“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

Igreja Cristo Salvador
Banjaluka, Bosnia i Hercegovina
autor: rasonna

"PESSOA (Hipóstase)"

Na Igreja, ouvimos frequentemente a expressão: “Um Deus em Três Pessoas”. Sabemos, de fato, que nosso Deus é um Deus pessoal: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Deus não é apenas unidade, mas união, pois as pessoas divinas são “unidas sem confusão: distintas, porém não divididas” (São João Damasceno). Cada uma das três Pessoas da Trindade habita nas outras duas, em razão de um movimento perpétuo de amor (o que designa a palavra “pericorese”, que significa interpretação, reciprocidade, fluxo de vida)

Deus é uma essência em três Pessoas. Nesta expressão, a palavra “pessoa” é frequentemente substituída por “hipóstase” (pessoa vem do latim ´persona´: máscara, e corresponde à palavra grega “hypóstasis”: o que se põe por cima, o que se sobrepõe). Assim, diz-se que a união das duas naturezas em Cristo – a natureza divina e a natureza humana – é uma união “hipostática”, quer dizer, da pessoa. Não podemos aqui entrar em explicações complexas desses termos, mas deve-se compreender que, na teologia ortodoxa, a “hipóstase” designa a “pessoa”, e que “Deus Se fez homem para nos comunicar e plenitude da existência pessoal”

De fato, estas palavras se aplicam também aos homens. Todos os homens possuem uma natureza comum que nos parece fragmentada pelo pecado, dividida em vários indivíduos. Ou, não se deve confundir, como o fazemos com frequência, “indivíduos” e “pessoas”. Indivíduos, parcelas da natureza humana decaída, aquilo que chamamos liberdade, a submissão aos caprichos, aos desejos, às paixões e à vontade própria que afirmamos nossa natureza, opondo-se aos outros como nosso “eu” egoísta e separado. Tudo isso é causa de sofrimento e de morte. Mas não somos apenas isso.

Somos, ou antes, nos tornaremos pessoas enxertadas no Corpo de Cristo e recebendo a unção do Espírito pelo Batismo, pelo Crisma, ou seja, os sacramentos e a vida em Igreja. É enquanto pessoa que o homem deve se realizar e tornar-se livre frente à natureza comum para não ser determinado por ela. Para que alguém ‘seja´ realmente, é necessário que ele seja uma “pessoa” (hipóstase) e que ele esteja em relação de ´comunhão´ (pericorese) com Deus e com os outros, pois a pessoa humana, à imagem de cada uma das Pesoas Divinas, só existe em relação com as outras pessoas.

A pessoa, é criada à imagem de Deus. Cada qual é única, indefinível, insusbstituível. E na Igreja que é a unidade primordial do homem enquanto pessoa será restabelecida como Corpo de Cristo, reflexo da vida divina das Pessoas da Trindade Santa.

É isto, porque pessoa não é uma entidade estática, fechada nela mesma, mas uma realidade dinâmica, chamada a realizar ´livremente´sua semelhança divina. Ela se determina por sua relação universal de comunhão com Deus e com os outros. Ela é chamada a conhecer Deus e a tomar parte de Sua vida. Enquanto imagem de Deus, o homem é um ser pessoal, diante de um Deus Pessoal. À imagem de Deus é o homem enquanto pessoa. Realizar sua salvação é receber a vida da Trindade, é fazer-se à imagem da Trindade na comunhão de todos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

Rússia
autor: Павел Цветков

Molebien

Curto ofício em louvor a Cristo, à Santíssima Virgem Maria ou a algum Santo específico, normalmente diante de seus ícones no centro da igreja. O Molebien se divide em dois tipos: os de súplica e os de agradecimento. São celebrados em ocasiões especiais como: Ano Novo, Ano Novo escolar, pedido de proteção antes de viagens, peregrinações e operações cirúrgicas, agradecimento por alguma graça alcançada, períodos de guerras ou conturbações políticas ou, ainda, em casos de calamidades públicas, como: terremotos, inundações, secas e incêndios nas florestas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A Arquitetura dos mosteiros no Monte Atos

Os mosteiros no Monte Atos foram construídos no estilo arquitetônico bizantino, fortificados por quatro paredes elevadas e torres no estilo das pequenas cidades. Alguns mosteiros foram construídos sobre enormes rochas, posições naturalmente defensivas, como por exemplo, os mosteiros Simon Petras e Dionísio. Os principais prédios de interesse arquitetônico são:
  • as torres
  • as celas
  • o Katholikon
  • a phiala
  • o refeitórios
  • os campanários
  • e as arsanas
As torres
As torres serviam para defesa contra ataques e também usadas com ponto de observação. As mais altas encontram-se nos mosteiros de São Dionísio (23,9 m), Grande Lavra (21 m), Karakalos (25,8 m) e Dokheiariou (22 m). As torres eram construções de tijolo ou pedra bruta, com um grande piso que servia como área de estocagem. Os monges protegiam-se na capela no alto da torre e mantinham-se em oração em momentos de perigo: ataques de piratas e saqueadores.

As celas
Situam-se no interior dos mosteiros, são pequenos quartos retangulares para uso individual dos monges. Na maioria dos mosteiros, chega-se a ter vários andares destinados às celas.

O Katholikon
O Katholikon é a igreja principal de um mosteiro e como tal o prédio mais importante deste. O tipo de Katholikon dos mosteiros do Monte Atos tem a forma de cruz com a cúpula central apoiada por quatro colunas. As duas cúpulas menores cobrem o santuário e o nártex. No nártex são realizadas as orações da Lítia, nas Vigílias das Grandes Festas, para que os catecúmenos e penitentes possam participar.

A phiala
A phiala é uma cúpula sustentada por um anel e pilastras, normalmente encontrada entre o Katholikon e o refeitório. A phiala é utilizada para a benção da água na festa da Teofania, pois sua cúpula situa-se diretamente acima de um poço ou fonte.

O refeitório
O mais importante prédio de um mosteiro depois do Katholikon é o refeitório, onde os monges fazem suas refeições comunais. Os monges reúnem-se no nártex e entram cantando em procissão seguidos pelo superior do mosteiro (arquimandrita ou igúmeno). A primeira refeição do dia é considerada o último ato da Sagrada Liturgia. O superior do mosteiro toma o seu lugar na cabeceira da mesa, de onde abençoa os alimentos e o leitor para as leituras de praxe durante a refeição, normalmente trechos da Filokalia. O refeitório é situado imediatamente em frente ao Katholikon, possui forma retangular e, assim como o Katholikon, está alinhado com o eixo leste-oeste dos pontos cardeais.

Refeitório
O Campanário
Além das torres de fortificação, os mosteiros normalmente possuem um a torre de um campanário, que abriga os sinos, a simandre e mais recentemente um relógio. O campanário é construído próximo ao Katholikon ou constitui parte dele. O mais antigo campanário é o do mosteiro de Vatopedi e data de 1427. No Monte Atos os sinos são tocados apenas aos domingos e dias de festa. Nos dias comuns um monge toca a simandre para o toque de despertar e para convocar os monges para os ofícios e refeições.

A arsana
A arsana é um ancoradouro que pertence aos mosteiros que situam-se no litoral próximo ao mar. Associado à arsana existe um prédio retangular com um grande portão em forma de arco diretamente voltado para o mar. Este prédio é utilizado como abrigo para os barcos de pesca e outras pequenas embarcações.

Suprimentos são trazidos pelos barcos e armazenados na parte traseira do prédio, enquanto o monge responsável pela arsana, denominado arsanaris, mora no andar superior. Para a proteção dos víveres estocados, normalmente em quantidades consideráveis, uma fortificação com a forma de torre com uma capela no seu topo, era construída perto ou ao lado do prédio da arsana.

Quase todos os mosteiros no Monte Atos foram construídos nos moldes da Grande Lavra, com o Katholikon ao centro rodeado pelo prédio do mosteiro em si, como se fosse uma fortificação protegendo-o. O Katholikon em si também apresentam uma forma similar em quase todos os mosteiros, com uma estrutura principal em forma de cruz e duas capelas laterais.
A história do desenvolvimento do monasticismo no Monte Atos pode ser dividida em três grandes períodos:
  • durante a era bizantina (do século VII à dominação turca em 1383);
  • durante o domínio dos otomanos (dominação turca em 1383 a 1912);
  • desde a independência da Grécia (1912) até os dias atuais.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

A Divina Liturgia
Pequena Entrada, Sérvia
autor: Тањица Перовић

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

“Educar as Crianças na Honestidade”

“A mentira para o homem é uma nódoa vergonhosa, está sempre na boca dos mal-educados (Ec. 20:26). O hábito da mentira é uma abominação e a infâmia do mentiroso o acompanha sem cessar (Ec. 20:28)”.

Dentre as virtudes que devem ser (im)plantadas no coração das crianças com uma persistência particular, a honestidade ocupa um lugar importante e fundamental. Por “honestidade” compreendemos um sentimento de amor pela Verdade e uma repulsa pela mentira.

Depois da obediência esta virtude deveria ocupar o segundo lugar. Se a mentira é a raíz de todos os vícios, eis que a Verdade é o início e fundamento de todas as virtudes. Por esta razão, a maior parte da atenção dos pais deveria estar orientada na implantação e no cultivar desta honestidade em seus filhos.

De que maneira os pais devem nutrir esta virtude na alma de seus filhos?

O senso da Verdade e o desejo de atingi-la são inatos em cada um de nós e, consequentemente, em cada criança. É verdade que ele é enfraquecido pelo pecado, mas todavia não é completamente aniquilado. Esta busca da Verdade se manifesta na curiosidade da criança. A criança pergunta acerca de tudo e tudo aquilo que o adulto lhe diz, ela aceita como sendo a verdade única, isto até se decepcionar. A criança inocente e não corrompida não conhece a mentira e a hipocrisia, ao contrário, se espanta não somente quando, ela própria conta uma mentira por negligência, mas também quando ouve uma mentira. O sentido (senso) da Verdade é implantado no coração da criança por Deus, Ele-Próprio. Ao homem é reservado somente a necessidade de escutar esta voz natural – de alimentá-la e de consolidá-la. É sobretudo este o dever dos pais.

Como é que eles o podem fazer? Os pais devem, primeiramente, desde o berço, plantar um amor profundo e piedoso pela Verdade e, em seguida, nutrir na criança uma santa “raiva” profunda e uma aversão por toda e qualquer mentira.

  • a) A primeira tarefa chama os pais a ensinar seus filhos a amar a Verdade em uma óptica e sobre uma base religiosa, o que quer dizer, como resultado do amor dos pais por Deus, bem como sua submissão aos Mandamentos divinos e à providência. As crianças devem amar a Verdade porque Deus (que é a Verdade imutável) quer que nós digamos a verdade, e porque Ele próprio repugna toda mentira. Somente o amor pela Verdade, fundado sobre a fé em Deus e um profundo respeito por Ele prosperarão sobre todas as provações.
  • b) A segunda tarefa requer dos pais uma troca franca com seus filhos, e que possa lhes revelar confiança. Acreditai, dai crédito às suas palavras (das crianças), até observar uma mentira. Não exijais provas, juramentos, ou sermões; contentai-vos com a palavra do Evangelho que diz: “Que o teu sim seja sim e o teu não seja não”.
    Todavia, se tiverdes uma razão firme para duvidar de suas palavras, então, nesta primeira ocasião, não deixeis transparecer que não acreditais. Procurais estar plenamente seguro de que mentem. Quando estiverdes seguro de que não dizem a Verdade, chame-os, que seja o pai ou a mãe, e seriamente, com um certo tom de gravidade, mas com amor, olheis em seus olhos e dizei-lhes: “Deus proíbe a mentira. Ele está em toda a parte e conhece não somente todos os nossos atos, como também todos os nossos segredos e pensamentos. Os lábios mentirosos são abomináveis a Deus”. A vergonha que surgirá no semblante das crianças os levará a admitir suas mentiras e lhes servirá de lição para o futuro.
  • c) Os pais devem também velar em mostrar a seus filhos amor e devoção pela Verdade, por meio de seus próprios exemplos. Sede honestos e sem hipocrisisa em todas as vossas ações e palavras. Acima de tudo, mostrai-vos amigos das verdades divinas da religião e da fé. Evitai a indiferença na fé e, particularmente, estejai atentos em não demonstrar por exemplos, que a vossa vida privada não tem nada a ver com a fé. Infelizmente, nas conversações de nossos dias, ouvimos frequentemente o espírito da mentira. Se vós vos permitis exprimir tais pensamentos diante de vossas crianças, ireis banir não somente o amor, a piedade e a religião de seus corações, mas matareis também todo o senso (sentido) da Verdade neles. Se não importa verdadeiramente a Deus que compreendamos corretamente ou não Sua essência, ou que confessemos a verdadeira ou a falsa fé, então por que deveríamos nos preocupar com a Verdade na vida de todos os dias? E se aquele que voluntariamente se mistura a falsas religiões e rejeita a revelação de um Deus perfeito compraz a Deus como aquele que confessa a Fé verdadeira, então por que a Verdade deveria ter tanto valor? Se aqueles que dizem não existir uma religião divinamente revelada têm razão, e se o verdadeiro Deus acha que nos revelar a Verdade em nossas relações com as questões mais importantes da vida não vale a pena, então como podemos exigir de uma pessoa (e ainda mais de uma criança) que ela diga a Verdade nas mínimas situações? Porque, pais cristãos, para que as vossas crianças amem a Verdade vos é necessário lhes inspirar, antes de tudo o amor e o respeito pela divina Verdade. Fechai os vossos corações, bem como de vossas crianças, à indiferença para com os assuntos religiosos. Se vossa criança se apercebe que vos aproximai das verdades religiosas com um espírito superficial e que não credes no Verbo de Deus, que esperança tendes vós que tenham e revelem esta aproximidade à Verdade? Fazei provas, vós próprios, de um amor às verdades da religião. Alimentai-as no coração de vossos filhos.

Em todos os outros aspectos de vossa vida, sede verdadeiros e justos. Evitai toda mentira, mesquinharia, hipocrisia em vossas relações para com os próximos. Se as vossas crianças vêem que a malícia tem lugar em vossas relações com os outros, que recorreis a dissimulações, a pregar ciladas e armadilhas, que sois hipócritas, se eles observarem que pretendeis demonstrar a vossos amigos que os quereis diante deles, mas maltratai-os pelas costas, então rapidamente, vossa criança tornar-se-á nada melhor do que o vosso próprio exemplo. Se, ao contrário, em todos os aspectos de vossa vida, reveleis rejeição à falsidade e à hipocrisia e à mentira, eis então que vossas crianças trarão a Verdade em seus corações, e não mais a mentira em seus lábios.

Educar as crianças afim de que elas amem a honrem a Verdade não é uma tarefa fácil, pois devemos com persistência combater as mentiras e a falsidade. Eis quatro sugestões que poderão nos ser utéis, assistindo-nos neste prodígio:

  1. Ensinai às vossas crianças a falta de amor pela mentira, em uma perspectiva religiosa, dirigindo suas atenções a Deus. Vossas crianças devem fugir da mentira, não com medo de uma punição, caso sejam descobertos, mas como resultado de uma compreensão pessoal de que Deus proíbe a mentira e que cada mentira é um pecado diante de Deus (n.T.: acrescento que todo pecado é um distanciar-se de Deus). Mostrai às vossas crianças o quanto a mentira nos afasta de Deus, fazendo referência às palavras das Santas Escrituras. Ajudai-os a compreender que as mentiras foram obra do diabo desde os primeiros tempos, ao fazer cair Adão e Eva no Paraíso: Eis porque o Senhor, Ele próprio, diz: “Porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44) – o Diabo – ensinai, pois, às vossas crianças que ao mentirem eles o imitam, tornando-se tais como ele.
  2. Não permitais de vossas crianças nem a menor das falsidades. Se uma criança se engana e o admite imediata e honestamente, então perdoai-a sem hesitar. Se a falta é séria, então diminuais a punição, dizendo-lhe que a punição fora diminuída, em virtude de imediatamente ter sido admitido seu erro. Todavia não deveis ser muito indulgentes, porque se a criança têm uma tendência a mentir, a vossa indulgência não tira proveito em nada. Se, de um lado, a criança fez algo de malicioso e o nega, eis que deveis dobrar a punição, dizendo-lhe que não somente ela lhe é auferida em virtude da transgressão mas também pelas mentiras. Se a criança, por raiva ou vingança, pronuncia palavras abusivas em relação a alguém outro, caluniando-o, eis que por isto deve lhe ser dada não somente a punição habitual por uma ofensa, mas ela deve também admitir a ofensa diante de todos aqueles que a ouviram. A lei da moral cristã o ensina.
  3. É imperativo que os pais não mintam e nem os decpcionem no que quer que seja. Não deixais que as vossas crianças sejam decepcionadas por aqueles que são mais velhos do que elas e lhes servem de parâmetro, exemplo, sejam eles seus irmãos, irmãs, serventes ou amigos... muito geralmente acontece que os pais enganam, assustam ou fazem promessas (jamais cumpridas) aos seus filhos, afim de os impedir de chorar ou com o objetivo de acalmá-los, isto provoca grandes danos! A criança cedo compreende, primeiramente, que ela é centro de muita atenção e, depois, que foi enganada; sua credibilidade para com as palavras de seus pais bem como o sentido da Verdade sofrem e diminuem.
  4. Não criais situações onde a vossa criança é levada deliberadamente ou não intencionalmente a mentir. Isto acontece por inadvertência quando o pai ou a mãe, encontrado-se, por alguma razão, com raiva, e por vezes mesmo com um cinto na mão, aborda a criança nestes termos: “Dize-me quem fez isto!” ou “Vais apanhar se fizeste isto!”...é surpreendente que a criança assustada minta? O que dizer então destes pais que riem das mentiras de seus filhos, sendo seus cúmplices na mentira com tamanha malícia? Pior ainda: o que dizer destes pais que ensinam seus filhos a mentir diante dos inspetores e professores escolares, afim de serem liberados de suas tarefas, evitando as punições. Estes pais merecem ser chamados de tentadores de seus filhos. Ficaríamos surpresos que estas crianças, em virtude de sua educação, caluniem, enganem ou roubem? A experiência mostra que aqueles que dirigem pouca atenção à mentira não pensarão duas vezes se podem ou não trapacear ou roubar.

Eis então, meus leitores cristãos, algumas palavras que podem vos ser úteis no ensino e educação de vossas crianças, em um sentimento de piedade maior pela Verdade, tal como para desenvolver uma profunda repugnância para com a mentira! Ensinai às vossas crianças a amar a Verdade primeiramente pelo exemplo do vosso amor pela Verdade em todas as vossas ações e palavras.

Ensinai-os o quanto a mentira é vil e repugnante aos olhos de Deus. Não tolereis nem mesmo uma migalha de falsidade da boca de vossos filhos, não os decepcioneis e não permitais que os outros também os decepcionem.

Em guisa de conclusão, tomai guarda em não os conduzir à mentira intencionalmente ou não.

Periódico LA VOIE ORTHODOXE nº6 – Automne 1994
Pelo Hieromártir Vladimir, Metropolita de Kiev
Tradução do Manastir SV. Apostola Petra i Pavla
Bosna i Herzegovina (BIH)
Boletim Inteparoquial, fevereiro 2006

Oração

Na aurora o meu coração vigia diante de Ti, ó nosso Deus, porque os Teus mandamentos são luz sobre a terra. Habitua-nos a cumprir a justiça e a santidade no Teu temor, pois é a Ti, nosso verdadeiro Deus que nós glorificamos. Inclina para nós o Teu ouvido e atende-nos. Lembra-Te, Senhor, de todos e de cada um dos que estão aqui presentes e oram conosco; salva-os pelo Teu poder; salva o Teu povo e abençoa a Tua herança; concede a paz ao mundo, às Tuas Igrejas, aos nossos governantes e a todo o Teu povo. Pois que o Teu nome, Honrado e Magnífico, é bendito, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

OrtoFoto

Rússia
autor: Павел Цветков

Menaia

Do grego Menaion (mês; plural, Menaea). Conjunto de livros em número de doze, um para cada mês, que contém as partes próprias das Grandes Festas e as partes fixas e próprias dos Santos do ano litúrgico.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Megalinário

Do grego μεγαλυνάριον, em eslavão velichánie. Um curto verso cantado solenemente, inicialmente pelo clero e depois pelo coro e depois por todos, após o Polieleos, glorificando o Senhor, Sua Mãe ou um Santo, por ocasião de uma Festa. Este pequeno verso normalmente começando com as palavras: “Nós glorificamos...” (em grego μεγαλυνον; magnify, em inglês e em eslavão velicháen). Os megalinária (plural) são cantados em Matinas:

  • após o Polieleos, nas Grandes Festas e em certos dias em que se comemoram alguns santos específicos.
  • o lugar do Magnificat, nas Grandes Festas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O Santo Encontro de Nosso Senhor Jesus Cristo – Hypapante - 02 / 15 fevereiro

São Lucas é o único evangelista que nos mostra José e Maria fiéis às prescrições da Lei e ao cumprimento de seus preceitos. Assim como fizeram circuncidar Jesus ao 6º dia, eles o apresentam ao Templo 40 dias após seu nascimento.

Lei de Moisés
Todo varão primogênito será consagrado ao Senhor (Ex 13, 2)

São Lucas cita as palavras do Êxodo a fim de explicar a viagem de Maria e José. Com efeito, desde que o povo de Israel saíra do Egito, na noite mesmo da partida, o Anjo do Senhor fez abater sobre os egípcios uma terrível punição, a décima praga: a morte de todos os primogênitos desde o filho do Faraó, passando pelo primogênito de cada família e atingindo até os rebanhos. Para escapar ao anjo exterminador, os judeus deveriam sacrificar um cordeiro ou cabra de um ano, um animal para cada família e espalhar seu sangue nos umbrais de suas portas. Quando da passagem do anjo com sua espada mortífera, à vista do sangue sobre os umbrais, os lares hebreus foram poupados.

Nessa mesma noite o povo inteiro deveria consumir o animal sacrificado, cada judeu, de cada família, permanecer pronto, os rins cingidos, sandálias nos pés, bastão na mão, para partir a qualquer instante. Essa foi a primeira Páscoa comemorada depois desse dia em todos os anos, em memória do Êxodo, em memória da libertação do povo judeu, da passagem da servidão à liberdade.

Ao fornecer para Moisés as prescrições em relação à Páscoa, Deus manda que cada varão primogênito nascido entre as crianças de Israel, seja consagrado a Deus, em memória da saída do Egito. A criança consagrada é oferecida diante do altar e remida como primícia, primeiro fruto do seio materno. Essa oferenda é uma ação de graças em memória dos primogênitos judeus que foram poupados na noite do massacre Egípcio.

O Filho primogênito de Maria, Aquele que abriu o seio virginal da sempre Virgem Maria Mãe de Deus, é oferecido segundo as prescrições da Lei, Ele, o autor da Lei. A Igreja se maravilha com esta contradição e sublinha mais uma vez a humilhação do Filho de Deus, sua Kenose. (Do grego Kenosis – esvaziar-se, negar-se.)

O Primogênito do Pai, anterior aos séculos, apareceu como o Varão Primogênito de uma Virgem Imaculada e dirige suas mãos à Adão (Tropário da 3º Ode)

O Cântico de Simeão - Nunc Dimittis
E agora Senhor, deixa o teu servidor, segundo a Tua palavra partir em Paz. Porque os meus olhos viram a salvação, que vem de Ti. Que tu preparaste para ser apresentada a todos os povos, Luz que brilhará sobre todas as nações e glória de teu povo, Israel.

As primeiras palavras do Cântico pronunciado por Simeão, à vista da Criança, são um grito de júbilo ante a sua morte, já próxima. É uma resposta à promessa do Espírito Santo feita ao velho, ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor.
Simeão é o último vigia de Israel, ele espreita a aurora, ele vê enfim o apontar do dia e reconhece a luz do “Sol de Justiça”.

Israel agora está pronto para se abrir ao mundo, para fazer o dom da Revelação a todos os povos. De Israel levanta-se a luz que ilumina as nações e que permanece para sempre a glória do povo eleito (v. Epístola aos Romanos, 11). E esse cântico é sempre cantado ao final das vésperas, pois é esse o ofício onde revivemos a longa espera pelo Cristo no Antigo Testamento. Ele inicia-se com o salmo 104, récita da Criação, sendo seguido da leitura de outros salmos e de passagens da Bíblia, revelando a esperança de Israel. Essa esperança conduz ao encontro entre a antiga e a nova Aliança, encontro que é realizado na pessoa do Cristo. Com a luz do entardecer, o declínio do dia, nós contemplamos uma outra luz, luz jubilosa, a mesma que Simeão encontra no Templo.

Ó Luz Jubilosa da Santa Glória do Pai, Celeste Imortal, Santo e Bem-Aventurado Senhor Jesus Cristo. Chegados ao pôr do sol, contemplando a luz vespertina, nós cantamos o Pai e o Filho e o Espírito Santo de Deus. É digno que em todo o tempo, te louvemos com vozes puras, ó Filho de Deus, que dás a vida, todo o Universo te dá glória..

Visão de Deus
Simeão, como Moisés no Sinai, encontra Deus face a face. No entanto, Moisés viu a Deus dentro da nuvem e foi forçado a cobrir o rosto pois a Luz de Deus o cegava. Simeão recebe Deus em seus braços. A proibição de ver Deus no Antigo Testamento não significa que o homem do Novo Testamento seja mais digno ou mais puro que o homem da antiga Aliança, mas ele recebe a purificação pelo próprio Cristo, que tem o poder de tirar toda mancha. É por isso que no dia da Festa do Santo Encontro, encontro de cada um de nós com o Filho de Deus, a Igreja nos faz ler a passagem de Isaías contando sua visão no Templo (Is. 6, 1-12).

Quando Isaías viu o Senhor sentado em trono elevado e contemplou sua glória, quando escutou o cântico três vezes Santo dos Anjos, ele gritou: Ai de mim que vou perecendo, porque sou um homem de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, o Senhor Sabaoth! (Is. 6,5) Um Serafim lhe foi enviado com um carvão ardente tomado do altar, a fim de purificar os lábios do profeta.

Os hinos do dia nos explicam o sentido dessa leitura. A visão de Isaías é confirmada pelo encontro de Simeão no Templo e sua purificação pelo Cristo.

O Cristo apareceu outrora ao divino Isaías, como um carvão ardente preso por uma pinça. Agora Ele é dado ao ancião pelas mãos da Mãe de Deus. (Apósticas – tom 2)

Profecia de Simeão
Após seu cântico luminoso, Simeão profetiza, ele resume em apenas uma frase todo o drama do encontro entre o Cristo e seu povo, todo o drama que vai ser desenrolar a propósito do reconhecimento do Messias, Jesus é na verdade a Luz esperada e a glória de Israel, e no entanto, Ele será a dificuldade imprevista e a queda de uma parte de Israel (João 3, 19). Essa contradição causará a dolorosa divisão e terminará na Cruz.

Maria recebe sua parte da profecia, pois ela participa dos sofrimentos de seu Filho e permanece até o fim a seu lado (João 19, 25-27). Simeão prevê que sua alma será transpassada pelo gládio da Cruz.

Simeão viu a queda provocada por Jesus Cristo para uma parte do povo, cego diante do Messias. Mas ele menciona também o elevamento de um grande número de pessoas, esse elevamento é a ressurreição daqueles que inspiram o acordar dentre os mortos após a noite dos tempos. Simeão vai morrer e no entanto ele sabe que seu papel de profeta não se realiza nesta terra. Ele deve levar a “Boa Nova” da ressurreição, agora próxima, aos prisioneiros do Hades. Ele irá profetizar junto aos habitantes do inferno, vai anunciar a Encarnação do Filho de Deus a todos aqueles que esperam esse dia, após Adão, Moisés, Davi, os profetas e “toda alma justa que houver partido na fé”.

Juntar-me-ei a Adão preso nos infernos e anunciarei a Eva a Boa Nova, dizia Simeão cantando como os profetas: Tu és Bendito Deus de nossos Pais. (Tropário – 7ª Ode)

Cordeiro de Deus
Detenhamo-nos um pouco sobre o texto do Levítico a propósito da oferenda. Está escrito que uma mulher dever ser purificada após o parto. Ela traz à entrada do Templo, para sua purificação um cordeiro de um ano, vítima do holocausto. Se ela não tiver posses suficientes para o cordeiro, tomará dois pombos.

Maria, ainda que Virgem em sua maternidade submeteu-se, como seu Filho, à Lei e vem ao Templo para ser purificada. José traz os pássaros do rito da purificação. A primeira indicação que somos tentados a tirar do texto é sobre o meio social da família de Jesus. Mas o Levítico nos traz um outro sentido o que será confirmado pelo ícone. A ausência do cordeiro não é casual, não é só por falta de recursos que a vítima não é representada. Maria tem as mãos cobertas por um linho, de acordo com o rito da oferenda. Ela oferece a criança e a remete ao sumo sacerdote que a recebe abaixo do altar do sacrifício. Jesus é a vítima sem mancha, puro e inocente, Ele é o “Cordeiro de Deus” trazido em sacrifício.

Como Abel foi imolado no lugar de seu cordeiro, como Isaac foi oferecido em sacrifício por seu pai (e depois substituído por uma ovelha), como o servidor de Isaías deixou-se conduzir ao matadouro, ovelha dócil e sem defesa, da mesma forma Jesus é trazido hoje ao Templo e o padre o recebe sobre o altar, visão profética de sua imolação sobre a Cruz.

O Templo, lugar de encontro entre o Cristo e seu povo, toma sua dimensão eterna diante do Criador, não é mais o edifício frágil e efêmero que será destruído um dia, mas o Templo Celeste “não feito por mão de homem” (Hb. 9, 11). O altar sobre o qual o Senhor é oferecido é o trono de Deus, aquele da Jerusalém Celeste: e olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um cordeiro, como havendo sido morto ... (Apocalipse 5, 6)

Jesus é trazido ao Templo como vítima sem mancha, mas Ele é também o padre sacrificador, Ele é ao mesmo tempo holocausto e sacerdote, pois oferece-se a si próprio pela vida do mundo.
Boletim InterParoquial, Fevereiro de 1989