“A Ortodoxia manifesta-se, não dá prova de si”

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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Santo Pontífice e Doutor, Atanásio o Grande, Patriarca de Alexandria (+373) - 02/15 mai

A grande fileira dos santos padres e doutores da Igreja tem seu começo no tempo dos santos apóstolos. Geralmente, os santos padres da Igreja são escritores religiosos (na sua maioria na dignidade episcopal), que levavam uma vida santa. Os escritores religiosos não canonizados são chamados de doutores da Igreja.

Os padres e doutores da Igreja, nos seus livros, nos relegaram as tradições apostólicas e explicaram os verdadeiros ensinamentos e doutrinas da fé e religiosidade. Nos tempos difíceis de conflitos e lutas contra hereges e seus ensinamentos eles eram os defensores da Ortodoxia e a sua vida e atividade servem de um digno exemplo para todos.

Em particular, durante o século IV houve grandes padres e doutores, que defenderam a sua Igreja na época, em que a Igreja foi profundamente e por muito tempo abalada pela heresia de Ário (este herege renegava a natureza divina do Nosso Senhor Jesus Cristo).

O primeiro e grande defensor da Igreja contra os arianos era santo Atanásio Grande (293-373). Desde criança, este santo já demonstrou ter dons e talentos especiais e mais tarde a sua educação foi aperfeiçoada pelos arcebispos da Alexandria, Pedro e Alexandre. O santo Antônio Grande, cuja vida o santo Atanásio descreveu, exerceu uma grande influencia sobre ele. Após ter se aprofundado nos estudos das Escrituras Sagradas e obras dos santos padres e doutores da Igreja, bem como a literatura clássica da antigüidade, santo Atanásio assumiu um cargo muito importante naquela época de arcediácono junto do arcebispo Alexandre e lhe ajudou muito na luta inicial com a heresia de Ário.

Sendo o colaborador mais próximo, a quem o arcebispo Alexandre mais confiava, Atanásio acompanhou-o no Primeiro Concílio e neste Concílio foi notado por todos os presentes: ninguém falava tão enfaticamente contra Ário e ninguém era tão eloqüente e expressivo, como ele. Em menos de um ano após o Concílio, o jovem arcediácono foi nomeado arcebispo da Alexandria. Apesar da sua pouca idade (ele tinha somente 28 anos), o arcebispo Atanásio dirigiu toda aquela vasta região com rigor e sagacidade, se aproximou dos outros bispos, ordenou Frumêncio bispo mandando-o para a Abissínia, visitou os numerosos mosteiros em Tebaida e outras regiões do Egito e também visitou o seu mestre de juventude, santo Antônio.

Santo Atanásio era enérgico e simpático, inflexível no que se referia a verdade, porém condescendente com aqueles que se equivocavam. Ele era muito discreto e ao mesmo tempo era muito perspicaz, tinha uma vasta cultura e tudo isto contribuiu para que ele se tornasse logo muito querido e ao mesmo tempo muito respeitado. Mas esta sua atividade durou somente 2 anos; após este tempo começou um período de muitas provações e calamidades. Os adeptos de Ário, encabeçados pelo bispo Eusébio, bastante conhecido na corte de Nicomédia, e que ainda na escola era colega de Atanásio, tentaram de todos os meios levar de volta na igreja o Ário, e até conseguiram dispor a favor dele a irmã do imperador, Constância, e através dela o próprio imperador Constantino. Ficou decidido chamar Ário — que aparentemente se arrependeu — de volta do exílio e o arcebispo de Alexandria foi obrigado a aceitá-lo novamente na Igreja. Atanásio, compreendendo perfeitamente a astúcia e o fingimento dos pseudo-doutores, se recusou a aceitar o herege, que rejeitava a divindade do Nosso Senhor Jesus Cristo.

A partir deste momento começam as perseguições do confessor de Cristo e são inventadas contra ele as mais incríveis calunias. Ele foi acusado de extorsão e de roubo dos rendimentos da igreja, de contatos com os inimigos do império, do assassínio de um bispo chamado Arsênio, e foi acusado até de ter decepado a mão do Arsênio para fazer bruxaria com ela e para maior credibilidade, os inimigos do santo mostravam aquela mesma mão, que foi — diziam eles — achada nos aposentos do santo. Mas, inesperadamente para todos eles, o próprio Arsênio apareceu em pessoa e foi levado até a reunião dos caluniadores, mostrando-lhes ambas as mãos completamente sãs. Isto levou os inimigos do santo à uma ira irrefreável: eles avançaram contra ele e quase o estrangularam. Isto aconteceu ainda durante a vida do imperador Constantino, protetor da Igreja. Os sucessores dele, Constâncio-ariano e Juliano-apóstata, perseguiram abertamente o santo Atanásio, mas não conseguiram vencer a sua firmeza.

Houve uma época, em que os colaboradores mais fervorosos do santo Atanásio — Oseias, bispo de Córdoba, Libério, papa de Roma, que lutavam contra os arianos, e que como ele não conseguiram vencê-los, foram destituídos de suas cátedras, aprisionados, e em conseqüência disto fraquejaram e aceitaram compromissos com os arianos, mas o santo Atanásio permaneceu solitário e firme, liderando a luta dos ortodoxos contra os arianos. Durante os quase cinqüenta anos de seu exercício de arcebispado, santo Atanásio foi cinco vezes expulso da Alexandria, passou quase vinte anos nas prisões e no exílio e até os últimos dias de sua vida lutou contra os hereges tentando restabelecer a paz e a unanimidade na Igreja.

Durante a sua vida tão agitada e sacrificada, santo Atanásio escreveu muitas obras em defesa da Ortodoxia e ensinamentos para os fieis. As suas obras, traduzidas para o russo, foram editadas em quatro volumes. Até hoje, os pensamentos e as demonstrações e provas do santo Atanásio têm um grande significado para todos nos, a sua linguagem é muito rica. Este grande homem morreu aos 75 anos.

Tropário, t.3
Como pilar da Ortodoxia, sustentaste a Igreja com os teus divinos ensinamentos, ó Pontífice Atanásio, tu proclamaste o Filho consubstancial ao Pai, contra a doutrina de Ario; Pai Santo, roga a Cristo nosso Deus para nos conceder a graça da Salvação.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Santo Apóstolo e Evangelista, Marcos (+63) - 25abr/08mai – Sexta

Apóstolo de Cristo de origem pouco conhecida, autor do segundo dos evangelhos sinóticos, os outros são os Mateus e Lucas, e considerado fundador da igreja do Egito e, também, fundador da cidade italiana de Veneza. Seu nome aparece nas epístolas de São Paulo, que se refere a ele como um de seus colaboradores que enviavam saudações de Roma. A principal fonte de informações sobre sua vida está no livro Atos dos Apóstolos. Filho de Maria de Jerusalém e primo de Barnabé, já se havia convertido ao cristianismo quando Paulo e Barnabé chegaram a Jerusalém (44) trazendo os auxílios da Igreja de Antioquia (At 11,30). Acompanhou Barnabé e Paulo a Antióquia (12,25), na hoje Turquia, onde atuou como auxiliar de Paulo, mas voltou à Jerusalém quando chegaram a Perge, na Panfília. Depois ele e Barnabé teriam embarcado para à ilha de Chipre (13,4-5), na sua primeira viagem apostólica, porém o apóstolo não voltou a ser mencionado nos Atos. De Chipre passou a evangelizar a Ásia Menor e, em decorrência de alguns conflitos, separou-se de Paulo e Barnabé em Perge (Panfília) e voltou para Jerusalém (13,13). Voltou a Chipre (50) acompanhado apenas de Barnabé (15,39) e depois foi para Roma como colaborador de Paulo, prisioneiro naquela cidade (Cl 4,10; Fm 24).

É possível que tenha deixado Roma antes da perseguição de Nero (64), pois depois (67) o apóstolo de Tarso, prisioneiro pela segunda vez, escrevia a Timóteo pedindo-lhe que levasse consigo, de Éfeso para Roma, o seu discípulo e colaborador, já que este lhe era muito útil em seu ministério (2Tm 4,11). Em Roma, também entrou em contato com Pedro, pois este, dirigindo-se aos fiéis do Ponto, da Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, saúda-as em nome do evangelista, a quem afetuosamente chama de filho (1Pe 5,13). Provavelmente escreveu em Roma o Evangelho (50-70) que traz o seu nome e que compila e reproduz a catequese de Pedro.

Seu Evangelho destinou-se aos cristãos provenientes do paganismo e tem um estilo simples e vigoroso e com seus 661 versículos, é o Evangelho menos extenso. No século II, o bispo Pápias de Hierápolis, Anatólia, afirmou que ele teria sido intérprete de São Pedro. Embora sejam parcas as informações sobre o evangélico, é indiscutível sua importante participação nos primeiros tempos da igreja cristã. Na Itália seu nome está ligado à cidade de Veneza, para onde mercadores venezianos provenientes de Alexandria, transportaram o que diziam ser as suas relíquias (828). Seu símbolo como evangelista é o leão e a Igreja Católica festeja seu dia em 25 de abril, data em que o evangelista teria sido martirizado.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

São Jorge Megalomártir (283-303) - 23 abril/06 maio


Estamos no ano 303, sendo Imperador dos romanos, Dioclesiano. Comprovando o sucesso da sua política, quer ao interior do império, quer face aos inimigos do exterior, em breve se apressou a cultuar com grande cuidado o que ele chamava de “respeito para com a divindade”.

Oferecia sem cessar numerosas vítimas aos seus deuses, sobretudo ao “deus” Apolo, em virtude da sua habilidade em predizer o futuro. Consultando um dia este deus (Apolo) sobre um assunto respeitante ao governo do Estado, obteve como resposta algo que o deixara perplexo: “os justos que estão na terra impedem-me de dizer a verdade”.

Consternado com o que lhe havia sido respondido, o infeliz imperador quis conhecer os justos que estavam sobre a terra. Um dos sacerdotes ao serviço de Apolo informou-o logo de seguida que os cristãos eram o motivo da resposta do mesmo deus. A partir desta data ficou o augusto príncipe mais enfurecido do que nunca, desencadeando aquela que viria a ser conhecida com a mais terrível e mais cruel de todas as perseguições que até então haviam sido movidas contra os cristãos.

Sabendo do assustador crescimento do número de cristãos no império e do desdém e desprezo que estes manifestavam diante das leis injustas que tinha promulgado, ordenou que todos os governadores e procuradores do Oriente se apressassem a reunir-se consigo na capital do império.

Nesta assembléia foram tomadas medidas drásticas e deliberações mais radicais com o intuito de reprimir, e mesmo aniquilar, a propagação do cristianismo nos territórios do império. Não satisfeito com o resultado obtido, mandou que fossem convocadas duas novas assembléias para ajuizarem a eficácia das decisões anteriormente aceites.

É precisamente na segunda destas duas assembléias que São Jorge vai estar presente. General dos exércitos imperiais, nascera na Capadócia, filho de pais cristãos de ilustre estirpe. Ainda menino, tiveram por bem os seus pais educá-lo segundo os princípios da Igreja de Cristo, introduzindo no seu dócil coração a piedade, a caridade e a compaixão que um dia viriam ser postas à prova.

Seu pai, também ele oficial e comandante de várias legiões, perece em combate, altura em que São Jorge se dirige para a Palestina, província donde era originária sua mãe. Em breve era nomeado tribuno militar (representante dos exércitos do senado), posto que lhe granjeou, pela sua coragem no campo de batalha, a fama de um soldado intrépido.

Desconhecendo a fé de São Jorge, Dioclesiano fá-lo comitês (companheiro). Presenciando a morte de sua mãe, após a partida dessa para o reino dos céus, toma todos os seus bens e vai encontrar-se com o imperador.

Desde o primeiro dia da assembléia, altura em que constatou de perto a crueldade e as atrocidades que, em virtude dos decretos do senado, muito rapidamente se iriam abater sobre os cristãos indefesos, deu início à distribuição de todos os seus haveres pelos pobres da cidade. É aconselhável que digamos que a sua fortuna pessoal era uma das maiores do império.

São Jorge tomara a decisão de, no terceiro dia da assembléia, enveredar pela defesa da sua Igreja e do seu Deus, divulgando perante tão douta e grandiosa reunião de personalidades, a sua fé.

Colocando-se de pé, no meio da assembléia, falou nestes termos: - “Imperador, senadores romanos, romanos! Até onde irá o nosso furor contra os cristãos? Leis sábias educaram-vos e alimentaram-vos e agora decretais contra os cristãos leis injustas e perseguis os inocentes. Eles tiveram a alegria de encontrar a verdadeira religião e vós quereis forçá-los a escolher a vossa, sem saberdes vós próprios se ela é verdadeira. Os vossos ídolos não são deuses; não, eu repito, não são deuses, não vos deixeis enganar pelo erro; o único Deus é Cristo; e Ele é ao mesmo tempo o único Senhor na glória de Deus Pai. Por Ele tudo foi feito e o Espírito Santo governa. Escolhei vós também, a verdadeira religião, ou, pelo menos, não provoqueis confusão e morte nas almas daqueles que a praticam”.

Boquiaberto com as palavras do jovem patrício, incumbiu o imperador ao cônsul Magnâncio, seu amigo, de lhe responder. Chamando-o à razão, Magnâncio pergunta-lhe: - “Quem te inspirou na palavra tamanha liberdade e audácia ?” São Jorge reponde-lhe – “A verdade !” – “Qual é a verdade ?” acrescenta o cônsul. – “A verdade é o próprio Cristo que vós perseguis” – “E tu, continua Magnâncio, és cristão?” – “Eu sou servidor de Cristo”, retorquiu São Jorge.

Vendo que o seu amigo Magnâncio nada consegue perante a determinação do general-menino, é o próprio imperador que toma a palavra e, falando com astúcia e malícia, enumera com uma doçura e suavidade de termos, que não lhe era peculiar, a fulgurante carreira, honras e glória que São Jorge tem à sua frente. Não conseguindo demovê-lo do seu firme propósito, manda que o ponham na prisão, conduzindo-o a golpes de lança.

Já no cárcere, é deitado no chão, os pés postos sob enormes traves e uma enorme pedra jogada sobre o seu peito, como havia o tirano desejado. São Jorge passa toda a noite louvando e glorificando o seu Senhor. Quando na manhã seguinte, fraco e dolorido, se apresenta ao soberano, as suas palavras tinham o mesmo fulgor e a mesma força. Disse que não temia a morte, uma vez que esta lhe iria possibilitar o tão desejado encontro com o Mestre e todas as torturas que lhe pudessem ser infligidas, por mais violentas que fossem jamais o fariam invocar a clemência do carrasco.

Trouxeram, então, uma roda armada de pontas de ferro onde o ataram com tal brutalidade que as correias que o ligavam se embrenhavam na sua carne. Encontravam-se, por baixo da roda, que estava suspensa do teto, várias mesas sobre as quais algumas dezenas de pontas de lança haviam sido fixadas, de modo que, ao aproximar-se das mesas a roda do suplício, na qual Jorge permanecia imóvel, possibilitava que todo o seu corpo fosse dilacerado pelas pontiagudas lanças. Jorge começou por orar em voz alta, depois em silêncio... Não deixou escapar um único suspiro.

Persuadido que ele estivesse morto, Dioclesiano dirigiu-se ao templo de Apolo para lhe agradecer por tê-lo livrado de tão impertinente e irreverente cristão. Pouco depois, desamarraram o cadáver do mártir e inauditamente, apareceu uma grande nuvem, da qual saíam relâmpagos e trovões. Então ouviu-se uma voz que dizia : “Jorge, não temas; Eu estou contigo”. Aproximou-se da roda um anjo vestido de branco. O seu rosto brilhava como o sol. Estendeu a mão ao mártir, abençoou-o e beijou-o. Quando o anjo desapareceu, aproximaram-se de Jorge e viram que o seu corpo não tinha ferimento algum.

Foram anunciar ao imperador o sucedido, mas este não quis acreditar, mesmo quando o trouxeram à sua presença. Os príncipes que ladeavam o soberano reconheceram-no, dois oficiais da guarda pretoriana, Anatol e Protoléon, que haviam sido iniciados no cristianismo, não podendo mais conter-se, gritaram bem alto : “O Deus do cristãos é o único e verdadeiro Deus”. Nesse instante, foram conduzidos para fora da Cidade, onde lhes cortaram a cabeça.

Ordenou o imperador que deitassem Jorge num poço cheio de cal viva durante três dias. No fim deste período, mandou que fossem ao poço buscar os ossos que tivessem restado para os esconder, receando que os cristão levassem-nos. Mas, qual não foi a admiração dos soldados, quando ao destaparem o poço, viram o mártir ileso, resplandecendo de luz ! Erguendo as mãos ao céu, Jorge deu graças a Deus pela sua misericórdia. Toda a multidão que comprovou este acontecimento rejubilou de alegria, entoando cânticos de louvor.

Assim que foi notificado, Dioclesiano exigiu que o colocassem diante de si, para o inquirir sobre a magia da qual certamente se valera para sair vivo de tais torturas. Novamente o aconselha a que reconsidere as suas propostas, caso contrário, ver-se-ia coagido a continuar com os suplícios. Inabalável, Jorge recusa a pseudo-bondade do soberano, persistindo no seu intento.

Desta vez, obrigaram-no a calçar uns pesados sapatos de ferro, armados de afiados pregos no interior, após terem sido aquecidos ao rubro no interior das chamas. Forçado a correr até a prisão, foi sendo vergastado com nervos de boi em cujas extremidades pendiam bolas de chumbo, ao mesmo tempo que os seus pés eram perfurados pelos pregos em brasas. Jorge não desfaleceu, passando o dia e a noite orando e louvando o seu Deus. Na manhã seguinte, de novo se apresentou ao imperador, que ficou estupefato ao vê-lo caminhar como se nada tivesse acontecido. Reunira o augusto príncipe o seu tribunal perto do teatro público, acompanhado de todo o senado.

Fora, uma vez mais, pelo imperador aconselhado a renunciar à sua fé, pois, segundo o mesmo, se Jorge não se submetesse à sua vontade, seria obrigado a encurtar o tempo de vida que este tinha à sua frente. Jorge em nada alterou a sua posição, razão pela qual Dioclesiano pediu que chamassem um conhecido “mago”, de nome Athanásio, cuja habilidade nas artes da magia era sobejamente conhecida.

Athanásio, por meio de três poções mortíferas, tentou retirar ao Bem-Aventurado mártir o sopro da vida. Não conseguiu! Em Jorge, as poções “mágicas” obtiveram o mesmo resultado que a límpida e cristalina água da fonte mais pura.

Constatando o seu fracasso, Athanásio achou por bem – já que o Mestre dos cristãos ressuscitava os mortos – proporcionar ao mártir a oportunidade de fazer o mesmo que o seu Deus.

A poucas dezenas de metros do local onde estava reunido o tribunal, encontrava-se um túmulo. Desataram Jorge das correias que o seguravam e ordenaram-lhe que se dirigisse ao túmulo.

Afirmara o imperador que, se conseguisse ressuscitar o defunto, ele e todos os seus súditos reconheceriam Cristo como o único Deus verdadeiro. Voltando-se para ele, Jorge retorquiu-lhe por doces palavras: “Se o meu Deus foi capaz de criar a partir do nada, também por meu ministério ressuscitará um morto, trazendo-o à vida“. Ajoelhou-se durante algum tempo, vertendo abundantes lágrimas. Em seguida, ergueu-se e orou em voz alta, de forma que todos o pudessem escutar. Apenas tinha concluído a sua prece, logo um barulho espalhou o terror naqueles que ali se encontravam. A pedra do sepulcro abriu-se e do seu interior saíra o ressuscitado que se agarrou a Jorge, proclamando bem alto ser Cristo o Deus verdadeiro. O próprio Athanásio (o mago) vem prostrar-se em face do mártir implorando-lhe que rogue a Cristo que lhe perdoe os seus malefícios.

O imperador, incrédulo, não cumprira o que havia prometido, acusou o mago de ter favorecido Jorge e mandou que lhe cortassem a cabeça, bem como ao morto ressuscitado. Quanto a Jorge, ordenou que o prendessem novamente até decidir o que fazer com ele.
Então a multidão, que tudo vira, abeirou-se dos guardas da prisão, ofereceu-lhes dinheiro e entraram nessa. Encontrando-o, pediram-lhe que os curasse, na medida em que muitos eram os que sofriam de doenças várias. Em nome de Cristo, a todos curou.

Surgira um camponês, de nome Glicério, cujo boi morrera de repente na lavoura, implorando a Jorge que lhe restituísse a vida. Jorge reenviou-o ao campo, dizendo-lhe que Deus trouxera à vida o seu boi. Tão depressa como foi, assim voltou o camponês, relatando por toda a cidade o que havia acontecido. Tendo sido encontrado por acaso pelos soldados, imediatamente foi conduzido ao Imperador, que, nesse momento, o sentenciou à morte. Feliz com a sentença, Glicério corria para o suplício como um jovem para um festim. Ia à frente dos soldados, para fora da cidade aonde lhe iam corta a cabeça, pedindo a Deus que aceitasse o seu martírio em vez do Batismo que não iria poder receber. Jorge foi acusado de sublevar o povo contra o imperador, criando instabilidade na almejada harmonia do império. Muitos dos adoradores dos falsos deuses se haviam convertido ao cristianismo.

De novo, Dioclesiano julgou necessário submeter Jorge a mais tormentos e, aconselhando-se com Magnâncio, deu ordem para prepararem o tribunal junto ao templo do deus Apolo.

No decorrer dessa noite, Cristo apareceu ao mártir em sonhos e levantando-o e beijando-o, pôs-lhe uma coroa na cabeça, dizendo-lhe: “Não temas, tem coragem, pois foste julgado digno de reinar comigo. Não tardes; vem ter Comigo para usufruir da alegria que te foi preparada”.

No dia seguinte, ao ser levado perante Dioclesiano, pediu-lhe que o deixasse entrar no templo do deus Apolo. Rejubilando de alegria, ao pensar que Jorge tinha por fim apostasiado, prontamente o imperador acedeu ao seu pedido. Todo o povo entrou no templo. Jorge aproximou-se da estátua de Apolo e perguntou-lhe: “Como te atreves tu, que não és nenhum deus, a querer receber o meu sacrifício, como se o fosse?”. O demônio que habitava a estátua respondeu-lhe: “Não, eu não sou nenhum deus, nem eu, nem os meus semelhantes. Não existe senão um único Deus; Aquele que vós anunciais”.

O Bem-Aventurado mártir inquiriu-o de novo: “Como ousas tu permanecer neste local, quando eu, adorador do Deus verdadeiro, aqui estou?”. A estas palavras, todas as estátuas do templo ruíram, acabando por desintegrar-se. Todos os demônios haviam abandonado aquelas paragens, quando de novo o imperador, cuja cólera nada podia conter, se apressou a ordenar aos soldados que levassem Jorge para fora da cidade, onde lhe seria cortada a cabeça.

Neste instante, a imperatriz Alexandra, esposa de Dioclesiano, que havia muito tempo nutria pelos cristãos uma profunda admiração, tendo ouvido tão invulgar turbulência na cidade e sabendo a aversão do soberano para com o cristianismo, abeirou-se dele, apelidando-o de injusto, cruel e ímpio.

O imperador, que não conhecia a misericórdia nem a compaixão, sentenciou a imperatriz Alexandra a perecer juntamente com o mártir. Conduzidos ao local da execução, ambos demonstraram uma coragem indômita comum aos mártires.

Assim, no dia 23 de abril no ano da graça de 303, partiu para o reino dos céus Jorge, com a idade de 20 anos, e Alexandra, imperatriz. A notícia de sua fé, do seu amor por Cristo, Nosso Deus e Salvador e da sua heroicidade, em breve se propagou por todo o império, incutindo em todos os cristãos uma arraigada e sincera temeridade que lhes permitiu suportar as injustiças e vencer todas as ciladas do demônio. Neste dia, a corrente inquebrantável que une, pela santidade e pelo exemplo de suas vidas, todos os heróis do cristianismo, viu-se acrescentada em mais dois elos, tão fortes e tão imprescindíveis como os anteriores. Aqueles que durante mil e novecentos anos sempre estiveram presentes na Igreja de Cristo, pelas suas orações e pela sua proteção aos cristãos, seus irmãos, são, desde o dia do seu nascimento nos céus, glorificados com o sublime e inefável nome de mártires.

Pelas orações dos teus santos mártires Jorge e Alexandra, ó Cristo Nosso Deus, tem piedade de nós. Amém!

domingo, 12 de abril de 2009

Domingo de Ramos – Entrada em Jerusalém

Hoje Ele volta da Betânia e caminha por Sua livre vontade em direção à Sua santa e abençoada Paixão, para consumar o mistério de nossa salvação... Corramos para acompanhá-Lo enquanto Ele se apressa rumo à Sua Paixão, e imitemos aqueles que encontraram-No então, não apenas cobrindo Seu caminho com ornamentos, galhos de oliveira ou ramos, mas fazendo tudo o que pudermos para prostrarmo-nos diante Dele humildemente e tentando viver como Ele gostaria... Então espalhemos diante de Seus pés, não ornamentos ou galhos de oliveira, que agradam os olhos por algumas horas e então fenecem, mas a nós mesmos, revestidos complemente n’Ele. Nós que fomos batizados em Cristo devemos ser os ornamentos espalhados diante d’Ele.

Santo André, bispo de Gortyna, Creta (+740).

Reconheçais a dignidade da vossa natureza... imagem restaurada em Cristo. Nascemos no presente apenas para sermos renascidos no futuro. Nosso apego, portanto não deveria ser ao transitório; ao contrário, devemos pretender o eterno.
São Leão o Grande (+461).

terça-feira, 7 de abril de 2009

"Sermão sobre a Anunciação da Santíssima Mãe de Deus"

Nossa presente assembléia em honra da Santíssima Virgem me inspira, irmãos, a falar Dela uma palavra de louvor, também em favor daqueles que vieram para esta solenidade da igreja. Esta palavra inclui um louvor às mulheres, uma glorificação ao seu gênero, cuja glória é trazida por Ela, Ela que é ao mesmo tempo Mãe e Virgem. Ó desejada e maravilhosa assembléia! Celebre, ó natureza, na qual é rendida honra à Mulher; rejubila, ó raça humana, na qual a Virgem é glorificada. “Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rom.5;20). A Santa Mãe de Deus e Virgem Maria nos reuniu aqui, Ela o puro tesouro da virgindade, o paraíso planejado para o Segundo Adão – o lugar exato, em que foi cumprida a co-união das naturezas, em que foi confirmado o Conselho da salvífica reconciliação.

Quem alguma vez viu, quem alguma vez ouviu, que dentro de um ventre o Ilimitado Deus poderia habitar, Aquele que os Céus não podem conter, Aquele que o ventre de uma Virgem não pode limitar?

Aquele que nasceu da mulher não é somente Deus e Ele não é somente Homem. Este que nasceu fez da mulher, sendo a antiga porta do pecado, a porta da salvação; onde o Mal, pela desobediência, despejou seu veneno, lá o Verbo fez para Ele próprio,pela obediência, um templo vivificante, de onde o arqui-pecador Caim saltou para fora, lá sem semente nasceu Cristo o Redentor da raça humana. O Amante da Humanidade não desdenhou nascer da mulher, uma vez que isto concedeu a Sua vida. Ele não estava sujeito à impureza, sendo assentado dentro do ventre, que Ele mesmo adornou livre de toda iniqüidade. Se por acaso esta Mãe não permanecesse Virgem, então aquele que nascesse Dela poderia ser um mero homem, e o nascimento não seria nenhum sábio milagre; mas uma vez que Ela depois do nascimento permaneceu uma Virgem, então como é que Aquele que nasceu de fato – não é Deus? É um mistério inexplicável, uma vez que de uma maneira inexplicável nasceu Ele Que sem nenhum impedimento passa através das portas quando elas estão fechadas. Tomé, confessando Nele a co-união de duas naturezas, gritou: “Meu Senhor, e meu Deus” (Jo.20:28).

O Apóstolo Paulo diz, que Cristo é “escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (I Cor. 1:23): eles não perceberam o poder do mistério, uma vez que Ele era incompreensível para a mente: “porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da Glória” (I Cor.2:8). Se o verbo não fosse colocado dentro do ventre, então a carne não teria ascendido com Ele ao Trono Divino; se Deus tivesse desdenhado entrar no ventre, que Ele criou, então os Anjos também poderiam ter desdenhado servir à humanidade.

Aquele, que por Sua natureza não estava sujeito aos sofrimentos, através de Seu amor por nós sujeitou-Se a muitos sofrimentos. Nós cremos, não que Cristo através de alguma gradual elevação em direção à natureza Divina foi feito Deus, mas que sendo Deus, através da Sua misericórdia Ele foi feito Homem. Nós não dizemos: “um homem feito Deus”; mas nós confessamos, que Deus encarnou e se fez Homem. Sua Serva foi escolhida para Ele mesmo como Mãe por Aquele que, em Sua essência não tinha mãe, e Aquele que, através da Divina providência apareceu sobre a terra na imagem de homem, não tem pai aqui. Como alguém, Ele mesmo pode ser ambos sem pai e sem mãe, de acordo com as palavras do Apóstolo: “Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida...” (Heb. 7:3)? Se Ele – fosse somente um homem, então Ele não poderia ser sem mãe – mas verdadeiramente Ele teve uma Mãe. Se Ele – fosse somente Deus, então Ele não poderia ser sem Pai – mas de fato Ele tem um Pai. E ainda como Deus o Criador Ele não tem mãe, e como Homem Ele não tem pai.

Nós podemos ser convencidos disto pelo verdadeiro nome do Arcanjo, fazendo anunciação a Maria: seu nome é Gabriel. O que este nome significa? Ele significa: “Deus e homem”. Uma vez que Aquele sobre Quem ele anunciava era Deus e Homem, então seu verdadeiro nome aponta antecipadamente para este milagre, então com fé aceitamos o fato da Divina revelação.

Seria impossível para um mero homem salvar as pessoas, uma vez que todo homem necessita do Salvador: “Porque todos pecaram – diz São Paulo - e destituídos estão da glória de Deus” (Rom. 3:23). Desde que o pecado sujeita o pecador ao poder do demônio, e o demônio o sujeita à morte, então nossa condição torna-se extremamente infeliz: não existe nenhum caminho que nos livre da morte. Foram mandados médicos, isto é, os profetas, mas eles somente podiam apontar mais claramente a enfermidade. O que eles fizeram? Quando eles viram, que a doença estava fora do alcance da habilidade humana, eles chamaram do Céu o Médico; um deles disse “Abaixa, ó Senhor, os teus céus, e desce” (Salmos 143[144]:5); outros gritaram: “Cura-me, Ó Senhor, e eu serei curado” (Jer. 17:14); “faze resplandecer o Teu rosto, e seremos salvos” (Sl. 79[80]:3). E ainda outros: "Mas, na verdade, habitaria Deus na terra?” (I Reis 8:27); “apressa-te e antecipem-se-nos as tuas misericórdias, pois estamos muito abatidos” (Sl.78[79]:8). Outros disseram: “Pereceu o benigno da terra, e não há entre os homens um que seja reto” (Miq.7:2). “Apressa-te, ó Deus, em me livrar; Senhor, apressa-te em ajudar-me” (Sl.69[70]:1). “Se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará” (Hab.2:3). “Desgarrei-me como a ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos” (Sl.118[119]:176). “Virá o nosso Deus, e não se calará” (Sl.49[50]:3). Aquele que, por natureza é Senhor, não desdenhou a natureza humana, escravizada pelo sinistro poder do demônio, o misericordioso Deus não consentiu que ela estivesse para sempre sob o poder do demônio, o Eterno veio e deu em resgate o Seu Sangue; para a redenção da raça humana da morte Ele deu Seu Corpo, que Ele aceitou da Virgem, Ele livrou o mundo da maldição da lei, aniquilando a morte pela Sua morte. “Cristo nos resgatou da maldição da lei” – exclama São Paulo (Gal. 3:13).

Portanto sabemos, que nosso Redentor não é simplesmente um mero homem, uma vez que toda a raça humana estava escravizada pelo pecado. Mas Ele da mesma forma não é somente Deus, não participante da natureza humana. Ele tinha um corpo, porque se Ele não tivesse Se revestido em mim, então Ele, da mesma maneira, não poderia ter me salvado. Mas, tendo habitado o ventre da Virgem, Ele Se vestiu em meu destino, e dentro deste ventre Ele concluiu uma mudança miraculosa: Ele concedeu o Espírito e recebeu um corpo, o Único Que verdadeiramente (habitou) com a Virgem e (nasceu) da Virgem. E então, Quem é Ele, que Se manifesta a nós? O Profeta Davi mostra isto para ti nestas palavras: “Bendito aquele que vem em Nome do Senhor” (Sl. 117[118]:26). Mas diga-nos mais claramente, Ó profeta, Quem é Ele? O Senhor é o Deus das Multidões, diz o profeta: “O Senhor é Deus, e ele Se nos manifestou” (Sl.117[118]:27). “O Verbo Se fez carne” (Jo.1;14): foram unidas as duas naturezas, e a união permaneceu sem se misturar.

Ele veio para salvar, mas teve também que sofrer. O que um tem em comum com o outro? Um mero homem não pode salvar; e Deus em Sua natureza não pode sofrer. Por que meios foi feito um e outro? Como que Ele, Emanuel, sendo Deus, foi feito também Homem; Ele salvou através do que Ele era – e isto, Ele sofreu pelo que Ele foi feito. Razão pela qual quando a Igreja observou que a multidão dos Judeus O coroou com espinhos, lamentando a violência dos espinhos, ela disse: “Filhas de Sião, saiam e vejam a coroa, de quê é coroado Ele, Filho da Sua Mãe” (Cant. 3:11). Ele usou a coroa de espinhos e destruiu o julgamento sofrendo pelos espinhos. Ele, somente Ele, é Aquele que é ambos no seio do Pai e no ventre da Virgem; Ele, somente Ele, é Aquele – nos braços da Sua Mãe e nas asas dos ventos (Sl.103[104]:3); Ele, a Quem os Anjos inclinam-se em adoração, ao mesmo tempo reclina-se na mesa dos publicanos. Ele, sobre Quem os Serafins não ousam fitar, sobre Ele, ao mesmo tempo, Pilatos pronunciou a sentença. Ele é Aquele e o Mesmo, a Quem o servo golpeou e perante O Qual toda a criação treme. Ele foi pregado na Cruz e subiu ao Trono de Glória – Ele foi colocado no sepulcro e Ele estendeu os céus como uma tenda (Sl.103[104]:2) – Ele foi contado no meio dos mortos e Ele esvaziou o inferno; aqui sobre a terra, eles blasfemaram contra Ele como um transgressor – lá no Céu, eles exclamaram a Ele glória como o Todo-Santo. Que mistério incompreensível! Eu vejo os milagres, e eu confesso, que Ele é Deus; eu vejo os sofrimentos, e eu não posso negar, que Ele é Homem. Emanuel abriu as portas da natureza, como homem, e preservou intacto o selo da virgindade, como Deus: Ele emergiu do ventre da mesma maneira com que Ele entrou através da Anunciação; da mesma forma maravilhosa Ele foi ambos, nascido e concebido: sem paixão Ele entrou, e sem dano Ele emergiu; como se referindo a isto o Profeta Ezequiel diz: ”Então me fez voltar para o caminho da porta do santuário exterior, que olha para o oriente, a qual estava fechada. E disse-me o Senhor: Esta porta estará fechada, não se abrirá; ninguém entrará por ela, porque o Senhor Deus de Israel entrou por ela: por isso estará fechada” (Ez.44:1-2). Aqui ele claramente indica a Santa Vigem e Mãe de Deus, Maria. Cessemos toda contenda, e deixemos que as Sagradas Escrituras iluminem nossa razão, assim nós também receberemos o Reino dos Céus por toda a eternidade. Amém!

São Proklos, Patriarca de Constantinopla
Traduzido pelo Sr. Dom Ambrósio, Bispo Ortodoxo do Recife
Boletim Interparoquial de abril de 2004

sábado, 4 de abril de 2009

“Os Hinos a Mãe de Deus”

Assim como todos os hinos da Igreja Ortodoxa, os hinos à Mãe de Deus ancoram seus termos de inspiração na Escritura Santa, nas Tradições apócrifas e na reflexão teológica.

Os hinos em honra da Mãe de Deus se inspiram essencialmente no Evangelho de Lucas e no dogma definido pelo Concílio Ecumênico de Éfeso. Os apócrifos e a legenda tiveram aí sua parte, uma legenda mais verdadeira que a história porque ela cristaliza em símbolos eternos a história sagrada da intervenção de Deus no mundo para a salvação dos homens.

Do Evangelho de Lucas, nossos hinos empregam inicialmente a saudação angélica que o Oriente nos conservou em sua verdadeira formulação original “Rejubila” - da mesma forma que os ícones nos apresentam um Arcanjo dinâmico, radiante e jubiloso mensageiro da boa-nova, nossas anunciações ocidentais (católico-romana) o desfiguram geralmente, ele é representado como um Anjo tímido, portador de uma mensagem que começa mais prosaicamente pela palavra “Salve”, ou “Ave”. A expressão “Rejubila” nos põe diretamente em relação com a causa de nosso júbilo, de nossa alegria, seja ela a encarnação anunciada pelo Arcanjo ou a Ressurreição proclamada pelo Anjo no túmulo. Ela aparece freqüentemente nos hinos e se repete incansavelmente nas estrofes do Acatiste.

Da mesma forma que a expressão “O Senhor está contigo” e todas as variações poéticas que sugere a presença do Deus feito homem no seio daquela que o Concílio proclamou Mãe de Deus. A Virgem é o Templo Santo do Senhor, a Arca Viva, o Habitáculo dos Céus, o Cálice da Salvação, a Morada do Salvador, sua Virginal e toda preciosa Câmara Nupcial e o tesouro sagrado da glória de Deus. Deus estabelece sua morada inteiramente nela, sem sofrer alteração; a Virgem substitui o Trono dos Querubins: de seu seio o Senhor fez seu Trono, Ele a tornou mais vasta do que os Céus, Ele que o universo inteiro não pode conter.

O cântico da Mãe de Deus ou Magnificat empregado como nona ode no cânone de Matinas, gera todos os desenvolvimentos conhecidos sob o nome de “Megalinário”. Estas peças começam, algumas vezes por “enaltece, ó minha alma...” e terminam mais geralmente por “nós te enaltecemos”. O cântico da Virgem fornece igualmente o tema da benção eterna: “todas as gerações proclamarão bem-aventurada; todas as nações da terra, de geração em geração te proclamam bem-aventurada; é digno e justo que te bendigamos, ó sempre bem-aventurada...”. Sua glória supera aquela dos próprios Anjos: Ela é mais alta dentre todas as obras do divino Criador, “mais venerável que os Querubins, mais gloriosa que os Serafins...”

O ciclo das Festas fixas apresenta a Mãe de Deus como aquela em quem se realiza o plano do Criador. Seu nascimento de um casal estéril recorda as intervenções de Deus na história do Povo Eleito e já libera Adão e Eva da sombra da morte. Sua entrada no Templo já anuncia a salvação do mundo pela vinda de Cristo e aporta ao Antigo Templo a graça do Espírito Santo. A Anunciação é a aurora da nossa salvação onde é manifesto o mistério eterno pelo qual o Filho de Deus torna-se Filho da Virgem. O megalinário do Hypapante (Santo Encontro) celebra o Verbo, Filho Primogênito do Pai Eterno e Primogênito de uma Virgem Mãe. Em sua Dormição, a Mãe de Deus vai ao encontro da Fonte da Vida e, viva ainda após sua morte, ela ultrapassa, de um extremo ao outro de seu mistério, as Leis da Natureza, ela que permanece Virgem em seu parto.

Pois o seu papel devia culminar na grande maravilha do Natal, este mistério admirável que ultrapassa o entendimento e que o Oriente não deixa de admirar em todos os seus detalhes: não somente a concepção virginal, mas a encarnação da Palavra,a entrada do Eterno no tempo, o Deus de antes dos séculos tornou-se menino recém-nascido, o Criador do mundo habitando uma gruta e repousando em uma manjedoura, o Sol de Justiça revelado aos Magos adoradores dos astros, os Pastores cantando sua glória sobre a terra tal como os Anjos no céu.

E a Virgem, neste novo Éden encontra a humanidade primária de antes da queda: maravilhoso Jardim do Paraíso, ela faz germinar o Cristo sem semente nem labores; Sarça Ardente, ela faz nascer em seu seio o Fogo da Divindade, sem ser consumida. Sem perder sua integridade, ela concebeu Deus Verbo. Virgem Inesposada, Esposa sempre Virgem, ela é sobretudo “a única Mãe e Virgem”, “a única Mãe de Deus”.

É este aspecto que o Ocidente contempla com a maior admiração. Aquela que o Ocidente chama “a Virgem” e que as estátuas representam geralmente sem o seu Filho, é para o Oriente “a Mãe de Deus”, aquela que gerou nosso Deus e Salvador Jesus Cristo – em grego Theotokos e em eslavônico Bogoroditse – e que os ícones não saberiam representar de uma outra forma que não fosse aquela de Mãe de Deus, que traz o Cristo ou permanece ao seu lado em uma atitude de intercessão (Deísis). Enquanto o Ocidente exalta a virgindade, em seu aspecto moral, buscando tirar ensinamento prático, um remédio à concupiscência, o Oriente dimensiona, sobretudo, o aspecto funcional da maternidade. Não é a virgindade, por ela própria que nos comove, mas sim o fato de que um Virgem conceba e que ela concebe para nós o nosso Deus Salvador. As virgens são inumeráveis na história do mundo, a Mãe de Deus, no entanto, é única.

Compreendemos, neste contexto, as hesitações dos himnógrafos, o embaraço dos poetas que não encontram os termos adequados, a vertigem que dizem provar diante do mistério desta concepção divina, a perplexidade que eles alegam ao próprio Arcanjo Gabriel. Não é prosa, mas sim a expressão singela e sincera de seu respeito diante do mistério que escapa à análise, o qual só podemos “cantar” em termos poéticos.

Introdução do livro de melodias das éditions de Chevetogne
P. Denis Guillaume – moine de Chevetogne
Tradução da Monja Rebeca

sexta-feira, 27 de março de 2009

Santo Abade Bento de Núrsia, Patriarca dos Monges do Ocidente - 14/27 de março

O Monge Bento, fundador da ordem monástica ocidental dos Beneditinos, nasceu na cidade italiana de Núrsia, no ano de 480. Com 14 anos de idade o santo foi mandado por seus pais para estudar em Roma, mas aborrecido com a imoralidade que o cercava, ele decidiu devotar-se a uma forma diferente de vida. Primeiramente São Bento fixou-se perto da igreja do santo Apóstolo Pedro na aldeia de Effedeum, mas as notícias sobre sua vida ascética o levaram a ir mais longe nas montanhas. Lá ele encontrou o eremita Romanus, que o tonsurou no monasticismo e o enviou para uma caverna remota como domicílio. De tempos em tempos o eremita trazia comida para o santo. Por três anos em total solidão o santo travou uma severa luta com as tentações e as venceu. Pessoas rapidamente começaram a se juntar a ele, ansiando viver sob sua orientação. O número de discípulos cresceu muito, que o santo os dividiu em doze comunidades. Cada comunidade era composta de doze monges e era um mosteiro separado. E para cada grupo o santo deu um hegúmeno-abade dentre seus discípulos experientes.

Com o Monge Bento permaneciam somente os recém-recebidos monges para instrução.
A rigorosa regra monástica, estabelecida por São Bento para os monges, não entrou no coração de todos, e o santo mais de uma vez tornou-se vítima de abuso e opressão.
Finalmente ele estabeleceu-se em Campagna e no Monte Cassino ele fundou o mosteiro de Monte Cassino, que por muito tempo foi um centro de educação teológica da Igreja Ocidental. No mosteiro foi criada uma extraordinária biblioteca. Neste mosteiro o Monge Bento escreveu sua regra, baseada na experiência de vida oriental dos Padres do deserto e nos preceitos do Monge João Cassiano, o Romano (comemorado em 29 de fevereiro). As regras monásticas foram aceitas posteriormente por muitos dos mosteiros Ocidentais (no ano de 1595 ela tinha sido publicada em mais de 100 edições). A regra prescrevia para os monges uma absoluta renúncia de suas posses pessoais, obediência incondicional, e trabalho constante. Ela considerava dever dos monges mais velhos ensinar as crianças e copiar manuscritos antigos. Isto ajudou a preservar muitos escritos memoráveis, provenientes dos primeiros séculos do Cristianismo. De cada novo postulante era requerido viver como um noviço obediente pelo decorrer de um ano, para aprender a regra monástica e tornar-se aclimatado com a vida monástica. Cada ação requeria uma bênção. O cabeça desta vida monástica comum é o hegúmeno-abade, tendo toda a plenitude de poder. Ele discerne, ensina e explica. O hegúmeno solicita o conselho dos mais velhos e dos irmãos mais experimentados, mas ele pessoalmente toma a decisão. O cumprimento das regras monásticas é estritamente obrigatório para todos e é visto como um importante passo em direção à perfeição.

São Bento foi agraciado pelo Senhor com o dom da presciência e da cura. Ele curou muitos dos seus devotos. O monge profetizou o seu fim antecipadamente.
A irmã de São Bento, Santa Escolástica, do mesmo modo tornou-se célebre por sua estrita vida ascética e foi elevada à dignidade dos Santos.

Orthodox Church in America
Traduzido pelo Sr. Dom Ambrósio, Bispo do Recife
Boletim Interparoquial de março de 2004

domingo, 22 de março de 2009

Os 40 Santos Mártires de Sebástia - Armênia (+c.320) – 09/22 março

No ano de 313 São Constantino, o Grande promulgou um édito libertando os cristãos das perseguições de fé e equiparou-os aos pagãos diante da lei. Mas seu co-regente Licinius favorecia aos pagãos e na sua parte do império decidiu erradicar o cristianismo, que era, lá, consideravelmente difundido. Licinius preparou suas tropas para lutar contra Constantino, que temendo uma rebelião, decidiu liberar os cristãos do seu exército.

Na época, um dos comandantes militares da cidade armênia de Sebástia era Agricolaus, um adepto zeloso do paganismo. Sob seu comando estava a companhia do forte da Capadócia – Bravos Soldados – que lhe renderam vitórias em numerosas batalhas. Todos eram cristãos. Quando estes soldados recusaram oferecer sacrifícios aos deuses pagãos, Agricolaus prendeu-os. Os soldados mergulharam em profunda oração e num determinado momento à noite ouviram uma voz: “Perseverem até o fim então vós sereis salvos”.

Na manhã seguinte os soldados foram levados a Agricolaus. Neste momento o pagão tentou lisonjeá-los. Ele começou a enaltecer seus valores, sua juventude e força; mas, exigiu-lhes a renúncia à Cristo, e por recompensa ganhar o respeito e as benesses do Imperador. Após ouvir novamente as recusas, Agricolaus deu ordens para algemar os soldados. O mais velho deles, Kyrion, disse: ”O imperador não lhe deu o direito de nos algemar”. Agricolaus ficou embaraçado e ordenou que os soldados voltassem à prisão sem algemas.

Sete dias depois, o renomado juiz Licius chegou em Sebastia e julgou os soldados. Os santos responderam firmemente: “Podem tirar as nossas insígnias e também nossas vidas, pois nada é mais precioso para nós do que Cristo Deus”. Em vista disto, Licius ordenou que os mártires fossem apedrejados. Mas as pedras voavam por eles inteiramente; e a pedra atirada por Licius golpeou Agricolaus na face. Os torturadores imaginaram que os santos eram guardados por alguma força invisível. Na prisão, os mártires passaram a noite a rezar e novamente ouviram a voz do Senhor, confortando-os: “Aquele que acreditar em Mim não morrerá, mas viverá. Sejam bravos, não tenham medo e obtereis uma coroa incorruptível”.

No dia seguinte o juiz novamente os interrogou na frente do torturador, mas os soldados permaneceram inflexíveis.

Era inverno, e havia um espessa neve. Eles alinharam os soldados e os colocaram num lago gelado não muito longe da cidade, sob guarda durante toda a noite. A fim de persuadir os mártires a mudar de vontade, uma aquecida casa de banhos foi instalada perto da margem. Durante a primeira hora da noite, quando o frio estava insuportável, um dos soldados não agüentou e teve um ímpeto de ir à casa de banho, mas mal tropeçara na soleira da porta, caiu morto. Na terceira hora da noite, o Senhor enviou consolações aos mártires: repentinamente apareceram luzes, o gêlo derreteu e a água do lago tornou-se quente. Todos os guardas dormiam, exceto um que fazia a vigília, de nome Aglaios. Ele viu no lago, uma radiante coroa sobre a cabeça de cada mártir. Aglaios contou trinta e nove coroas e imaginou que o soldado que fugira, tinha perdido a sua coroa. Em seguida, Aglaios acordou os outros guardas, tirou seu uniforme e lhes disse: “Eu também sou cristão” e se uniu aos mártires. De pé no lago ele rezava: “Senhor Deus, eu creio em Ti, em Quem estes soldados acreditam. Me junte a eles também e considere-me digno de sofrer com Teus servos”.

Pela manhã os torturadores viram com surpresa que os mártires ainda estavam vivos, e que seu guarda Aglaios glorificava Cristo com eles. Então tiraram os soldados da água e lhes quebraram as pernas. Durante esta terrível execução, a mãe do mais novo dos soldados, Meliton, pediu que seu filho não sofresse durante a execução. Eles colocaram os corpos dos mártires num carro para queimá-los. O pequeno Meliton ainda respirava e o deixaram na grama. Sua mãe então levantou seu filho e carregou-o sobre seus próprios ombros, atrás do carro. Quando Meliton ofegante deu seu último suspiro, sua mãe o colocou no carro ao lado dos corpos de companheiros de sofrimentos. Os corpos dos santos foram queimados e os ossos carbonizados foram atirados na água, para que os cristãos não os recolhessem.

Três dias depois os mártires apareceram em sonho ao abençoado Pedro, Bispo de Sebástia, e mandou-o pegar suas relíquias no local do “enterro”. O bispo acompanhado de vários clérigos recolheu as relíquias dos gloriosos mártires à noite e sepultou-as com honra.

Lives of the Saints
Orthodox Church of America
Traduzido por Irmã Irene
Boletim Interparoquial março de 2003

domingo, 8 de março de 2009

O Primeiro Domingo da Quaresma - Domingo da Ortodoxia


A palavra “Ortodoxia” foi tomada originalmente, com relação a esse domingo, em um sentido bastante restrito. Ela designava, quando essa festa foi instituída, em 842, a derrota do iconoclasmo e a proclamação da legitimidade do culto dos ícones. Mais tarde, o significado da palavra estendeu-se. Passou-se a entender por “Ortodoxia” o conjunto dos dogmas professados pelas igrejas em comunhão com Constantinopla. Um documento oficial, o SYNODIKON, que anatematizava nomeadamente todos os hierarcas, era lido, nesse domingo, nas igrejas. Parece que, no início da quaresma, a cristandade bizantina havia considerado como um dever e uma necessidade o confessar a sua crença.

Em nossos dias manifestamos, talvez, uma preocupação maior, o que antes não era o caso, de expressarmo-nos com mais cuidado acerca daqueles que erram e de separarmos, em seu pensamento, aquilo que é a parte da verdade e o que é erro. Porém, era bom e necessário que a Igreja “Ortodoxa” afirmasse sem ambigüidade sua própria atitude. As preocupações “ecumênicas” que ela partilha hoje em dia com as outras igrejas não poderiam significar um abandono ou uma diminuição de suas crenças fundamentais. Além é necessário eliminar do campo da Ortodoxia as ervas parasitas e não profanar o adjetivo “Ortodoxo” aplicando-o àquilo que poderia ser superstição.

Os textos lidos ou cantados às Vésperas e às Matinas desse domingo insistem sobre a realidade da Encarnação. Com efeito, a vinda de Cristo na carne constitui o fundamento do culto das imagens. O Cristo encarnado é a imagem essencial, o protótipo de todas as imagens. Algumas frases do Triódio exprimem bem o sentido profundo do culto concedido aos ícones.

"Em verdade, a Igreja de Cristo foi revestida do mais belo ornamento com os Santos Ícones de Cristo, nosso Salvador, da Theotokos e de todos os santos glorificados... Ao guardar o ícone de Cristo que nós louvamos e veneramos, não nos arriscamos a perdermo-nos. Pois nossa inclinação diante do Filho encarnado, e não a adoração de Seu ícone, é uma glória para nós”.

Os santos glorificados foram imagens vivas, ainda que imperfeitas, de Deus. Foram reproduções enfraquecidas da verdadeira imagem divina, que é o Cristo. Durante a Liturgia desse domingo, na leitura da Epístola aos Hebreus (Hb. 11, 24-26; 32-40), nós escutamos o inspirado escritor descrever os sofrimentos de Moisés e de David, dos Patriarcas e dos Mártires de Israel, daqueles dos quais o mundo não era digno, que foram flagelados, serrados, decapitados e cuja fé, entretanto, venceu o mundo. Estes foram as imagens inscritas, não sobre a madeira, mas sob a própria carne. Eram já uma prefiguração, já anunciavam o ícone definitivo, a Pessoa do Salvador.

Evangelho do dia não tem relação direta com as imagens ou com a Ortodoxia. Na leitura evangélica (Jo. 1, 43-52), vemos o apóstolo Filipe trazer à Jesus, Natanael que também irá tornar-se um discípulo, Jesus diz a Natanael: “Antes que Filipe te chamasse, te vi eu estando tu debaixo da figueira”, Natanael, assombrado por esta revelação, declara: “Rabi, tu és o Filho de Deus!”. Jesus responde que Natanael veria ainda mais que essa visão: “daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus descerem e subirem sobre o Filho do homem”.

Essas palavras oferecem um enorme campo à nossa meditação. Nós não sabemos o que fazia ou pensava Natanael sob a figueira. Hora de tentação, ou de perplexidade, ou da graça? Ou simplesmente de repouso? Porém parece que o Senhor não mencionaria esse episódio se o mesmo não houvesse sido um momento decisivo, um ponto crucial na vida de Natanael. Na vida de cada um de nós houve um momento ou momentos onde estivemos “sob a figueira”, momentos críticos, onde Jesus, Ele próprio invisível, nos viu e interveio. Intervenção que foi aceita ou rejeitada? Recordemos esses momentos... Adoremos essas intervenções divinas. Mas não nos detenhamos nelas. Não nos fixemos sobre uma visão passada. “Tu verás ainda melhor”. Estejamos pronto para a graça nova, para a nova visão. Pois a vida do discípulo, se ela é autêntica, vai de revelação em revelação. Nós podemos ver “os céus abertos e os anjos de deus subirem” em direção ao Salvador ou descerem sobre nós. Indicação preciosa desta familiaridade com os anjos que deveria nos ser habitual. O mundo angélico não nos é mais distante nem menos desejável que o mundo dos homens.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

"O Santo Encontro de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo (Apresentação do Cristo no Templo - Hypapante)"

A Festa da Apresentação nasceu em Jerusalém. Conhecemos a celebração que se fazia nessa cidade no século IV, pela descrição do peregrino de Etérea. De Jerusalém a festa se expandiu para toda a Igreja. No ocidente, conservou-se até hoje a procissão solene e a bênção das velas que já se fazia em Jerusalém no século IV.

Esta festa que encerra o ciclo da Natividade, nos lembra que, no 40º dia após o nascimento de seu Filho “primogênito”, Maria leva-O ao templo, segundo a Lei de Moisés, para ali ser oferecido ao Senhor pelo sacrifício de duas rolas ou duas pombinhas (Lc. 2,22-37).

“Hoje, Aquele que havia dado a Lei a Moisés, sujeita-Se aos preceitos da Lei, fazendo-Se – por nós – semelhante a nós, em Seu amor pelos homens...” (Vésperas).

O Verbo divino Se abaixa dessa forma, pois Ele é verdadeiramente homem e Se submete à lei: “Tu que reproduzes fielmente a obra d´Aquele que Te engendra antes dos séculos, revestiste por compaixão da fraqueza dos mortais” (Ode VI).

Porém, esse ato de submissão à Lei é também o primeiro encontro oficial de Jesus com Seu Povo, na pessoa de Simeão. Por isso a Festa se chama Encontro (Hypapante). “ Aquele a quem os Espíritos suplicam com temor, é recebido aqui na terra nos braços corporais de Simeão, que proclama a união da divindade com os homens” (Grandes Vésperas). Encontro mas também manifestação. “Hoje a Santa Mãe de Deus, maior em dignidade que o Santuário, aí penetra para manifestar ao mundo Aquele que fez a Lei e também a cumpriu” (Grande Vésperas). A Virgem hoje acompanha a Criança em Sua primeira oferenda ao Pai, porém Ela também O acompanhará até a realização de Seu Sacrifício pela humanidade: “E Tu, imaculada, anunciou Simeão à Mãe de Deus, uma espada trespassará também a Tua própria alma, quando na Cruz vires Teu Filho” (Ode VII).

Os himnógrafos não criaram expressões belas o suficiente para louvar o papel da Virgem que se associa, dessa forma, à obra de Seu Filho. “Ornamenta tua câmara nupcial, Sião e recebe o Cristo Rei, abraçai, Maria, a Porta do Céu, pois Ela aparece semelhante ao trono dos Querubins. Ela traz o Rei da Glória. A Virgem é nuvem de luz trazendo em Sua carne Seu Filho nascido antes da estrela da manhã...” (Grandes Vésperas)

Ela é, certamente, a Porta do Céu, uma vez que faz entrar entre nós Aquele de quem não poderíamos nos aproximar e que nos liberta. É isso o que a Igreja exprime pela boca de Simeão:

“Agora, Senhor, deixa o Teu servidor, segundo a Tua palavra, partir em paz, porque os meus olhos viram a Salvação que vem de Ti. Luz que brilhará sobre todas as nações e glória de Teu povo Israel” (Ode VII)

E o ancião se faz profeta da alegria que virá: “Eu vou me juntar a Adão, preso nos infernos, e anunciar a Eva a boa nova” (Ode VII)

Hoje, juntamente com toda a Igreja, “vamos nós também, ao som dos cantos e hinos, ao encontro de Cristo, e acolhamos Aquele em quem Simeão viu a Salvação” (Grandes Vésperas).

Tropário, t.1
Salve, ó cheia de graça, Virgem Mãe de Deus, pois de Ti Se levantou o Sol de Justiça, o Cristo nosso Deus, iluminando aqueles que estavam nas trevas. Rejubila também, justo Simeão, que recebeste nos teus braços Aquele que liberta as nossas almas e nos dá a Ressurreição.

Kondákion, t. 1
Tu que santificaste, pelo Teu Nascimento, o seio virginal e abençoaste, na Tua Apresentação, as mãos de Simeão, salvaste-nos agora ao vir a nosso encontro, ó Cristo nosso Deus. Conceda a Paz à Tua Igreja confirma nossos pastores no Teu amor, Tu único Amigo do homem.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Santo Protomártir e Arcediago Estevão (+ 34) - 27 dez/09 jan

Estêvão era parente do Apóstolo Paulo e um dos judeus que viviam nas províncias helênicas. Estêvão era o primeiro dos sete diáconos a quem os santos apóstolos ordenaram e designaram para o serviço da assistência aos pobres em Jerusalém. Por isso era chamado de Arquidiácono. Pelo poder de sua fé, Estêvão operou grandes milagres entre o povo. Os pérfidos judeus discutiam com ele, mas eram sempre vencidos pela sua sabedoria e pelo poder do Espírito, Que agia através dele. Então os infames judeus, acostumados a calúnias e à difamação, incitaram o povo e os anciões do povo contra o inocente Estêvão, acusando-o caluniosamente de ter blasfemado contra Deus e contra Moisés. Rapidamente se encontraram falsas testemunhas para confirmar isso. Estêvão então se pôs perante o povo, e todos viram o seu rosto como o rosto de um anjo (Atos 6:15), isto é, seu rosto estava iluminado com a luz da graça, tal como outrora o rosto de Moisés quando falou com Deus. Estêvão abriu a sua boca e enumerou as muitas boas obras e milagres que Deus realizara no passado pelo povo de Israel, bem como os muitos crimes e oposição a Deus por parte desse povo. Censurou-os especialmente pela morte do Cristo Senhor, chamando-os de traidores e homicidas (Atos 7:52). E enquanto eles rangiam seus dentes, Estêvão presenciou e viu os céus abertos e a glória de Deus. Aquilo que viu, declarou aos judeus: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus! (Atos 7:56). Então os homens maliciosos o levaram para fora da cidade e o apedrejaram até a morte. Entre seus perseguidores estava seu parente Saulo, mais tarde o Apóstolo Paulo. Naquela ocasião a Santíssima Deípara, de pé sobre uma rocha, à distância, com São João, o Teólogo, testemunhou o martírio desse primeiro mártir da verdade de Seu Filho e Deus, e orou a Deus por Estêvão. Isso aconteceu um ano depois da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Gamaliel, um príncipe dos judeus e cristão em segredo, tomou clandestinamente o corpo de Santo Estêvão e o sepultou em sua própria quinta. Assim este primeiro dentre os mártires cristãos repousou gloriosamente e tomou posse de sua morada no Reino do Cristo Deus.

Hino de Louvor
Rumo a Estêvão, iluminado pelo Espírito,
Os assassinos judeus acorreram.
O ensangüentado Estêvão ajoelhou-se
E em alta voz clamou a Deus:
"Ó Senhor, Que da Cruz perdoaste
O maior pecado que jamais abalou a terra,
O maior pecado que o céu jamais contemplou:
Perdoaste Teus assassinos.
E agora, ó Graciosíssimo, perdoa-me a mim também!
Este crime – que é comparado àquele?
E eu, que sou, comparado ao meu Senhor?"
Dizendo isso, entregou seu espírito a Deus.
Os anciões furiosos, covardes feios,
Dispersaram-se depois de o matarem.
Então do céu desceram anjos
Ao redor do corpo do Protomártir.
Cantaram em coro um hino a ele
E levaram ao Paraíso a sua alma paradisíaca.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

NATAL DE NOSSO SENHOR, DEUS E SALVADOR JESUS CRISTO - 25 dez/07 jan

Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho (Gálatas 4:4) para salvar a raça humana. E quando decorreram nove meses da Anunciação, na qual o Arcanjo Gabriel aparecera à Santíssima Virgem em Nazaré, dizendo: Salve, agraciada; (...) eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um Filho (Lucas 1:28-31), naquele tempo baixou-se um decreto de César Augusto ordenando que todo o povo do Império Romano fosse recenseado. De acordo com esse decreto, cada um deveria se dirigir à sua própria cidade e se registrar. É por isso que o justo José veio com a Santíssima Virgem a Belém, a cidade de Davi, pois eram ambos da linhagem real de Davi. Uma vez que muitos desceram a essa pequena cidade para o censo, José e Maria não conseguiram encontrar alojamento em casa alguma e procurarem abrigo numa gruta que os pastores usavam como redil. Nessa gruta, na noite de sábado para domingo, em 25 de dezembro, a Santíssima Virgem deu à luz o Salvador do mundo, o Senhor Jesus Cristo. Tendo dado-O à luz sem dor, tal como fora Ele concebido sem pecado pelo Espírito Santo e não por homem, ela mesma O envolveu em panos, adorou-O como Deus e deitou-O numa manjedoura. Então o justo José aproximou-se e adorou-O como o Fruto Divino do ventre da Virgem. Em seguida os pastores vieram dos campos, por ordem de um anjo de Deus, e O adoraram como Messias e Salvador. Os pastores ouviram uma multidão de anjos de Deus cantando: Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens (Lucas 2:14). Naquela ocasião, três sábios chegaram do Oriente, conduzidos por uma estrela prodigiosa, trazendo presentes: ouro, incenso e mirra. Adoraram-No como Rei dos Reis e ofereceram-Lhe seus presentes (Mateus 2). Assim entrou no mundo Aquele cuja vinda fora predita pelos profetas e que nasceu exatamente como havia sido profetizado: de uma Virgem Santíssima, na cidade de Belém, da linhagem de Davi segundo a carne, no tempo em que não haveria em Jerusalém um rei da linhagem de Judá mas antes quando Herodes, um estrangeiro, reinasse. Após muitos tipos e prefigurações, mensageiros e arautos, profetas e justos, sábios e reis, enfim apareceu Ele, o Senhor do mundo e o Rei dos Reis, para realizar a obra da salvação da humanidade, que não poderia ser realizada por Seus servos. A Ele seja a glória e o louvor eternos! Amém.

Hino de Louvor
Por amor ardente, Tu vieste dos céus;
Da beleza eterna, desceste à dor monstruosa;
Da luz eterna, desceste às espessas trevas do mal.
Estendeste Tua mão santa aos sufocados no pecado.
O Céu deslumbrou-se, a terra tremeu.
Bem-vindo, ó Cristo! Ó nações, rejubilai!
Por amor ardente, pelo qual criaste o mundo,
Como escravo rebaixaste-Te para alforriar os escravizados,
Para restaurar a casa que Adão destruíra,
Para iluminar os obscurecidos, libertar os pecadores.
Amor que não conhece temor nem humilhação –
Bem-vindo, ó Cristo! Mestre da Salvação!
Por amor ardente, ó Rei de toda beleza,
Deixaste o resplendor dos belos querubins,
Desceste à gruta da vida humana,
Aos homens desesperados, com uma tocha e paz.
Como conter-Te? – a terra se apavora.
Bem-vindo, ó Cristo! O Céu Te resiste!
A belíssima Virgem esperou em Ti por longo tempo.
A terra a eleva a Ti, para que por meio dela desças
Do trono elevado, da cidade celestial,
Para trazer a saúde e livrar o homem do pecado.
Ó Santa Virgem, Turíbulo de Ouro –
A Ti sejam a glória e o louvor, ó Mãe cheia de graça!

Reflexão
O Senhor Jesus, nascido em Belém, foi adorado primeiro por pastores e sábios (astrólogos) do Oriente – os mais simples e os mais sábios deste mundo. Ainda hoje, aqueles que mais sinceramente adoram o Senhor Jesus como Deus e Salvador são os mais simples e os mais sábios deste mundo. A simplicidade pervertida e a sabedoria aprendida pela metade foram sempre os inimigos da divindade do Cristo e de Seu Evangelho. Mas quem eram esses sábios do Oriente? Essa questão foi estudada em especial por São Demétrio de Rostov. Ele sustenta que eram reis de certas regiões menores ou cidades individuais na Pérsia, na Arábia e no Egito. Eram, ao mesmo tempo, versados no conhecimento da astronomia. Essa estrela prodigiosa apareceu a eles, anunciando o nascimento do Novo Rei. Segundo São Demétrio, essa estrela lhes apareceu nove meses antes do nascimento do Senhor Jesus, isto é, no instante de Sua concepção pela Santíssima Deípara. Consumiram nove meses no estudo dessa estrela, na preparação para a jornada e na viagem. Chegaram a Belém pouco depois do nascimento do Salvador do mundo. Um deles se chamava Melquior. Era velho, com barbas e cabelos brancos e compridos. Ofereceu ao Senhor o presente de ouro. O segundo chamava-se Gaspar; tinha o rosto rosado, era jovem e imberbe. Ofereceu ao Senhor o presente de incenso. O terceiro chamava-se Baltazar, era de tez escura e tinha uma barba muito densa. Ofereceu ao Senhor o presente de mirra. Depois de suas mortes, seus corpos foram levados a Constantinopla, de Constantinopla a Milão e de Milão a Colônia. Pode-se acrescentar que esses três sábios eram representantes das três principais raças de homens, que descendem dos três filhos de Noé: Sem, Cam e Jafé. O persa representou os jafitas, o árabe representou os semitas e o egípcio representou os camitas. Assim pode-se dizer que, por meio desses três, toda a raça humana adorou o Senhor e Deus Encarnado.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Santos Mártires Sebastião, General Romano, e seus companheiros (+287) – 18/31 dez

Esse glorioso santo nasceu na Itália e foi criado na cidade de Milão. Ainda jovem, dedicou-se ao serviço militar. Por ser instruído, belo e corajoso, recebeu o favor do Imperador Diocleciano, que o designou capitão de sua guarda imperial. Em segredo, confessava a fé cristã e orava ao Deus Vivo. Como um homem honorável, justo e misericordioso, Sebastião era muito amado por seus soldados. Sempre que pôde, salvou cristãos da tortura e da morte; e, quando incapaz de fazê-lo, exortou-os a morrer por Cristo Deus Vivo sem voltar atrás. Dois irmãos, Marcos e Marcelino, que haviam sido presos por Cristo e já estavam a um passo de repudiá-lo e adorarem os ídolos, foram confirmados na Fé por Sebastião, que os revigorou para o martírio. Enquanto falava com eles, encorajando-os a não temer a morte por Cristo, sua face se iluminou. Todos viram seu rosto radiante como o de um anjo de Deus. Sebastião também confirmou suas palavras com milagres: curou Zoé, mulher do carcereiro Nicóstrato, que era muda havia seis anos; levou ela, Nicóstrato e sua família inteira ao batismo; curou os dois filhos doentes de Cláudio, o comandante, e trouxe ele e sua família ao batismo; curou Tranquilino, pai de Marcos e Marcelino, de gota e dores nas pernas que o atormentavam havia onze anos, e levou-o ao batismo com toda a sua casa; curou o Eparca romano Cromácio da mesma doença e trouxe ele e seu filho Tibúrcio ao batismo. O primeiro deles a sofrer foi Santa Zoé, capturada junto ao túmulo do Apóstolo Pedro, onde orava a Deus. Depois de a torturarem, lançaram-na no Rio Tibre. Em seguida prenderam Tibúrcio, e o juiz pôs carvões em brasa diante dele, dizendo-lhe que escolhesse entre a vida e a morte, isto é, atirar incenso sobre os carvões e incensar os ídolos ou permanecer descalço sobre os carvões quentes. São Tibúrcio fez o sinal da Cruz, pisou descalço sobre os carvões incandescentes e permaneceu ileso. Depois disso, foi degolado. Nicóstrato foi morto com uma estaca, Tranquilino foi afogado, e Marcos e Marcelino foram torturados e trespassados por lanças. Então Sebastião foi trazido perante o Imperador Diocleciano. O imperador censurou-lhe por sua traição, mas Sebastião disse: "Eu sempre orei ao meu Cristo pela tua saúde e pela paz do Império Romano". O imperador ordenou que ele fosse despido de suas vestes e cravejado de flechas. Os soldados o alvejaram com flechas, até o mártir ficar tão completamente coberto de flechas que o seu corpo não podia mais ser visto por causa delas. Quando todos pensaram que ele estava morto, apareceu vivo e plenamente são. Então os pagãos o mataram com cajados. Padeceu gloriosamente pelo Cristo seu Senhor e tomou posse de sua morada no Reino de Cristo no ano de 287, no tempo de Diocleciano, o imperador, e Gaio, o Bispo de Roma.

Hino de Louvor
O santo Sebastião foi coberto de flechas –
Com um saco de flechas seu corpo foi vestido.
Mas por baixo das flechas, sua alma estava intacta;
Seu coração se elevava até os céus em oração.
Sebastião suportou sofrimento pelo Cristo.
Que são reinos poderosos, que são grandes riquezas,
Comparados a essa honra, comparados a essa iluminação –
Ser cravejado de flechas por amor ao Deus Vivo?
O maravilhoso Sebastião desejou isso:
Ser crucificado pelo Salvador crucificado,
Confirmar a verdade pelo sofrimento e pelo sangue,
Testemunhar a Fé perante o céu e a terra.
O Senhor Onividente, que vê toda a criação,
Mediu e contou cada gota de sangue,
E recompensou Sebastião no Reino Eterno,
Banhando-o de bênçãos sem medida.
Ó Mártir gloriosíssimo, que sofreste pelo Cristo,
E por meio de teu sofrimento ampliaste a Igreja:
Ora a Deus pela Igreja na terra,
Para que ela se torne cada vez mais bela e ainda maior.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Santo Profeta, Daniel, e os três três Santos Jovens: Ananias, Azarias e Misael (+séc.VI a.C.) -- 17/30 dez

Todos os quatro eram da tribo real de Judá. Quando Nabucodonosor destruiu e saqueou Jerusalém, Daniel, ainda menino, foi levado como escravo junto com o rei judeu Joaquim e inúmeros outros israelitas. Um relato detalhado de sua vida, sofrimentos e profecias pode ser encontrado em seu livro.

Completamente devotado a Deus, São Daniel desde o início de sua juventude recebeu de Deus o dom de grande discernimento. Sua fama entre os judeus na Babilônia começou quando denunciou dois anciões devassos e iníquos, juízes judeus, e salvou a casta Susana de uma morte injusta. Mas sua fama entre os babilônios começou no dia em que decifrou e interpretou o sonho do Rei Nabucodonosor. Por isso, o rei fez dele um príncipe em sua corte. Quando o rei fez um ídolo de ouro na planície de Dura, as Três Crianças se recusam a adorá-lo, e por isso foram lançados à uma fornalha ardente. Mas um anjo de Deus apareceu na fornalha e resfriou o fogo, de modo que as crianças caminhavam pela fornalha intocadas pelo fogo, cantando: Bendito és Tu, ó Senhor Deus de nossos Pais! (Daniel 3 - Oração de Azarias e Hino dos Três, 2) O rei viu esse milagre e se assombrou. Trouxe então as crianças para fora da fornalha e concedeu-lhes grandes honrarias.

No tempo do Rei Baltasar, estando o rei e seus convidados comendo e bebendo num banquete com vasos consagrados retirados do Templo de Jerusalém, uma mão invisível escreveu três palavras na parede: Mane, Tekel, Fares (Daniel 5:25-28). Ninguém foi capaz de interpretar essas palavras, exceto Daniel. Naquela noite, o Rei Baltasar foi assassinado. Daniel foi lançado duas vezes na cova dos leões por causa de sua fé no Deus Uno e Vivo, e em ambas as vezes o Senhor o salvou e ele permaneceu vivo. Daniel viu Deus num trono com as hostes celestiais; viu anjos; discerniu o futuro de certas pessoas, de reinos e de toda a raça humana; e profetizou o tempo da vinda do Salvador à terra. Segundo São Cirilo de Alexandria, Daniel e as três crianças viveram até a velhice na Babilônia e foram decapitados pela verdadeira Fé. Quando decapitaram Ananias, Azarias estendeu seu manto e recolheu a sua cabeça; depois disso, Misael recolheu a cabeça de Azarias e Daniel recolheu a cabeça de Misael. Um anjo de Deus trasladou seus corpos até a Judéia, ao Monte Gebal, e os depositou sob uma rocha. Segundo a Tradição, esses quatro servos de Deus ressuscitaram no momento da morte do Cristo Senhor, apareceram a muitos e adormeceram novamente. Daniel é contado entre os quatro Grandes Profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel). Ele viveu e profetizou quinhentos anos antes de Cristo.

Hino de Louvor
Todo o que teme o verdadeiro Deus
Não tem medo de homens, nem de demônios.
O Senhor recompensa os servos fiéis
E os guarda de todo mal.
Entre os leões,
O santo Daniel permaneceu incólume;
Na fornalha ardente,
As Três Crianças permaneceram vivas;
No meio do fogo, glorificaram a Deus,
Com um anjo, um mensageiro de Deus.
Como Noé no mundo mau,
Como o santo Ló na bestial Sodoma,
E como José no Egito decadente,
Assim Daniel no meio de Babilônia
Permaneceu fiel e justo
Com três de seus jovens amigos:
Ananias e Azarias
E o fiel jovem Misael.
As torturas vieram e as torturas passaram.
Os martirizados foram gloriosamente glorificadosNo Reino Imortal do Cristo.

Reflexão
A pureza corporal é primeiramente adquirida pelo jejum, e pela pureza corporal a pureza espiritual é também alcançada. A abstinência de alimento, de acordo com as palavras daquele filho da graça, Santo Efrém, o Sírio, significa: "Não desejar nem pedir comidas variadas, quer doces, quer caras; não comer nada fora do horário determinado; não sucumbir ao espírito da gula; não excitar a fome em si mesmo observando uma comida boa; e não desejar num momento um tipo de comida e noutro momento outro tipo de comida." Grande é a falácia de que o jejum e a alimentação de quaresma prejudicam a saúde do corpo. É fato notório que os ascetas viviam o máximo e eram os menos propensos a doenças. São Daniel e as Três Crianças na Babilônia nos oferecem um exemplo disso. Quando o rei ordenou o eunuco que alimentasse esses jovens com a comida da mesa real e que lhes desse bom vinho para beber, Daniel disse ao eunuco que não desejavam aceitar a comida e o vinho reais, mas queriam apenas hortaliças para comer (pois Daniel não queria comer o alimento aspergido com o sangue dos sacrifícios idólatras). O eunuco, temendo que os jovens enfraquecessem com os alimentos de jejum, relatou seu temor a Daniel. Então o profeta sugeriu que fizesse um teste e se convencesse de que a alimentação de jeum não os debilitaria: alimentasse os outros jovens da corte real com a comida da mesa do rei e alimentasse a eles quatro apenas com legumes, pelo decurso de dez dias, e depois fizesse uma comparação. O eunuco ouviu Daniel e fez o que ele sugeriu. Depois de dez dias, as faces dos quatro jovens ascetas eram mais radiantes e seus corpos mais fortes do que os corpos dos jovens babilônios que haviam comido e bebido da mesa do rei

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Santo Profeta Ageu, um dos Doze Santos Profetas Menores (+séc.Va.J.C) - 16/29 dez

Ageu nasceu na Babilônia, na época do cativeiro de Israel. Era da tribo de Levi e profetizou por volta de 470 a.C. Ainda jovem visitou Jerusalém. Incitou Zorobabel e Jesus, o sacerdote, a restaurarem o Templo do Senhor em Jerusalém, profetizando para esse Templo glória maior do que a do antigo Templo de Salomão: Porque grande será a glória desta casa, a última superior à primeira, diz o Senhor Onipotente (Ageu 2:9), pois que o Senhor e Salvador haveria de aparecer nesse novo Templo. Viveu o bastante para ver uma parte do Templo construída por Zorobabel. Morreu na velhice, juntando-se a seus ancestrais.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Sto. Pont. e Márt., Eleutério, Bp. de Ilírico, e sua mãe, Sta. Márt. Anthia, e seus comp., Pont. e Márt., Coremonus e dois carrascos que sofreram com

De uma boa árvore, vêm bons frutos. Esse santo maravilhoso teve pais nobres e muito eminentes. Eleutério nasceu em Roma, onde seu pai era procônsul imperial. Sua mãe Ântia ouviu o Evangelho do grande Apóstolo Paulo e foi por ele batizada. Tendo enviuvado cedo, confiou seu único filho ao estudo e ao serviço sob os cuidados de Aniceto, Bispo de Roma. Vendo como Eleutério era bem-dotado por Deus e iluminado pela graça de Deus, o Bispo o ordenou diácono aos quinze anos de idade, presbítero aos dezoito e bispo aos vinte. A sabedoria dada por Deus a Eleutério compensava aquilo que lhe faltava em idade, e esse eleito de Deus foi designado Bispo da Ilíria, com sé em Valona (Avlona), na Albânia. O bom pastor guardava bem seu rebanho e aumentava seu número a cada dia. O Imperador Adriano, um perseguidor dos cristãos, enviou o comandante Félix com seus soldados para capturar Eleutério e trazê-lo a Roma. Quando o encolerizado Félix chegou a Valona e entrou na igreja, viu e ouviu o santo hierarca de Deus; de repente, seu coração mudou e ele se tornou cristão. Eleutério batizou Félix e partiu para Roma com ele, regressando com alegria, como se fosse a uma festa e não a juízo e tortura. O imperador submeteu o nobre Eleutério a severa tortura: foi açoitado, assado num leito de ferro, cozido em piche e queimado numa fornalha em chamas. Mas Eleutério foi liberto de todas essas torturas mortais pelo poder de Deus. Ao ver tudo isso, Caribo, o eparca romano, declarou que também ele era cristão. Caribo foi torturado e depois degolado, tal como o Beato Félix. Por fim, os carrascos imperiais cortaram a honorável cabeça de Santo Eleutério. Quando sua mãe, a santa Ântia, veio e inspecionou o corpo morto de seu filho, também ela foi degolada. Seus corpos foram trasladados a Valona, onde até hoje Santo Eleutério glorifica o Nome de Cristo por meio de seus muitos milagres. Padeceu durante o reinado de Adriano, no ano de 120.

Hino de Louvor
Eleutério, santo de Deus,
Não escondeste dos homens a Verdade de Deus,
Mas com a Verdade de Deus iluminaste os homens
E ofereceste a salvação a cada um e a todos.
Que a Igreja de Deus rejubile;
Que toda a Ilíria rejubile.
Eis que Deus lhe enviou um homem maravilhoso:
Eleutério, um verdadeiro santo.
Seu próprio nome quer dizer "liberdade":
Eleutério traz a liberdade,
A verdadeira liberdade da escravidão do pecado.
A verdadeira liberdade não existe sem o Cristo.
Que a cidade de Valona rejubile também.
Nela repousam as relíquias do santo:
Relíquias milagrosas que curam os doentes,
Chama da qual fogem os demônios.
Bendita é a mãe que dá à luz um santo.
Santa Ântia, três vezes bendita,
Agora é consolada nos jardins do Paraíso,
E fixa os olhos em seu filho, Eleutério.
Ó Eleutério, ora por nós,
Para de que o Deus gracioso tenha piedade também de nós.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Santos Mártires, Tirso (Firso), Léucio (Lúcio), e Calínico, de Nicomédia (+c.250) - 14/27 dez

São Lêucio e São Tirso eram cidadãos honrados de Cesaréia da Bitínia, sendo o primeiro batizado e o segundo um catecúmeno cristão. Calínico, porém, era um sacerdote pagão. Quando o herdeiro do Imperador Décio, Cumbrício, começou a torturar e matar impiedosamente os cristãos, o destemido Lêucio compareceu perante ele e, censurando-lhe, disse: "Por que moves guerra contra a tua própria alma, Cumbrício?" O juiz enfurecido ordenou que ele fosse açoitado, torturado e ao fim degolado. O torturado Lêucio foi à sua degola tão exultante como se fosse a um casamento. Testemunhando a morte do corajoso Lêucio, o abençoado Tirso, inflamado com o mesmo zelo divino de Lêucio, compareceu também perante o juiz e reprovou os seus crimes malignos e sua descrença no Único Deus Verdadeiro. Ele também foi açoitado e lançado à prisão. A mão invisível de Deus curou suas chagas, abriu a porta da prisão e conduziu-o para fora. Tirso dirigiu-se imediatamente a Filéias, Bispo de Cesaréia, a fim de ser por ele batizado. Depois de seu batismo, foi novamente capturado e torturado, mas suportou as torturas, como se fizessem parte de um sonho e não da realidade. Pelo poder de sua oração, muito ídolos desabaram. O sacerdote pagão Calínico, vendo isso, converteu-se à fé cristã e tanto ele quanto Tirso foram condenados à morte. Calínico foi decapitado e Tirso posto num caixão de madeira que seria serrado ao meio. No entanto, o poder de Deus não permitiu isso e a serra foi incapaz de cortar a madeira. Então São Tirso levantou-se do caixão e orou a Deus, rendendo-Lhe graças pelas torturas, e entregou em paz a sua alma ao Senhor. No final do século IV, o Imperador Flaviano construiu uma igreja a São Tirso perto de Constantinopla e depositou ali suas relíquias. O santo apareceu numa visão à Imperatriz Pulquéria e aconselhou-a a sepultar as relíquias dos Quarenta Mártires ao lado das suas.

Hino de Louvor
Conhecestes a Fé, reconhecestes o Cristo,
Destes vossos corpos para salvardes vossas almas:
Por isso vossos nomes brilham nos céus
E um fogo inextinguível ilumina a Igreja.
Heróis imortais, orai por nós,
Para que as nuvens pecaminosas se afastem de nós.
Beato Lêucio e nobre Tirso,
Glorioso Calínico e digno Filêmon,
E os outros em ordem, que suportastes atrozes tormentos –
Agora sois cidadãos de um universo melhor.
Ó belos faróis, orai por nós;
Mártires de Deus, orai pela Igreja.
Conhecestes o amor, posse celestial,
A terra não o conheceu, nem sequer ao seu nome verdadeiro;
Vós o vistes inteiro no Filho de Deus,
No sinal da Crucifixão e em Seu semblante ensangüentado.
Agora estais próximos de Deus e contemplais a Sua Face.Cobris nossos pecados pelas vossas orações

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Comemoração da Concepção da Santíssima Mãe de Deus por Sant´Ana - 09/22 dez

Os Justos Joaquim e Ana foram casados por cinqüenta anos, sem filhos. Em sua velhice, o Arcanjo Gabriel apareceu a cada um deles separadamente, dizendo-lhes que Deus ouvira suas orações e que dariam à luz uma filha, Maria. Então Santa Ana concebeu de seu marido e após nove meses pariu uma filha bendita por Deus e por todas as gerações dos homens: a Santíssima Virgem Maria, a Deípara.

Hino de Louvor
Ó Deus Gloriosíssimo, prodigioso e maravilhoso,
Bom e misericordioso para com toda a criação,
Aos orgulhosos derrubas, aos humildes exaltas;
Tu que extingues, Tu que fazes viver,
De acordo com Teu plano, ó Criador, tudo podes fazer,
De acordo com Teu plano, eterno e divino.
Com Tua benção, a terra fértil produz fruto;
Pela Tua palavra santa, pões um selo sobre a estéril.
Daquela que dá à luz, Tu podes tomar-lhe,
E da estéril, Tu podes produzir bom fruto.
Tu fizeste fértil a estéril Ana;
Tu lhe concedeste uma filha santa e nobre.
Àquela que era objeto de zombaria, Tu coroaste de glória;
O sonho de uma mulher sem filhos, Tu superaste amplamente.
A velha orou; Tu aceitaste sua oração.
O selo da esterilidade removeste de seu corpo;
Encheste de vida o seu corpo morto;
Deste-lhe uma Virgem, admirável em beleza,
E uma filha nasceu: a Santíssima Virgem,
Uma Filha, uma Mãe, e a Mãe de Deus!
De acordo com Teu plano, ó Criador, tudo podes fazer,
De acordo com Teu plano, eterno e divino.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Santo Pontífice e Confessor Ambrósio, Arcebispo de Milão (+397) - 07/20 dez

Esse grande Santo Padre da Igreja Ortodoxa era de ilustre nascimento. Seu pai era o Prefeito imperial da Gália e da Hispânia; ele era de fé pagã, mas sua mãe era cristã. Quando no berço, um enxame de abelhas posou nele, derramou mel em seus lábios e partiu em seguida. E ainda criança, estendeu sua mão e disse profeticamente: "Beija-a, pois serei bispo." Após a morte de seu pai, o imperador o designou seu representante na província da Ligúria, da qual Milão era a principal cidade. Quando o bispo de Milão morreu, irrompeu uma grande disputa entre os cristãos ortodoxos e os hereges arianos acerca da eleição do novo bispo. Ambrósio entrou na igreja para impôr a ordem, conforme era seu dever. Nesse momento, uma criança no peito de sua mãe exclamou: "Ambrósio para bispo!" Todo o povo tomou isso como a voz de Deus, e por unanimidade elegeram Ambrósio como seu bispo, contra a vontade dele. Ambrósio foi batizado, passou por todas as ordens necessárias e foi consagrado ao Episcopado, tudo isso em uma semana. Na condição de bispo, Ambrósio fortaleceu a Fé Ortodoxa, pôs um fim aos hereges, adornou as igrejas, espalhou a fé entre os pagãos, escreveu muitas obras instrutivas e serviu como um exemplo de verdadeiro cristão e verdadeiro pastor cristão. Compôs o famoso hino "Louvamos-Te, Deus" (Te Deum Laudamus). Esse glorioso hierarca, a quem os homens vinham de terras distantes visitá-lo pela sua sabedoria e doçura de palavras, era muito comedido, diligente e vigilante. Dormia muito pouco, trabalhava e orava constantemente, e jejuava todos os dias, com exceção dos sábados e domingos. Dessa forma, Deus lhe permitiu testemunhar muitos de Seus milagres e operar milagres ele próprio. Ele descobriu as relíquias dos Santos Mártires Protásio, Gervásio, Nazário e Celso (14 de outubro). Manso perante homens de condição humilde, era destemido perante os grandes. Censurou a Imperatriz Justina como herege, anatematizou Máximo, o tirano e assassino, e proibiu o Imperado Teodósio de entrar numa igreja até que ele se arrependesse de seu pecado. Também recusou-se a encontrar Eugênio, o imperador tirânico e auto-proclamado. Deus concedeu a esse homem que Lhe era tão agradável tamanha graça que ele até ressuscitava os mortos, expulsava os demônios dos homens, curava os doentes de todas as enfermidades e previa o futuro. Ambrósio morreu em paz na manhã da Páscoa do ano de 397.

Hino de Louvor
Ambrósio, convertido tarde na vida,
Ambrósio, breve consagrado,
Uma coluna da verdade, um luminar da piedade,
Um soldado do Cristo, um perseguidor da impiedade,
Serviu divinamente a Igreja de Deus,
E a Igreja recompensou o seu pastor.
Com hinos e amor a Igreja o glorifica,
E os anjos estão entre os que o glorificam.
A Igreja o glorifica como um pai,
Como um pastor e como um taumaturgo;
E como um homem sábio, igual a Salomão,
Reconhece-o o universo inteiro,
Tanto o invisível quanto o visível,
E ao Deus Vivo rende louvor.
A Ti, ó Deus, também glorificamos,
E perante Teu poder prostramo-nos,
Perante Tua força e Tua misericórdia,
Justiça eterna, sabedoria admirável.
Da maneira mais bela brilhou a Tua glória
Através do Teu maravilhoso Santo Ambrósio.
Quão misericordioso és Tu, ó Deus,Quão admirável és em Teus Santos!

Reflexão
Irmãos, Deus devolve o cêntuplo do que Lhe é emprestado, quando o é através dos pobres. Certa vez, havia uma mulher cristã casada com um pagão, e eles viviam juntos no amor e na pobreza. Quando o marido, com muita dificuldade, juntou cinqüenta peças de prata, disse à mulher que esse dinheiro deveria ser dado em empréstimo a alguém, com juros. Do contrário, afirmou, haveriam de gastar suas poupanças moeda por moeda, e mais uma vez ficariam sem nada. Sua mulher respondeu: "Se queres dá-lo em empréstimo, empresta-o ao Deus cristão". "E onde está o Deus cristão?", perguntou o marido. Sua mulher levou-o à igreja e falou-lhe para distribuir o dinheiro aos pedintes em frente à igreja, dizendo ao marido: "O Deus cristão o aceitará da parte deles, uma vez que todos eles Lhe pertencem". Distribuíram todas as cinqüenta peças de prata aos pobres e voltaram para casa. Após algum tempo, ficaram sem nenhum pão em casa. Então a mulher disse ao marido para ir à igreja e ele receberia o dinheiro que emprestara a Deus. O homem foi à igreja e viu ali apenas mendigos e, em sua perplexidade sobre quem lhe daria dinheiro, caminhou ao redor da igreja. De repente ele viu uma moeda de prata bem na sua frente. Ele a tomou, comprou com ela um peixe e levou o peixe para casa. Reclamou com sua mulher que não havia visto ninguém e que ninguém lhe dera nada, mas que por acaso encontrara uma moeda de prata. A mulher respondeu: "Deus é invisível e opera de maneira invisível". Quando a mulher abriu o peixe, encontrou uma pedra brilhante lá dentro. Deu essa pedra ao marido e ele a levou a um mercador para ver o quanto poderia obter por ela. O mercador lhe ofereceu cinco peças de prata, e o homem começou a rir, pensando que o mercador estava brincando ao oferecer um valor tão alto. Entretanto o mercador, pensando que o homem estivesse rindo por causa do pequeno preço que lhe oferecera, propôs-lhe então dez, e depois quinze, depois trinta e depois cinqüenta peças de prata. O homem, dando-se conta de que era uma pedra preciosa, começou a hesitar. O mercador aumento o preço cada vez mais, até chegar ao valor de trezentas peças de prata. O homem então aceitou as trezentas peças de prata e foi alegre para casa. "Vês quão bom é o Deus cristão?", disse-lhe a mulher. O marido, assombrado, foi imediatamente batizado e, com a sua mulher, glorificava a Deus.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Santo Pontífice e Confessor, Nicolau, o Taumaturgo, Arcebispo de Mira – Lícia – Ásia Menor (+c.345) - 06/19 dez

Esse glorioso santo, celebrado até hoje no mundo inteiro, foi o único filho de seus eminentes e ricos pais Teófanes e Nona, cidadãos da cidade de Patara em Lícia. Uma vez que ele era o único filho que Deus lhes concedera, os pais devolveram o dom a Deus, dedicando a Ele o seu filho. São Nicolau aprendeu a vida espiritual com seu tio Nicolau, Bispo de Patara, e foi tonsurado monge no Mosteiro de Nova Sião, fundado por seu tio. Após a morte de seus pais, Nicolau distribuiu aos pobres toda a sua herança, não retendo nada para si. Como sacerdote em Patara, ficou conhecido por sua caridade, a despeito dele ocultar cuidadosamente suas obras caritativas, cumprindo as palavras do Senhor: Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita (Mt. 6:3). Quando se entregou à solidão e ao silêncio, pensando em viver dessa maneira até a morte, uma voz do alto lhe foi dirigida: "Nicolau, para o teu esforço ascético, vai trabalhar entre as gentes, caso desejes ser coroado por Mim". Logo depois disso, pela admirável Providência de Deus, ele foi escolhido arcebispo da cidade de Mira, na Lícia. Misericordioso, sábio e destemido, Nicolau foi um verdadeiro pastor para o seu rebanho. Durante a perseguição dos cristãos sob Diocleciano e Maximiano, foi lançado à prisão, mas mesmo ali ele instruiu o povo na Lei de Deus. Esteve presente no I Concílio Ecumênico de Nicéia (325) e, movido por grande zelo pela verdade, bateu com sua mão no herege Ário. Por esse ato ele foi afastado do Concílio e de suas funções arquiepiscopais, até que o próprio Cristo Senhor e a Santíssima Deípara apareceram a vários dos principais hierarcas e revelaram a sua aprovação a Nicolau. Defensor da verdade de Deus, esse maravilhoso santo foi sempre um valente defensor da justiça entre as pessoas. Em duas ocasiões, salvou três homens de uma injusta sentença de morte. Misericordioso, verdadeiro e amante da justiça, andou entre as gentes como um anjo de Deus. Mesmo ainda em vida, o povo o considerava um santo e invocava sua assistência nas dificuldades e tribulações. Ele aparecia tanto em sonhos quanto pessoalmente para aqueles que o invocavam, e facil e prontamente os ajudava, quer estivesse por perto, quer distante. Uma luz brilhava de seu rosto, tal como da face de Moisés, e ele, pela sua mera presença, trazia consolação, paz e boa vontade entre os homens. Na velhice ficou brevemente doente e, após uma vida cheia de esforços e trabalhos muito frutíferos, repousou no Senhor para o júbilo eterno no Reino dos Céus, continuando a glorificar a Deus e a ajudar os fiéis na terra com os seus milagres. Repousou em 6 de dezembro de 343.

Hino de Louvor
Santo Padre Nicolau,
Os quatro cantos do mundo te glorificam
Como um cavaleiro da poderosa Fé,
A Fé de Deus, a Verdadeira Fé.
Desde o berço foi devotado a Deus,
Desde o berço até o fim;
E Deus o glorificou –
Ao seu fiel Nicolau.
Famoso foi durante a vida,
E ainda mais renomado após a morte;
Poderoso na terra era ele
E ainda mais poderoso é nos Céus.
Espírito radiante, coração puro,
Um templo do Deus Vivo ele foi;
Por isso o povo o glorifica
Como um santo admirável.
Nicolau, rico em glória,
Ama os que o honram em sua "Krsna Slava" [Nota do tradutor: festa sérvia do onomástico da família];
Perante o trono do Deus eterno
Ele ora pelo seu bem.
Ó Nicolau, abençoa-nos,
Abençoa o teu povo,
Que perante Deus e perante ti
Apresenta-se humildemente em oração.

Reflexão
Nos ícones de São Nicolau, o Senhor Salvador geralmente é retratado de um lado com um Evangelho em Suas mãos, e a Santíssima Virgem Deípara é retratada do outro lado com um omofório [Nota do tradutor: faixa de seda bordada com cruzes, usada pelos bispos ortodoxos ao redor do pescoço e dos ombros, semelhante ao pálio usado por alguns bispos católicos] episcopal em suas mãos. Isso tem um duplo significado histórico: em primeiro lugar, significa a vocação de Nicolau ao ofício hierárquico; e, em segundo lugar, significa sua absolvição da condenação que se seguiu ao seu confronto com Ário. São Metódio, Patriarca de Constantinopla, escreve: "Certa noite, São Nicolau viu o nosso Salvador em glória, de pé ao seu lado e oferecendo-lhe o Evangelho, adornado de ouro e pérolas. Ao seu outro lado, viu a Deípara, que punha o pálio episcopal sobre seus ombros." Pouco depois dessa visão, João, o Arcebispo de Mira, morreu e São Nicolau foi designado arcebispo daquela cidade. Esse foi o primeiro incidente. O segundo incidente ocorreu ao tempo do I Concílio Ecumênico em Nicéia. Incapaz de impedir, pela razão, que Ário prosseguisse na blasfêmia irracional contra o Filho de Deus e Sua Santíssima Mãe, São Nicolau acertou Ário no rosto com a sua mão. Os Santos Padres do Concílio, protestando contra tal ação, expulsaram Nicolau do Concílio e o despojaram de todos os emblemas de seu posto episcopal. Naquela mesma noite, vários dos Santos Padres tiveram a mesma visão: o Senhor Salvador e a Santíssima Deípara estavam em pé ao lado de São Nicolau -- de um lado o Senhor Salvador com o Evangelho, e do outro lado a Santíssima Deípara com um pálio, entregando ao santo os emblemas episcopais que lhe haviam sido removidos. Vendo isso, os Padres ficaram perplexos e rapidamente restituíram a Nicolau aquilo que lhe havia sido removido. Passaram a respeitá-lo como um grande eleito de Deus e interpretaram suas ações contra Ário não como ato de fúria irracional, mas como expressão de grande zelo pela Verdade de Deus.