos mortos e Ele esvaziou o inferno; aqui sobre a terra, eles blasfemaram contra Ele como um transgressor – lá no Céu, eles exclamaram a Ele glória como o Todo-Santo. Que mistério incompreensível! Eu vejo os milagres, e eu confesso, que Ele é Deus; eu vejo os sofrimentos, e eu não posso negar, que Ele é Homem. Emanuel abriu as portas da natureza, como homem, e preservou intacto o selo da virgindade, como Deus: Ele emergiu do ventre da mesma maneira com que Ele entrou através da Anunciação; da mesma forma maravilhosa Ele foi ambos, nascido e concebido: sem paixão Ele entrou, e sem dano Ele emergiu; como se referindo a isto o Profeta Ezequiel diz: "Então me fez voltar para o caminho da porta do santuário exterior, que olha para o oriente, a qual estava fechada. E disse-me o Senhor: Esta porta estará fechada, não se abrirá; ninguém entrará por ela, porque o Senhor Deus de Israel entrou por ela: por isso estará fechada” (Ez.44:1-2). Aqui ele claramente indica a Santa Vigem e Mãe de Deus, Maria. Cessemos toda contenda, e deixemos que as Sagradas Escrituras iluminem nossa razão, assim nós também receberemos o Reino dos Céus por toda a eternidade. Amém!

São Proklos, Patriarca de Constantinopla
Traduzido pelo Sr. Dom Ambrósio, Bispo Ortodoxo do Recife
Boletim Interparoquial de Abril de 2004

domingo, 6 de abril de 2008

O Quarto Domingo da Grande Quaresma – Domingo de São João Clímaco

A Igreja chama hoje nossa atenção sobre São João Clímaco, pois esse padre, que viveu no século VII, realizou em sua vida o ideal de penitência que deveríamos manter sob a vista durante a Quaresma. “Honremos João, orgulho dos ascetas...”, é o que cantamos às Vésperas. Durante as Matinas, nós dizemos ao Santo: “Ao emagrecer teu corpo pela abstinência, tu renovaste a força de tua alma, enriquecendo-a de glória celeste”. No entanto, a Igreja dá à doutrina de São João Clímaco uma interpretação correta, quando proclama que a ascese não tem nenhum sentido nem nenhum valor se não for uma expressão de amor e quando, ainda em Vésperas, ela dirige ao Santo as seguintes palavras: “...pois a todos (nós) tu clamaste: Amai O Senhor e encontrareis a graça para sempre, pois nada é preferível ao Seu Amor...”

Nós continuamos, durante a Liturgia, a leitura da Epístola aos Hebreus (Hb. 6, 13-20). Ela nos fala da paciência e da permanência de Abraão e da realização final das promessas que Deus havia feito ao Patriarca. É impossível a Deus mentir. É por isso que, como Abraão, nós somos “encorajados”- nós que encontramos um refúgio - a agarrar fortemente a esperança que nos é oferecida.

O Evangelho (Mc. 9, 16-30) descreve a cura de um filho mudo, possuído pelo demônio, que o pai conduz a Jesus. O Senhor diz ao pai: “Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê”. O pai do menino clama em lágrimas: “Eu creio Senhor! (porém) ajuda a minha incredulidade”. Nós não poderíamos encontrar uma melhor fórmula para expressar ao mesmo tempo a existência de nossa fé e a fraqueza dessa fé. Porém somos nós capazes de chorar com lágrimas ardentes quando dizemos à Nosso Salvador: “Eu creio... mas ajuda a minha incredulidade!”? Jesus tem piedade do pai. Ele aceita aquela fé. Ele cura o filho. Os discípulos, indo ter com o Mestre em particular, perguntam-lhe porque não puderam eles mesmos expulsar o demônio. Jesus responde: “Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum”. Não vamos nós, porém, acreditar, que, uma abstinência prolongada e a repetição de algumas orações sejam suficientes para dar esta força que os discípulos ainda não possuíam. A oração e o jejum, no sentido mais profundo dessas palavras, significam uma renúncia radical a si próprio, a fixação da alma nessa atitude de confiança e de humildade que tudo espera da misericórdia de Deus, a submissão de nossa vontade à vontade do Senhor, a colocação de nosso ser inteiro nas mãos do Pai. Aquele que pela graça de Deus atinge este estado pode expulsar os demônios. Não poderíamos nós tentarmos dar ao menos os primeiros passos nesse caminho? Se tentarmos, seremos surpreendidos pelo resultado que obteremos...

sábado, 5 de abril de 2008

Trikerion

Candelabro para três velas, simbolizando as Três Pessoas da Santíssima Trindade, com o qual o bispo para dá bênçãos em alguns ofícios litúrgicos, segurando-o com a mão direita.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

OrtoFoto

Sérvia
autor: Stevan Ristic

Tom

Cada semana do ciclo litúrgico semanal está relacionada com um dos oito Tons (a base para música litúrgica da Igreja Ortodoxa) e cada semana possui seu tom indicado. No sábado à noite da Semana Luminosa ou Jubilosa (Vigília do Domingo de São Tomé), o ciclo de tons começa com o tom 1 e, semana após semana, a seqüência continua através dos sucessivos tons, 1 até 8, mudando para um novo tom a cada noite de sábado, ao longo do ano. Os vários textos para o tom de cada semana encontram-se no Octoecos. Os textos especiais para as Grandes festas e festas de Santos (no Menaia) e para os dias da Grande Quaresma e período Pascal (no Triódio e Pentecostário) estão estabelecidos em vários tons, e estes, é claro, salvo por coincidência, não correspondem ao tom indicado para a semana. Enquanto toda a Ortodoxia usa a mesma divisão em oito tons, a maneira como estes tons são cantados varia de uma Igreja Ortodoxa para outra.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Mosteiro de São Dionísio - Monte Atos

O mosteiro situa-se sobre uma rocha a 80 metros do nível do mar, no sudeste da península. São Dionísio de Coritsa fundou-o em 1389. Em 1537 o mosteiro incendiou-se e foi reconstruído junto com seu Katholikon pelo soberano moldávio João Petro. O Katholikon em forma de cruz é dedicado ao Nascimento de São João Batista. Entre as relíquias do mosteiro: encontra-se : o pulso da mão direita de São Pantaleão , a mão direita de São João Batista e de São Lucas, o Evangelista. Pertencem ao mosteiro 7 capelas internas e 8 além muros do mosteiro. O mosteiro possui 7 kellia em Karyes e 6 em torno de si.




Epitáfio

quarta-feira, 2 de abril de 2008

OrtoFoto

Mosteiro de Chilandar, Monte Atos
autor: Aleksa Stojkovic

"A Teologia da Doença"

Não há ninguém que, no decurso da sua existência, se não veja confrontado com a doença. Ela está inevitavelmente ligada à condição humana. Nenhum organismo é completamente são. A saúde nunca é mais que um equilíbrio provisório entre as forças da vida e outras forças que se lhe opõem, não tendo as primeiras senão uma frágil supremacia. A vida, escreve o professor Mareei Sendrail na sua História cultural da doença, «é por essência um desafio provisório à morte. Cada uma das nossas células só se mantém à custa de uma luta permanente contra as forças que tendem a destruí-la. Desde a juventude, os nossos tecidos integram vastas zonas de degradação e desgaste; desde o nascimento inscrevem-se neles as causas que irão precipitar-lhes o fim (...). A doença forma a trama da nossa continuidade carnal. Mesmo sob a máscara da saúde, os fenômenos biológicos ultrapassam a todo o instante as fronteiras do normal. É, para os médicos, um fato de observação corrente que manifestações de caráter mórbido se combinam com os atos vitais mais elementares». Julgamo-nos de boa saúde e é então, precisamente, que a doença está em nós de maneira potencial, e bastará que uma ou outra das nossas defesas se fragilize, para que ela apareça, sob uma forma ou outra. Às vezes, antes de termos dado por isso, já ela provocou estragos consideráveis.

Todas as doenças são para nós causas de sofrimento. A maioria faz-nos sofrer física e psiquicamente. Todas ocasionam sofrimento espiritual, pois nos revelam, cruelmente, por vezes, a fragilidade da nossa condição, lembrando-nos que a saúde e a vida biológica não são bens que detenhamos de forma durável; que o nosso corpo, nesta vida, está destinado a enfraquecer, a degradar-se e, finalmente, a morrer.

Deste ponto de vista, a doença suscita uma série de interrogações às quais ninguém escapa: Porquê? Porquê eu? Porquê agora? Por quanto tempo? Que vai ser de mim?

Toda a doença constitui uma interpelação tanto mais viva e profunda quanto não é abstrata nem gratuita, mas se inscreve numa experiência ontológica às vezes lancinante. Esta interpelação é muito freqüentemente crucial. Porque a doença põe sempre mais ou menos em questão os fundamentos, o quadro e as formas da nossa existência, os equilíbrios adquiridos, a livre disposição das nossas faculdades corporais e psíquicas, os nossos valores de referência, a nossa relação com os outros, e a nossa própria vida, pois a morte perfila-se, então, sempre no horizonte, de forma mais nítida do que habitualmente.

Longe de ser um acontecimento que só diria respeito ao nosso corpo, e só por algum tempo, a doença constitui em muitos casos uma provação espiritual que implica todo o nosso ser e o nosso destino.

De uma forma ou outra, é-nos preciso vencer esta prova, assumir a doença e as diversas formas de sofrimento que a acompanham, encontrar soluções teóricas mas, também, e sobretudo, práticas, para os problemas que elas nos apresentam. Cada um de nós, no decurso da sua existência, deve não só contar com a doença e o sofrimento, mas, também, quando eles surgem, continuar a viver e a encontrar, apesar deles ou neles, a sua realização pessoal.

Ora isto nunca é fácil: porque a doença, geralmente, nos imerge numa situação desacostumada, em que as nossas condições de vida se encontram modificadas, as nossas relações com os familiares e amigos são perturbadas e, às vezes, transtornadas por um isolamento imposto, em que devemos confrontar-nos com a dor, mas, também, com a inquietação e o desencorajamento ou, até, com a angústia e o desespero, e em que nos sentimos sempre mais ou menos sós perante a necessidade e a possibilidade de fazer face a estas dificuldades.

Tanto mais quanto, a este respeito, o homem dos nossos dias está, sob vários pontos de vista, mais desarmado que os seus antepassados.

Sem dúvida que a medicina adquiriu, nos nossos dias, um grau muito alto de conhecimento científico, de capacidade técnica e de organização social, o que lhe confere, no plano da intervenção, do diagnóstico e da terapêutica, uma grande eficiência. Muitas doenças que antigamente faziam estragos consideráveis desapareceram nos nossos dias. Podemos ser hoje rapidamente curados de afecções que os nossos antepassados deviam suportar durante longo tempo ou que eram incuráveis de todo. Podemos ser aliviados de sofrimentos que eram antes inevitáveis. Mas, há que reconhecê-lo, este progresso tem os seus limites e mesmo os seus fracassos, devendo-se estes, é certo, menos à medicina em si que aos valores, ou até às ideologias que, em certos casos, estão subjacentes ao seu uso e ao seu desenvolvimento.

O desenvolvimento da medicina, numa perspectiva puramente naturalista, teve, como conseqüência, que objetivar a doença, fazer dela uma realidade considerada em si própria, num plano puramente fisiológico, independentemente de quem é por ela afetado. Em vez de prestar os seus cuidados às pessoas, muitos médicos, hoje em dia, tratam doenças ou órgãos. Este fato, acrescido do uso de métodos de diagnóstico cada vez mais quantitativos e abstratos e de meios terapêuticos cada vez mais técnicos, teve como primeira conseqüência a despersonalização considerável da prática médica e o aumento da perplexidade e da solidão do doente. E, como segunda conseqüência, levou a que o doente fosse como que desapossado da sua doença e dos seus sofrimentos, reduzindo-se-lhe assim os meios próprios para enfrentá-los. Considerando estes, na verdade, como realidades autônomas, de natureza puramente fisiológica, e por isso passíveis de um tratamento exclusivamente técnico e apenas no plano corporal, a medicina atual de forma nenhuma ajuda o doente a assumi-los e, pelo contrário, vai induzi-lo a considerar que o seu estado e o seu destino repousam inteiramente nas mãos dos médicos; que só há solução médica para as suas várias dificuldades, que não há para ele outra forma de viver a sua doença e os seus sofrimentos senão a de esperar passivamente da medicina a cura e o alívio.

Os valores dominantes da civilização ocidental moderna favorecem, aliás, uma tal atitude. A sobrevalorização da vida biológica considerada como a única forma possível para o homem, da saúde psicossomática encarada como a fruição de um bem-estar visto segundo um plano quase exclusivamente material, de que o corpo surge como o órgão essencial, o temor de tudo o que pode pôr tal fruição em risco, do que pode reduzi-la ou suprimi-la, a recusa de todo o sofrimento e a constituição da analgesia como valor de civilização e finalidade social2, o medo da morte biológica considerada como fim absoluto da existência, tudo isto conduz muitos dos nossos contemporâneos a esperar a sua salvação na medicina e a fazer do médico um novo padre dos tempos modernos3; um rei tendo sobre eles direito de vida ou de morte; um profeta do seu destino. Tudo isto explica, também, o caráter aberrante de certas práticas médicas, biológicas e genéticas da atualidade que, aliás, não correspondem, como freqüentemente se pensa, a um desenvolvimento natural da ciência e da técnica, mas estão de acordo com o espírito da época e constituem-se para satisfazer os requisitos e responder às angústias da mentalidade contemporânea.

A esperança, nascida no fim do séc. XVIII, de um desaparecimento total da doença e do sofrimento numa sociedade não perturbada e restituída à sua saúde original4, ligada à crença num progresso indefinido da ciência e da técnica, está mais viva que nunca. O desenvolvimento atual da genética permitiu acrescê-la da fé na possibilidade de, graças a manipulações adequadas, purificar biologicamente a natureza humana das suas imperfeições e, talvez, finalmente, vencer a própria morte.

Estas atitudes testemunham sem dúvida aspirações positivas profundamente arraigadas no homem: a de escapar à morte, muito justamente considerada como estranha à sua natureza profunda; a de ultrapassar os limites da sua condição atual; a de ter acesso a uma forma de vida isenta de imperfeições, na qual se pudesse exprimir sem entraves. Mas não é ilusório esperar das ciências e técnicas médicas e biológicas uma resposta satisfatória a estas aspirações?

É preciso notar, em primeiro lugar, que, se numerosas doenças desapareceram graças aos progressos da medicina, outras surgiram em seu lugar5. Depois de ter registrado um considerável aumento nos países desenvolvidos, graças aos progressos da medicina, mas também à melhoria generalizada das condições materiais da existência, a esperança de vida média encontra-se, desde há alguns anos, numa quase estagnação que revela limites cada vez mais difíceis de ultrapassar. Sem contar que a «esperança de vida», medida estatisticamente, nada significa para cada indivíduo que, enquanto tal, escapa às «leis» estatísticas. Sem contar também que uma parte importante da patologia e da mortalidade está, nos nossos dias, ligada aos acidentes, imprevisíveis por natureza, e cujo número impressionante de vítimas evoca às vezes o das antigas epidemias. Quanto ao sofrimento, se alguns tratamentos permitem hoje em dia suprimi-lo ou reduzi-lo eficazmente, quando ele é muito intenso tais resultados não podem ser obtidos por completo, a menos que se diminua, modifique ou suprima a consciência do doente, restringindo mais a sua liberdade. As esperanças do homem moderno revelam já neste ponto a fragilidade dos seus fundamentos. Ao mito que perdura responde a realidade, quotidianamente vivida por milhões de homens, da doença, do sofrimento e da morte, que irrompem tantas vezes na sua vida «de noite, como um ladrão».

Há que reconhecer, por outro lado, que as novas técnicas médicas, biológicas e genéticas põem mais problemas do que resolvem. O «melhor dos mundos» que elas poderiam realizar, se nenhum limite lhes fosse fixado, parecer-se-ia mais com um inferno do que com o paraíso ao qual aspiram aqueles que a elas cegamente se entregam. É de fato evidente que elas se desenvolvem no sentido de uma despersonalização crescente: porque transformam as doenças e os sofrimentos dos homens em entidades independentes e em problemas puramente técnicos; porque fazem, por vezes, do homem objeto de experimentação e visam, então, menos o alívio da pessoa que o progresso da ciência e da técnica considerado como um fim em si ou, mesmo, a busca do espetacular, aliado, em certos casos, a objetivos publicitários; porque tendem a fazer da vida e da própria morte puros produtos técnicos; porque fazem abstração de relações pessoais e valores humanos fundamentais, que são uma necessidade vital de todo o homem, desde a concepção até à morte.

Há que acrescentar a isto que a maioria das práticas médicas atuais tem como denominador comum considerar e tratar o homem como um organismo puramente biológico ou, no melhor dos casos, como um simples composto psicossomático. Por esta razão, e apesar da sua eficácia num certo plano, elas não podem ter sobre ele, a outro plano, senão efeitos profundamente mutiladores, pois ignoram de forma implícita a dimensão espiritual que o caracteriza fundamentalmente. Se é verdade que o corpo humano está, na sua realidade biológica, submetido às leis que, na natureza inteira, regem o funcionamento dos organismos vivos, ele não pode todavia ser tratado exatamente como qualquer outro organismo vivo, pois é o corpo de uma pessoa humana da qual não pode ser dissociado sem ser desnaturado; nas suas condições atuais de existência, é inseparável não apenas de uma componente psíquica complexa que só por si eleva o homem muito acima do animal, mas ainda de uma dimensão espiritual mais fundamental que a sua dimensão biológica. O corpo não apenas exprime, ao seu nível, a pessoa, mas também, em certa medida, é a pessoa. A pessoa não tem apenas um corpo, ela é também o seu corpo, mesmo se transcende infinitamente os seus limites. É por isso que tudo o que diz respeito ao corpo implica a própria pessoa. Não tomar em conta esta dimensão espiritual do homem quando se pretende dar remédio aos seus males, significa, inevitavelmente, causar-lhe graves danos e, muitas vezes, privar-se antecipadamente de qualquer meio de ajudá-lo a assumir o seu estado com proveito e a superar as diversas provações que vai enfrentar.

Jean-Claude Larchet
Boletim Interparoquial, jun/2006