“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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domingo, 21 de outubro de 2007

“Da leitura das Sagradas Escrituras”

Nas “Sagradas Escrituras” deve procurar-se a verdade, não a eloqüência.
Devem ser lidas com o mesmo espírito com que foram ditadas.
Busque-se antes a utilidade que a subtileza da linguagem.
Devemos ler com igual boa vontade, tanto os livros simples e piedosos, como os sublimes e profundos.
Não te mova a autoridade de quem escreve, se é de pouca ou de muita erudição: seja o puro amor da verdade que te leve à leitura.
Não procures saber quem disse, mas o que foi dito.
Os homens passam, mas a verdade do Senhor permanece eternamente.
De vários modos ela nos fala de Deus, sem acepção de pessoa.
Nossa curiosidade, muitas vezes, nos prejudica na leitura das Escrituras; porque pretendíamos entender e discernir tudo, quando conviria, simplesmente, ir além.
Se queres tirar proveito, lê com humildade, com fé e simplicidade e não aspires jamais ter fama de letrado.
De boa vontade consulta e ouve calado as palavras dos santos; e não te enfades com as sentenças dos mais velhos. Porque eles não as proferiram sem razão.

sábado, 20 de outubro de 2007

OrtoFoto

autor: Slobodan Simic

"Há duas doutrinas, mas não há senão uma só Verdade"

Há duas doutrinas, uma de Deus, imutável, como Ele: outra do homem, mutável como ele. A sabedoria incriada, o Verbo divino espalha a primeira nas almas preparadas para recebê-la; e a luz que lhes comunica é uma parte dele mesmo, de Sua Verdade substancial e sempre viva. A todos Se oferece, mas com mais abundância se comunica ao humilde de coração; e como dele não venha, nem de seu entendimento dependa, ele a possui sem ser tentado de vã complacência possuí-la.
A doutrina do homem, pelo contrário, adula seu orgulho, porque ele é seu autor: “Esta idéia é minha; fui eu o primeiro que disse isto; nada se sabia a esse respeito antes de mim”. Espírito soberbo, eis aqui tua linguagem. Mas bem depressa contestarão a essa poderosa razão o que faz sua alegria; rirão de suas idéias falsas que ele tinha por verdadeiras, de suas descobertas imaginárias: no dia seguinte, já ninguém pensa em tal, e o tempo leva consigo até o nome do insensato que não viveu senão para ser imortal na terra.
Oh Cristo! Dignai-Vos de inspirar em mim Vossa Verdade Santa; preserve-me ela para sempre dos extravios de minha razão.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

OrtoFoto

autor: Marina D.

"Do humilde sentir de si mesmo"

Todo homem, naturalmente, deseja “o saber”; de que vale, porém, a ciência sem o temor de Deus?
Melhor, sem dúvida, é o camponês humilde que serve a Deus que o filósofo orgulhoso o qual, de si mesmo esquecido, considera o curso dos astros.
Quem se conhece bem, despreza-se e não se compraz em humanos louvores.
Soubesse eu tudo no mundo, faltando-me a caridade, de que me valeria, diante de Deus que me julgará pelas minhas obras?
Abstém-te do desejo desordenado de saber, pela muita distração e ilusão que dele advêm.
Os doutos estimam ter tidos como sábios e que assim os considerem.
Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma.
E muito sensato é quem a outras coisas se aplica, indiferente à própria salvação.
A abundância de palavras não sacia a alma; uma vida santa, porém, refrigera a inteligência e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.
Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado, a não ser que tenhas vivido mais santamente.
Não te desvaneças, pois, de qualquer arte ou ciência; antes teme pelas luzes que recebeste.
Se te parece que sabes muitas coisas e perfeitamente as compreendes, considera que muito mais é o que desconheces.
Não te presumas de alta sabedoria; antes, confessa tua ignorância.
Por que te preferes aos demais, quando há outros mais doutos e versados na lei?
Se queres alguma coisa saber e aprender, utilmente, estima ser ignorado e tido em nenhuma conta.
Não há melhor e mais útil ciência que o conhecimento e desprezo de si mesmo.
Ter-se por nada e julgar bem aos outros, é grande sabedoria e perfeição.
Ainda mesmo que visses alguém manifestamente pecar ou cometer faltas graves, nem por isso te deverias ter por melhor; pois não sabes o tempo em que perseverarás no bem.
Fracos somos todos, mas a ninguém tenhas por mais fraco que tu.

OrtoFoto

autor: Yevgeniy Cherin

"Da imitação de Cristo e do desapego das vaidades do mundo"

“Quem me segue não anda em trevas”, diz o Senhor. São estas as palavras de Cristo pelas quais somos exortados a imitar Sua vida e Seus costumes, se verdadeiramente desejamos ser esclarecidos e livres de toda a cegueira de coração.
Seja, pois, nosso principal empenho meditar a vida de Jesus Cristo.
A Sua doutrina sobreleva a de todos os santos e quem possuir o seu espírito encontrará um maná escondido.
Acontece, porém, que muitos da freqüente audição do Evangelho tiram pouco proveito, por não terem o espírito de Cristo.
Quem quiser, pois, entender plenamente e com proveito as palavras de Cristo, deve conformar sua vida com a Dele.
Que te aproveita discorrer sabiamente sobre Trindade se, por falta de humildade, lhe desagradas?
De certo não são as palavras sublimes que tornam o homem santo e justo; mas uma vida virtuosa o faz agradável a Deus.
É preferível, experimentar a compunção a saber defini-la.
Ainda que soubesse de cor toda a Bíblia e as máximas de todos os filósofos, de que serviria tudo isso sem caridade e a graça de Deus?
Vaidade das vaidades é tudo vaidade; exceto amar a Deus e só a Ele servir.
A suprema sabedoria consiste em procurar o Reino dos céus pelo desprezo do mundo.
Vaidade, pois, buscar riquezas perecedouras e nelas pôr sua confiança.
Vaidade também desejar honras e comprazer-se na elevação.
Vaidade seguir os apetites da carne e ambicionar o que mais tarde deve ser severamente punido.
Vaidade aspirar à longa vida, sem cuidar de que seja boa.
Vaidade atender somente à vida presente, sem prever as coisas futuras.
Vaidade amar o que tão depressa passa e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.
Lembra-te amiúde, do provérbio: “Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir”.
Aplica-te, pois, em desviar de teu coração o amor das coisas visíveis e volta-te para as invisíveis; pois, os que seguem os atrativos da carne, mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Santa Pelágia, a Penitente - 08/21 de outubro

Santa Pelágia vivia em Antioquia na segunda metade do quinto século. Entregue à dança e aos prazeres impuros, ela era a prostituta mais conhecida desta grande cidade e tinha retirado de seus fundos uma grande fortuna que ela utilizava somente para os cuidados do corpo e em perfumes voluptuosos para atrair novas vítimas às suas redes. Ela tinha muitos escravos e servidores que a escoltavam quando ela passeava pela cidade, sentada em seu carro luxuoso.

Ora, certo dia o Arcebispo de Antioquia havia convidado Nonnus, o Bispo de Edessa, um santo homem cujas palavras inspiradas traziam seus auditores ao arrependimento e o amor à virtude, a pregar diante do povo. Pelágia acabava de passar diante da assembléia com seu cortejo habitual. Quando todos voltavam os olhos a este espetáculo, São Nonnus olha esta mulher chorando. Ele diz aqueles que o rodeavam: “Pobre de nós, preguiçosos e negligentes, pois nós devemos dar contas no dia do julgamento, por não termos agradado a Deus pelo mesmo zelo e cuidado que põe esta pobre mulher a ornar seu corpo por um prazer passageiro”. E ele ora ardentemente ao Senhor pela sua conversão.

No dia seguinte, quando Nonnus comentava o Santo Evangelho ao curso da Divina Liturgia, Pelágia encontrava-se na assembléia. As palavras do Bispo sobre o julgamento final e a eternidade das penas do inferno penetram no coração da jovem mulher tal como uma espada pontiaguda e despertam nela o único e verdadeiro amor, aquele do esposo celeste.

De retorno ao seu palácio, ela dirige uma carta ao Santo Bispo, pedindo que ele aceitasse de recebê-la e que não desprezasse sua torpeza, sendo ele verdadeiramente discípulo daquele que é vindo para chamar “não os justos, mas os pecadores à conversão” (Mt. 9,13).

Nonnus responde-lhe que se ela estivesse verdadeiramente decidida a arrepender-se, ela deveria apresentar-se na Igreja, diante de toda a assembléia dos clérigos e do povo, para confessar suas faltas.

Pelágia precipita-se à igreja, esquecendo seu cortejo e seu orgulho de outrora. Em seguida ela prostra-se aos pés do Bispo e o suplica de fazê-la renascer à vida divina pelo Santo Batismo, a fim de que o demônio e o hábito não a lembrassem de sua vida de desleixo. Quando do batismo de Pelágia, toda a cidade de Antioquia rejubila-se neste acontecimento e da salvação desta alma.

Ela foi confiada à uma monja romana, que a inicia no combate espiritual e à vida do arrependimento. Pela oração e pelo sinal da cruz, ela vence assim as tentações de retornar à sua vida de pecado, que não tardam a confundi-la. Alguns dias depois de seu batismo, Pelágia faz distribuir todas as riquezas aos pobres e junta-se aos escravos.

Assim, liberada de todo apego do mundo, ela troca seus vestidos femininos por rudes vestimentas masculinas e parte em secreto para praticar a ascese na Palestina, sobre o Monte das Oliveiras. Ela permanece muitos anos fechada em uma pequena cela, lutando a cada dia contra as paixões que estavam enraizadas em seu corpo e colocando a partir de então todo cuidado que ela tinha outrora pelos cuidados exteriores ao ornamento de sua alma pela vida eterna.

Permanecendo na solidão, o renome de seus esforços espalha-se entre os ascetas da Palestina, os quais acreditavam que ela era um homem. Quando a Santa Penitente rende em paz sua alma a Deus, todos os monges da região reúnem-se para venerar suas santas relíquias e glorificam grandemente o Senhor, aprendendo de um discípulo de Nonnus a verdadeira história de Pelágia, que ensina todos aqueles que estão mergulhados nas trevas do pecado a não mais desesperar, mas a perseverarem com valentia sobre a via do arrependimento.
Tropário, t.4
No meio dos espinhos, floresceste para a Igreja como uma rosa de doce perfume e alegraste-nos pela prática das virtudes; como um perfume de agradável suavidade, ó Venerável Mãe, ofereceste a tua vida para Aquele que, por ti, realizou maravilhas; suplique a Ele, então, para nos salvar de todas as paixões da alma e do corpo.
Kondákion, t.2
Tendo desfeito o teu corpo nos jejuns, nas tuas orações de noites a fio suplicavas, ó Venerável Mãe, ao Criador para conceder-te plena remissão dos teus pecados; na verdade, recebeste este perdão por ter percorrido o caminho do arrependimento.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

OrtoFoto

autor: Adam Falkowski

"PESSOA (Hipóstase)"

Na Igreja, ouvimos frequentemente a expressão: “Um Deus em Três Pessoas”. Sabemos, de fato, que nosso Deus é um Deus pessoal: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Deus não é apenas unidade, mas união, pois as pessoas divinas são “unidas sem confusão: distintas, porém não divididas” (São João Damasceno). Cada uma das três Pessoas da Trindade habita nas outras duas, em razão de um movimento perpétuo de amor (o que designa a palavra “pericorese”, que significa interpretação, reciprocidade, fluxo de vida).

Deus é uma essência em três Pessoas. Nesta expressão, a palavra “pessoa” é frequentemente substituída por “hipóstase” (pessoa vem do latim ´persona´: máscara, e corresponde à palavra grega “hypóstasis”: o que se põe por cima, o que se sobrepõe). Assim, diz-se que a união das duas naturezas em Cristo – a natureza divina e a natureza humana – é uma união “hipostática”, quer dizer, da pessoa. Não podemos aqui entrar em explicações complexas desses termos, mas deve-se compreender que, na teologia ortodoxa, a “hipóstase” designa a “pessoa”, e que “Deus Se fez homem para nos comunicar e plenitude da existência pessoal”.

De fato, estas palavras se aplicam também aos homens. Todos os homens possuem uma natureza comum que nos parece fragmentada pelo pecado, dividida em vários indivíduos. Ou, não se deve confundir, como o fazemos com freqüência, “indivíduos” e “pessoas”. Indivíduos, parcelas da natureza humana decaída, aquilo que chamamos liberdade, a submissão aos caprichos, aos desejos, às paixões e à vontade própria que afirmamos nossa natureza, opondo-se aos outros como nosso “eu” egoísta e separado. Tudo isso é causa de sofrimento e de morte. Mas não somos apenas isso. Somos, ou antes, nos tornaremos pessoas enxertadas no Corpo de Cristo e recebendo a unção do Espírito pelo Batismo, pelo Crisma, ou seja, os sacramentos e a vida em Igreja. É enquanto pessoa que o homem deve se realizar e tornar-se livre frente à natureza comum para não ser determinado por ela. Para que alguém ‘seja´ realmente, é necessário que ele seja uma “pessoa” (hipóstase) e que ele esteja em relação de ´comunhão´ (pericorese) com Deus e com os outros, pois a pessoa humana, à imagem de cada uma das Pesoas Divinas, só existe em relação com as outras pessoas.

A pessoa é criada à imagem de Deus. Cada qual é única, indefinível, insubstituível. E na Igreja que é a unidade primordial do homem enquanto pessoa será restabelecida como Corpo de Cristo, reflexo da vida divina das Pessoas da Trindade Santa.

É isto, porque pessoa não é uma entidade estática, fechada nela mesma, mas uma realidade dinâmica, chamada a realizar ´livremente´ sua semelhança divina. Ela se determina por sua relação universal de comunhão com Deus e com os outros. Ela é chamada a conhecer Deus e a tomar parte de Sua vida. Enquanto imagem de Deus, o homem é um ser pessoal, diante de um Deus Pessoal. À imagem de Deus é o homem enquanto pessoa. Realizar sua salvação é receber a vida da Trindade, é fazer-se à imagem da Trindade na comunhão de todos.
Boletim Interparoquial - julho de 2002

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Boletim Interparoquial - outubro de 2007

Sumário:
- Viagem ao Nordeste Brasileiro
- Memória de Santa Pelágia
- A Imagem do Invisível
- Sabemos Nós o Significado da Palavra "Paróquia"?
- Santoral e Leituras

Pedidos e Assinatura: boletim.interparoquial@gmail.com

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Proteção da Santa Mãe de Deus - 01/14 de outubro

A festa da Santa Proteção da Mãe de Deus, comemorada em 01/14 de outubro, foi instituída após uma visão que teve nosso Santo Pai André, Louco em Cristo, um dia quando celebrava-se uma vigília na Igreja de Blachernes, em Constantinopla. À quarta hora da noite, o santo – mergulhado em oração – elevou os olhos em direção aos céus e viu a Santa Mãe de Deus permanecer acima da assembléia e recobrir seus fiéis com seu véu (mamphorion). André assegurou- se da realidade de sua visão junto a seu discípulo, que também havia sido digno de contemplar tal espetáculo. O santo precipitou-se então para dentro do Santuário abriu uma caixa que continha o precioso véu da Rainha do Mundo, e, diante, das portas santas (hoje, mais comumente chamadas de Portas Reais), ele o estendeu acima da multidão. O véu era tão grande que recobria toda a numerosa assembléia e, no entanto, permanecia suspenso no ar, sustentado por uma força misteriosa. A Mãe de Deus eleva-se então aos céus, envolta num fortíssimo clarão de luz e desaparece, deixando ao povo cristão seu véu, como garantia de sua proteção benevolente. Essa proteção, a Mãe de Deus mostrou numerosas outras vezes em relação à cidade imperial e, por analogia, a toda a santa Igreja de Cristo, a nova Jerusalém. É, com efeito, por todos os lugares e em todos os momentos que a Soberana do mundo estende misticamente seu véu sobre os cristãos, dirigindo a seu Filho e Senhor suas orações e suas intercessões para a salvação do mundo.

*Essa festa é particularmente solenizada nas Igrejas eslavas. Na Grécia, após 1960, ela foi transferida para o dia 28 de outubro, em memória da proteção concedida pela Mãe de Deus às tropas gregas que resistiram à invasão nazista no front albanês, em 1940.