“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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domingo, 28 de outubro de 2007

“Uma Reflexão Ortodoxa sobre Verdade e Tolerância”

O Cristianismo Ortodoxo é comprometido com o chamamento à verdade da Fé Cristã. Este chamamento inclui a verdade Bíblica de que todo ser humano foi criado por Deus à Sua Imagem e Semelhança e de que Cristo é o único Salvador do mundo.

Conseqüentemente, a Ortodoxia é fortemente comprometida com Cristo como o Messias e com a tolerância com as outras expressões religiosas. Nestes dois comprometimentos repousa a fonte da tensão criativa para os Cristãos Ortodoxos envolvidos no diálogo entre crenças e atitudes das religiões não-Cristãs.

A Ortodoxia afirma continuamente a centralidade de Cristo na Igreja e no mundo. Ele é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb.13:8). Os Cristãos Ortodoxos estão comprometidos com o chamamento à verdade da Fé Cristã não como uma ideologia, mas como uma expressão de santidade. Por isso mesmo a Ortodoxia está comprometida com a tolerância com as outras expressões religiosas.

Os Cristãos Ortodoxos quase sempre vivem em sociedades de pluralismo cultural, lingüístico e religioso. Por esta razão, desenvolveu uma atitude de respeito pelos outros, e uma tolerância e entendimento para com as pessoas de outras crenças. A Igreja Ortodoxa não tem um pronunciamento “oficial” expressando uma atitude em relação a outras religiões. Entretanto, a Ortodoxia tem uma tradição duradoura mostrando respeito e tolerância por pessoas de outras religiões. Isto é bem exposto por um teólogo Cristão Ortodoxo, o Arcebispo, Anastasios Yannoulatos, da Albânia, que, “sendo criado à imagem de Deus, cada ser humano é nosso irmão e irmã”.

É uma firme visão Ortodoxa que nosso comprometimento com o chamamento à verdade Cristã deve afirmar um cenário pluralista-democrático para todas as pessoas viverem em paz e harmonia. A Ortodoxia abraça firmemente a verdade do Cristianismo e defende o direito de outras expressões religiosas coexistirem em harmonia num sistema democrático onde a lei protege todos igualmente.

A questão da verdade é da mais alta importância para a Ortodoxia. “O que é a Verdade?” Pôncio Pilatos perguntou (Jo. 18:38). Cristo permaneceu em silêncio. Os Cristãos interpretam este silêncio como Sua resposta de que a “Verdade” estava diante dele – Cristo é a “Verdade”. “Verdade” faz referência ao conhecimento do ser. Tolerância “implica numa relação certa da fé religiosa com a verdade em todas as manifestações concretas do mundo, sejam nacionalistas, políticas ou sociológicas” (Damaskinos Papandreou, “Verdade e Tolerância na Ortodoxia”). A fonte de toda a verdade é Deus o Criador, que dá existência a todo ser. Deus é a origem e o ser humano é o receptor.

Para a Ortodoxia há uma fusão entre o chamamento à verdade pelo Cristianismo e um mandato por tolerância. Podemos dizer que não se pode ser Cristão se não se abraçar à doutrina da tolerância como um mandamento do amor Cristão.

O mais significativo ensinamento de tolerância na Ortodoxia está contido em uma carta encíclica do Patriarca Ecumênico Mitrophanes III (1520-1580). Este documento foi escrito para os Gregos Ortodoxos em Creta (1568) depois de ouvir sobre os maus tratos aos Judeus. No documento ele afirma, “Injustiça, portanto, é e permanece ainda como injustiça, independente de quem a tenha feito ou sofrido”.

A pessoa injusta nunca está livre da responsabilidade desses atos injustos sob o pretexto de que a injustiça feita foi feita contra um heterodoxo e não contra um fiel. Como Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho disse, “Não oprima ou acuse alguém falsamente; nunca faça nenhuma distinção ou dê espaço para os crentes ferirem aqueles de uma outra crença.”

Eu encerro com o pensamento de que todos os seres humanos são filhos de Deus criados à Sua Imagem, e tolerância para com as outras pessoas que têm uma fé diferente é um mandamento imperativo dado pelo próprio Cristo. Estou também comprometido com as palavras de Nosso Senhor, “Eu sou o Caminho, a Verdade, e a Vida” (Jo. 14:6).
Rev. Dr. George C. Papademetriou
“Boletrim Interparoquial " – fev 2003

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Oração ao Anjo Guardião

Santo Anjo que assiste a minha pobre alma e preside à minha vida tão plena de paixões, não abandones o pecador que eu sou e não Te afastes de mim em virtude de minha intemperança. Não dê espaço ao maligno demônio para reinar sobre mim, dominando com força este corpo mortal. Fortifica minha pobre e miserável mão e conduz-me na via da salvação. Ó santo Anjo de Deus, Guardião e Protetor tanto de minha pobre alma como de meu corpo, perdoa-me tudo que Te ofendi em todos os dias de minha vida; se pequei à noite passada, defende-me neste dia e protege-me de toda tentação diabólica, afim de que eu não encolerize por pecado algum meu Deus: Ora por mim ao Senhor para que Ele me consolide em Seu temor e faça de mim um servo digno de Sua bondade.
Amém.

sábado, 27 de outubro de 2007

"Ícones e Afrescos"

Ícones e afrescos — representações artísticas do nosso Salvador, dos anjos, dos santos e de passagens bíblicas — são uma parte importante de uma igreja Ortodoxa. Os ícones servem para nos lembrar de Deus, de Seus feitos de bondade e do Reino dos Céus. Eles transmitem em linhas e cores o que as Sagradas Escrituras descrevem em palavras. Essas imagens santas criam uma atmosfera de oração na igreja. Sem eles, a igreja pareceria um salão de reuniões secular.

Quando rezamos diante de um ícone, devemos nos lembrar de que não estamos orando ao material do que ele é feito, mas ao Senhor, à Mãe de Deus e aos Santos, que nele estão representados. Tudo o que vemos ou ouvimos tem um efeito nos nossos pensamentos e no nosso estado de humor; este é o modo pelo qual funciona nossa natureza humana. Por esta razão, achamos muito mais fácil concentrar na oração tendo a imagem de Deus diante de nós, do que olhando simplesmente para uma parede nua, ou outra coisa não relacionada com a oração.

Aqueles que não são Ortodoxos, frequentemente condenam o uso dos ícones, por um mal-entendimento do significado do Segundo Mandamento, no Velho Testamento, o qual proíbe a veneração de falsos deuses. Sabemos, pela História da Bíblia, que, enquanto o Senhor proibia a idolatria, também ordenava a Moisés mandar esculpir um querubim de ouro para cobrir a Arca da Aliança, onde Ele prometera aparecer a Moisés. “Faz um querubim numa extremidade, e um outro querubim na outra ponta... Aí hei de vir ter contigo, e contigo comungarei, desde o trono da misericórdia, entre os dois querubins que ficam em cima da arca do testemunho” (Êxodo, 25:18-22; 26:1-37).

Do mesmo modo, no Templo de Salomão, imagens esculpidas e bordadas do querubim foram encontradas no local para onde o olhar dos sacerdotes se dirigia no momento da oração. (1 [3] Reis 6:27-29; 2 Cron. [2 Paral.] 3:7-14). O Templo de Jerusalém, restaurado, no qual nosso Senhor Jesus Cristo, Seus Apóstolos e os primeiros Cristãos oraram, também continham figuras semelhantes ao querubim.

Um dos ícones mais antigos é aquele com a imagem chamada de Salvador “Não feito por mãos humanas”. A Tradição nos conta que o nosso Senhor Jesus Cristo enviou um retalho de linho com uma imagem de Sua Face, miraculosamente impressa, a Abgar, Príncipe de Edessa, que sofria de lepra. Depois de ter rezado diante daquela imagem, Abgar foi curado de seu mal.

São Lucas, o Evangelista, era um artista; ele pintou um número de retratos da Santíssima Virgem Maria. Estes, serviram como modelos para ícones subseqüentes, muitos dos quais operaram milagres.

As catacumbas, aqueles lugares santificados pelas orações dos antigos cristãos, preservaram a arte sagrada daquele tempo até o presente, Em comparação com a iconografia atual, essas imagens antigas tinham uma natureza mais simbólica; no entanto, o propósito é o mesmo: lembrar-nos de Deus. Dentre as imagens usadas na antiga Arte Cristã, devemos mencionar as seguintes: o cordeiro, simbolizando o Senhor Jesus Cristo em seu sofrimento sacrificial por nós; o leão — um símbolo do Seu poder; o peixe — a palavra grega, ichthys, é um acrônimo de “Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador”; a âncora — um símbolo da esperança cristã; a pomba — símbolo do Espírito Santo; o galo e a fênix — aves símbolo da Ressurreição; o pavão — símbolo de imortalidade; a vinha e a cesta de pão — símbolos do Sacramento da Santa Eucaristia; e muitos outros. Também encontrado nas catacumbas encontram-se composições artísticas mais complexas, ilustrando eventos bíblicos e as parábolas das Escrituras: Noé na arca; a adoração dos Magos; a ressurreição de Lázaro; o Profeta Jonas na baleia; o Profeta Moisés recebendo as tábuas da lei; as palavras do semeador, das virgens sábias e das virgens néscias, etc. Com a passagem dos séculos, esses símbolos e composições cristãos iniciais desenvolveram-se em mais finas e variadas obras de arte.

Nos ícones, Deus está representado na imagem pela qual Se revelou ao homem. Por exemplo, a Santíssima Trindade é representada na figura de três viajantes angélicos sentados a uma mesa. Este é o modo pelo qual o Senhor apareceu ao reto Abraão. Em alguns ícones, cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade recebe uma representação simbólica distinta. Jesus Cristo é pintado na forma humana, tal como Ele apareceu quando desceu à Terra e se fez homem — como um Infante nos braços da Virgem Maria, ou ensinando às multidões e fazendo milagres, ou transfigurado, ou sofrendo na Cruz, ou jazendo na sepultura, ou ressurgindo dos mortos, ou subindo aos céus. Deus Espírito Santo é representado na forma de uma pomba, tal como Ele se revelou no Batismo de Nosso Senhor no Jordão, ou na forma de línguas de fogo, tal como desceu visivelmente sobre os santos Apóstolos no qüinquagésimo dia depois da Ressurreição de Cristo.

Os ícones são diferentes das pinturas e fotografias comuns. As imagens nos ícones devem estar de acordo com a tradição iconográfica, que foi trabalhada durante séculos. Um ícone recém pintado deveria ser abençoado na igreja, aspergido com água benta. Depois disto, torna-se um objeto sagrado, através do qual a graça do Espírito Santo atua invisivelmente. Sabe-se bem que há muitos ícones milagrosos, que proporcionaram muitas curas.

Envolvendo a cabeça do Salvador e dos santos nos ícones, há um esplendor, um círculo de luz, chamado nímbus. O nímbus simboliza a graça de Deus que repousa naquele que ele envolve. O esplendor da luz de Deus normalmente é invisível ao olho físico, mas houve tempos em que, pela vontade de Deus, tornou-se visível ao homem. Assim, por exemplo, o Profeta Moisés tem que cobrir seu rosto com um véu para não cegar as pessoas com a luz que brilhava em sua face. No Monte Tabor, aos Apóstolos foi permitido verem a irradiação da Divindade de Cristo.

Durante uma conversa com Motovilov, o rosto de São Serafim de Sarov ficou como o sol. O próprio Motovilov escreveu que ele ficou impossibilitado de mirar o rosto do santo naquele momento. Tais relatos podem ser encontrados nas vidas de muitos santos também.

Nos ícones do Salvador, as palavras gregas “IC XC”, isto é, “Aquele que é”, geralmente são inscritas no nímbus, pois Ele, sendo Deus, é para sempre. Nos ícones da Mãe de Deus, inscreve-se as letras gregas “MP OY” . Elas são uma abreviação de M_t_r Theoutokous — Mãe de Deus.

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autor da gravura: Akim Karneyev

Oração de São Basílio

Senhor Todo-Poderoso, Deus das Potestades e de toda carne, que habitas nas alturas e lanças o Teu olhar, Tu que sondas os corações e os rins conhecendo claramente os segredos dos homens, ó Luz sem princípio e eterna, na Qual não há alteração nem sombra de mudança alguma, Tu-Próprio, Rei Imortal, acolhe a nossa oração que neste tempo presente, confiando em Tua imensa bondade, Te dirigimos de lábios impuros; perdoa os nossos pecados, que cometemos em ações, em palavras e em pensamentos, consciente ou inconscientemente, purifica-nos de toda mancha da carne e do espírito e faz de nós templos do Espírito Santo. E concede-nos de que com um coração vigilante e um intelecto sóbrio passemos toda a noite da vida presente, esperando a vinda do dia luminoso e resplandecente de Teu Filho Unigênito nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo, o Qual virá em glória como Juíz atribuir a cada um segundo as Suas obras. Que Ele não nos encontre caídos e nem adormecidos, antes retos e vigilantes na prática dos Seus Mandamentos, prontos a entrar juntos com Ele no júbilo da câmara divina de Sua glória, onde ressoam sem cessar os clamores festivos e o gozo inexprimível daqueles que contemplam a inefável beleza da Tua Face. Pois Tu és a luz verdadeira, que ilumina e santifica tudo e todos, bem como toda a criação Te canta pelos séculos dos séculos.
Amém.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

"O MISTÉRIO DA SALVAÇÃO", São Máximo o Confessor

TRATADO DO MAL
Dando as definições que se seguirão, S. Maximo permanece na linha do pensamento patrístico clássico. Ele aproveita, contudo, a ocasião para expor uma de suas idéias mestras: as paixões, fruto da primeira transgressão da vontade divina, rebaixaram o homem ao nível de animal. A dialética entre a paixão do prazer e aquela da dor determina a condição mesma do ser humano e de seu futuro e o conduz à morte, visto que o homem perde todo o contato com seu Criador. Nesta perspectiva psicológica e existencial, o mal não é mais uma noção abstrata; ele é, ao contrário, tudo aquilo que há de trágico e de corrompido na natureza humana: a ignorância do Criador e o apego animal aos objetos sensíveis que impulsionam o homem a adorar a criação. Esta constatação nos faz perceber as duas dimensões que comporta a natureza humana: uma, espiritual, leva o homem ao conhecimento de Deus e à união com Ele; outra, corporal, o impulsiona para as criaturas sensíveis e o submete à sua servidão sob as formas variadas das paixões múltiplas. É apenas em conseqüência da libertação desses males e da via direta para a salvação que, de uma parte, na denúncia absoluta dos vínculos da alma com o corpo e com o mundo aqui de baixo, de outra parte, no amor verdadeiro e consciente por Deus. Dizendo de outra forma, é necessário abolir o amor por si mesmo que se exerce na adoração da criação e manifestar a adoração unicamente a Deus pela prática das virtudes. Um tal conhecimento ativo de Deus nos introduz no seu amor e na união com Ele, operada pela graça.

DEFINIÇÃO DO MAL
O Mal não tem existência própria e não a terá jamais. Ele não tem, de modo algum, nem essência, nem natureza, nem hipóstase, nem faculdade, nem ação, como os outros seres criados. Ele não é nem qualidade, nem quantidade, nem relação, nem lugar, nem tempo, nem posição, nem ação, nem movimento, nem hábito, nem paixão, e não pode ser observado como tal na natureza de nenhum ser. Ainda mais, ele não tem ligação natural estrita com os seres. Ele não é nem começo, nem meio, nem fim. Definindo-o, poderíamos dizer que o Mal é apenas a ausência de ação das faculdades colocadas na natureza dos seres com a finalidade de as impelir para seu objetivo. Ou ainda, o Mal é um movimento irrefletido das faculdades naturais que as conduziu, por falsos julgamentos, a outra coisa que não seu verdadeiro objetivo. Compreendo por “objetivo”, o Autor de toda criatura para o qual tendem, por sua própria natureza, todos os seres. Isto era verdadeiro antes que o diabo levasse o homem a ignorar seu Criador empurrando-o para as criaturas; e isto, por um ciúme dissimulado sob uma aparente benevolência.

Ao primeiro homem, por ter feito mau uso de suas faculdades naturais, que deviam conduzi-lo a seu termo, aconteceu ignorar seu Criador. Ele tomou, assim, por Deus – seguindo o conselho da serpente – o que Deus lhe ordenou considerar como seu inimigo. Tornando-se desobediente e ignorando Deus, o homem misturou, até as confundir, suas faculdades intelectuais e seus sentidos e foi atraído pelo conhecimento das coisas sensíveis, conhecimento complexo e desastroso, visto que lhe desdobrava as paixões. Ele pôde, assim, ser comparado aos animais sem inteligência e se lhes assemelhou. De fato, agia, pensava e decidia como os animais. Tornou-se, mesmo, pior que os animais, pois trocou aquilo que era natural nele, por aquilo que é contra a natureza. Ora, quanto mais o homem se dirigia para as coisas sensíveis, por meio, apenas, dos sentidos, mais a ignorância de Deus o acabrunhava; quanto mais era aprisionado pela ignorância de Deus, mais se entregava ao gozo das coisas materiais conhecidas pela experiência; quanto mais se impregnava desse gozo, mais excitava o amor por si mesmo, sua conseqüência; quanto mais cultivava o amor por si mesmo, mais inventava múltiplos meios de obter o prazer, fruto e finalidade do amor por si mesmo. Mas, como o prazer desaparecia com os meios que o produzem e, como à experiência do prazer sucede, sempre, o sofrimento, o homem se dirigia tanto mais violentamente para o gozo quanto mais ensaiava evitar o sofrimento. Por esta tática, ele pensava poder separar um do outro e guardar para si só o prazer, junto com seu amor por si mesmo e estranho a todo sofrimento. Mas era impossível. Na sua paixão, o homem parecia esquecer que o prazer não pode jamais existir sem a dor. De fato, os sofrimentos físicos da dor estão incluídos no gozo, mesmo quando, sob influência do prazer, os homens não se dão conta disso; pois está na natureza das coisas que o mais forte leva a melhor sobre o mais fraco que está caído.É assim que a imensa e inumerável loucura das paixões invadiu a vida dos homens. Sua vida tornou-se, assim, deplorável. Pois os homens honram a causa mesma do aniquilamento de sua existência e perseguem, sem o saber, a causa de sua corrupção. A unidade da natureza humana se desmorona em mil pedaços e os homens, como feras, devoram sua própria natureza. De fato, procurando obter o prazer e evitar o sofrimento, impulsionado pelo amor por si mesmo, o homem inventa formas múltiplas e inumeráveis de paixões corruptoras. Por exemplo, se pelo prazer, se cultiva o amor por si mesmo, suscita-se, em si mesmo, a gulodice, o orgulho, a vaidade, a presunção, a avareza, a avidez, a tirania, a arrogância, a ostentação, a crueldade, o furor, o sentimento de superioridade, a teimosia, o desprezo pelos outros, a injúria, a impiedade, a permissividade nos costumes, a prodigalidade, o desregramento, a frivolidade, a bazófia, a indolência, o insulto, o ultraje, a prolixidade, a tagarelice, a obscenidade, e todo outro vício desse gênero. Mas, se o amor por si mesmo é ferido pelo sofrimento, faz nascer a cólera, a inveja, o ódio, a hostilidade, o rancor, o ultraje, a maledicência, a calúnia, a tristeza, o desespero, a angústia, a falsa acusação da providência divina, a indiferença, a negligência, o desânimo, o abatimento, a pusilâminidade, a lamentação, a melancolia, a amargura, o ciúme, e todos os outros vícios provenientes da privação do prazer. A mistura sofrimento-gozo, que engendra a malevolência e a maldade faz nascer em nós a hipocrisia, a ironia, a astúcia, a dissimulação, a adulação, a complacência, e os outros vícios nascidos dessa mistura.

“Boletim Interparoquial” abril de 2003
Textos traduzidos e apresentados por Astérios ARGYRIOU
Les Éditions du Soleil Levant, Namur, Belgique, 1964

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Mosaico - Manastir Sv. Apostola Petra i Pavla, Trebinje, Herzegovínia
autor: p.marcos

Oração de São Macário, o Grande (I)

Ao despertar do sono, eu recorro a Ti, Mestre Amigo dos homens, e por efeito de Tua caridade, me disponho à Tua obra.
Eu Te peço em assistir-me em todo o tempo e acontecimento; preserva-me de todo malefício deste mundo, bem como de toda artimanha do diabo, salva-me e conduz-me ao Teu Reino eterno.
Pois Tu és o meu Criador, o Mediador e o Dispensador de todo o bem, em Ti eu ponho a minha confiança e a Ti dirijo a glória, agora e sempre e pelos séculos dos séculos.
Amém.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

"A Presbitéria - seu papel na família sacerdotal e na vida eclesiástica"

Bênção, sacrifício, serviço e responsabilidade.

Primeiramente, eu devo dizer quão grande benção é para a nossa Santa Igreja Ortodoxa o fato de ela ter consagrado também, entre tantas outras coisas, o clero casado, ao contrário da Igreja Católico-Romana, que neste aspecto segue uma outra via. Em todas as suas questões, bem como nesta, nossa Santa Igreja Ortodoxa mostra-se muito mais humana, muito mais calorosa, muito mais próxima do homem, e de suas necessidades, e eu o repito, que considero isto como uma grande benção: os Padres casados constituem a maioria dos Padres. Eles vivem o mistério do sacerdócio e, ao mesmo tempo, o calor do lar familial e do amor familial. Eu quero crer que se as coisas não fossem assim, a Igreja estaria, de alguma forma, afastada dos problemas do homem contemporâneo, e isto porque é no seio da família que vivemos a plenitude das necessidades humanas, bem como as soluções santas e sagradas nas necessidades e nos problemas dos homens. No que concerne a nossa é necessário sublinhar quatro palavras-chaves: primeiramente, benção; em segundo lugar, sacrifício; em terceiro lugar, serviço e em quarto lugar, responsabilidade.

Antes de tudo, insistamos sobre a benção. Eu sei muito bem, e nós sabemos todos, que o fato de alguém ser Padre não é resultado de seu esforço próprio, mas sim de uma escolha e uma eleição de Deus: “Não me escolhestes vós a mim, mas Eu vos escolhi a vós,e vos nomeei; Eu vos escolhi do mundo”(Jo.15, 16 e 19), conhecemos também a passagem “Ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão”(Hb. 5,4). A tomada de consciência do fato e da verdade que trata-se de uma inclinação-apelo, que provém da escolha de Deus para nós, constitui em efeito uma grande honra, o que é uma benção. E isto, não devem jamais esquecer nem os Padres e nem os Bispos, nem as famílias de nossos Padres que participam desta benção. Eis uma fonte de inspiração e de força cotidiana...

A segunda palavra é o sacrifício. O sacrifício é inseparável à missão sacerdotal. E, certamente a Presbitéria, como esposa e mãe na casa, tem mais sacrifícios a sofrer, porque de certa forma ela participa da missão do Padre no mundo e na sociedade, mas, todavia, tem também seus problemas a mais, como esposa e mãe.

Na época atual não é assim tão fácil para uma mulher ser esposa de Padre. Se nossos Padres, em nossa época, e em todo o tempo, portaram o opróbrio de cristo, o mesmo é válido, guardando, no entanto, todas as proporções, para a esposa do Padre e para seus filhos e crianças.

Nós devemos sustentar as famílias sacerdotais, para que elas possam portar a escolha de um tal sacrifício, sempre certas na lógica da benção com a qual começamos precedentemente. Os problemas das famílias sacerdotais, talvez não sejam largamente conhecidos, mas, todavia existem: são problemas que reúnem nela cada família; são problemas que todos nós temos o dever e a obrigação de abordar, estendendo uma mão que socorre.

A terceira palavra-chave é o serviço. O serviço provém da concepção, que nós temos e que nós aprendemos a ter, de que somos imitadores de Cristo Jesus, o qual “não veio para ser servido, mas para servir, e dar a Sua vida em resgate de muitos”. (Mt. 20,28). O serviço, o senso do serviço é inseparável ao senso do sacerdócio e pré-suposto, certamente, de grandes reservas de amor na alma do Padre, mas também na alma da Presbitéria, sua esposa. E este serviço é aquele que se estende e abraça todo o homem como entidade psicossomática.

E, enfim, a palavra responsabilidade, a quarta palavra é também aquela que convém ao povo da Igreja, e aos Padres e às Presbitérias. O fato de viver com responsabilidade, com consciência de uma alta missão, que temos que realizar no mundo; isto também é único. É algo que vivemos mais do que podemos descrever. O que significa viver com responsabilidade? Isto significa exatamente que cada um viva com o sentido da oferenda no seio da sociedade, como também o da recompensa pelo que ele oferece à sociedade.

Sua Beatitude o Arcebipo Cristódulos de Atenas e toda a Grécia
Revista Ephimerios, Athenas, Junho 2000)
Traduzido pela monja Rebeca - Manastir Sv. Apostola Petra i Pavla
Boletim Interparoquial” (set. 2004)

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Iconostase da Capela de Santa Maria Madalena
Mosteiro Ortodoxo da Dormição da Santa Mãe de Deus
Penedo, Itatiaia, Rio de Janeiro

Oração de Manassés, Rei de Judá

Senhor, Todo-Poderoso, Deus de nossos Pais Abraão, Isaac e Jacob e de sua santa posteridade; Tu, que criaste os céus e a terra com todo o seu esplendor; Tu, que pela Tua palavra fixaste os limites do mar, Tu que formaste o abismo selando-o pelo Teu Nome temível e glorioso. Tu, cujo poder faz tremer toda criação, face à magnificência de Tua glória inacessível e o fogo abrasador da Tua ira para com os pecadores; Tu nos ofereces, também, a Tua insondável e imensa misericórdia, segundo a Tua santa promessa. Pois Tu és o Senhor Altíssimo, compassivo, longânime e cheio de misericórdia, que perdoas as iniqüidades dos homens. Tu, Senhor, na Tua infinita bondade, prometeste a penitência e o perdão, àqueles que pecaram contra Ti e, na abundância de Tua compaixão, estabeleceste o arrependimento, não para os justos, visto que não pecaram contra Ti, mas para mim, pecador, cujas faltas ultrapassam em número os grãos da areia do mar. Eu acresci as minhas faltas, sim, Senhor, eu acresci-as e não sou digno de elevar os olhos e olhar ao alto para o céu, em virtude da multidão das minhas iniqüidades. Eis que vergo-me e não mais posso erguer a cabeça, por ter exasperado o Teu furor e praticado o mal diante de Ti, no lugar de cumprir a Tua vontade e guardar os Teus preceitos. E agora, faço prostrar o meu coração, implorando a Tua bondade. Pequei, Senhor, pequei contra Ti e reconheço as minhas faltas; mas imploro-Te, suplicando: Perdoa-me, Senhor, perdoa-me; não me faças perecer pelas minhas faltas, não Te detenhas para sempre pelo mal que cometi e não me lances às profundezas da terra. Pois Tu és, ó Senhor, o Deus daqueles que se arrependem, Tu manifestarás em mim a Tua plena bondade, posto que apesar da minha indignidade, salvar-me-ás na Tua grande misericórdia. Eu Te louvarei para todo o sempre, em todos os dias da minha vida, assim como os Poderes Celestes que Te exaltam nos céus. Pois que a Ti pertence a glória pelos séculos dos séculos. Amém.